Livros que Li

tercio

“Roteiros para uma vida curta”, Cristina Judar.

 

“Roteiros para uma vida curta”

 

Cristina Judar

 

Conheci a autora no mesmo dia e hora em que conheci sua obra, as quais me foram apresentados pelo editor Marcelo Nocelli (Editora Reformatório). Isso foi no dia 02 de junho de 2016, sendo que terminei a leitura do livro no dia 10 do mesmo mês e ano – não li direto, por certo, já que outras obrigações se impunham – tendo o “filho” da Cristina Judarme deixado as impressões abaixo que quero dividir com vocês.

Parêntese inicial e final: ao iniciar a leitura da obra, disse para mim mesmo: “isso não é minha praia! É literatura de mulher!”.

É que a autora fala, por exemplo, em saia fru-fru! Sei lá que diabo é isso e outras digressões/expressões mais que, realmente, eu não tenho uma pré-compreensão para entender do que se trata!

Felizmente, por ter me tornado “amigo” de rede social da autora, vi seu compartilhamento de matéria sob o título “Literatura Lésbica: tudo o que você sempre quis saber (mas não tinha tido a oportunidade de perguntar).”, que está em: http://www.reversamag.com/tudo-sobre-literatura-lesbica/. Caí em mim mesmo, já que era o mais próximo de mim mesmo que existia, existiu, existe e existirá que eu podia cair!

É que talvez – por eu ser neófito em tudo, a despeito de já entrado nos anos –, tivesse necessidade, ou curiosidade, de tentar entender o que diz a autora e, assim, continuei a leitura.

Porém o encorajamento maior veio da própria autora ao apresentar a matéria acima, que também é deu sua autoria, quando ela diz:

“O tema ‘literatura lésbica’ dá pano pra manga e abre espaço pra infinitas discussões. Eu, particularmente, não gosto da segmentação. É literatura, e ponto.”.

Concordo totalmente!

Tudo dá panos para as mangas, mas se as pessoas não discutirem (explicarem, ensinarem) as trevas se impõem!

Gosto mais de: literatura que te agrada e que não te agrada e PONTO, digo eu PONTO de novo e final de parágrafo

Vamos a uns tópicos que separei, informando, antes, que gostei, particularmente, dos contos que se iniciam nas páginas: 27, 33, 43, 49, 53, 79, 95, 107 e 137.

O da página 107 (“Jardim de begônias”) era o meu favorito, que, após conhecer o da 139 (“Nada originais”), perdeu o posto e elegi este último como o meu preferido!

Diz a autora:

Na Jataria do ônibus, nos lamentos dos freios do metrô, nas solas dos sapatos em eterno atrito com o cimento, nas sacolas das donas. Alastrado feito um vírus mutante, aonde quer que Lídia estivesse. (p. 69) [Osório diz: Aqui a autora mostra ter conhecimento de um mundo que não é frequentado por todos! Daí certa dificuldade que senti em entendê-la].

“Para aplacar o mal, apelava para seus dotes artísticos, montava mosaicos de roupas ao vento, um varal de cores sortidas”. (p. 69) [Osório diz: Essa imagem é muito bonita, mas, infelizmente, poucos prestam atenção e as máquinas de secar roupas estão pondo fim, pelo menos nas grandes cidades, a esse espetáculo].

... desceu a rua atrapalhando o futebol dos me­ninos, passou pela igreja evangélica de garagem, o bar. (p. 70) [Osório diz: gostei da nomenclatura! Nova, para mim!].

... diáfanos ... (p. 87) [Osório diz: dos poucos livros que li do Gabriel Garcia Marquez, sempre percebi que ele usa, constantemente, esta palavra! Alguns autores, pelo menos para mim, parecem ter suas palavras favoritas. Carlos Heitor Cony, por exemplo, sempre que pode, usa o “cabotino”!].

“fios. como cabeças de vermes. esgueiram-se para o des­tino ao qual marcham calmamente. certos de que lá irão chegar. comovido, assisto à sua luta tímida, con­templo seu esforço em desempenhar seu papel de ma­neira satisfatória e uniforme, de forma a não prejudicar as trajetórias de seus irmãos, também resignados, en­trelaçados e cegos, na mesma medida. de certa forma, eu, aqui sentado, ao olhar para o quadro de tapeçaria na parede à minha frente, sinto-me como se fizesse parte dessa trama, na torcida para que tudo corra bem e a padronização resulte em uma estampa bem definida e a contento de todos.” (p. 91) [Osório diz: Salvo engano, foi a minha primeira experiência em ler um texto que “não obedece às regras (ordens, determinações, imperativos) gramaticais, coisa que eu, por desconhecimento, e sentimento contrário à violência contida nas regras, sempre impostas pelos mais fortes, pelos dominadores, sempre adotei e, agora, passei a admirar o ato de rebeldia, embora não goste daquela escrita “emendada” do Saramago, mas, talvez, por não ter me afinado/gostado/compreendido a mensagem do escrito dele que tentei ler (“O Evangelho segundo Jesus Cristo”). É que a autora inicia parágrafos e pós-pontos sem maiúsculas!].

... aprenda de uma vez por todas: questionamento traz sofrimento; credulidade traz felicidade. (...) ... sua mãe absorvida por uma daquelas revistas sugadoras de almas... (p. 93) [Osório diz: já tinha ouvido: “eu era tão feliz na minha ignorância”! Leria a mãe a revista “Caras” ou a “Baratas”? Duvida cruel, já que o não nominado não existe!].

Uma senhora com cabelos em um ninho de laquê e camada-sobre-camada de base e blush abre a porta. Ela sorri fixamente, espera que eu me apresente, faço referência à minha amiga, claro! Você é a Júlia, a Thelma me falou de você, ela manda eu entrar, um beijinho, depois outro. seu perfume é forte, ao indicar a direção da sala suas unhas arranham meu antebraço, entre e fique à vontade! (p. 121) [Osório diz: eis um exemplo de assunto difícil para homens, pois isso são “coisas de mulher”! Além dadesobediência à gramática, nova e felizmente].

... canapés... (p. 123) [Osório diz: ouço e leio muito pouco esta palavra! Mas, lembrei-me de tê-la lido em Manchado de Anil, digo Machado de Assis!

A autora fala de um alimento, mas tinha lido no autor carioca com outro significado, por isso fui no “Pai Google de alguns” e encontrei:

“O que significa canapé em ‘Dom Casmurro’, de Machado de Assis?”.

Resposta:

“Espécie de sofá, com a estrutura de madeira visível”.

O alemão ainda não comeu o meu cérebro! E, espero, que ele não faça isso nunca!].

Eu sonhava acordada, queria que aquele homem me socasse, minhas carnes estavam duras demais, o tanto quanto são duras as carnes das garotas de dezesseis, mas ele se limitou a apenas tocar o seu instrumento. (p. 130)  [Osório diz: Enigmático parágrafo! O soco é uma porrada!].

O pernilongo e sua violência de vampiro que anuncia vorazmente o ataque, a combater sua insignificância de serzinho esmagável com o som emitido em proximidade ao ouvido da vítima, esse filho da puta burro e ao mesmo tempo inteligente é capaz de desestabilizar o mais temível chefe de estado e líderes de organizações terroristas.

Abandonei a ideia de uma possível razão ritualística para tamanha provação. Miraculosamente, consegui esmagá-lo com a palma da mão. O minúsculo predador agora estava resumido a uma aquarela de sangue e asinhas amassadas que não mais atormentarão a paz do mundo. (p. 132) [Osório diz: um dos meus raros inimigos na Amazônia, já que sou de lá.

O tema relembrou-se o seguinte conto:

Maldito

Você abusou de mim, durante o sono

Deixou marcas indeléveis por todo corpo

Depois relegou-me ao terrível abandono

Foi à primeira vez, juro, fiquei quase morto

Você cantou no meu ouvido, eu adormeci

Acordei, com medo de acordar, de todo

Foi bom pra você? Não sei. Pra mim? não vi

Seu canto, seu cheiro, seu…foram engodos

Hoje, tenho medo de dormir, muito medo

Eu não pretendo cometer os mesmos erros

Fecho minhas janelas…não durmo tão cedo

Deixo a luz acesa até pela manhã

Embrulho-me todo, da cabeça aos pés

Não terá mais chance, maldito carapanã!”.].

a vitrola suspendia os riscos e fazia a agulha percorrer a vastidão de um álbum de rock progressivo dos anos 70; o som vinha de um cômodo anexo. (p. 135) [Osório diz: o “cômodo anexo” me remeteu à Ângela Maria e o seu “Tango para Teresa”, que é lindo!].

... sofá verde musgo, em profundo desacordo estético com o veludo preto de seu sobretudo. (p. 135) [Osório diz: não estou acostumado com esses julgamentos estéticos da autora!].

eu sabia. para a sua situação, não havia saída: a im­possibilidade de interagir com os quatro elementos via. (p. 135) [Osório diz: guerra à pontuação!].

cinco sentidos é ruim demais. corremos a vida toda com um único fim: deixar marcas no mundo. carimbos, filhos, pegadas, cachecóis: os seres humanos nasceram para deixar rastros. os seres humanos são caracóis. (p. 136)  [Osório diz: concordo plenamente, e fazemos isso mesmo que inconscientemente. Escrever nas redes sociais tornou isso mais fácil!].

... tinha o efeito de uma lança prestes a cair sobre nossas cabeças. (p. 136) [Osório diz: se a autora fosse do mundo do Direito (jurista) teria usado a “espada de Dâmocles”! Felizmente, não o é! Rs. É que os desse mundo são tidos por insuportáveis por conta do seu juridiquês! Mas, é isso, cada um na sua!].

... para conferir quais são os dedos que sobram depois que os anéis se vão. (p. 137) [Osório diz: gostei muito dessa frase/verso!]

… as pessoas se assustam com a concretude dos objetos dedicados à morte. Neste caso, uma lápide com caracteres esculpidos à mão... (p. 137) [Osório diz: Octavio Paz diz: “Nascemos para a morte” e “ao nascermos, já somos velhos para morrer”, daí não deveríamos ter tanto susto, mas existem os religiosos, os “assustadores profissionais”!].

[Cristo geme espinhos enquanto eu, vítrea capelã, oro ao olho de deus, ouro. (p. 141) [Osório diz: Lembrei-me de Marcos Bagno e o seu “Preconceito Linguístico”! É que eu fui criado numa região de fronteira (Brasil/Colômbia/Peru), daí, ainda hoje, lembrar-me, na ora de escrever, que ouro “em português” não é “oro” em espanhol! E são tantas outras palavras...].

Traço por traço. Linha por linha. A cada palavra. Um extrato meu. Minha tentativa frustrada. Todas as frases entregues ao vigário, a reprodução de cada respiração estilística. Sem ao menos uma paráfrase, a tentati­va de um disfarce, o uso de máscara ou capuz. (p. 147) [Osório diz: a autora descreve a sensação de ser plagiada! E quem é plagiada o é por não ter recebido os créditos pelo seu trabalho, vindo daí, penso, uma sensação de ser vítima mesmo quando se é o algoz, se assim posso dizer! Pois é o algoz que ao triunfar, que ao ser o vencedor, por ter seu trabalho tido por tão bom que mereceu ser copiado, se sente impotente e menoscabado diante da ausência de seu reconhecimento como autor daquilo que o outro, o plagiador, julgou ser seu ao apropriar-se daquilo que não lhe pertence, que não foi capaz de criar, mas que admira, numa inveja sem limites mas, ao mesmo tempo, com veneração sublime, porém que o copista é incapaz de ser totalmente honesto o suficiente para dizer, admitindo, sem subterfúgio: foi fulano quem escreveu e eu, que gostei tanto, tento fazer meu o que é dele!].

[Osório diz, para finalizar: a autora brinca com a língua, com as palavras. Ela tem muitas informações, conhecimentos que, principalmente, não fazem parte do universo de um leitor homem como eu, pois fui criado naquele universo em que as brincadeiras de meninos eram separadas das brincadeiras de meninas.

Por isso é engraçada e cativante a forma como a autora brinca/joga/dá/toma/planta/rega/colhe/corta/poda/enxerta/estica/encolhe/solta/prende/liberta o linguajar que cultiva ao desenvolvê-lo].

Foi isso que vi e senti.

Boa leitura terá quem me ouvir! Rs.

Até mais,

 

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