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Mito: verdade e fantasia.

 

escultura Vitória de Samotrácia 2

Mito: verdade e fantasia.

 

A mitologia helênica é uma das mais geniais concepções que a humanidade produziu. Os gregos, com sua fantasia, povoaram o céu e a terra, os mares e o mundo subterrâneo de divindades principais e secundárias. Amantes da ordem, instauraram uma precisa categoria intermediária para os semideuses e heróis. Grandes observadores, criaram novos nomes e figuras para os diferentes fenômenos da realidade natural. A mitologia grega apresenta-se como uma transposição da vida em zonas ideais. Superando o tempo, ela ainda se conserva com toda a sua serenidade, equilíbrio e alegria. Prodigamente, alimentou a literatura e as artes através dos séculos. A cultura ocidental deve-lhe muito do espírito e do sentido, senão do próprio fato de existir.

Os gregos não foram grandes políticos, nem criaram, militarmente, nenhum império coeso. Admite-se mesmo que seu espírito crítico deve ter contribuído para sua fragmentação política em um punhado de pequenos Estados. Mas levou-os, ao mesmo tempo, à contemplação da vida, do mundo, do homem, para perguntar: qual é a origem dos seres?

A resposta obtida não visava ao Nada, nem a um deus criador, mas a um espaço aberto, chamado Caos, onde existe matéria informe à espera de ser organizada. Não podiam chegar ao Nada, porque para os gregos o Nada é impensável. Mesmo sua matemática ignora o zero. “Do não-existentenada pode nascer e nada pode desaparecer no nada absoluto”, diz o filósofo Empédocles (495?-435? a.C.). Não chegaram à ideia de um deus criador, pois perceberam que tudo o que existia, embora mostrando-se regido por uma força vital única, apresentava várias formas, diferentes maneiras de ser, múltiplas funções, graus infinitos. Um deus criador único, segundo eles, não poderia ter deixado escapar uma variedade tão imensa e até contraditória de fenômenos, sem perder ele mesmo, deus único, a sua unidade criadora essencial.

Portanto, conceberam o Caos, algo já existente, massa rude e carente de estrutura, onde forças intrínsecas e latentes poderiam, se organizadas, produzir e perpetuar a vida. O Caos não é, pois, a desordem, a confusão. É a possibilidade de tudo. A sua ordenação não foi providenciada por um deus operando de fora. Ao contrário, os próprios deuses nascem, de alguma maneira, dessa matéria. Pois é a Terra — condensação da matéria - que, em amoroso amplexo com o Céu, dá origem às divindades primordiais.

O homem também nasceu assim. Por isso, o poeta Píndaro (518-446 a.C.) canta: “Igual é o gênero dos homens ao dos deuses, pois todos tiramos a vida da mesma mãe; apenas, uma força completamente diferente distingue os deuses".

A força que ordenou o Caos deixou nas entranhas da Terra uma multiplicidade de poderes geradores, que engendraram todas as formas existentes na superfície terrestre: seres vegetais e animais, trazendo cada qual dentro de si o eu próprio dáimon (força misteriosa). A vida e suas manifestações são obra de um dáimon, que elas guardam como elemento responsável, também, por sua maneira de ser.

Aqui se encontram as raízes do mito, como tentativa de penetrar, pela imaginação, os esconderijos do que não se explica de outra maneira: o mistério da existência.

 

O QUE É MITOLOGIA

 

Com a palavra mitologia designam-se dois conceitos: o conjunto de mitos e lendas que um povo imaginou e o estudo dos mesmos. A palavra vem do grego mythos, significando fábula, e logos, tratado. O conceito de fábula não nos deve induzir a crer que o mito seja uma ficção caprichosa da imaginação. Dentro da narrativa mítica esconde-se um aspecto, um núcleo, que encerra uma verdade. A fábula, pelo contrário, refere-se a acontecimentos realmente imaginados e que não modificam a condição humana como tal. O mito relata uma "história verdadeira”, na medida em que toca profundamente o homem — ser mortal, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver, submetido a acontecimentos e imprevistos que independem de sua vontade. Dizer-se que sob uma forma “fabulada”, imaginária, a mitologia narra uma história do homem através dos milênios, não seria afastar-se muito da verdade.

É a história da criação do mundo, do homem, de múltiplos eventos cuja memória cronológica se perdeu, mas que se preservaram em uma memória “mítica”.

Para a consciência mítica, tudo deve ter tido a sua origem. Se esta origem ficou encoberta pelas trevas do tempo e do mistério, isto não significa que não possa ser recuperada pela imaginação. A realidade das coisas está aí a demonstrar a repetição das origens nos ciclos da vida. A temporalidade dos acontecimentos pouco interessa. Interessa, sim, o fato de que eles se repetem: e por isso são perenes.

O mito consiste nesta “história perene": é a história dos acontecimentos que são eternos porque se repetem. Reconhecendo em cada ato cotidiano uma participação nos grandes ciclos da vida que não são mais que a repetição dos ciclos-modelo narrados pela mitologia –, o homem sente-se participar da grande eternidade mítica, e liberta-se de sua transitoriedade. Integrado em suas origens, ele consegue, senão propriamente sobreviver, viver integralmente. Dentro da mentalidade mítica, a própria morte pode fazer sentido: é o fim da última repetição, e, por isto mesmo, a suprema reintegração nas origens.

Mas esta reconciliação do homem com a vida e com a morte (uma impossível sem a outra) mal pode distinguir-se da integração total com a natureza, especialmente a natureza desde as mais primitivas até a viva. Através da mitologia mais moderna de suas formas, disfarçada em ficção científica – , sempre o homem procurou compensar a distância que o separa, cada vez mais, do universo irracional. Este abismo, o mito busca preenchê-lo, ao misturar todas as origens. Não apenas do mundo e do homem, mas também dos animais e das plantas: e tudo o que nasce, vive, é sexuado e organizado, se desfaz e morre – mas volta e continua.

Devido a seu caráter fundamental, o mito conserva até os nossos dias vitalidade e presença grandiosa: ele trata dos mesmos problemas existenciais, morais e sociais – continuam a afligir a humanidade. Por isto, o homem não deixou de criar novos mitos, muito embora tenha pisado na Lua.

Mircea Eliade, em seu trabalho Mito e Realidade, define de maneira exemplar a estrutura e a finalidade do mito: “De modo geral, pode-se dizer que o mito, tal como é vivido pelas sociedades arcaicas, 1) constitui a História dos atos dos Entes Supremos; 2) que essa História é considerada absolutamente verdadeira (porque se refere à realidade) e sagrada (porque é obra dos Entes sobrenaturais); 3) que o mito se refere sempre a uma “criação”, contando como algo veio à existência, ou como foram estabelecidos um padrão de comportamento, uma instituição, uma maneira de trabalhar; essa a razão pela qual os mitos constituem os paradigmas de todos os atos humanos significativos; 4) que, conhecendo o mito, conhece-se a “origem” das coisas, chegando-se, consequentemente, a dominá-las e manipulá-las à vontade; não se trata de um conhecimento exterior, abstrato, mas de um conhecimento que é “vivido” ritualmente, seja narrando cerimonialmente o mito, seja efetuando o ritual ao qual ele serve de justificação; 5) que, de uma maneira ou de outra, “vive-se” o mito, no sentido em que se é impregnado pelo poder do sagrado, que exalta os eventos rememorados ou citualizados".

 

O MUNDO DOS DEUSES

 

Os primeiros mitos brotam, pois, da projeção imaginativa que o homem faz das máximas funções da vida: nascimento, amor e morte; maternidade e paternidade; virgindade. E sintetizam tudo o que o homem, mediante a inteligência e o sentimento, conseguiu conquistar em face de uma vida que não solicitou, de uma morte que o amedronta, de um amor que o domina e de uma natureza cujos fenômenos (sol, chuva, vento, cataclismos, doenças) o assombram, ou o aniquilam.

A mulher que gera torna-se figuração da mãe universal, e a mesma divindade, por analogia de função, passa a presidir aos nascimentos da natureza toda, e é venerada como genitora e consoladora, como Mãe Imortal. Será Gaia, a Terra, e depois, Deméter. De modo semelhante, a função de pai será assumida por Urano, depois Cronos, e, finalmente, Zeus (Júpiter), consagrado o pai dos deuses e dos homens. As demais relações, diretas e indiretas, com a existência e mundo tomam a figura de outros deuses e semideuses, que habitam o Olimpo, a superfície ou as entranhas da terra. Ao lado dos deuses familiares surgem os da guerra e da paz, da lavoura e dos navegantes, figuras as mais variadas que se vão condensando como reflexo de desejos, necessidades, fatos históricos, situações sociais e econômicas. Elas são a expressão profunda dos aspectos básicos da condição humana em si e das dimensões que esta assume no ambiente e no tempo.

Os deuses, por isto, compartilham com os homens alegrias, ódios e outros sentimentos. Zeus, apesar de sua majestosa paternidade, mostra-se fraco em face da paixão amorosa, e ama diversas mortais. Hermes (Mercúrio), o mensageiro dos deuses, pratica furtos. Ares (Marte), protetor das cidades, estimula guerras e carnificinas. Afrodite (Vênus), deusa do amor que tudo vivifica e da beleza que tudo sublima, trai sem cerimônia o marido Hefestos (Vulcano), deus do fogo. A Eros, que o mito primordial identifica com a força ordenadora do Caos, opõe-se Éris, a Discórdia, que tudo desagrega. E, para conservarem a beleza e a juventude eternas, os imortais do Olimpo alimentam-se de néctar e ambrosia.

Ao se afirmarem na Grécia as artes plásticas (séc. VIII-VII a.C.), essas figuras elementares, que até então flutuavam na imaginação de todos e no canto dos aedos, começaram a encontrar uma interpretação realista. Tão forte, porém, era o símbolo que as vivificava, que a imagem artística, materializada no mármore ou na pintura, não eliminou a concepção transcendente da divindade; pelo contrário, perenizou-a.

Esta fixação artística do mito não significou, entretanto, sua estagnação. Enquanto a civilização grega passava por transformações radicais, também o mito se modificava, em resposta às novas condições econômicas e psico-sociais. Explica-se, assim, como um mesmo mito – ou um mesmo deus tenha, ao longo do tempo, adquirido uma multiplicidade de significados e atribuições que, hoje, são difíceis de compreender, ou parecem contraditórios. Assim também nasceram ou foram importadas outras lendas, que vieram combinar-se com os mitos primitivos, tornando ainda mais complexo e mais rico o mundo mitológico dos gregos.

Percebe-se, por exemplo, que os deuses que aparecem nos grandes poemas de Homero (século IX a.C.), Ilíada e Odisséia, já não são exatamente os mesmos das tradições anteriores. São mais diretamente interessados nas questões humanas e gostam de intervir nas vicissitudes dos mortais. Assim em Hesiodo (século VIII a.C.), autor da Teogonia (e do tratado Os Trabalhos e os Dias): quando apresenta a genealogia dos deuses gregos, nota-se a tendência a colocar uma certa ordem na confusa família das divindades, usando de um critério que muito reflete as condições econômicas e sociais da Grécia agrária daquela época. Já em condições diversas, nos séculos VI e V a.C, quando filósofos e dramaturgos manipulam a matéria mítica, deuses e heróis depõem o halo de superioridade de que os cercara o mito primitivo.

 

MITO E RELIGIÃO

 

“Viver o mito” implica uma experiência religiosa. Todavia, no caso específico dos gregos, é necessário esclarecer que o mito não se identifica com a religião, embora as afinidades e os encontros sejam íntimos e frequentes. A religião pressupõe um corpo de doutrinas, de regras, de crenças e práticas autorizadas ou impostas e aceitas por todo um grupo de modo quase uniforme. Tudo isto, inclusive, pode ter sido “revelado” pelo Ente Superior e codificado num Livro Sagrado, que serve de orientação para a conduta humana frente ao Poder extraterreno e sobre-humano.

A religião estabelece, portanto, um vínculo individual e social com o Poder concebido como transcendente. O mito grego, ao contrário, não liga o homem à divindade, de forma a criar entre os dois uma relação necessariamente doutrinária e normativa. O homem grego pode até questionar os deuses que imaginou, sem com isto sentir-se “em pecado” ou sacrílego. O conceito de pecado é estranho à sensibilidade grega. Uma falta contra a divindade não difere muito da falta contra outro homem. Os deuses não criaram a moral, logo, não podem exigi-la. O sacrilégio que o homem possa cometer contra um deus, subtraindo, por exemplo, algum objeto destinado ao seu culto, não é ato diferente, por sua natureza, de um furto praticado na casa de uma pessoa. É uma ofensa à justiça, que regula os deveres para com os outros, uma ação imoral, porém não constitui desobediência a um mandamento divino.

Em face disto, não há, para o grego, o sentimento de contrição, o tormento interior pelo qual se invoca o deus para implorar-lhe o perdão dos pecados. O homem grego conhece, isto sim, o arrependimento, o desejo de emendar-se e assim melhorar sua natureza. O mito não leva a mais que isto.

"Viver o mito" implica, portanto, esse tipo de experiência: conhecer-se a si mesmo, como estava escrito no frontão do templo de Apolo, em Delfos. Experiência que deve ser entendida mais no sentido naturalista do que propriamente como experiência religiosa. O homem segue a sua natureza, nela encontra a força para modelar sua vida. Pelo uso que fizer desta força, ele é responsável diante de si mesmo, e não da divindade, à qual não são aplicáveis nossos critérios morais.

Vale recordar que é a vida, em toda sua variedade e multiplicidade, que toma forma no mundo dos deuses helenos. Quando o filósofo Tales (640? - 547? a.C.) disse que “tudo está repleto de deuses”, não entendeu referir-se a entidades abstratas e distantes que, num determinado momento, tivessem resolvido criar, organizar e dirigir o mundo. Quis significar a força maravilhosa da natureza, que dá forma a tudo em vista de um fim. Em última análise, o dáimon.

Quem, na Grécia, primeiro colhe esse princípio “demônico(não “demoníaco”, pois nada tem a ver com o Demônio dos cristãos) não é a religião, é o mito. É aquela, entre os gregos, que decorre deste. Por esse motivo, na Hélade, nunca houve um Livro Sagrado, revelado, como aconteceu, por exemplo, entre os judeus, egípcios, hindus, assírios. Os deuses gregos não podem revelar nada aos homens, porque “igual é o gênero dos homens ao dos deuses”. O mito não deixa de expressar profundos anseios religiosos, aspirações morais, necessidades de aperfeiçoamento espiritual, porém não chega a fixar um esquema de leis, prometer prêmios aos bons e castigos aos maus, em bases normativas e constantes. Nem promessas de salvação e ameaças de danação eterna.

Em que consiste, portanto, o mundo divino dos helenos? - pergunta o helenista Max Pohlenz. E responde: “É o mundo em seu conteúdo essencial, a totalidade das forças que nele operam; é a vida contemplada, numa multiplicidade de figuras excelsas e imortais”. A religião grega partirá deste substrato ao ditar as normas de conduta moral para o homem, conferindo aos deuses a figura humana, sem desligá-los da ordem da natureza e das coisas usuais da vida.

Apolo, por exemplo, não é apenas o deus da luz (“Fóibos”), da beleza harmoniosa, da profecia, mas ainda o “Boedrómios” (o socorredor), o “Aguiéus” (patrono das ruas e das estradas), o “Delfínios” (favorável à navegação e ao comércio marítimo), o “Nómio” (protetor dos pastores), o “Sminteo” (destruidor dos ratos), o “Thargélios” (que faz amadurecer os frutos). A religião grega não conhece a experiência mística das religiões orientais, nem o messianismo da judaica. Permanece ligada ao mundo dos seres naturais e das relações diretas entre o cotidiano e o transcendente.

Escavações arqueológicas e profundos estudos filológicos informam-nos, hoje em dia, que a quase totalidade dos deuses superiores da mitologia grega não são autóctones, mas importados de outros povos. Entretanto, esses deuses adquiriram os caracteres específicos e originais da inteligência especulativa dos gregos, tornando-se inconfundivelmente helenos.

Quando os romanos entraram em contato mais íntimo com a civilização grega (século III a.C.), assumiram esse espírito da religião helena, e grecizaram seus deuses, a tal ponto que não é fácil distinguir dos habitantes do Olimpo os protetores da Urbs, Roma. Júpiter, ao identificar-se com Zeus, conservou seu nome latino; assim também Vênus com relação a Afrodite, Marte a Ares, Netuno a Poseidon, Ceres a Deméter, Juno a Hera, Vulcano a Hefestos, Mercúrio a Hermes, etc...

Poucos foram os aspectos latinos que neles permaneceram: a estrutura do mito e a concepção religiosa que os romanos encontraram na Grécia correspondia melhor, parece, ao seu senso prático das coisas e da vida. Por esta razão, pode-se empregar o nome latino para indicar uma correspondente divindade grega, embora a origem, a simbologia e a própria lenda mítica não sejam totalmente idênticas.

 

OS DEUSES NAS ARTES

 

Nos poemas homéricos, o conceito de beleza vincula-se ao resplandecente, ao brilhante, ao vivo, ao claro, ao branco, ao dourado, ao vermelho, ao rosado. Há a beleza do que é elevado: das nuvens, do céu, das montanhas, das águas enfurecidas do mar e, no plano espiritual, do altivo, do digno, do nobre. Há a beleza do numeroso, do grande, do largo, do profundo. Há a beleza do juvenil, do delicado, do florescente, do gracioso, e, por contraste, do forte, do inquietante, do inexorável. A civilização dos tempos de Homero ama a beleza plástica dos palácios, das armas e dos barcos, e coloca em evidência a beleza do canto, da dança e da música-prelúdio do grande teatro grego dos séculos sucessivos.

Tudo se liga às manifestações do mundo que está ao redor, de onde chegam ao homem os efeitos das forças que nele operam. É fácil ver que o conceito de beleza está envolvido de mistério, tanto quanto a luz, as cores, as dimensões das coisas, as proporções dos objetos, as qualidades visíveis e audíveis. A beleza é tão divina quanto os deuses, e por isto é representada por muitos deles, sob todos os seus diferentes aspectos. "Tão fascinante”, se dirá, “como o nascimento de Vênus da espuma do mar; tão atraente como a Aurora que é perseguida pelo Dia, da mesma maneira que Apolo persegue Dafne; tão terrível como Júpiter quando lança os seus raios; tão delicada como Diana quando anda pelas selvas sob o luar; tão fecunda como Ceres, a deusa das messes...”

Se, pois, o mito foi o esforço do homem para captar a natureza e chegou, assim, a criar os deuses, a beleza, para os gregos, é mítica síntese da harmonia, da medida, da ordem dessa mesma natureza, que os deuses mais fortes e imortais — possuem em graus e condições diferentes. Aos homens resta imitar o natural para alcançar o belo, deixando que os deuses lhes ensinem os meios para fazê-lo. Um poeta que canta é inspirado por Apolo e as Musas, porque “graças às Musas e a Apolo há na terra cantores e músicos”, diz Homero na Ilíada.

O conceito de arte, para os gregos, enfeixou-se na imitação da natureza e permaneceu assim; ainda quando o mito e os deuses passaram a ser objeto de análises filosóficas, nem sempre devotas, como as dos sofistas (século V a.C.), ou matéria do drama trágico e cômico, nem sempre reverente, como as tragédias de Eurípides (485? - 406 a.C.) e as comédias de Aristófanes (4482-388?a.C.), Platão (427?-347? a.C.) e Aristóteles (384?-322 a.C.), os maiores filósofos gregos, apesar de cada qual ter dado um matiz diferente ao sentido do termo, insistem em que a arte é mímesis – imitação. E por muitos séculos este conceito norteou princípios estéticos e técnicas artísticas.

As primeiras obras que conhecemos da grande escultura grega (séculos IX-VIII a.C.) são estátuas representando deuses com as atribuições que o mito lhes conferia. O mesmo acontece com as primeiras construções arquitetônicas, que parecem ter sido as dos templos. Vasos ornamentais ou de utilidade cotidiana, feitos de argila cozida, estão embelezados por cenas mitológicas. Utensílios domésticos e objetos de uso pessoal (armas, vestes, enfeites de mulheres e crianças) estão decorados da mesma forma. A literatura grega alimenta-se quase exclusivamente de mitos. E sem o mito não haveria o grandioso teatro de Ésquilo (525-456 a.C.), Sófocles (496? -406? a.C.), Eurípides, Aristófanes e Menandro (342-293 a.C.).

Infelizmente não é conhecida a música dos gregos, a não ser por referências indiretas. No entanto, um dos maiores mitos, o de Orfeu, está centralizado justamente nesta arte, que poetas, filósofos e escritores concordaram em julgar a mais divina entre todas. Orfeu seria o inventor do canto e de vários instrumentos musicais com que atraía não apenas os homens, mas até animais e árvores.

Do imenso patrimônio artístico e cultural dos gregos, nada, talvez, existiria sem a presença fecundante do mito. Também o acervo da civilização ocidental seria bastante menos rico e expressivo, pois é dos gregos que ela tirou seus fundamentos e o néctar que a faz, continuamente, rejuvenescer. Penetrar, portanto, na mitologia grega, é remontar às origens de nossa vida intelectual, quer se expresse na arte, quer se reflita no pensamento filosófico, quer se sublime na admiração do belo, ou através do trágico, do cômico, do lírico e do romanesco. Ou, ainda, quando procuramos perguntar de novo: de onde viemos? Para onde vamos? Quem somos? A resposta talvez fosse: ainda estamos diante de um “espaço aberto”, de um Caos, que espera organização definitiva.

 

Fonte: Abril Cultural, São Paulo, 1973.

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