Livros que Li

tercio

A Imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf.

 

Caroas todoas,

 

 

Pela imagem na e da capa, pelo título, pela editora, pelo editor (que também, nesse dia, era vendedor), mais que pelo sobrenome do autor (vixe, vixe, vixe, rs), no dia 03.10.15, por R$ 30,00, comprei o livro

 

A Imensidão Íntima dos Carneiros

de autoria do Marcelo Maluf, pela Editora Reformatório. 

 

Entrou na fila de leitura e ficou esperando, pacientemente, a sua vez.

Chegou o seu dia, que eu esqueci de marcar, e fomos à luta prazerosa, como a de dois corpos quando se amam!

Já tinha gostado da beleza da capa, como disse, mas gostei também do tipo (lembrei dos “tipógrafos”! Ou seja, da fonte) das letras. Tem um “Q” com rabão imenso. Gostei da diagramação: tamanho da fonte e espaçamento. Gostei da textura do papel. Ou seja: tinha tudo para ser uma boa leitura. 

- Vai ao conteúdo, lindo e sábio Osório, “me disse-me para mim mesmo”.

Fui.

Inicio dizendo que a prosa poética do Marcelo, cujo sobrenome não vou citar (risos), me encantou e me incentivou a procurar aquela beleza em outros autores, pois eu tinha, também, acabado de ler o livro “O lirismo grego”, de Otoniel Mota (obra de 1934), por cujo título vocês já podem imaginar que foi um casamento perfeito, pois Otoniel, nessa obra, também esbanja metáforas poéticas de beleza inigualável, digo, “igualável” às do Marcelo, como lerão abaixo em alguns trechos que ora transcrevo do Maluf de outro ramo:

 

Todos os dias, na escola, eu riscava na transversal com lápis verde e amarelo as folhas do meu caderno antes do início das aulas. Cantávamos o hino nacional. Saudávamos a bandeira. [26] [Osório diz: retrato em preto e branco da época da ditadura militar! Também vivi esse momento].

 

Eu vivi longe da sua língua materna e da sua cultura, ileso da sua história. Ileso também dos generais brasileiros que assassinavam impunemente. Protegido pela infância. Sem receber nenhum estilhaço de bomba ou bala, sem ter qualquer arranhão, ileso, inclusive, de saber sobre a guerra, de saber sobre os presos políticos no Brasil, de saber sobre a verdade tanto de lá quanto daqui. Mesmo assim eu tinha medo. Medo da sombra do abajur no quarto, do bicho-papão na madrugada, e foi sempre pelo medo de ir ao banheiro sozinho que eu deixava o lençol molhado quase todas as manhãs.

Tive medo, em 1981, de ir para a escola, medo de pular na piscina pela primeira vez, medo de dar o primeiro beijo, medo de perder nos jogos e competições esportivas da escola, medo de caminhar no meio do mato, medo do silêncio, medo de barata, de rato e de sapo. Eu tinha medo do Cristo morto, medo de Deus e dos castigos que eu receberia invocados pelo seu nome, medo do diabo e do inferno. [27[Osório diz: diferentemente do autor, tive poucos medos, embora haja semelhança entre sua cidade e Maraã].

 

"Uma estrela cadente é um segredo que se guarda para sempre nos olhos, pois eles contemplaram o último sopro de uma luz". [31] [Osório diz: essa imagem é linda!].

 

… palavras da tia Zakiya dançando em sua mente. [32[Osório diz: eis as construções belas das quais lhes falei! “Palavras dançando na mente”! Poesia em estado natural. Beleza sublime].

 

Ela ainda jovem, sem esse ar exausto que carrega agora, de quem já não espera nenhuma surpresa da vida e se acomoda sem querer mais nenhuma mudança. [45[Osório diz: isso chama-se “praga da velhice”!Espero fugir dela, pois a condeno nos velhos! Espero nunca ser um acomodado].

 

"Se eu não posso fazer grandes mudanças na minha vida, ao menos mudar a cor da parede da minha casa eu posso".  [45[Osório diz: O que não deixa de ser uma mudança! Simples, mas mudança!].

 

Por isso eu o admirava, tinha a capacidade de errar, se irritar e, em seguida, rir de si mesmo. [46[Osório diz: Rir de nós mesmos é uma libertação da angústia que certas horas nos quer tomar a alegria de viver].

 

Uma fortaleza de fragilidades”. [46[Osório diz: eis as construções belas das quais lhes falei! “Fortaleza de fragilidades”. Beleza sublime. Segundo um “pai de sábios”, o Priberam, essa construção é um o·xí·mo·ro (grego oxúmoron) (substantivo masculino), e, na Retórica é uma “Combinação engenhosa de palavras cujo sentido literal é contraditórias ou incongruentes”. Será que é isso mesmo? De qualquer modo, não me interessa, nem a vocês, acredito, pois não somos gramáticos tarados, apenas admiramos a beleza que sentimos ao ler uma frase como esta].

 

Meu avô se senta à janela e se põe a escrever. Sua mão esquerda treme ao contato do lápis com o caderno, pois a palavra não consegue legitimar a sua aflição. A palavra é um arranjo ilusório. Um artifício incapaz de fidelidade para com o sentimento da perda. A sua mão esquerda tremendo é mais fiel a ele do que qualquer palavra escrita. [26] [Osório diz: todo poeta, realmente, é um fingidor! Veja o “mentiroso” Marcelo dizendo que “A palavra é um arranjo ilusório. Um artifício incapaz de fidelidade para com o sentimento da perda”, quando, na verdade, com sua palavra escrita ele mostra, demonstra e nos faz sentir o sentimento da perda de seu personagem! Que maravilhosa contradição!]. 

 

"Você pode até o acobertar, mulher, mas essa noite ele não entra em casa...”. [60[Osório diz: Regra geral, a mãe é que acoberta as safadezas dos filhos! Seja “nas Arábias”, origem dos personagens e do escritor, seja no Brasil, dentro das matas da Amazônia, como em Maraã].

 

"Um dia você também quis voar, meu pai, por que não consegue compreender o meu bater de asas ?" [61[Osório diz: O eterno conflito entre juventude e experiência! Embora a gente deva criar os filhos para o mundo, sabemos que na tentativa de voar eles podem se machucar, como ocorreu conosco e não queremos o pior para eles! Como conciliar isso?].

 

Pois o inverno é a vigília do tempo, é o segredo do que virá. É o gesto de compaixão da terra para com os seres que nela habitam. O inverno é a medida de nossa permanência e logo concluímos que sem o cuidado mútuo somos mais frágeis que as asas de uma borboleta. Aprendo a ter gratidão pelo Criador que me deu esses pelos e o inverno me traz mansidão. [70][Osório diz: Fugi do calor manauara em busca desse inverno! Mas nunca tinha lido ou ouvido elogio tão merecido ao querido inverno].

 

A morte pode estar em qualquer lugar. [71[Osório diz: E não adianta se esconder!].

 

… se quiseres vencer não há outro modo senão comungar a vida junto aos vencidos. [75[Osório diz: Tenho uma queda muito grande pelas razões e causas dos vencidos, daí ter me identificado com este verso].

 

… esse áspero segredo que me flagela os ossos e me queima. [91][Osório diz: Lá vem o cara de novo arrasandoÁspero deve ser seu rosto com barba por fazer, como me diz minha filha Antonia Angela de 5 anos quando a beijo sem ter raspado a minha! Só o outro com “o meu sangue ferve por você” foi tão esplêndido].

 

… cebola… [92[Osório diz: O personagem, que começava a escrever (ser alfabetizado) escreve a palavra com “c”? É que já começou acertando! Nem teve asdúvidas que todos temos se cebolanão seria escrita com “s”? Rs.].

 

… não olhar nos olhos, referindo-se aos carneiros, senão corria-se o risco de se afeiçoar. [93][Osório diz: Perdi nos caminhos da memória onde meu filho ainda pequeno, Osório di Maraã, lia alguma coisa que tinha o “se afeiçoar” e sua pronúncia me encantava! Mas o segredo é este: não olhe nos olhos!].

 

A mãe quase nunca falava, era pela ação que se fazia notada. [96][Osório diz: era uma mãe que leu Hegel, digo Engels, pois este (Engels) dizia que “uma ação vale por toneladas de teoria”!].

 

… sua imagem iria aos poucos se tornar a minha memória. [104][Osório diz: Bem mexicano isso com seu culto aos mortos! Gosto do desenho animado/filme “Festa no céu”, que me foi indicado por Antonia Angela, citada acima!].

 

Juarez” [106[Osório diz: Esse nome faz parte da minha vida: pai, filho, primo, editor, professor! Todos Juarez! Agora mais um!].

 

Com Haia eu irrompi minha consciência para as dores do mundo, para os miseráveis, os oprimidos das cidades e dos campos, para a libertação da Palestina e do Tibet, para a seca no Nordeste, a devastação na Amazônia, para os esfomeados na Etiópia e os horrores de toda e qualquer guerra. Com Haia aprendi a meditação de tradição zen e a conhecer melhor os desejos do meu coração. [110[Osório diz: tirando o zen, aprendi isso tudo com a Haia que não sei quem é!]

 

Sabia da devastação causada por uma pergunta. [112[Osório diz: Daí o “ódio” aos filósofos e suas perguntas desconcertantes! Lembro que certa vez, um tal Maluf, estava em um entrevista e o repórter Ernesto Varela (Marcelo Tas) veio devagar e perguntou a ele diretamente: “É verdade que o senhor é corrupto?”. Foram megatons de destruição! Tem várias desse tipo, em especial aquelas que as mulheres fazem aos seus namorados e/ou maridos].

 

Dei ao cordeiro o nome Khnum, igual ao deus egípcio, metade homem, metade carneiro. [113][Osório diz: Aqui talvez esteja a razão de sempre alguns fazerem a divisão: Cultura Oriental e Cultura Ocidental! O Egito já tinha esse deus aí muito antes, creio, de os gregos “criarem” seus centauros. Há ligação nisso que pergunto?].

 

… imensidão íntima… [113][Osório diz: Onde encontrei o título da obra].

 

Assaad, meu pequeno amigo da neve, escrevo também para me despedir, não devo viver muito mais. Sinto que o meu tempo está se esgotando. Sou grato por nossa amizade e por ter dançado comigo. [120[Osório diz: Como estou meio ruim de saúde e quem está sem saúde sempre pensa que agora é a vez, fiquei extremamente desconfortável ao ler esta despedida. “Afasta de mim esse cálice”, Marcelo].

 

… dervixe … [121]

 

Azeite de oliva extra virgem. Abacate. Castanha-do-pará, granola, aveia, fibras. Vinte miligramas de sinvastatina por dia… [126[Osório diz: Mais identificação com o autor! Estou com problemas coronarianos! A sinvastatina dorme comigo todas as noites! Qual Urano, eu a devoro! Mas não quero falar disso, quero falar do erro crasso, inominável, injustificável, maldoso, de má-fé, grosseiro e etc., que é chamar “Castanha-do-pará”! Meu deus, se eu acreditasse, eu diria! Meu diabo, se eu acreditasse me socorreria! A dita castanha é: “CASTANHA-DA-AMAZÔNIA”, ouviu senhor Marcelo! DA AMAZÔNIA! Não se faça de mouco como a mãe de Assaad que, fazia que não ouvia, mas agia! É que qual a disputa entre Rio e São Paulo, há disputa entre Amazonas, o melhor, e o Pará, logo, se a castanha é boa, só pode ser do Amazonas, nunca, jamais, em tempo algum, do Pará, embora admitamos, por generosidade, que ela é da Amazônia! Ok? Seu próximo livro será comprado e espero que nele esse erro imperdoável tenha sido corrigido! Estamos conversados!].

 

Recomendado é beber muita água, fazer exercícios físicos, não ficar estressado. [127[Osório diz: Estou fazendo quase tudo isso! Mas como se faz para não ficar estressado? Essa receita eu quero e preciso com urgência!].

 

"Uma desgraça como a nossa é para ser enterrada. Ninguém gosta de estar ao lado de gente que vive lamentando as suas tragédias. Vá viver a sua vida e nos esqueça. O Brasil lhe fará bem.” [131[Osório diz: Depois dista lição tenho evitado falar das minhas doenças! Obrigado, senhor M. Maluf!].

 

No céu, uma lua minguante envolve uma estrela. Uma lua árabe no céu de Santa Bárbara D'Oeste. [141][Osório diz: Veja como aqui o senhor diz que é árabe o que é árabe, mas não diz o mesmo sobre a castanha! Portanto, talentoso homem da pena, revise melhor seu escrito!].

 

O sol no horizonte se manifesta. As estrelas se intimidam. [141/142[Osório diz: Beleza infinita].

 

O líquido desce por minha garganta carregado de memória. [143][Osório diz: Outra dose de beleza!].

 

Enquanto o autor não corrige o problema do nome da castanha, paro por aqui!

Terminei a leitura em 12.05.16. 

Gostei muito da linguagem poética do autor. Apenas o “auto-final” não foi a chave de ouro que eu esperava. Parece, até, que não entendi. 

Mas é um livro que eu releria, e acabo de fazer, bem como indicarei para meus filhos.

Até mais,

 

Você está aqui: Home Livros Livros que Li A Imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf.