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Poesia: deleite-se ou delete-me (31.03.17).

 

Poesia: deleite-se ou delete-me (31.03.17).

Maraãvilhosos,

Beto   3ec 

Esta imagem ainda faz parte do legado que me foi deixado por saudoso Beto Zabrockis.

Como ele morreu logo que eu cheguei em Maraã, vindo do Bom Futuro, e a memória sobre ele se resumia a uma única frase, não sei de que família era o “Rauá”, cujo nome verdadeiro também desconheço.

Rauá não morava na sede do município, daí, sempre que estava por lá, estava de fogo. Bebia bem! Era um dos nossos!

Uma das atividades de lazer, na época, era ir assistir as sessões da Câmara de Vereadores! (PqP!).

Lembro que o tio Marcelino Cavalcanti, então presidente da Câmara, quando da abertura dos trabalhos dizia: “Nu pudê que me acho investido, declaro aberta a sessão”.

Foi quando ele terminou de dizer a frase acima que o Rauá teria completo: “Vai começar a otaria, rapaz!”, que traduzido significa: “Vai começar a putaria, rapaz!”. Resultado da graça: chamaram a polícia e mandaram prender o desbocado.

Ou seja, desde os idos de 1971, quando isso aconteceu, a câmara já era avacalhada! Ou seja, sempre foi o que alguns pensam que é moda atual!

Rauá, bêbado, morreu afogado numa baixa que alaga durante as cheias do Rio Japurá e que separa as avenidas Hiram Habibb e José Gonçalves Ramos. Como lá não tinha peixe, seu corpo foi encontrado em estado perfeito.

Aliás, nesta baixa, cujas águas ficam cobertas por plantas (gramíneas?) aquáticas, certo dia o “Sabá Lobato”, correndo da polícia, mergulhou para se esconder. Depois que a polícia se afastou, seu amigo João Afonso foi procurá-lo, gritando:

“Sabá, Sabá, Sabá...”.

Lá pelas tantas, Sabá coloca o nariz e a boa para fora do capim e diz em tom quase inaudível: “Fala baixo”, e torna a mergulhar.

Disse que o corpo do Rauá ficou perfeito por que é comum as pessoas que morreram afogadas no Rio Japurá e no lado de Maraã terem os seus devorados pelos peixes, em especial pela “piracatinga”!

Alguns corpos, quando do resgate, ainda trazem dentro de si os peixes vivos que corroíam suas entranhas!

Para meu desespero, quando morreu vários membros da família “Só” (Pedro Só, Maria Só e creio que mais uns dois “Só”), eu inventei de ir ver os corpos durante o velório na igreja. As carnes de suas faces tinham sido devoradas pelas piracatingas, estavam todas com os ossos à mostra, e com aquela espécie de sorriso macabro. Fiquei vários dias impressionado e com medo, tendo muita dificuldade para dormir. Aliás, tenho medo até hoje, daí nunca mais ter ido ver corpos em tais situações.

Abraços,

Osório

POEMEMOS

Se sou mar.

Sou mar sem cume

Se sou morro.

Sou morro sem cume

Se sou multidão.

Sou multidão sem cume

Se sou razão.

Sou razão sem cume

Se sou esperança.

Sou esperança sem cume

Vivo no topo do amor resistente

Beirando eucaliptos que afagam meu rosto do alto

Deslizando por cabeças de bambus delirantes

Enquanto meus pés procuram por um ponto metafísico

Equilibro entre edifícios, meu corpo escapa por antenas de radiodifusão

Pouso bem em cima de um caos programado,

Trago ferramentas para desativar qualquer realidade

Qualquer realidade aterradora, sem o sonho deliberado,

incapaz de me tirar do chão.”.

 

Autor: Marcio dal Rio (é o poeta vencedor do Prêmio Maraã de Poesia, edição 2016 [“vá amolando suas facas para o próximo!!!]).

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