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Marx e a "TEORIA DA INTERPRETAÇÃO ECONÔMICA DA HISTÓRIA", por Ernest R. Trattner.

 

Marx

    Marx.

TEORIA DA INTERPRETAÇÃO ECONOMICA DA HISTÓRIA

 

 

Antes de surgir Darwin, toda a biologia se encontrava numa condição comparável  à da astronomia antes de Copérnico. O que estes dois homens geniais fizeram nas suas respectivas esferas, realizou-o Marx na história. Poucas teorias revelam uma mentalidade tão grandiosa, sobretudo em sua capacidade de absorver o pensamento de homens de várias nacionalidades.

Marx, como Darwin, teve seus predecessores; e a profunda influência que Malthus exerceu sobre este, recebeu-a aquele de Hegel.

É, pois, para Hegel que nos devemos voltar primeiro, afim de compreender o modo por que Marx formou a sua teoria da interpretação econômica da história.

 

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No outono de 1836, quatro anos após a morte de Hegel, Karl Marx viera estudar história e leis na Universidade de Berlim. O professor Hegel era ainda considerado o maior luminar de toda a Europa intelectual. Ele teve a glória rara de ser elevado, em vida, ao posto de filósofo oficial da Alemanha. Estudantes vinham de longe ouvir-lhe as preleções, pois, na opinião geral, esse homem empunhava o cetro da filosofia tão indisputavelmente como Goethe o da literatura e Beethoven o da música.

Hegel foi, sem dúvida nenhuma, o legítimo porta-voz da sua época. Não que personalizasse o espírito de luta e transformação revolucionária (tinha um fundo demasiado conservador para isto). Fornecia, porém, aos seus discípulos e leitores uma fórmula, a que chamava "dialética", mediante a qual se tornavam acessíveis à compreensão todos os numerosos aspectos positivos e negativos da história, da ética, das leis, da política e da biologia.

Por dialética entendia Hegel um modo de pensar que permitia a completa elucidação dos dramáticos entrechoques de ideias, instituições e sociedades. Através dela podia-se ver, com clareza admirável, que na natureza e na história também opera um grande princípio harmonizador (síntese) criando perpetuamente a unidade no próprio seio do conflito. O nome de dialética, portanto, passou em breve a designar o processo pelo qual todas as coisas crescem, transformam-se e tornam a desenvolver-se.

Considere-se um ovo. O ovo é uma coisa positiva, mas que traz dentro de si um germe que gradualmente lhe transforma o conteúdo. Esta mudança, que implica uma negação, não resulta numa destruição ou aniquilação, mas num ser vivo. E, por este teor, ensinava Hegel que todas as coisas são transitivas e não estáticas. Um sexo é a antítese do outro, e contudo, dessa relação antitética nasce um indivíduo vivente. Insistia Hegel em que nós devemos pensar dialeticamente, porque os fatos sobre que pensamos se desenvolvem dialeticamente. Neste processo, cada movimento produz, por uma reação automática, o seu oposto: e do resultante conflito entre opostos, entre tese e antítese, nasce a síntese final. [Osório diz: A dialética de Hegel ensinada com a facilidade de um bom exemplo por um professor que se quer fazer compreender.]

Fonte: Arquitetos de ideias, Ernest R. Trattner, tradução de Leonel Vallandro, Globo, Porto Alegre, 1944, p. 225.

 

A dialética de Hegel causou grande impressão. A ideia nova foi sofregamente recebida por toda parte. Era aquela uma época de transformação, de movimento, uma época que tinha assistido à morte da ordem antiga e a tentativas para criar uma ordem nova. A Revolução Industrial, que devia eliminar todas as formas de relações econômicas previamente existentes, já começava o seu avanço irresistível. O mundo estático mudara-se rapidamente num mundo dinâmico.

Foi nesses tempos tumultuosos que cintilou o espírito de Hegel - o homem da fórmula. Ele via a vida toda como um processo de transformação, de combinação, de luta e desenvolvimento. Como era filósofo, Hegel procurou abarcar a história num sistema de lógica universal. Sua tentativa foi uma brilhante e vigorosa proeza intelectual que influenciou uma geração inteira, inclusive o espírito de um jovem estudante que estava destinado a tornar-se, além de grande teorista, um admirável e original economista.

 

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Hegel escreveu muitos livros, todos eles de leitura difícil por serem as suas ideias vazadas numa linguagem muitas vezes obscura. Já se disse que, quando um homem fala no que não compreende a uma porção de gente que não entende o que ele diz, está falando “metafísica”. Este chiste, especialmente no caso de Hegel, encerra um bocado de verdade, como se vê pela anedota sobre um francês que lhe pediu resumisse a sua filosofia numa frase. Replicou Hegel que preferia responder em dez volumes. Depois de publicados os volumes, e quando toda a gente andava a falar neles, Hegel queixou-se "há um só homem que me compreende, e esse mesmo não me compreende às vezes”.

 

O seu feito mais significativo foi o de explicar o sentido de "relação". Hegel mostrou que tudo no universo é relacionado, interdependente; mostrou que não podemos estudar inteligentemente coisa nenhuma a não ser referindo-a a alguma outra coisa. Por exemplo, não podemos falar no assoalho sem pressupor as paredes; não podemos falar no peixe sem implicar a água; não podemos falar no céu sem subentender a terra. A semelhança nada significa, à parte da diferença. O universo é um conjunto sistemático de qualidades correlatas (positivas e negativas). Toda coisa real envolve uma coexistência de elementos contrários. Por conseguinte, saber ou compreender uma coisa, equivale a ter percepção dela como um grupo unificado de partes contrárias. A verdade sobre uma coisa ou ideia qualquer envolve contrastes e oposições. E assim, o que existia há um momento (tese) envolvia o seu oposto (antítese), e desenvolveu-se agora numa conciliação ou união (síntese). [Osório diz: muito bom]

É está, pois, a famosa tese hegeliana que tão indelevelmente se imprimiu no espírito de Marx: tese, antítese e síntese. Todas as vastas leituras que tinha feito ganharam desde esse movimento nova importância. A história já não era um progresso tranquilo, mas um romper caminho através de oposições um movimento triádico que é a lei de todo desenvolvimento. Deixara de ser um montão de fatos para se tornar uma unidade a emergir de diversidades contraditórias. Tão fundamente foi Marx influenciado por este modo de considerar as coisas, que o seu genro Lafargue fez uma ocasião este comentário: “Ele nunca via uma coisa-em-si, fora de contacto com as circunstâncias; contemplava-a sempre como parte de um conjunto móvel e complicado. Sua ambição era estender até onde podia a compreensão deste mundo de coisas, suas múltiplas ações e reações que variam incessantemente."

 

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Admitindo que toda a vida e toda a história são atravessadas por esse movimento tríplice de tese, antítese e síntese, a questão que se nos defronta é: Qual a causa desse movimento?

Hegel respondia dizendo que ele é obra do Absoluto – isto é, Deus, o Espírito Cósmico – que avança através do tempo. A marcha do Absoluto é, em essência, um processo espiritual que se realiza incessantemente, por passos sucessivos, partindo de formas mais baixas para formas mais elevadas. Para Hegel, Deus era o espírito absoluto pelo qual existe todo o sistema organizado das coisas. Deus é o espírito unitário, e tudo que existe vive nas Suas diferenciações concretas da natureza, do homem e das coisas.

Hegel falou e escreveu muito a respeito do absoluto, em linguagem de um transcendentalismo quase inhumano. Era essencialmente filósofo, e os filósofos misturam com frequência a sabedoria à obscuridade, oferecendo-nos, com a luz, aspectos nebulosos de coisas incompreensíveis. Disto foi Hegel um exemplo conspícuo. Por esta razão, Marx não vacilou em colher o que lhe parecia importante e desfazer-se do resto.

O que ele considerava importante era a dialética hegeliana o absoluto hegeliano era o resto. Quando se lhe apresentou a questão: “Qual é a causa a causa do movimento triádico?” Marx não respondeu que era o absoluto longe disso! Causas econômicas, e não a marcha do absoluto, dizia ele, é que explicam os movimentos da história. Não afirmou, como erroneamente acreditam muitos, que este fosse o único fator. Por sustentar a prioridade das forças econômicas, a teoria de Marx é muitas vezes denominada "materialismo histórico".

Mas seria erro grave julgar que esta teoria seja materialista no sentido que se dá comumente à palavra. É por um lado, verdade que Marx rejeitou o absoluto de Hegel; mas também é verdade (e isto muitos o esquecem, ou ignoram de todo) que ele não refutou menos o materialismo passivo de Feuerbach e o materialismo "vulgar” de Buchner, Vogt e Moleschott.

Ludwig Feuerbach (1804-1872) foi um filósofo alemão que também exerceu grande influência em Karl Marx. Como este, Feuerbach aceitava a dialética hegeliana; como ele, também, não aceitava a 'marcha do absoluto". Feuerbach foi um materialista integral. Ao passo que Hegel fazia o universo originar-se da razão pura, da ideia lógica absoluta, desenvolvendo-se através do processo dialético, Feuerbach afirmava que a natureza, e não Deus, é que está em primeiro lugar - e a natureza é em essência a matéria. Acrescentava que Deus não fez o homem, mas sim que o homem fez o seu Deus, e que o homem não é nada mais que um produto das forças mecânicas da natureza. Ao invés da marcha do absoluto, Feuerbach só via na dialética hegeliana a marcha das forças materiais.

O materialismo de Feuerbach era eminentemente mecânico, chegando a considerar o homem como nada mais que uma máquina um produto dos seus próprios apetites. Tão absolutos eram este materialismo e a sua negação do espírito, que a frase de Feuerbach: Der Mensch ist was er isst (o homem é o que come) caracteriza nestas poucas palavras a índole da sua generalização mecânica.

Mas para Marx o homem era mais do que uma máquina. Explicar a sociedade em conjunto, baseado em que “o homem é o que come”, é ir de encontro aos fatos, porque o homem possui consciência, e esta consciência é determinada por um jogo complicadíssimo de situações histórico-econômicas. Afirmar que o homem é resultado exclusivo do ambiente é esquecer que o próprio ambiente pode ser modificado por ele. "A doutrina materialista", disse Marx em uma de suas reflexões críticas sobre Feuerbach, "de que os homens são produtos das condições e da educação, e, portanto, que homens diferentes são produzidos por condições e educações diferentes, esquece que as circunstâncias podem ser alteradas pelo homem, e o próprio educador precisa ser educado.”

O erro de Hegel foi deixar-se embriagar pelo idealismo filosófico; o de Feuerbach, de atufar-se no materialismo filosófico. Marx apercebeu-se bem cedo da incongruência, das imperfeições e das claudicações de ambos. Pareceu-lhe que o expediente de Feuerbach, apanhando o absoluto de Hegel e pondo-lhe o rótulo de "matéria”, nada resolvia. Ambas as perspectivas desprezavam estolidamente [Osório diz: “falto de discernimento”] os fatos econômicos e industriais. Tanto uma como a outra eram mais inexatas do que o suspeitavam os discípulos de Hegel e Feuerbach.

 

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O homem é, por certo, mais do que uma máquina. Marx o sabia: estava enamorado! Noivara, em segredo, com Jenny, filha do barão von Westphalen. O seu primeiro ano de universidade não foi muito feliz: ele se debatia num desassossego de alma e de espírito. Além de se achar longe da sua querida Jenny, Marx, nessa época de formação, era um poeta sensível a todos os cambientes delicados da beleza e da emoção. Aos que conhecem a face exteriormente fria e seca da sua carreira ulterior, pode parecer estranha dissonância recordar que a primeira obra publicada pelo autor da teoria econômica da história foi um poema lírico! “Tudo se concentrava na poesia”, disse ele, referindo-se a esses primeiros tempos de estudante em Berlim, “como se eu estivesse enfeitiçado por algum poder supraterreno!" A literatura romântica, mais do que a clássica, era o que o atraía particularmente, nessa quadra, em que trabalhava noite e dia no estudo da filosofia, jurisprudência, história, geografia e outros assuntos sem conta.

Marx pediu a mão de Jenny e obteve-a, contra a vontade da família e dos amigos desta. Nem todos os estudos, discussões e aventuras intelectuais desses dias de estudante podiam abater ou reduzir a sua inclinação romântica. À viva força, desfez-se temporariamente o noivado. Os parentes dos Westphalen não queriam ver a filha de um fidalgo prussiano casada com um judeu. Apesar de ter sido Karl Marx batizado com seis anos apenas, sabia-se que todos os seus ascendentes, tanto pelo lado paterno como pelo materno, tinham sido rabís.

Em 1841 o jovem Marx recebeu o grau de doutor em filosofia. Em companhia do seu mestre e amigo Bruno Bauer, candidatou-se ao posto de lente na Universidade de Bonn. Mas não conseguiu a nomeação. Estava-se preparando para desposar Jenny quando lhe recusaram a cadeira, e ele deu-se conta de que ainda era preciso procurar um emprego. Entraram aí em jogo as forças econômicas para encaminhar o destino do moço. Procurou um meio de vida no jornalismo, incorporando-se aos redatores da Rheinische Zeitung, uma folha radical que se publicava em Colônia. Mas o jornal teve vida curta. Foi suprimido pelo governo em começos de 1843. Entretanto, Marx estava apaixonado e isto o governo não podia suprimir. De modo que no verão desse ano ele casou com Jenny e poucos meses depois mudou-se para Paris.

 

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Já muito antes de vir para Paris, sentira a premente necessidade de conhecer melhor o pensamento econômico e político francês. Não que este assunto lhe fosse estranho, mas o espírito insaciável de Marx tinha sede de conhecimentos cada vez mais exatos e de compreensão mais profunda.

Desde pequeno lhe eram familiares as ideias francesas, pois fora educado de acordo com as opiniões de seu pai, defensor e discípulo dos filósofos franceses setecentistas. Em todo estudo do materialismo histórico, cumpre avaliar com justeza o influxo que Marx recebeu dos filósofos franceses materialistas, como Diderot, Helvetius, d'Alembert, Holbach. Foram estes precursores da Revolução Francesa críticos implacáveis da Igreja e do Estado. Aliás, buscavam sempre nos fatos materiais, e não em especulações metafísicas, a elucidação da natureza do homem e da sociedade.

Já na sua juventude havia Marx sofrido a influência dessa poderosa corrente intelectual. Em criança, familiarizara-se com Diderot e Voltaire. E agora, homem feito e vivendo em terra francesa, sentia em si mesmo uma singular afinidade com esses pensadores augustos, que se negavam a aceitar em qualquer assunto as imposições da autoridade. Aprendeu com eles a pesquisar pacientemente os fatos, a encarecer os conhecimentos positivos, a buscar um grau de compreensão que lhe desse o poder de generalizar. Como aqueles homens, Marx começou a revelar uma erudição enciclopédica, um espírito que era como um vasto oceano a banhar muitas praias.

Contava Marx, por essa época, vinte e cinco anos de idade. Quando chegou com sua mulher à capital francesa, andava no auge o movimento socialista. Mas o socialismo daquele tempo não era o socialismo de Marx. Tão profundo foi o cunho imprimido por ele ao pensamento socialista, que hoje raramente se ouve mencionar o socialismo de Owen, de Saint-Simon ou de Fourier, cujas teorias se eclipsaram à sombra da interpretação econômica da história.

Ninguém jamais estudou com tanta sofreguidão como Karl Marx os livros dos socialistas franceses. E, por isso, ninguém estava mais capacitado que ele para analisá-los e apontar os seus defeitos. O erro fundamental de todos os socialistas que tinha lido consistia na atitude anticientífica. Se haviam de pesquisar as origens do capitalismo para compreender a essência do sistema que combatiam, malbaratavam o seu tempo e o dos leitores com a elaboração de teorias fantásticas, segundo as quais todos os inconvenientes do capitalismo seriam cancelados mediante um governo benéfico de trabalhadores. Marx desmascarou facilmente a falácia de tais utopias. O que alguns socialistas precisavam era uma justa apreciação das realidades econômicas que formam a base da existência humana. Também viu com clareza o que era mister fazer: desembaraçar-se das utopias e aplicar toda a força da análise dialética da história passada à política presente, bem como às sociedades futuras. Era inútil entreter-se com esperanças, temores e ideais. Cumpria fazer frente à dura realidade da lei econômica.

 

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Em Paris fez relações com escritores alemães e franceses. Entre eles estavam o poeta Heinrich Heine, o publicista Arnold Ruge, o socialista Pierre-Joseph Proudhon. Marx foi íntimo de todos. A poesia de Heine cativava-o singularmente. Muitos anos após a morte do poeta, Marx, já exilado em Londres, gostava de citar o incorrigível rebelde, “esse bicho estranho, um poeta”, como disse uma vez.

Marx, em Paris, era um moço ocupadíssimo que lia, estudava, tinha entrevistas. O verão e o outono de 1843 transcorreram em intensa atividade intelectual. Releu as histórias da França, da Alemanha e dos Estados Unidos, em busca de fatos econômicos que corroborassem a sua interpretação da história. Os escritos de Maquiavel, Rousseau, Montesquieu e Ricardo também passaram por uma análise das mais rigorosas. Essas largas leituras robusteceram as suas primeiras vistas no tocante às relações da história com a economia.

A história, segundo a convicção a que chegou, devia ser estudada cientificamente, sem o socorro de conceitos místicos tais como a ideia hegeliana do absoluto. Isolar a história das ciências naturais e da indústria era como separar a alma do corpo e "procurar a sua origem, não nas condições palpáveis da terra, mas nas etéreas nuvens do céu”.

Era-lhe, pois, evidente que os fatores econômicos determinavam todos os demais fatos históricos, possibilitando assim a explicação da imensa complexidade dos negócios humanos. Em tal matéria, como é de ver, as provas absolutas e irrefutáveis são pouco menos que impossíveis. Nas ciências físicas, muitíssimos fenômenos repetem-se com suficiente uniformidade de intervalos e circunstâncias, o que permite que eles sejam enfeixados em leis, para fins práticos. Nas ciências sociais, ao que parece, o mais que se pode alcançar é um alto grau de probabilidade. Em consequência, a teoria mais eficaz é a que explica do modo mais satisfatório o conjunto dos fatos em exame, de tal forma que se chegue a esse alto grau de probabilidade reunindo numa só conclusão um número tão grande de fatos que torne absurda qualquer outra interpretação.

Partindo de certas ideias de Hegel, Marx logrou por à mostra a rede de relações que prendem a superestrutura da sociedade à sua base material. Revelou as conexões entre a economia e a política, entre a economia e a cultura, entre a economia e a marcha da história. Pela primeira vez foi esta assentada em suas bases reais, não como narrativa de guerras e pazes, de genealogias régias, de datas soltas, mas como relato da vida humana através dos séculos. Em vez duma novela romântica, tornou-se o estudo da grande massa humana, de como ela vive, luta e avança.

Marx pois fim ao deplorável desdém dos aspectos econômicos, que caracterizava os filósofos e historiadores passados. Com intuição profunda e rica erudição, reuniu os seus argumentos de modo a construir uma teoria dinâmica da história. Indicava, também, com essa teoria, o modo por que a sociedade, em constante transição, passava de uma fase a outra. A nova sociedade não esperava impacientemente nos bastidores até que a velha houvesse terminado as suas reverências de despedida. Desenvolvia-se dentro dela, e quando atingia a maturidade quebrava a casca das leis, das instituições políticas e da cultura tornadas obsoletas.

 

Quanto mais se aprofundava na história, mais se convencia Marx da importância da produção econômica. Fora esta que determinara o espírito de todas as épocas estudadas por ele. A vida social, política, intelectual e religiosa de um povo construía-se sobre ela e em torno dela. Sendo elemento fundamental na luta pela existência, é ela que condiciona e desenvolve a consciência dos homens. Marx punha, pela primeira vez, os bois diante da carreta com esta afirmação: “Não é a consciência da humanidade que determina a sua existência, mas, pelo contrário, a sua existência social que lhe determina a consciência.”

Era esta a nota tônica, ferida então pela primeira vez, da interpretação econômica da história. Antes de passarmos adiante e vermos o modo como desenvolveu Marx a sua concepção, vale a pena considerarmos as teorias históricas anteriores, para avaliar o peso da tradição que teve de afastar este obscuro jornalista alemão, em dificuldades para conseguir dinheiro com que atravessar, mais a mulher, o inverno.

 

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Desde que existem línguas escritas, os homens têm-nas empregado para perpetuar seus feitos. Mas a história é mais do que a soma dos anais deixados pelo homem. É a fase do progresso universal em que ele vive e de que faz parte. Compilar documentos e reunir materiais não basta: documentos e materiais requerem explicação. A história, portanto, é mais do que os fatos, mais do que um relato de acontecimentos superficiais.

Os gregos antigos inauguraram a verdadeira literatura histórica. Heródoto, o pai da história, ainda é uma fonte preciosa. Seus livros, como se sabe, estão cheios de ficções, mas também não faltam ali as descrições vívidas da vida e da época em que ele escreveu. O que fazia falta a Heródoto era uma interpretação, pois nele não vemos outra que não seja o empenho de glorificar a democracia ateniense.

Com Tucídides ficou estabelecido um cânone de crítica histórica: primeiro, a história devia ser exata; segundo, devia ater-se aos fatos principais; terceiro, as narrações do passado deviam “ser úteis, porque, vista a natureza humana, as mesmas coisas tornarão a suceder”. Políbio, quiçá melhor historiador no sentido moderno do que Heródoto ou Tucídides, estabeleceu um método científico da história, em que dava especial relevo ao conhecimento da geografia e da topografia, bem como à atitude filosófica.

Todos estes autores gregos, e os romanos que lhes sucederam, não chegaram a apreender as causas econômicas e sociais sobre que assentam fatos e movimentos históricos. Políbio pressentia uma base latente impessoal, que lhe pareceu ser moral e não econômica, ao passo que Heródoto e Tucídides acentuavam a influência das personalidades e dos efeitos dramáticos.

Com a queda do Império Romano e a ascensão do Cristianismo ao nível de força suprema da civilização ocidental, a história não tardou a perder o tênue fundamento científico que possuía, quando os Pais da Igreja resolveram adaptá-la aos seus propósitos. [Osório diz: crítica contundente!] O seu maior desejo era estabelecer um passado venerável para o Cristianismo; para tanto era necessário tomar certos aspectos da história judaica, que até então haviam recebido lugar insignificante nos tratados, e elevá-los à altura do maior movimento da civilização, que cumprira finalmente o seu destino ao produzir a Igreja. A seguir, apossaram-se dos milagres e das lendas que cercavam a personalidade de Jesus, de seus discípulos e dos santos, e com eles teceram um drama grandioso e transcendental. Nesse empenho foi-lhes mister apoucar e desacreditar toda a história pagã. Pintavam, pois, a esta como um horrível pesadelo de guerras, pestilências, crimes, misérias e impiedades. S. Agostinho, por exemplo, só via dois reinos na terra: o reino de Satanás e o reino de Deus. Tudo que pertencesse à Igreja era de Deus, e por conseguinte, bom, ao passo que tudo mais era de Satā, e, logo, mau. [Osório diz: excelente fonte!].

Esta interpretação teológica, com a sua ideia da intercessão e direção divina pelos milagres, representava uma conscienciosa tentativa para introduzir coerência no fluxo dos acontecimentos. Como tal, calava fundo no espírito medieval. Durante mil e quinhentos anos, foi esta a suprema e "revelada” interpretação da história.

Após o raiar do Renascimento e os movimentos humanistas, esse método teológico não podia aguentar-se por muito tempo. Já no período medieval, pouco antes do Renascimento, houve historiadores que procuraram retornar à serena e proveitosa ocupação de colecionar fatos, que fora hábito antes de haverem os Padres da Igreja começado a escrever os seus manuscritos. O mais notável desses historiadores foi Otto Friesing, que escreveu a história do mundo sob um critério menos sobrenatural, se bem que não conhecesse ainda aquelas causas subjacentes a que tinham chegado os gregos mais avançados. Além de Friesing, houve o árabe Ibn Khaldun, um dos primeiros a falar em revolução histórica, que ele concebia como um processo de nascimento e crescimento.

Com o início da era moderna, homens como Flavius Blondus, Maquiavel, Guicciardini, desembaraçaram-se dos ensaios ineptos da Igreja e apanharam a ponta do fio deixado pelos gregos e os romanos. Maquiavel colaborou com novo e importante subsídio: a percepção de causas e efeitos na evolução política de Florença. Infelizmente, não se reconheceu desde logo o valor deste ponto de vista. A ideia de causalidade no estudo da história estava muito distante da trilha batida da Igreja. Lenta e gradualmente, todavia, começou a fazer progressos. Voltaire, Vico, Turgot, Condorcet e outros puderam emancipar-se das peias teológicas. No seu Século de Luís XIV, Voltaire procurou pintar a civilização francesa integral com as cores da "alma do povo", que ele considerava o grande fator determinante da história. Vico, o italiano, estribou-se na teoria dos ciclos. Turgot e Condorcet adotaram os princípios de continuidade e causalidade.

Brilhantes e vigorosos como eram estes novos trabalhos, deixavam ainda escapar, contudo, o ponto nuclear: nenhum deles atingira o cerne das causas históricas. Montesquieu, marca um progresso sobre todos os seus antecessores. Este francês procurou analisar o "espírito do povo" de Voltaire, em termos topográficos, geográficos e climatológicos. Frisou que as instituições de uma sociedade só era, úteis na medida em que se adaptavam ao espírito da mesma sociedade. Este modo de pensar era um enorme salto à frente, que dava amplas esperanças para o futuro. (Devemos ter sempre em mente que Marx estava saturado pelos filósofos franceses, e que os clarões indistintos do pensamento destes últimos alcançaram através dele a sua máxima refulgência.)

Com o século XIX, começou-se a erigir a abóbada filosófica de que Hegel seria o coruchéu [Osório diz: "arremate pontiagudo que encima as partes elevadas de uma edificação."]. Os expoentes deste idealismo filosófico aplicaram à história o Weltgeist (Espírito do Mundo) hegeliano, que culminou na Kultur germânica. Era a história para Hegel, como já vimos, um movimento dialético cheio de largas oscilações para a direita e para a esquerda, em que os homens representavam pouco mais que instrumentos nas mãos de Deus, do Absoluto, que se exprimia pelo Zeitgeist — o Espírito da Época.

Bem diferente desta é a concepção da história que se nos depara nas obras de Michelet, Froude e Thomas Carlyle temporâneos de Marx. Estes homens, além de votarem profundo desprezo às bases econômicas da vida, insistem no papel do herói, do grande homem, do chefe individual, da personalidade representativa. Esta visão altamente subjetiva da história, com a sua indiferença por tudo que não seja o ambiente imediato, forma o fundo de escolas históricas antagônicas contra que se destaca a inovação de Marx: a interpretação econômica da história. Ninguém, senão ele, podia ter escrito naquela época que “mudando os modos de produção, a humanidade muda as suas relações sociais. O moinho de mão produz uma sociedade de senhores feudais, o moinho de vapor uma sociedade de capitalistas industriais.” Por que? Porque Marx foi o primeiro que percebeu a diferença essencial entre as "técnicas” de produção e os “modos” de produção. Por técnicas entendia ele os inventos, as máquinas, as artes, a organização das fábricas onde o homem produz os artigos de que necessita. Por modos entendia as relações sociais e de propriedade que determinam a posse e a administração desses meios, bem como a sua distribuição. Quando as técnicas de produção passam por grandes transformações, as velhas relações sociais e de propriedade tornam-se muitas vezes inadequadas e atuam cada vez mais como uma barreira ao progresso da sociedade. Este obstáculo cria uma situação intolerável. Para que seja possível um maior desenvolvimento das técnicas (meios) de produção, e, portanto, para prover de modo mais eficiente às necessidades humanas, faz-se mister destruir as velhas relações sociais e de propriedade, e estabelecer outras novas. Eis o sentido que tinha, para Marx, a palavra revolução. [Osório diz: explicação sublime!]

 

E assim, o desacordo entre as técnicas e os modos de produção foi o fato fundamental revelado por Marx aos historiadores que o tinham ignorado durante séculos.

 

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Havia pouco que Marx viera residir em Paris quando começou a publicar, com a colaboração de Arnold Ruge um periódico chamado Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-Alemães). Infelizmente, toda a vida dessa publicação limitou-se ao primeiro número. Foi pouco depois disso que Marx e Ruge se desavieram intelectualmente. Em agosto de 1844, sob o título de Notas Marginais, publicou Marx numa revista parisiense longa polêmica contra Ruge, defendendo o socialismo e a revolução e tomando armas pelo proletariado germânico.

Ao contrário de Darwin, Marx era um lutador – pensador e lutador amalgamados num só homem. “Acima de tudo, Marx era um revolucionário”, disse Friedrich Engels, ao pronunciar as palavras que encerravam a carreira do teorista no cemitério de Highgate, em Londres. “Poucos homens têm lutado tão apaixonadamente”. Estas palavras patéticas de Engels em 1883 aplicam-se ao Marx de setembro de 1844, data em que Engels veio para Paris fazer vida comum com Karl e Jenny.

Foi ele o anjo bom de Marx. Jamais teorista precisou tanto de um amigo. Tinham, é de ver, muita coisa em comum. Ambos haviam nascido na província renana da Prússia Marx em Treves, em 1818, Engels em Barmen dois anos depois. Essa região assistira durante séculos ao caldeamento das civilizações germânica e da francesa. Ambas guerreavam-se e traficavam ali entre si, produzindo uma cultura mista, poderosa e exuberante.

O primeiro encontro de Marx com Engels deu-se em Colônia, em 1842. Engels ia de viagem à Inglaterra, como representante comercial de seu pai. A firma possuía uma fiação de algodão perto de Manchester.

Em 1844 Engels veio visitar Marx em Paris, com a resolução de se aliar ao economista. Já tinha contribuído com um artigo para o primeiro e único número dos Deutsch-Französische Jahrbücher. Foi este artigo, intitulado Diretrizes Gerais para uma Crítica da Economia Política, que assinalou o começo de uma amizade para toda a vida. Os dois homens tinham descoberto uma íntima correspondência entre as suas ideias sobre a história e a sociedade. É curioso que Engels, quando Marx lhe era ainda um estranho, tivesse concebido a ideia da interpretação econômica. Como Wallace no caso de Darwin, Engels foi o primeiro a reconhecer que a descoberta de Marx era totalmente independente, e que a sua explicação era “científica”. Enquanto suas relações com Marx não lhe operaram a conversão, Engels foi um socialista utópico. Em sua ativa carreira comercial tinha muitas ocasiões de refletir sobre os problemas econômicos. Achando-os terrivelmente complexos, buscava ansiosamente um ponto de vista mais satisfatório, quando Marx lhe expôs as suas ideias. Engels fez-se, sem perda de tempo, o primeiro dos marxistas, só cedendo a palma ao seu mestre em penetração, vigor intelectual e abnegação.

 

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Sob o estímulo de Engels Marx começou a formular as suas ideias, com clareza sempre maior, e a procurar qualquer coisa em que afiasse as unhas. Não tardou que encontrasse a vítima, no seu ex-amigo Bruno Bauer.

Bauer, como autêntico hegeliano que era, não atendera ao reclamo de Marx para que se procedesse a uma revisão do legado dialético de Hegel com bases mais realistas. Bauer obstinara-se na doutrina mística de que as ideias e os grandes homens são a única fonte dos fatos históricos [Osório diz: muito próximo do evemerismo!]. Marx empregava, como se sabe, a fórmula hegeliana de tese, antítese e síntese, mas substituía um princípio naturalista (que ele identificava com os fatores econômicos da existência) à noção hegeliana do absoluto. Em outras palavras, Marx pugnava por uma dialética de condições e desenvolvimento econômicos.

Acontece que Bauer e seu irmão Edgar haviam fundado um novo jornal, em que atacavam a seita marxista do hegelianismo. Marx, auxiliado por Engels, apressou-se a replicar, num livro que apareceu com o título sarcástico Die Heilige Familie (A Santa Família).

O livro é, para nós, extremamente valioso, não tanto pela polêmica acerba, como porque em suas páginas encontramos a primeira exposição clara da teoria da interpretação econômica. "Julgam esses senhores que poderão entender uma palavra de história”, pergunta Marx, “enquanto excluírem dela as relações do homem com a natureza, com a ciência natural e a indústria ?

...Pensam eles que poderão realmente compreender uma época, sem tomar em consideração a sua indústria e os métodos imediatos de produção na vida social?” Zomba dos filósofos etéreos que não querem ver que os alicerces da história não estão nas nuvens do céu, mas na grosseira produção material da terra que eles pisam [Osório diz: isso me lembra Protágoras quando fala do “homem medida”, que nada mais é do que retirar a construção do vida do homem das nuvens do céu, ou de quem mora nelas, e arregaçar as mangas e fazê-lo ele mesmo]. As transformações da sociedade humana não nascem da ideia metafísica, do Weltgeist de Hegel, ou de outro conceito especulativo semelhante, mas das condições materiais da existência. Por esta razão, argumentava Marx, a base econômica é o Unterbau (alicerce) da sociedade, que sempre determinou o Oberbau (superstrutura) da arte, da religião e da ciência.

 

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Progredindo na história econômica, Marx passou a atacar os socialistas mais velhos na pessoa de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Naquela época a capital francesa regurgitava, literalmente, de teoristas sociais. Havia os anarquistas, os socialistas, os comunistas, os partidários de Weitling, os proudhonianos, os sindicalistas, os cabetistas, os fourieristas, os owenistas todos concordes em condenar o velho sistema, mas asperamente antagônicos em concepções do modo como se devia proceder à mudança. Para Marx, era manifesto que a diversidade provinha da “opinião” pessoal de cada um. Ora, a verdadeira definição de opinião é ignorância dos fatos, pois onde existem fatos ela se torna desnecessária. Aliás, quem há de decidir entre as opiniões, declarando esta justa e aquela errada? Marx convidava-os a que pusessem de lado as suas opiniões e se cingissem aos fatos fundamentais das relações mútuas entre a economia e a história.

 

Assim como Darwin tivera que se desfazer da doutrina bíblica das criações independentes para estudar cientificamente a natureza, também Marx teve de afastar todas as teorias utópicas para estudar os fenômenos da sociedade. Tanto um como o outro se viam a braços com fenômenos amplíssimos e complicados. Cumpria a ambos deitar abaixo doutrinas aceitas. E ambos levaram a cabo a demolição de erros seculares pelo embate irresistível dos fatos. Apenas, ao contrário de Darwin, Marx não fazia experimentos, pois a posição de um economista é diversa da de um biologista.

 

Karl Marx fez-se o ariete da ciência contra todos os utopistas e todos os sentimentalistas. Que valor podem ter os numerosos planos de sociedades ideais, se não assentam numa exata compreensão das causas dos males que se desejam eliminar? Para que tecer ociosamente no ar planos sutis de um Estado perfeito? Não estão as condições sociais presas a forças produtivas? Para que, então, sonhar com transformações antes de compreender a natureza dessas forças? Como toda gente sabe sonhar – diz-nos Marx – os filósofos nos apresentam planos de toda casta, mas o que importa é conhecer a fundo o mecanismo íntimo da história, afim de poder modificar a sociedade de acordo com ele. Foi esse mecanismo íntimo que os economistas ignoraram. Não olhavam as coisas pelo ângulo dialético (Marx quisera ensinar dialética a Proudhon!); não tinham método de análise social: em suma, não eram homens de ciência.

 

Demais, para esses utopistas, o socialismo nada tinha que ver com o espaço e o tempo. Julgavam poder estabelecê-lo a qualquer momento, em toda parte, sem a menor preocupação com o estudo do desenvolvimento econômico. Era necessário apenas (pensavam eles ingenuamente) trazer os homens o mais depressa possível à consciência do que lhes era útil, e zás! estaria transformado o estado atual da sociedade. Destarte, os utopistas cifravam os seus argumentos a um apelo à natureza humana para que endireitasse tudo que estivesse errado.

Para Marx, este modo de considerar as coisas era de todo em todo anticientífico. O socialismo como simples plano para melhorar as condições materiais da sociedade devia ser rejeitado como utópico. Ensinara-lhe a história que os sistemas sociais não se podem modificar à vontade. Não há passe de magia ou esconjuro que possa metamorfosear o mundo. Descobrira que os sistemas sociais não são mais que um reflexo dos seus substratos econômicos, e por isso não se podem mudar, a menos que se opere uma mudança nesses substratos. Eis por que Marx se batia pela interpretação econômica, acentuando que os interesses econômicos, sustentáculo das ações e do pensamento humanos, têm raiz nos modos de produção e de troca. “No sistema de produção social organizado pelos homens, estes colocam-se em relações definidas que são independentes das suas vontades; estas relações de produção correspondem a uma fase definida do desenvolvimento de suas forças produtivas.”

Em outras palavras, a produção é o alicerce da história. A uma modificação do alicerce há de seguir-se uma alteração em todo o edifício que ele suporta. Nenhum sistema social — declarava Karl Marx – pode ser estabelecido onde e quando quer que o desejemos. “Nenhuma ordem social desaparece jamais antes que se tenham desenvolvido todas as forças produtivas que ela pode comportar; e novas e mais elevadas relações de produção não surgem nunca antes que as condições materiais da sua existência hajam amadurecido no seio da velha sociedade.” Em suma, a interpretação econômica de Marx reduzia-se à tese de que um sistema de sociedade mais perfeito só pode desalojar um sistema defeituoso a seu tempo próprio, quando se estabelecem certas condições e a sociedade alcança certo grau de desenvolvimento econômico. Este ponto de vista marxista subentende, naturalmente, a atitude dialética em sociologia. Por tal motivo, a missão do sociólogo não é inventar sistemas perfeitos, mas examinar “a sucessão de acontecimentos histórico-econômicos” de onde nasce a luta (antítese), e descobrir quais são os fatores materiais destinados a servir de meio para a solução do conflito (síntese). O Estado futuro não pode ser confeccionado por nenhum reformador.

 

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No meio de toda essa faina intelectual, Marx, de parceria com Engels, movia guerra feroz ao governo prussiano e tomava parte ativíssima na agitada vida dos grupos revolucionários parisienses. O governo prussiano queixou-se à França de que os ataques à sua dignidade recrudesciam de atrevimento e grosseria. Os dirigentes da França, poucos dispostos de começo a tomar providências, deixaram-se afinal persuadir por Alexander von Humboldt a pôr um dique à propaganda de Marx, Ruge, Bakunin e outros. A 11 de Janeiro de 1845, Marx foi expulso de Paris. Atravessou a fronteira belga e estabeleceu-se em Bruxelas, onde ficou até 1848.

Marx em Bruxelas continuou a ser o mesmo Marx de Paris, o mesmo revolucionário e pensador admirável. Fazia pouco que se achava na Bélgica quando recebeu de Proudhon um livro intitulado A Filosofia da Pobreza. “Espero os açoites da sua crítica”, escrevia-lhe o autor.

Os açoites não tardaram.

A resposta de Marx intitulava-se A Pobreza da Filosofia. Era um remoque pungente e inesquecível, que fez ruído e muito concorreu para engrandecer a reputação de Marx.

O ideal proudhoniano era um socialismo camponês, uma divisão primitiva da sociedade em pequenas comunas sem nenhuma autoridade central forte. Repelindo o industrialismo como um mal imitigável, pregava o retorno àqueles tempos em que a terra, e não a maquinaria, era o manancial direto da subsistência. Entrevia vagamente aquilo que Marx iria em breve demonstrar de modo brilhante; que o trabalho criava o valor, e que capital sem trabalho nada valia. Proudhon não ignorava, pelo estudo superficial de dialética que fizera em Paris sob a direção de Marx, que riqueza e pobreza, capitalistas e proletários, são concomitantes e necessários uns aos outros no sistema vigente; mas só até aí penetrava a sua análise.

A pesar da frouxidão de raciocínio e das conclusões prematuras, o livro de Proudhon teve grande acolhimento popular. Tão grande, na verdade, foi o interesse despertado por ele, que toda réplica seria, forçosamente, muito lida.

O erro essencial de Proudhon, exposto por Marx, era a concepção de categorias econômicas eternas e imutáveis: o erro de supor que as forças econômicas e sociais vigentes em 1848 fossem as mesmas de todos os tempos. Marx demonstrou, com devastadora clareza, que Proudhon não tinha senso histórico, e ao parecer nenhuma compreensão da marcha, mudanças e evoluções das instituições históricas. Do contrário saberia que as relações sob as quais se manifestam as forças produtivas não representam leis eternas, mas correspondem a estados definidos do homem e das mesmas forças produtivas. Os princípios, ideias e categorias de uma sociedade moldam-se pelas relações sociais decorrentes da produção. O conceito da propriedade privada, por exemplo, modifica-se em cada época histórica, criando conjuntos de relações sociais em tudo diferentes entre si. O próprio dinheiro não é uma coisa fixa e definida, mas uma relação social, reflexo de uma forma de produção que tornou obsoleto o sistema da troca direta entre os indivíduos. E quanto às máquinas, "não são uma categoria econômica, como não o é o boi que puxa o arado: são uma força produtiva”. A vida social em dada época é, portanto, produto da evolução econômica. Suponhamos, a título de ilustração, que um copo esteja cheio de água, ou de areia. O recipiente não determina a natureza de uma nem da outra, mas determina a sua forma. É assim que a evolução econômica determina a vida social, política e espiritual do homem.

Além disto – arguia Marx é ridículo julgar que para reformar o mundo basta expurgar os maus componentes da sociedade, conservando apenas os "bons”. Cada sociedade é produto dos seus choques internos, de seus antagonismos inerentes; o proletariado não deixará de ser proletariado enquanto existirem capitalistas para explorá-lo. O que ele devia fazer é o seguinte: não procurar eliminar os capitalistas apenas, mas também a si mesmo, como proletariado. Em outras palavras, estabelecer uma sociedade sem classes, em que, por conseguinte, não poderia haver exploração de uma classe por outra.

 

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A teoria da interpretação econômica fora afinal entregue ao mundo. Mas havia mais que fazer. O segundo passo seria formar uma organização que levasse aos trabalhadores a bandeira desta nova doutrina, divulgasse o novo evangelho, promovesse a revolução social que já se antevia distintamente. Era preciso estabelecer uma relação mais precisa entre a teoria abstrata e as realidades concretas e imediatas da situação política. Foi o que se dispuseram a fazer Marx e Engels.

A Europa achava-se, desde vários anos, em estado de fermentação. Na Inglaterra, a propaganda das trade unions [Osório diz: “As Trade Unions eram um tipo de organização operária surgida no século XIX que eventualmente evoluíram para aquilo que hoje chamamos de sindicatos.”] tomara grande surto, a agitação cartista andava em plena ebulição. Na Alemanha, operários em grande número entravam para as fileiras das diversas seitas socialistas. A agitação democrática contra a monarquia reacionária refervia e explodia numa série de revoltas. No seio do proletariado parisiense também começava a formar-se a consciência de classe. Marx sentia-se mergulhado numa era revolucionária, e buscava um ensejo de coordenar o proletariado num movimento para derribar o capitalismo e fundar uma sociedade comunista.

Desde 1836 os refugiados da perseguição política alemã tinham-se organizado em Paris sob o nome de Liga dos Justos, estabelecendo ramificações pelas principais cidades europeias. Em Bruxelas, Marx não tardou a dominar a cena. Dirigiu, com Engels, vasta propaganda pela extensão do movimento a toda a Europa. No primeiro congresso, reunido em Londres em 1847, trataram de tomar as rédeas nas mãos e realizar a transformação da Liga dos Justos, que até então não tinha política definida, numa Liga Comunista inspirada por princípios marxistas. Para estabelecer de modo seguro esse programa, Marx e Engels apressaram-se a redigir um manifesto em que se declarassem os fins e a política da Liga.

Surgiu daí o Manifesto Comunista – documento que guiou o pensamento comunista e socialista durante mais de setenta e cinco anos –dando à Liga o caráter de organização representativa do proletariado comunista, que se definia então nitidamente.

Pouco após a publicação do Manifesto, rebentou em Paris a revolução de fevereiro de 1848. Marx passou-se para lá a convite do governo provisório, depois que a Bélgica deliberou expulsá-lo do seu território. Em março o rastilho da revolução alcançou a Alemanha, e Marx apressou-se a ir tomar parte nela. Toda a Europa pegara fogo. Na excitação dos acontecimentos políticos imediatos, o Manifesto foi lido às pressas, embora com aprovação, pelos operários europeus. Em junho veio a sangrenta repressão de Cavaignac ao movimento proletário de Paris, e a burguesia firmou-se mais do que nunca no poder. Ao mesmo tempo a contrarrevolução começava a levar a melhor na Alemanha, e a reação triunfou mais uma vez. Continuavam as sublevações por toda a Europa, recebendo o estímulo e o apoio de Marx. Mas a sorte decidira-se: a burguesia estava firme na sela. Marx, que reconhecera nas primeiras revoltas movimentos burgueses, considerando-as como passos iniciais necessários à revolução proletária, compreendeu então que o seu zelo o levara a orçar as esperanças em muito mais do que o autorizava a realidade. Em razão do mal-estar econômico reinante, contava com o ressurgir do descontentamento proletário e do sentimento de revolta. Mas um incidente inesperado veio consolidar a vitória do capitalismo: descobriu-se ouro na Califórnia! Isto fez reflorescer a prosperidade econômica no mundo inteiro, dando por terra com as esperanças Marx. Pelo estio de 1850, andava ele a aconselhar que se liquidasse a revolução e se dispersasse a Liga Comunista, cuja razão econômica de existir havia desaparecido. Foi assim que a força da dura realidade econômica fez o entusiástico Marx retornar a calma ponderação do seu programa revolucionário, que ele, no louco anseio de uma realização imediata, não soubera aplicar com o cuidado e a circunspeção recomendadas por ele próprio.

Mas o Manifesto Comunista continuou a representar o repto do movimento proletário. E é ele ainda que, em suas poucas páginas, traça as linhas gerais da teoria marxista da interpretação econômica da história.

 

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Estabelece o Manifesto que “a história de toda sociedade tem sido, até hoje, uma história de lutas de classes”. E qual – pergunta ele – é a natureza desse conflito, de que depende o curso da história? Responde Marx à sua própria pergunta, definindo-o como um conflito de classes motivado pela posse dos meios de produção econômica.

Vejamos como desenvolve a tese.

Em todas as épocas houve uma classe dominadora e uma classe dominada, uma camada superior e outra inferior. Em todas as épocas, esta distinção tem sido imposta e determinada pelos meios correntes de produção. Em todas elas se tem travado luta implacável entre opressores e oprimidos, entre ricos e pobres, entre possuidores e destituídos. E esta luta prolonga-se ainda no dia de hoje, e não cessará enquanto não forem abolidas todas as classes e conciliados todos os antagonismos.

Marx estudou o desenvolvimento da burguesia moderna, desde que ela quebrara a casca do feudalismo, começando a espalhar-se pelas cidades e aldeias da Idade Média. Dos servos medievais tinham surgido os burgueses, com carta de privilégio, das primeiras cidades; era daí que provinham os elementos da burguesia atual. O descobrimento da América, a extensão dos mercados mundiais, abriram novos caminhos à florescente classe mercante e manufatureira. Apareceram as fábricas, porque o antigo sistema corporativo de produção manual tornara-se incapaz de satisfazer a procura cada vez maior de mercadorias. Os mercados cresciam incessantemente, e a produção manual tornou-se insuficiente. Introduziu-se, pois, a maquinaria com o fim de aumentar e acelerar a produção.

O desenvolvimento da burguesia deu nascença ao mercado mundial, com as transações internacionais e o formidável progresso das comunicações. E, à medida que avançava economicamente, a burguesia se elevava também politicamente: senhores feudais, comunas medievais, cidades-livres, foram formas que caducaram com a sua gradual ascensão, a partir do "terceiro estado" contribuinte, para a supremacia. A criação da sociedade capitalista moderna é um reflexo direto dos interesses da classe média.

E, o que mais é, a burguesia na sua marcha progressiva revolucionou todos os valores da vida medieval: a cavaleria, a cultura, a ideologia, a estética e até os motivos religiosos. Em lugar da velha ordem, estabeleceu o ponto de vista do comerciante; o dinheiro a invadir todos os recantos da vida.

Paralelamente com o crescer da burguesia, foi avultando a classe proletária. Aquela, evidentemente, não podia aguentar-se sem um proletariado que lhe fornecesse a mão de obra para suprir as necessidades, sempre em expansão, de produtos, objetos de utilidade, mercados novos. E com isso, o acento transferiu-se do campo para a cidade. As grandes cidades, regurgitantes de operários, tornaram-se os centros políticos modernos. A centralização não parava, enfeixando a propriedade num número de mãos cada vez mais reduzido, expropriando progressivamente aqueles que ficavam atrás na corrida das indústrias e dos mercados.

Visto, pois, com clareza este quadro da evolução econômica, o segundo passo, conforme Marx, será compreendê-lo dialeticamente, Como? A tese, antítese e síntese processam-se do modo seguinte: A burguesia, ou classe capitalista, tomou a si o monopólio dos meios de produção. Com este ato fez surgir a sua antítese, que é a classe trabalhadora sem capital. O conflito entre a burguesia e o proletariado, entre capital e trabalho, acabará por se resolver com a formação da síntese, uma sociedade sem classes.

Concitando os proletários de todo o mundo a se unirem, Marx confiava ao Manifesto Comunista a missão de despertar a consciência revolucionária da classe, provê-la de um programa para quando entrasse em ação, e desbravar a senda de um novo regime em que a ditadura do proletariado cederia gradualmente o lugar a uma sociedade sem classes. Entrava ele então a delinear os seus planos, em oposição aos planos de outros grupos que também apelavam para a classe trabalhadora como, por exemplo, os socialistas franceses e os adeptos de Robert Owen. Classificava a estes de reformadores, liberais burgueses e utopistas. Apontava os defeitos das suas doutrinas, como já o fizera na polêmica contra Proudhon.

E assim, a obra que Marx realizou antes de completar trinta anos bastaria para uma vida inteira. Não pensava, porém, em repousar, deixando a outros o desenvolvimento dos princípios que ele dera à luz. Continuou a trabalhar, instalado no próprio coração do movimento revolucionário.

Durante a revolução alemã, fundara a Neue Rheinische Zeitung, que em sua efêmera existência publicou alguns dos seus artigos mais brilhantes. Concitava os seus compatriotas a que opusessem resistência armada às tentativas de cobrança de impostos enviadas pelo ministério brandenburguês reacionário. Preso e processado em Colônia, sua brilhante defesa pessoal valeu-lhe a absolvição [Osório diz: nem Sócrates conseguiu!]. As sublevações de Dresden e da Província Renana, dirigidas por Bakunin, tiveram o seu apoio cordial. Ao malogro desses movimentos seguiu-se a sua expulsão da Prússia e o fechamento da Neue Rheinische Zeitung. Publicou ainda uma edição final, em tinta vermelha, e mudou-se para Paris. Mas antes de fazê-lo, Marx, sentindo-se moralmente responsável pelas dívidas contraídas, penhorou tudo o que tinha. Ajudou-o nisso a esposa, desfazendo-se de preciosos bens de herança, pratas e móveis. Teria sido fácil ir embora sem pagar, porém Marx não quis fazê-lo. A despeito de todo o seu ódio à instituição da propriedade privada, era bem vivo nele o sentimento de honra.

Em Paris, Marx assistiu à segunda rebelião, que foi sufocada em julho de 1849 com a ascensão de Luiz Bonaparte ao trono. Mandaram-no novamente fazer as malas, e foi procurar refúgio em Londres. Passados poucos dias, veio ter com ele a família. E ali ficou Marx, a não contar uns breves intervalos de ausência, para o resto da sua vida.

 

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Quando se instalou finalmente em Londres, no ano de 1849, Marx gozava a distinção de haver sido expulso de três países e de haver malogrado em três empreendimentos jornalísticos.

Entrava agora numa quadra de grandes dificuldades. O dinheiro escasseava sempre, apesar de um legado que Jenny recebeu de sua mãe. Até os auxílios periódicos do fiel Engels, que passava aos Marx todas as suas economias de empregado do comércio, pouco lhes adiantavam. Em 1851, Marx obteve a incumbência de escrever artigos semanais para a New York Tribune, de Horace Greeley, que muito se interessava pelos movimentos liberais e radicais da Europa. Mas a libra que lhe rendia cada um desses artigos mal chegava para pagar os aluguéis e os portes postais. Seus móveis, um a um, iam tomando o caminho da loja de penhores.

Como se isto não bastasse, as doenças começaram a apoquentá-lo; eram males de fígado e outros achaques agravados pelo seu hábito de trabalhar até tarde da noite, alimentando-se insuficientemente e fumando péssimos charutos. Por fortuna, Marx era um homem de natureza robustíssima, cuja constituição podia resistir a longos anos de abusos e desleixos. Sua aparência exterior nunca deixou de inspirar admiração. Não era alto, mas possuía uma extraordinária cabeça leonina. A descrição de Hyndman, embora relativa a uma época muito posterior, é, nos traços essenciais, válida para qualquer tempo: “testa imponente, grandes sobrancelhas hirsutas, olhos brilhantes e feros, um amplo nariz sensitivo e uma boca móvel, tudo emoldurado em luxuriantes barbas e cabelos”.

A despeito da sua pobreza, Marx julgava-se com uma missão a cumprir. Projetara uma teoria da história em que utilizara uma grande provisão de fatos até então ignorados ou desdenhados, demonstrando assim de modo incisivo a fraqueza da interpretação ortodoxa. Esforçara-se corajosamente por mostrar como essa teoria se podia aplicar à história; e, baseado nela, ensaiara delinear um programa para o movimento trabalhista revolucionário. Agora, no exílio, queria escrever uma crítica penetrante e completa da economia capitalista, assinalar com nitidez as contradições do sistema atual, que em suas obras anteriores apenas havia esboçado, e desbaratar uma vez por todas as análises ortodoxas e apologísticas da economia burguesa.

Os seus dias e serões passavam-se na biblioteca do Museu Britânico, a ler infindáveis coleções de jornais, a assimilar milhares de artigos, a extrair notas de livros em que se refletiam todas as variedades concebíveis de opinião e assunto. Esperava todas as manhãs que se abrissem as portas do Museu e só se retirava quando os funcionários o mandavam sair. Aquele alemão escuro e barbudo, de olhos negros e penetrantes, sentado a uma mesa com dúzias de volumes empilhados diante de si, parecia fazer parte da mobília da biblioteca. Mais para diante, reuniu um grupo de colaboradores que vinham com ele e o auxiliavam nas pesquisas. Ao mesmo tempo, Marx não renunciava à participação ativa no movimento operário. Interessava-se grandemente pelas trade unions e pelos cartistas, campeões estrênuos de um ideal muito próximo do seu.

Em 1859, o ano que viu aparecer a Origem das Espécies de Darwin, Marx publicou a Introdução à Crítica da Economia Política, em que apresentava uma excelente definição da sua teoria econômica, explicando o modo por que ela o conduzira a uma tentativa de análise da economia capitalista.

 

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Entrementes, andava sempre envolvido em polêmicas, atividades políticas, discussões e disputas com seus amigos e inimigos. Marx era um homem fogoso que em geral não tolerava contradições, e se ainda conservava algumas amizades, devia-o à tremenda força da sua personalidade e ao vigor das suas ideias. Tinha brigado com Bauer, Proudhon, Herwegh, Bakunin, Ruge e sempre com grande violência.

Desta vez ia romper com Ferdinand Lassalle, que fora seu colega na Neue Rheinische Zeitung, e com Karl Vogt, por causa do plano de Luiz Napoleão para auxiliar a unificação da Itália mediante um tratado com a Sardenha contra a Áustria. Marx, que via nisto uma traça de Napoleão para favorecer seus próprios interesses, denunciou o tratado como tal, atacando ferozmente Lassalle e Vogt, seus defensores. O tempo deu-lhe razão, mas Lassalle não perdoou nunca, e Marx nunca buscou perdão. Vogt revidou, acoimando-o de caluniador e degenerado. Tão grande foi a indignação de Marx que escreveu um livro inteiro, Herr Vogt, no qual denunciava o seu adversário como agente assalariado de Napoleão. Neste ponto, também, teve Marx ganho de causa, pois quando a República Francesa divulgou, onze anos depois, a escrituração secreta do governo Bonaparte, lá estava na conta do serviço secreto o lançamento: “Vogt recebeu, em agosto de 1859, quarenta mil francos”.

É difícil formar um juízo definitivo sobre a personalidade de Karl Marx. Quase todos os seus inimigos, e muitos amigos, diziam-no duro, severo, desagradável; e prevalecia a impressão geral de que este era o verdadeiro exterior do homem. Mas, em contraposição a estas críticas, temos o testemunho de Heine, que soube sentir-lhe o encanto. “Marx é o homem mais delicado e gentil que tenho conhecido.” Pode ser que Marx, conforme ao que se diz, tivesse feito os governos tremer, mas o certo é que jamais causou tais tremores a sua mulher e seus filhos. Era a mais feliz das famílias. Entre as crianças das ruas londrinas, com quem estava sempre disposto a brincar, era conhecido pelo apelido afetuoso de “Papá Marx”.

Para fazer-se uma apreciação justa de Karl Marx devem ser levados em conta dois aspectos do homem. Temos, por um lado, o lógico paciente frio a analisar a história com o escalpelo dos fatos e a sonda da sua teoria; e, pelo outro lado, o revolucionário impetuoso e sentimental, acudindo a qualquer motim insignificante, em que via os primeiros impulsos de uma iminente revolução mundial prestes a estabelecer a ditadura do proletariado e a sociedade sem classes.

Suas doutrinas econômicas não podem ombrear com a teoria da interpretação econômica da história, porque muitas conclusões são a priori, refletindo as aspirações do autor. Andava à cata de indícios da próxima queda do capitalismo e ascensão da classe operária; agarrava-se a qualquer ninharia que pudesse servir à demonstração da sua tese, fazendo vista grossa a elementos importantes que não contribuíssem diretamente para isso.

Marx tinha a tendência de racionalizar o seu ardente desejo de revolução, chegando muitas vezes a cômicos extremos de entusiasmo infantil. Veio um dia para casa cheio desse arrebatamento: tinha visto, em uma exposição de Regent Street, o modelo de uma locomotiva elétrica. Este símbolo dos velozes progressos da revolução industrial fora interpretado por ele, ao sabor das suas próprias esperanças, como um indício de que os motivos econômicos da revolução política estavam atingindo rapidamente a sua plenitude. Durante dias, como uma criança, falou na revolução iminente, até que caiu no costumeiro bom-senso e voltou à perspectiva lógica.

Seu estilo revela um dos aspectos desta tendência. Exemplo conspícuo é a inversão do título de Proudhon, A Filosofia da Pobreza, em A Pobreza da Filosofia. Marx buscava constantemente efeitos retóricos brilhantes no emprego de tais inversões, como: “A arma da crítica não pode substituir a crítica das armas”. “Lutero destruiu a fé na autoridade por haver restaurado a autoridade da fé”. “A filosofia não se pode por em prática sem a abolição do proletariado; o proletariado não pode abolir a si mesmo sem pôr em prática a filosofia”. Ora, é verdade que esta técnica revela a base dialética do seu pensamento, mas o próprio Marx compreendeu o seu perigo: uma fraseologia demasiado fácil a reunir antíteses aparentes. Em suas últimas obras desfez-se deste hábito que revelava a tendência a deixar, por vezes, que o gume da sua lógica se embotasse numa retórica bombástica e tonitruante.

 

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Em 1861 atingiu-o um revés de fortuna. Com a irrupção da guerra civil nos Estados Unidos ele perdeu os módicos emolumentos que recebia da New York Tribune.

Quando à guerra civil em si, embora não ignorasse que ela representava um choque entre duas facções opostas da classe dominante, Marx apoiou sinceramente a causa do Norte. Abstração feita de suas convicções histórico-filosóficas, o puro amor da liberdade era mele assaz forte para o colocar em oposição à escravatura. E, o que é mais, Marx teve ocasião de auxiliar a causa abolicionista com alguma coisa mais que a simples aprovação tácita. Quando o ministro Gladstone, na Grã-Bretanha, aventou a ideia de reconhecer-se a Confederação Sulina, concedendo-se-lhe amplos créditos, foi Marx um dos organizadores da grande manifestação trabalhista que forçou Gladstone a mudar de atitude.

Marx começou a assumir importância cada vez maior no movimento das trade unions inglesas. Por ocasião da Exposição Internacional de Londres, em 1862, ajudou a reunir os trabalhadores visitantes, franceses e de outros países, e discutiu-se a formação de uma organização internacional. Marx trabalhou febrilmente para este fim. Em setembro de 1864 teve o prazer de participar, como representante do trabalho alemão, da assembleia que fundou a Associação de Trabalhadores Internacionais – a Primeira Internacional. Não foi esta, desde logo, uma organização marxista; de 1865 a 1867 dominaram-na, ao menos oficialmente, os adeptos de Proudhon. Nesse meio tempo, Marx ia disseminando as suas ideias, e acabou por tomar as rédeas. Os marxistas conservaram-se no poder até que os partidários de Bakunin, que se transformara num intransigente anarquista, introduziram-se na organização e em poucos anos a desmembraram, acabando com ela.

Enquanto existiu, a Internacional foi um meio de divulgação para a teoria econômica da história. Os próprios sequazes de Bakunin e Proudhon, apesar de opostos ao programa de Marx e hostilizados pela agressividade deste, aceitavam plenamente a sua tese fundamental – a base econômica. A teoria passara a formar parte sólida do patrimônio científico.

A todas essas, os trabalhos do seu grande livro iam avançando. Nos fins de janeiro de 1867 ficaram completos os originais do primeiro volume de Das Kapital, e Marx meditou uma viagem à Alemanha para tratar da sua publicação.

 

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Com o primeiro volume do Capital, o grande teorista produzira a sua obra máxima. Nunca pôde dar vencimento à elaboração do formidável material coligido para o segundo e terceiro volume. Fê-lo Engels por ele, depois da morte de Marx. Mas o primeiro volume bastava; não havia mister e de um Novo Testamento para elevar rapidamente este livro à sua posição atual de Bíblia da classe operária.

O principal característico do capitalismo, diz Marx, é a discordância entre o valor criado pelo trabalho e o valor que o trabalhador recebe em troca, sob a forma de salário. Esta diferença, que ele denominava sobrevalor (encontramo-la sob outros nomes: mais-valia, ganho gratuito, lucro, interesse, renda do capital etc.) é o que o capitalista embolsa como prêmio da sua “contribuição" no trabalho produtor. Marx afirmava que, sendo todo valor criado pelo trabalho (aceitava isto como um axioma), o que o capitalista reserva para si é coisa roubada; e só consegue coonestar este furto, está claro, porque sua classe é a classe dominante e tem nas mãos o governo do país.

A penetrante análise que Marx fez do capitalismo e a sua predição do caminho que este seguiria revelaram-se admiravelmente exatas à luz de uma multidão de fatos sobrevindos após a sua morte. As repetidas crises que ele tinha predito sucederam-se cada vez mais graves. O alucinado esforço da classe burguesa em expansão para granjear novos mercados foi amplamente demonstrado pelos sucessos da China, África, América Meridional e Central.

Quando a segunda edição de O Capital foi publicada em 1873, Marx enviou um exemplar a Darwin, que lhe respondeu como segue:

 

"Presado Senhor:

"Agradeço-lhe a honra que me fez enviando-me a sua grande obra sobre o Capital. Desejaria de todo o coração ser mais digno do presente, compreendendo melhor este profundo e interessante assunto da economia política. Apesar da grande diferença que existe entre os nossos estudos, creio que ambos visamos ardentemente o progresso do saber; e isto virá, por certo, a concorrer para a maior felicidade humana. Subscrevo-me, meu caro senhor,

Seu admirador sincero

Charles Darwin.”

 

Na quadra final da sua vida, a pobreza fez-se menos dura e Marx pode abandonar-se a uma das prerrogativas da velhice: a bonomia [Osório diz: “característica ou procedimento próprio de pessoa bondosa, sem afetação e sem malícia.”]. Alargou o seu círculo de amigos, tornando-se um homem mais brando e menos combativo.

Mas a velhice de Marx não foi toda de rosas. Assistiu à dissolução da Internacional, graças à tática funesta de Bakunin. Houve constantes discussões com seus amigos sobre pontos de doutrina. Marx esforçava-se por seguir a linha reta traçada em sua teoria, sem tolerar jamais as tergiversações utópicas e as modificações pequeno-burguesas que nela procuravam introduzir liberais e adversários. Com essa belicosidade intratável, contudo, dava ele um mau exemplo aos seus discípulos, que tratavam de rivalizar com o mestre em arrogância e firmeza dogmática. Apesar de tudo isso, era ele um homem que, sob um exterior ríspido por vezes, escondia infinito amor aos que trabalham e são oprimidos.

Seus males físicos eram cada vez mais difíceis de suportar. Terríveis dores de cabeça o torturavam durante as horas de trabalho. Mas ele permanecia ativo, interessado, lutando sempre pela sua revolução. Acrescentou o russo às numerosas línguas que já possuía, e lançou-se num estudo das condições sociais na Rússia. Viu mais um movimento proletário esmagado na França, em 1870, quando a Comuna de Paris, ao cabo de várias semanas de ingentes esforços para estabelecer um governo operário, tombou ao assalto da reação. Mais uma esperança despedaçada. Marx, entretanto, nunca perdeu a coragem e a fé. Até o último momento pugnou por suas ideias. Vivendo embora no ostracismo e assoberbado pela pobreza, negava-se a qualquer transigência.

Um de seus colegas mais moços disse-lhe uma vez: "É extraordinário, camarada, que você, tendo lutado tanto, possa ser tão paciente”. Respondeu Marx: “Quando você tiver lutado tanto como eu, já não se maravilhará da minha paciência.”

Foi para ele um golpe terrível quando, em dezembro de 1881, a morte levou-lhe a esposa, a companheira dessa grande existência de provações e adversidades. Ao ouvir a notícia, Engels disse: “Marx morreu também”.

Era verdade. O golpe abateu-o, e quando sua filha mais velha faleceu um ano depois, o desgosto minou aquele possante organismo, que já não pode resistir.

Todas as suas doenças antigas assaltaram-no com redobrada violência. Ele voltou do enterro da filha para morrer. Os médicos, contudo, esperavam conservar-lhe a vida, e o próprio Marx pensou que talvez ainda pudesse terminar O Capital. Mas enganava-se.

Na tarde de 14 de março de 1883, Frederico Engels encaminhou-se apressadamente para a casa de Marx, no N.° 45 de Maitland Park Road, Haverstock Hill. Recebera um chamado urgente da família. Marx tinha sofrido um ataque cardíaco e receava-se que o fio da vida se rompesse a qualquer momento. Engels subiu a escada do gabinete. Lá estava o seu amigo, sentado numa cadeira de braços. Parecia dormir, mas ao aproximar-se da cadeira, Engels viu que Karl Marx estava morto.

 

Fonte: Arquitetos de ideias, Ernest R. Trattner, tradução de Leonel Vallandro, Globo, Porto Alegre, 1944, p. 224/250.

 

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