Livros que Li

tercio

As dez vidas do senhor Cardano, de José Carlos Mello.

 

As dez vidas do senhor Cardano

 

Mello

 

Algumas anotações sobre minha leitura da obra:

 

Já conhecia o autor, li um de seus outros livros (O cão de Pavlov, também pela Octavo, vide: http://www.osoriobarbosa.com.br/node/523.).

Como tinha gostado da leitura da outra obra, pensei, inicialmente, que iria gostar dessa que ora comento, pois a capa está muito bonita, logo, o conteúdo também estaria. Estaria?

As primeiras páginas não me empolgaram muito, pois eu queria chegar logo no que causava tanto alvoroço.

Descoberta a causa da curiosidade pública, veio a fase do sufocamento!

A obra começou a me entalar e causar mal estar! Comecei a brigar com ela! Obviamente que com seus personagens!

Que droga, por que tanto sofrimento autoimposto?

Por que se martirizar pela religião e pela opinião de vizinhos?

Carajo”, à Quixote, quis eu dizer para falar: saiam dessas, seus FdPs!

Ao ver a covardia famíliar em torno da qual a história transcorre a leitura mais me revoltava e sufocava!

Pensei em parar de ler, pois imaginei que a narrativa seria por todo e sempre aquela.

Depois encontrei-me perguntando: mas cara, tu estás sofrendo com a leitura de um livro? Isso é uma obra de ficção (ou “fixão”, como quer Lacan)! O autor, num quarto escuro, ou à meia luz, criou isso! É algo puramente cerebrino. Avança e veja o que vai acontecer.

Foi o que fiz!

Avancei e depois a leitura começou a descoagular minhas emoções, aquelas que quase me causaram a embolia!

Essa mistura de emoções que provocam reflexão é o que há de mais sublime na literatura! O que faz dela “quase” parecer ser “a verdade”! Aliás, para alguns, dentre os quais eu me incluo, somente a criação literária “diz a verdade”!

Não me arrependi de não ter desistido, aliás, se algum desavisado assim o fizer, estará perdendo o melhor: o último gole da garrafa que secou sem deixar sucessora!

Ao final, comparando as duas obras de José Carlos Mello, o autor, penso que a última superou a anterior, o que me leva a pensar que ele é um escritor em ascensão! Esperemos, então, pelo próximo livro que ele, certamente, em breve, parirá!

Abaixo separei alguns excertos da obra e agora divido com todos que me leem, de modo a mostrar um pouco de tudo aquilo que me prendeu e chamou a atenção na leitura que recomendo como leitor.

Antes algumas opiniões preliminares:

A transição do “affair” do personagem principal entre Alcibíades e Malaquias, foi muito brusca, abrupta! Não houve preliminares, foi uma penetração de uma nova figura sem que o terreno tivesse sido preparado.

Antes de chegar ao clímax do final, imaginei que este seria outro: o personagem, que pediu dinheiro emprestado a um amigo e que dizia que estava fazendo um grande negócio no Uruguai, teria deixado uma polpuda apólice de seguro em nome desse seu único amigo, que seria, assim, uma forma de quitar suas dívidas com a única pessoa, depois de sua mãe, que lhe dedicou atenção e carinho.

Tal apólice, cujo valor ele não poderia pagar individualmente, teria sido dada pela universidade na qual ele era professor e, como não tinha outro beneficiário, pensou e colocou o nome de seu amigo.

Mas, infelizmente, o autor não ousou me perguntar! (risos).

Mais, o livro é de uma oportunidade singular, face ao momento histórico que vive o Brasil, pois aborda pontos atualíssimos, a despeito de serem repetições de fatos ocorridos em datas anteriores, a demonstrar que a corrupção vem de longe, o lobismo é pratica antiga e que nos governos militares ninguém tem paz, pois todos são suspeitos de algo por algo que nunca fizeram, não pretendem fazer, nem farão!

Vamos a alguns trechos:

Antes uma curiosidade, anotei a data do início e do fim da leitura, bem como um modo de calcular o tempo que destinei para tanto, haja vista que ela ocorria nas horas de folga do trabalho e de outras atividades paralelas (outras nem tanto, como a sagrada cerveja!). Essas anotações levaram-me à conclusão de que estou ficando, além de tudo, velho!

Ao final fiz as contas e gastei (vejam como são as palavras, pois na verdade ganhei, como sempre se ganha em qualquer leitura) 10:25 horas! Seria esse tempo razoável? Leia e depois me diga.

Aos excertos:

 

[Osório diz: comecei a leitura em 09.08.15 às 17:55 horas].

 

O tempo transforma os mais dramáticos acontecimentos em fatos rotineiros, roubando-lhes a grandeza e as emoções dos primeiros momentos.”. [p. 9 ] [Osório diz: o tempo é melhor e a pior borracha para a memória! Certo é que sempre apaga mais do que conserva].

 

Coisa alguma nasce para ser aprisionada, nem mesmo as raízes das plantas.”. [p. 11]

 

Quem ouve alguma coisa sempre acrescenta algo quando repassa, foi assim que escritos de tempos imemoriais, registrados dezenas de anos após a ocorrência dos fatos, chegaram até nós. De tão ampliados acabaram por parecer inverossímeis, impossíveis de serem realizados por humanos, então, passaram a ser atribuídos a deuses.”. [p. 12] [Osório diz: muito interessante este parágrafo, pois aborda como a história é montada e conservada, sendo, muitas vezes, o último interesse a dita “verdade!].

 

Tornaram-se mais retraídos do que o habitual quando seu neto passou a ser hostilizado, judiado pelas outras crianças quando souberam por seus mestres que eles eram responsáveis pela morte de Cristo, inclusive o menino.”. [p. 12] [Osório diz: fazia muito tempo que eu não ouvia/lia essa palavra! O politicamente correto está levando-a ao holocausto!] .

 

O ato necessário, intransferível, sempre praticado com discrição, agora era exposto aos olhos de todos.”. [p. 13] [Osório diz: definição peessedebista para cagar! Termo chulo, mas... verdadeiro e de, na hora requerida, realização imprescindível!].

 

Pedia ao mesmo Deus que a colocara na perigosa e deselegante situação que a tirasse dela.”. [p. 14] [Osório diz: deus costuma apenas fazer ou permitir que se faça ou aconteçam as coisas ruins no mundo, raramente está presente para impedir as grandes, médias e pequenas tragédias, logo ele, que pode tudo!].

 

[p. 15] [Parei a leitura e dormi por cerca de 40 minutos].

 

O padre dizia que o perdão, ainda que parcial, só seria concedido se ela casasse com o pai da criança, dando a entender que ação luxuriosa praticada em um momento de descontrole seria cobrada com severidade no Juízo Final.”. [p. 16] [Osório diz: Essa perseguição religiosa é uma praga e muita gente não tem coragem de abandonar a dita perseguidora!].

 

Chegava a invejar os monges ortodoxos gregos. Cristãos, castos e celibatários como ele, mas gozando da proteção das severas regras monásticas dos conventos do Monte Atos, onde é vedada a entrada de qualquer ser vivo do sexo feminino.

Cabras, galinhas, leitoas poderiam desnorteá-los em momento de intensa provação demoníaca, como diziam ocorrer com os meninos que vinham de áreas rurais do interior do estado.”. [p. 17] [Osório diz: Querendo resolver um problema, talvez se crie vários! Ao pensar e ver que somente entravam nos conventos animais do sexo masculino, os monges, mesmo sem querer, pensavam nas fêmeas desses animais, pois como diz Nietzsche, “o homem não pensa, é o pensamento que o pensa”, além de, como dizia Thoreau, “o pensamento entra ou sai pela frestas e até pelo buraco da fechadura”!].

 

Casar com o pai da criança era impossível. Quando cheia de ternura, dominada pelo romantismo próprio da idade e pela felicidade que acomete as mulheres que serão mães, comunicou que ele seria pai, notou um pavor incompreensível no seu rosto. Alegando qualquer coisa, afobado, se despediu e nunca mais foi visto. [p. 19]

 

.... demônio, um íncubo.”. [p. 19] [Osório diz: será que autores usam palavras difíceis apenas para ajudar seus amigos a venderem dicionários? Respostas ao autor do livro. Rs]. [Osório diz: Íncubo – que se põe ou se deita por cima!].

 

A gravidez por um íncubo era bem aceita, involuntária e com frequência praticada por demônios que assumiam a aparência de padres, bispos e cardeais.”. [p. 19] [Osório diz: Rs. Muito boa! Se fosse no meu Amazonas, assumiria aforma de boto!].

 

... a roda dos enjeitados, a discreta solução para casos como este fora abandonada poucos anos antes da indesejável gravidez.”. [p. 20] [Osório diz: não existe mais?]

 

Começava a engordar e a perder o viço.”. [p. 21] [Osório diz: Perder o viço é impagável! Por isso meu amigo diz que têm que ser regadas!].

 

[p. 23]

[Osório diz: Parei a leitura às 19:39 horas. Hoje morreu “seu Ventura” (Boaventura Bezerra da Silva). Amigo e compadre do meu pai. Veio de Maraã para Manaus para, após longo penar, morrer!]

 

[p. 24]

[Osório diz: retomei a leitura às 02:00 horas do dia 10.08.15]

 

Quem alardeia ocorrências compreende muito bem o desejo universal de receber informações sobre o que deu errado em detrimento ao que deu certo.”. [p. 33] [Osório diz: O passado tem que servir para algo: não tropeças de novo na mesma pedra! Embora, inúmeras vezes, … o casamento está aí para demonstrar. E tem gente que casa duas vezes entre si!].

 

Quanto da história não se perdeu nos escassos períodos de tranquilidade entre uma guerra e outra? Sabemos tanto sobre a Terra Santa pela pouca paz que ali reina nos últimos três milênios e muito pouco sobre a Suíça, em sua perpétua calma.”. [p. 33] [Osório diz: A parecer que a guerra move o mundo! Dizem que, nesta época (2015), a economia dos Estados Unidos está sustentada por guerras que ele espalha pelo mundo! Parece que a paz não é um bom negócio!].

 

Os livros sagrados falam mais em castigos cruéis do que em pacíficas recompensas. Os poetas épicos jamais deixaram de exaltar o lado sinistro do que contam mesmo quanto o intuito era narrar grandes feitos.”. [p. 33] [Osório diz: Seria o ser humano o mais irracional dos animais? Talvez! Pois, dotado de racionalidade é o que mais age irracionalmente!].

 

As notícias não dão destaque a um navio que chegou ao porto conforme o esperado e cujos passageiros desembarcaram em segurança, o contrário ocorrerá se ele afundar e todos morrerem afogados.”. [p. 33] [Osório diz: Para a imprensa o que vale é o escândalo a desgraça! Mas a imprensa vende para alguém e este alguém somos … nós!].

 

Antecedendo o poeta grego, 2750 anos antes de Cristo, na Suméria, o primeiro texto escrito de que se tem notícia, redigido em caracteres cuneiformes, conta a epopeia de Gilgamesh, herói que violentava mulheres virgens e agia sempre de modo arrogante, brutal e tirânico, e que, apesar disso, foi abençoado pelos deuses e por eles salvo de um grande dilúvio que dizimou toda a humanidade.”. [p. 34] [Osório diz: Deus só está ao lado dos vencedores!].

 

O vilão foi recompensado, o que não causou estranheza aos humanos que vieram depois dele. Do devastador dilúvio aos dias atuais é comum as divindades darem vida aprazível aos vilões.”. [p. 34] [Osório diz: Diz meu amigo que são os corruptos que dormem em colchões confortáveis e em travesseiros de penas de ganso!].

 

As histórias infantis introduzem os pequenos ouvintes, ou leitores, no mundo de perversidades onde viverão. Cedo ficam sabendo que o lobo mau queria devorar a carne macia da Chapeuzinho Vermelho, que a pobre Cinderela sofria nas mãos de uma madrasta má, que a princesinha tinha que se esconder sob uma pele de asno para escapar de uma relação incestuosa com seu pai e que Sherazade inventava histórias para que seu marido não a assassinasse e ela pudesse viver pelo menos mil e uma noites.”. [p. 34] [Osório diz: é de pequeno que se torce o pepino!].

 

[p. 35]

[Osório diz: Parei a leitura às 02:30 horas. Sono. Retomei às 21:25 horas do mesmo dia].

 

As urgências noturnas eram satisfeitas em urinóis brancos, esmaltados, que ficavam embaixo das camas. Não era incomum o uso desse recurso. Qualquer boa casa de artigos domésticos tinha esse utensílio em seu estoque.”. [p. 35] [Osório diz: Como gosto de antiguidades, recentemente comprei dois desses: um em São Paulo outro em Manaus! Dia desses minha filha de 5 anos estava usando-o como capacete!].

 

Eram daquelas pessoas que têm dificuldade em se desfazer de embalagens, caixas de papelão, papéis de embrulho, fitas e cordões que amarram os pacotes com presentes, sempre lembram que em algum dia poderão ser úteis.”. [p. 36] [Osório diz: Esse mal vai atacando com a idade! Eu que o diga! E é contagioso! Osório di Maraã, meu filho de 9 anos, o pegou pelo meu exemplo!].

 

As duas jovens folheavam nas casas das colegas a revista Grande Hotel. Gostariam de lê-la, mas os adultos vetaram. Fotonovelas de amor estimulariam práticas indecentes, bastava a indesejada gravidez ocorrida sem outros incentivos que os naturais.”. [p. 38] [Osório diz: Se as revistas da época já incentivavam, imaginem a TV de hoje!].

 

Tudo que se passasse nos degraus superiores da sociedade era de interesse das duas. Sentiam suas vidas enriquecidas ao saberem de acontecimentos para os quais jamais seriam convidadas, e caso fossem, não iriam por falta de roupas e de traquejo adequados para frequentar lugares sofisticados.” [p. 39] [Osório diz: Por que pobre adora ler revistas que tratam de assuntos e vida dos ricos!].

 

[p. 40]

[Osório diz: Parei a leitura às 21:42 horas].

 

[p. 41]

[Osório diz: Retomei a leitura em 11.08.15 às 15:26 horas].

 

Com orgulho o usava no dedo anular direto. [p. 41] [Osório diz: tinha eu passado a vida inteira chamando tal dedo de “anelar”, pois é o do anel!]

 

[p. 46]

[Osório diz: Parei a leitura às 15:42 horas e voltei às 23:21 horas].

 

Os gestos de carinho eram escassos, como dava poucos, recebia poucos, às vezes sentia falta deles, mas achava que, como no trabalho, se procedesse de outra maneira suscitaria intimidade além da necessária, colocaria em risco sua autoridade e a própria estabilidade doméstica.”. [p. 47/48] [Osório diz: Carinho somente recebe quem os dá! Realmente, as vezes, temos medo de dar carinho, isso porque, também, muitos confundem amizade com confiança! “Dá a mão, o sujeito já quer o pé”! Mas, nesse caso, melhor arriscar e, se for o caso, cerrar a porta].

 

“… ambicionavam chegar vivas ao seu atroz destino.”. [p. 48] [Osório diz: Eu sempre “me digo para mim mesmo”: morra no local, mas não aceite passivamente um sequestro! Não sei se estou errado, mas por que alguém me sequestraria? Somente para me maltratar e a minha família, já que não temos dinheiro nem outra coisa material de valor].

 

Sempre foi conhecida a pouca generosidade dos patrões, o dele não era diferente.”. [p. 50] [Osório diz: Essa é a visão eterna dos empregados, que somente passam a compreender os patrões quando se torna um deles! Mas, o mais engraçado: empregado se deixar matar em assalto, por exemplo, para defender o patrimônio do patrão!].

 

No calor da discussão chegaram a pensar em levar o caso à justiça, desistiram quando lembraram que a corte levaria décadas para dar uma sentença, quando a questão fosse julgada eles estariam mortos e a casa demolida. Recorrer aos tribunais no Brasil nunca foi uma boa ideia. Era melhor buscarem algum acordo.”. [p. 51] [Osório diz: essa realidade, para quem, como eu, faz parte do sistema judiciário, é “um tapa na cara”, pois absolutamente verdadeira, infelizmente! Qualquer acordo é melhor que uma boa briga!].

 

[p. 56]

[Osório diz: parei a leitura às 23:49 horas]

 

[p. 57]

[Osório diz: voltei à leitura em 14.08.15 às 01:24 horas]

 

[p. 61]

[Osório diz: parei em 14.08.15 às 01:35. Sono. Retomei a leitura em 19.08.15 às 21:12 horas]

 

[p. 64]

[Osório diz: parei em 19.08.15 às 21:20. Sono. Retomei a leitura em 27.08.15 às 12:42 horas

 

Premissas falsas permitem construir universos de verdades.”. [p. 65] [Osório diz: esta constatação põe por terra tudo aquilo que se chama de Lógica, pois é impossível, verdadeiramente, fixarmos a premissa verdadeira, pois sempre terá uma outra que a antecede! As premissas, tidas por verdadeiras decorrem de acordo/aceitação por parte daqueles que as aceitam como tal, nada tendo a ver com verdade! O autor, assim, mostra que o sistema de Aristóteles não se sustenta! Não se sustenta como ele e seus seguidores queriam acreditar e, pior, impingir nos outros, que ele assim fosse.].

 

Não eram importunados por dúvidas, incertezas, pensamentos críticos, inquietantes e pecaminosos como os que assoberbam as mentes questionadoras dos agnósticos, privados da confortável ideia da vida eterna e da existência de um Ser superior para acalmar suas angústias nos momentos difíceis.”. [p. 66] [Osório diz: Quem pensa e questiona vive inquieto, e isso é muito bom!].

 

“… a vocação para o pecado parece ser inerente aos homens.”. [p. 66] [Osório diz: Muito bom ouvir isso, pois a religião costuma pregar que seus membros estão imunes a tal vocação, esquecendo, por má-fé, que somos todos carne!].

 

A questão foi varrida para baixo do tapete do claustro e da casa ofendida, não mais tocaram nela.”. [p. 66] [Osório diz: Creio que o computador, filhadaputamente, “corrigiu” causa por causa! Ou não entendi o que li?].

 

A reduzida memória a impedia de pecar. Na sua idade os pecados só poderiam ser praticados por pensamentos e eles não mais existiam.”. [p. 67] [Osório diz: Costumo dizer que os velhos, quando pecam, são mais pecaminosos que os jovens, pois o fazem com conhecimento de causa, por já terem descoberto o mundo, enquanto para os jovens tudo é novidade.].

 

Cogitou ir para um seminário. Os padres o estimularam. Os que notaram seus eventuais gestos espalhafatosos, sua fala diferente da dos demais meninos, seus gritos de surpresa ou de susto por qualquer razão, não se preocuparam: 'Coisas da idade.'”. [p. 68] [Osório diz: O autor bem descreve os “sinais exteriores de 'viadice'”! O pior é que parecem vir do berço, embora os pais sempre, inicialmente, queiram, por vergonha negar. Porém, como o livro demonstra, e temos que aceitar, isso já vem da junção do óvulo com o espermatozoide, portanto, não deve ser recriminado nem objeto de preconceito, embora, creio, a sociedade ainda levará muito tempo em tal senda negativa!].

 

“… pecador continuado e afeminado.”. [p. 68] [Osório diz: tinha eu, pela descrição do parágrafo acima, concluído o que ora é dito explicitamente antes de ler este parágrafo! O que, repito, não pode ser tido como algo desabonador, obviamente, mas que ainda é muito difícil de aceitação no seio familiar, embora todos que convivam com a pessoa percebam seu comportamento, digamos, diferenciado.].

 

A tenuidade da fronteira que separa os heróis dos covardes é a mesma que separa os santos dos pecadores: uns e outros resultam de fatos inesperados.”. [p. 68]

 

Não dava mais os gritinhos que irritavam o tio. A tia comentava às amigas”. [p. 69] [Osório diz: numa rodada de machões, chegar um sobrinho “dando pinta”, como se diz, deve ser algo “algo”! Digo, algo que ninguém quer para si. Daí, atualmente, o uso de barba e bigode por muitos!].

 

Não tinha experiência suficiente para saber que certas mudanças são irreversíveis. As pessoas se transformam, às vezes de modo tão profundo, que se tornam irreconhecíveis a quem as conheceu no passado. Amizades que pareciam ser para sempre se desfazem.”. [p. 72] [Osório diz: E isso pode ser bom, ou pode ser mau, como tudo na vida! Descobrimos as pessoas (suas personalidades) sempre a posteriori, infelizmente! Ninguém traz escrito na testa o que realmente é].

 

Não há amizade que resista à falta de interesses comuns, elas se vão como se vão às paixões e os amores, apenas ódios, frustrações e rancores são permanentes.”. [p. 73] [Osório diz: Costumo dizer que o roteiro do amor é: amizade, amor e ódio!].

 

Aquela menina bonita, certamente povoando os sonhos de outros, esperaria ele terminar o ginásio, o científico, concluir a faculdade, obter um emprego e então se casariam.”. [p. 74] [Osório diz: Claro que não! Isso parece ocorrer apenas na mundo das castas (Índia) e dos muçulmanos, onde o casamento entre os filhos é feito pelos pais quando aqueles ainda estão no ventre].

 

Com gestos espetaculosos, sacudindo o corpo desengonçado, dançando com os longos braços para cima, emitiu um som afetado, mais próximo de um gemido agudo do que de uma exclamação.” [p. 76] [Osório diz: Continuam os sinais exteriores de “baitolagem”!]

 

O Carlos pressentiu que estava na hora de ir embora. Caminhar e buscar alternativas para salvar a Luiza das mãos do Aristóteles.”. [p. 77] [Osório diz: O Carlos personagem seria o mesmo Carlos do José Carlos Mello, o autor? Vá saber, embora diga-se que “todos os romances são autobiográficos”!].

 

Sem dizer nada, atordoado, Carlos saiu sem se despedir. Pedro continuava a cantarolar e rodopiar com os braços para o alto.”. [p. 77] [Osório diz: Continuam os sinais exteriores de “bichice”!]

 

... ou se aproximar de algum político e conseguir um emprego público.”. [p. 81] [Osório diz: Essa é uma das pragas do inconsciente coletivo que ainda depõe, infelizmente, contra nós, servidores de carreira, que estudamos “prá caralho”, “fizemos calo na bunda”, “perdemos noites de sono”, “perdemos festas e passeios” para conseguirmos um emprego público, mas aparecem uns três ou quatro apadrinhados, abraçados pelo nepotismo, pelas coligações políticas e suas bases e assumem cargos comissionados, regra geral, para auxiliarem no roubo ou desvio da coisa pública, pois, como estudiosos são, quase todos, incompetentes!].

 

Pedro não sabia que chegar à alta direção de qualquer coisa exige as mais imorais atitudes e os menos éticos acordos.”. [p. 82] [Osório diz: Isso, para mim, também parece uma verdade! O desejo de mandar e comandar faz com que, para os cargos de direção, as pessoas façam qualquer coisa para consegui-los! Eles não dependem de concurso, mas de apadrinhamento e/ou conchavos!]

 

[Osório diz: parei a leitura em 19.08.15 às 13:38 horas]

 

[p. 83]

[Osório diz: voltei a leitura em 30.08.15 às 00:15 horas]

 

A salvação da alma está associada a sacrifícios e penitências.”. [p. 97] [Osório diz: Isso é o que dizem as religiões para puniram, mais ainda, os desgraçados! Priva-te de tudo que é bom e o transforma em dízimo e dá a sua igreja! Seja bom com seu semelhante por ser, não por temer vida pós morte, pois esta, tudo indica, não existe, já que ninguém nunca voltou de lá para contar histórias!].

 

[p. 99]

[Osório diz: parei a leitura em 30.08.15 às 00:54 horas]

 

[p. 100]

[Osório diz: voltei à leitura em 02.09.15 às 22:36 horas. Fiquei por cerca de 23 minutos numa ligação telefônica. Tempo que descontei ao final]

 

Na semana seguinte, foi chamado à direção do colégio, ficou preocupado como qualquer estudante nessa situação. Raramente o aluno é convocado para ouvir elogios. Quando entrou no gabinete, o diretor e mais dois assistentes bradaram, em uníssono.” [p. 111] [Osório diz: Isso é algo curioso na escola e na vida! Ninguém reconhece suas virtudes, já teus defeitos...].

 

“— Não se pode corrigir uma mentira com outra!

É aí que você se engana! Esse é o recurso usado por todos os homens públicos, até pelo presidente da República. Deixe de ser ingênua: só uma mentira pode anular outra.”. [p. 115] [Osório diz: Parece que é por aí mesmo! Sem exceção!].

 

... soldados que embarcaram para a Itália. Havia dois Pantaleões, um do Nordeste e o outro do Amazonas, nenhum de origem italiana. Pediu para a mãe lhe mandar o nome completo, o dos pais, local de nascimento, tudo que facilitasse a busca.”. [p. 116] [Osório diz: Por que sempre ficamos orgulhosos quando um autor cita a nossa terra natal? E se ficamos, como se sentem os paraguaios, já que Victor Hugo, em “Os miseráveis” cita, como louvor, Solano López? Eu morri de inveja, já que ele não citou o Duque de Caxias!].

 

[p. 120]

[Osório diz: parei a leitura às 23:18. Retomei-a em 05.09.15 às 16:00 horas]

 

Ele e sua mãe foram vítimas da intolerância dos parentes, dos vizinhos, das leis, da hipocrisia e da religião. Melhor seria ter sido condenada à morte do que viver carregando a vergonha imposta por outros. Só então, Pedro se deu conta de quanto sua mãe era jovem e do quanto a amava.”. [p. 123] [Osório diz: Estamos na página 123! Foi justamente isso, que o autor confessa, magistralmente, somente agora, que me sufocou no início da leitura do livro! A hipocrisia fazendo vítimas que não tinha forças para se defender, aparentemente, porque eram hipócritas também, já que achavam aquilo importante o suficiente para não romperem com aquilo, embora se deva dar um desconto para a jovem mãe “sem eira nem beira”!].

 

... ocorrida por amor e tísica como Marguerite Gautier.”. [p. 125] [Osório diz: Não sei quem é Marguerite Gautier, embora conheça o tango “Margarita Gautir” (https://www.youtube.com/watch?v=WojiG9dTPp0), se trataria da mesma pessoa/personagem?].

 

“— O gaúcho é bicha.”. [p. 125] [Osório diz: Dizer que gaúcho é bicha não seria uma redundância, senhor autor? Rs.]

 

[p. 130]

[Osório diz: parei a leitura às 16:24 horas. Voltei a ela em: 06.09.15 às 23:09 horas]

 

Pedro conhecia o Evangelho de Mateus: “A lâmpada do corpo é o olho, se teu olho for bom, ficarás cheio de luz. Se teu olho for ruim, ficarás em trevas.” O olho do Pedro não era bom nem ruim, ele usava instintivamente a escura proteção para não expor sua alma.”. [p. 130] [Osório diz: Sim, os olhos são a porta da alma! Embora o sentir/a memória olfativa, auditiva etc. também sejam excepcionais].

 

Assim é escrita a história, as ocorrências engrandecedoras, mesmo falsas, só são desmentidas pelos inimigos, o que pouco afeta sua credibilidade, afinal, esse é o papel dos adversários.” [p. 130] [Osório diz: Fantástica constatação! Contudo, algumas vezes, o perdedor é o contador da história!].

 

“… sentir orgulho do que não fez.”. [p. 131] [Osório diz: Quando ao orgulhoso é atribuído algo que ele não fez e ele não tem coragem para negar, pois tal atribuição lhe traz vantagem!].

 

Tinha que trabalhar, suas economias dariam apenas para mais algumas semanas. As reservas estavam indo embora, gastava muito comprando livros em sebos, livrarias e camelôs, não tinha a motivação dos colecionadores nem a dos que buscam saber, queria tão somente comprar livros e o fazia de forma obsessiva.”. [p. 133] [Osório diz: Aqui eu quis me identificar com o personagem Pedro! Somente não o fiz por causa daqueles sinais exteriores sobre os quais nos referimos acima! É que também sou de comprar muitos livros! Muitos, mas menos do que eu desejaria. Queria que minha casa fosse uma “Biblioteca de Alexandria”! E dos muitos livros que compro, claro, nem todos consigo ler, pois as aquisições são maiores que a disponibilidade de tempo para tão prazeroso hábito! Mas o bom é ter o livro por perto! As vezes, de alguns, lemos uma página, duas, três ou apenas o título. Paramos em qualquer parte! Mas, como disse alguém, livro é igual mulher! “Você se casa com ela com uma finalidade, mas não vive praticando ininterruptamente a finalidade pela qual ou para a qual casou-se. O importante é tê-la por perto! Beijá-la, cheirá-la, acariciá-la etc.”. É por aí! Embora eu sempre tire meus livros dos pacotes e coloque nele a data e o preço da aquisição! Mas minha identificação com Pedro parou por aí! Nada de gauchices! Rs].

 

Dentre os vários pretendentes à vaga, Pedro se destacou. Era jovem, com pouca experiência, mas o secundário concluído no importante colégio e o curso de filosofia em faculdade de prestígio o tornaram candidato imbatível.”. [p. 133] [Osório diz: Avaliação pelo currículo! Avaliação pelo passado! Avaliação pelo dinheiro! Tudo isso, as vezes, é muito injusto com quem não tem “pedigree”!].

 

Assim se passa com as revoluções, golpes de estado ou usurpações: independente dos méritos e da utilidade à sociedade, os derrotados perdem a cabeça, a liberdade ou os empregos.”. [p. 133] [Osório diz: Muito interessante isso para o que o Brasil de 2015 está vivendo, embora o livro, ao que eu saiba tenha sido escrito alguns anos antes da data indicada].

 

Tão logo obtivesse aumento se mudaria, até porque não havia espaço para acomodar os livros que continuava comprando. Não cabia mais nenhum exemplar do mais fino deles. Estavam embaixo da cama, na cozinha, junto às paredes. Poderia parar de comprá-los e ler os que possuía, mas a compulsão não o largava.”. [p. 136] [Osório diz: Este é o meu vício também, embora menos compulsivo! Adora ter a companhia dos livros].

 

Os livreiros admiravam seu amor à leitura, não sabiam que o amor era pelos livros e não pelo conhecer o que havia dentro deles, alguns exemplares eram repetidos e outros permaneciam embrulhados. Era feliz sabendo que lhes pertenciam.”. [p. 136] [Osório diz: Comigo ocorre algo similar, embora ambicione, e faça por onde, infelizmente, como disse, não é o suficiente, para conhecer o que há dentro deles].

 

Não sentia prazer no virar das páginas, no manuseio do papel, na interação mental com o autor, na beleza das capas, no folhear sem compromisso que estimula ou não a leitura.”. [p. 136] [Osório diz: Eis os hábitos dos leitores!].

 

“— Não diga isso, algum dia os homens serão livres e iguais. Sem grilhões que os prendam à ganância e ao individualismo.” [p. 140] [Osório diz: Esse é o meu sonho, senhor autor, embora, as vezes, creia que isso ainda está muito longe! As pessoas continuam admirando os Estados Unidos, templo da ganância e do individualismo, em detrimento de países que melhor distribuem suas riquezas, como é o caso dos escandinavos!].

 

Relacionava-se bem com os colegas de trabalho e com os vizinhos. Frequentava cinemas, teatros e concertos. Alimentava-se bem, gostava dos restaurantes portugueses, comia muito e engordava. Pedro tinha magreza e altura suficiente para bem distribuir o peso adicional, mas ela se concentrou na barriga, ficou arredondado no centro e continuou magro nos braços, nas pernas e no rosto oval.”. [p. 141] [Osório diz: E olha que o autor nem diz se ele bebia cerveja, mas presumimos que não, já que em restaurantes portugueses a regra é o vinho!].

 

Governos, em todas as épocas, em todos os lugares, são generosos com aqueles que se sacrificam pela pátria.”. [p. 145] [Osório diz: O problema é determinar o que é um sacrifício pela pátria!].

 

“— Alfred, qualquer movimento suspeito me fale imediatamente. Não quero você cúmplice de um subversivo. Você já tem idade para saber como livros podem ser perigosos.”. [p. 151] [Osório diz: Este é o modo de agir nas ditaduras e, em 2015, alguns idiotas chegam a falar na volta dela! Quem diz que os “livros podem ser perigosos”, precisa ou não ir para um manicômio?].

 

[p. 154]

[Osório diz: parei em 07.09.15 às 00:03 horas. Voltei às 18:33 do mesmo dia].

 

As intrigas têm por objetivo afastar concorrentes na cansativa caminhada em direção aos melhores cargos com as maiores remunerações. As gratificações tornam todos invejosos. Os competidores tratam de descobrir defeitos nos adversários, se não existirem, são inventados.”. [p. 154] [Osório diz: Eis o ambiente, infelizmente, em que vivem os “colegas” de trabalho”!].

 

Reuniões são maneiras espertas de mostrar trabalho sem precisar trabalhar. Para cada crítica, cada reclamação, cada denúncia, cada pleito, é imediatamente organizado um grupo de trabalho para indicar alternativas de ação aos dirigentes maiores.”. [p. 135] [Osório diz: Para que servem as reuniões e os grupos de trabalho? Concordo com o autor!].

 

Se fosse possível olhar através das paredes, o visto seria semelhante aos formigueiros. Azáfama, incessante ir e vir, pessoas apressadas com pastas e documentos se dirigindo às salas onde debaterão importantes assuntos por dias, meses, anos. A única diferença é que as formigas estão produzindo alguma coisa para o bem do formigueiro.”. [p. 154]

 

Por sua posição, ele participava de inúmeros grupos de trabalho, reuniões interministeriais e conselhos, onde os mais variados assuntos eram debatidos. Invariavelmente, as decisões eram dar missões aos escalões inferiores, que repassavam para outros mais abaixo até chegar ao funcionário zeloso que produzia o relatório.

No percurso inverso ele era enriquecido com citações, lugares comuns, frases de efeito, providências fictícias, exemplos e conclusões, por fim, os chefes assinam, normalmente sem ler, assumem a autoria e remetem ao chefe maior, no caso do Pedro, ao ministro, que passa a um assessor direto para ler e dizer o que ele deve fazer com aquilo: arquivar ou mandar à frente.

Se o ministro esqueceu a razão daquele relatório, ele vai para o arquivo, caso contrário, é enviado à presidência da República, dali é remetido a algum assessor, que o coloca em uma imensa pilha de papéis a ler.”. [p. 155] [Osório diz: Funcionamento de muito da burocracia, especialmente daquela que a dirige, pois não integrada por funcionários de carreiras, mas por incompetentes postos na direção para atender aos pleitos dos partidos da base aliada!].

 

“… se for um aliado político, ele aprova, se não, manda arquivar, se for alguém que já teve alguma valia ou poderá vir a ser de alguma utilidade a resposta é polida:

Enviei ao departamento jurídico. Em breve lhe darei notícias.

Os mais ingênuos ficam satisfeitos, os mais astutos pensam:

'Nunca vi o jurídico devolver qualquer coisa em tempo razoável.'”. [p. 156] [Osório diz: É por aí!].

 

As altas autoridades não detêm o poder que pensam possuir, embora sintam a sensação de domínio absoluto sobre suas determinações e sobre os papéis que enviam aos subalternos, o que é suficiente para inflar egos.”. [p. 156] [Osório diz: Não tem por não dominarem o assunto, mas têm por serem quem mandam!].

 

Sabia das suspeitas que despertara na infância. Seu contemporâneo tinha na lembrança os gritinhos de espanto, a exagerada emoção nos filmes românticos e o desinteresse nos de faroeste; sabia da peregrinação ao túmulo do padre que tudo curava.”. [p. 160] [Osório diz: A volta dos sinais exteriores de...].

 

“— Os dois formam um casal apaixonado. O teu amigo é bicha.”. [p. 165] [Osório diz: A mulher diz ao amigo e este se espanta, mesmo sendo ele também gaúcho! Rs.].

 

Ele é fresco, vive com rapaz muito educado.”. [p. 165] [Osório diz: Fazia muito tempo que eu não lia/ouvia tal palavra, a qual fez parte da minha juventude no interior do Amazonas!].

 

... foi convidado a ser diretor de uma grande empreiteira.”. [p. 168] [Osório diz: Tão atual em 2015! Seria o autor um profeta?].

 

O primeiro momento foi fácil, passou pouco mais de um mês indo a posses. No Brasil, mudança de governo significa mudança de todo o governo. São realizadas milhares de demissões e de nomeações.” [p. 169] [Osório diz: Eis o que eu disse anteriormente! Os cargos em comissões servem para isso! Entretanto, depois, na hora do mal feito, todos ficam no mesmo saco: “os funcionários públicos”].

 

... tempo todo conversando com os homens, procurava algum jovem bem-apessoado e não encontrava.”. [p. 171] [Osório diz: Olha o gaúcho autor querendo roer a corda! Não quis dizer “homem bonito” com medo de se comprometer? Rs].

 

Pedro participava de reuniões com colegas de empresas congêneres para decidir quem ganharia as próximas concorrências, como afastariam os que não participavam do cartel, quais exigências colocariam nos editais, que nomes escolheriam para compor as comissões de licitação, como agir para defenestrar funcionários insensíveis às suas abordagens, que presentes dariam nas festas de fim de ano e nos aniversários, quais as cidades europeias que os poderosos gostariam de conhecer, como organizar agendas incluindo os melhores restaurantes, as mais caras compras e os mais luxuosos hotéis, tudo sem qualquer ônus ao viajante e seus convidados.”. [p. 172] [Osório diz: Tão atual em 2015! E sempre!].

 

[p. 173]

[Osório diz: parei a leitura às 19:21. Voltei às 23:09 horas]

 

Lobistas são pessoas realistas, conhecedoras do que há de pior na alma humana, cínicas, sem polimento, vulgares, comportam-se com civilidade nas abordagens iniciais a seus alvos, tão logo estreitam as relações, mudam suas atitudes: não chocam ninguém. As autoridades também deixam de lado as posturas ensaiadas e assumem seu verdadeiro caráter.

Os dois amigos participavam das reuniões, opinavam, sugeriam e aprovavam as decisões. Adotavam o comportamento deles esperado, afinal, no mundo da política e dos negócios escusos as representações se adaptam ao momento.

Os roteiros são flexíveis e os papéis se alteram à medida que a peça se desenrola. Um personagem austero, no começo pode ser o bobo da corte, no final, sóbrios tornam-se ridículos, incorruptíveis viram desonestos, pudicos aderem à devassidão.

A única verdade é que ninguém melhora no decorrer da encenação. Somente os que conseguem a proeza de se adaptar ao papel do momento sobrevivem e continuam em cena.”. [p. 176] [Osório diz: Creio que podemos trocar a palavra lobista por capitalista e termos a descrição dos dois!].

 

Nesse ponto parou de falar, quando se recompôs, os olhos sem lágrimas expressavam apenas ódio. Anos de mágoas irromperam, saíram de sua alma — nela estão guardadas as amarguras. É possível que Pedro não viesse a ter em sua vida outra explosão como aquela. Despejou ante o confessor toda a angústia, toda a tristeza, toda rejeição dos trinta e poucos anos anteriores.”. [p. 180] [Osório diz: Pedro sofreu mais por nunca ter ido a Bagé consultar-se com o famoso analista de lá! Guardava suas mágoas para si. Não tinha quem o escutasse!]

 

A moça ficou tão gorda quanto a avó, a pele gordurosa guardava as marcas das espinhas da adolescência, bigoduda, míope, desengonçada, nada atraente a olhos masculinos, por menos exigentes que fossem. Jamais recebeu um afeto, uma flor, uma aproximação masculina.”. [p. 183] [Osório diz: Embora em 2015 as mulheres andem cada vez mais chatas, nem vou dizer arredias, aquelas que jamais recebem um afeto, uma flor, uma aproximação masculina, nunca poderão dizer e saber o que é uma mulher! E olha que os homens mesmos, são muito pouco exigentes!].

 

Falta de dinheiro, desleixo, desconforto, ausência de perspectiva fez com que passassem a viver do mesmo modo que qualquer casal nessa situação: brigas, ofensas, culpas recíprocas, indiferença.”. [p. 185] [Osório diz: E ainda tem quem diga que o dinheiro não traz felicidade! Pode até não trazer, mas a sua falta traz azar!].

 

Troilo saía sem dizer aonde ia, voltava dias depois em estado lamentável, era repreendido e só piorava as coisas. As juras de amor foram trocadas por palavras ácidas. Só um milagre salvaria aquela união que havia sido tão afetuosa e elegante.”. [p. 185] [Osório diz: É a vida! “Troilo” parece mais uma inspiração do tango argentino! É que lá existiu o famoso Anibal Troilo, divino no bandoneon!].

 

Troilo recuperou a alegria de viver e Pedro mergulhou num amargor do qual custou a sair. Pressentiu que a maldição da avó acabaria por se realizar. Jogou fora uma carreira ascendente por descuidos, pequenas imprudências e grandes preconceitos. Sabia que não deveria esperar nada além de manter-se como estava.”. [p. 187] [Osório diz: Amor bem sucedido vai além da mera escolha! Embora não exista garantia para encontrar a pessoa certa, se é que ela existe!].

 

Achava que Carlos ainda guardava a imagem do secretário poderoso, elogiado, orgulhando seus amigos. Não ligaria para ele, queria que pelo menos uma pessoa preservasse essa lembrança, não a substituísse pela atual. Alguém o respeitaria, não seria desprezado por todos.”. [p. 190]

 

Esta perspectiva absurda trazia imensa preocupação. A ansiedade aumentava, procurava a calma comendo cada vez mais e buscando amores mais baratos. O aluguel aumentou, restava pouco para outras despesas, cortou a ida aos cinemas e a compra de livros, seus maiores prazeres foram substituídos pelos outros dois.

A rotina era imutável: levantava tarde, saía à rua para tomar café, percorria as livrarias, manuseava os livros com o respeito de sempre. Gostaria de tê-los, lamentava não poder comprá-los. Saía e ia a outra loja, onde seguia o mesmo ritual: acariciar a capa, abrir, ler trechos, fechar, colocar no lugar, olhar as prateleiras, buscando algum lançamento, e partir lentamente.”. [p. 193] [Osório diz: O retrato da decadência! Dolorido pela bela descrição].

 

“— A bicha?”. [p.208] [Osório diz: As mulheres não perdem uma oportunidade para “jogar na cara”, mesmo que, aparentemente, não fosse essa sua intenção!].

 

“— Não tenho nada a declarar.

E o seu advogado:

Meu cliente é inocente.

Comportamento padrão nesses casos, quase uma confissão de culpa. A partir daí, o defensor passa a buscar brechas na lei, a apresentar dezenas de recursos até que o crime prescreva.”. [p. 218] [Osório diz: Sim, é o comportamento padrão! Infelizmente!].

 

[p. 228]

[Osório diz: parei a leitura em 08.09.15 às 01:04 horas.]

 

[p. 229]

[Osório diz: voltei à leitura em 08.09.15 às 19:26 horas.]

 

Com forte sotaque germânico, aparentando ser pessoa rude, com pouco saber e muita esperteza, convidou-o a sentar. Procurou ser simpático.

Com enorme experiência em decifrar intenções, olhava para o interlocutor tentando saber de que forma ele poderia ser útil. Conhecendo o patrão, Pedro tentou facilitar as coisas.” [p. 236] [Osório diz: Como joga o interesseiro].

 

Seria um grupo imaginário como o dos intelectuais gaúchos?”. [p. 239] [Osório diz: Vejam que não é implicância minha contra o querido povo gaúcho, mas do próprio autor, que é um deles!].

 

Aí está a raiz da questão: não foi Pedro quem resolveu adotar hábitos estranhos, tantos foram os que decidiram por ele que seria difícil nomeá-los, o leitor conhece todos, sabe da luta do pobre coitado para se adaptar-se ao que a sociedade queria que ele fosse.”. [p. 241] [Osório diz: ser virginiano é ser chato! Embora eu não goste de gramática, embora saiba que uma obra passa por inúmeras revisões, algo sempre escapa! Isso é bom para mostrar que os bons ainda não nasceram, em especial os corretores eletrônicos!].

 

Seria melhor adulterar livros contábeis, roubar do patrão, mentir, do que ser o que o neto demonstrava ser?” [p. 241] [Osório diz: Eis o que o preconceituoso pensa! Entre ladrão e fresco, ele escolhe aquele!].

 

“— Pedem piedade a Deus e são impiedosos? Qual a razão de tratá-lo assim?”. [p. 244] [Osório diz: Assim são, regra geral, os religiosos! Piedosos apenas da boca para fora!].

 

“— Os dois são pessoas corretas?

Perante a religião, são. Estelionato, sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, fraudes contábeis, como o senhor sabe, não são pecados.”. [p. 245] [Osório diz: Muito boa!].

 

Ele enfrentou os três adversários identificado pelo escritor francês (*): a religião, a sociedade e a natureza.

Exausto, não mais resistiu às tentações e perdeu a luta que travou contra os três antagonistas por quase quarenta anos.

Pedro perdeu todas as lutas contra a religião, a sociedade e a natureza, no caso, a sua própria. Para sustentar estas batalhas, precisava combater inimigos poderosos: a superstição, os preconceitos e os genes que recebeu ao nascer”. [p. 248] [Osório diz: Gostei muito dessa citação e dela como fecho].

 

Gilliard(*). [p. 248] [Osório diz: Não confundamos com o cantor brasileiro! Rs].

 

Na Bíblia, o alerta sobre aqueles que abusam da comida e da bebida está em Provérbios 23:2: “Se és dado à gula, mete a faca na garganta (...) a comida é enganadora.”

Metendo a faca na garganta o glutão cometerá suicídio e irá para o inferno. Considerando que cumpriu as escrituras, não poderá ser condenado. Situações pouco claras como essa provocaram [p. 250] cismas, guerras, excomunhões recíprocas de milhões de inimigos com a mesma fé. [p. 251] [Osório diz: Quem poderá interpretá-la? Aquele e da forma a quem interessa! Santo Tomás de Aquino era imensamente gordo, logo, glutão, mas, nem por isso, deixa de ser “santo”!].

 

No caso do Pedro, ainda fica uma dúvida: a luta incessante contra as tentações e sua natureza dada por Deus não deveriam ser levadas em conta em seu julgamento? Os mais indulgentes dirão que sim, os que se apegam à lei de Talião dirão que não. Como os segundos são ampla maioria, o mais provável é que Pedro esteja no inferno, sofrendo junto aos papas que vendiam indulgências perpétuas. [p. 251] [Osório diz: Santa contradição bem posta!].

 

Em vida, a opinião alheia indicava seus rumos, não havia por que ser diferente na morte, ...”. [p. 253] [Osório diz: E eis, creio, a razão maior de todas as suas desgraças].

 

[p. 255]

[Osório diz: terminei a leitura no dia 08.09.15, às 20:22 horas]

 

Você está aqui: Home Livros Livros que Li As dez vidas do senhor Cardano, de José Carlos Mello.