Livros que Li

tercio

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

 

Dom Quixote.

Miguel de Cervantes.

 

Já li Don Quixote um bom número de vezes, e pretendo relê-lo outras tantas!

Como se sabe, em cada releitura relemos um novo livro, mas com o Quixote acontece algo diverso: relemos novos livros!

 

É que dentro da própria obra tem outras obras incluídas, como se fossem seus tentáculos e até que podem ser lidas separadamente, sem prejuízo do conjunto!

É um aprendizado constante e apaixonante.

Repito algo que já disse em outro local:

O livro que mais marcou/marca minha vida é “D. Quixote de La Manha”, de Miguel de Cervantes, que li pela primeira vez antes dele ter sido eleito “o melhor livro do mundo”, mas já o li novamente mais umas cinco vezes!

Muitas leituras? Nem tanto, pois cada leitura, como sabem, é uma nova (“não se lê o mesmo livro duas vezes”, já o disse o alguém), e o livro sempre me surpreende em cada nova relida por sua enorme riqueza. Cervantes tinha um conhecimento “enciclopédico”, como se costuma dizer. Conhecia de tudo um muito, parece.

Lembro que, certa vez, perguntei a uma amiga, Dra. Claude, que é pessoa de muitas leituras, se ela já tinha lido o Quixote e, para minha surpresa, ela respondeu que não.

- Mas como não?! Você nunca leu o D. Quixote? Perguntei entre surpreso e inconformado e decepcionado.

Eis que ela, carinhosamente e com sabedoria que levarei para resto da vida (especialmente diante dos meus nove mil livros que ainda não li), disse:

- Habib (querido em árabe?), não li não só Dom Quixote como tantos outros livros que ainda pretendo ler.

Caí em mim e vi que padeço do mesmo “mal” que quis atribuir à minha amiga: falta eu ler ainda muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiita coisa!

Como sabem aqueles que o leram, D. Quixote trás várias histórias que podem ser lidas separadamente, e, sendo assim, quero dividir com aqueles que ainda não o leram o Prólogo que abaixo transcrevo, e, com aqueles que já o leram, que tal relembrar?

No final de cada parágrafo do Prólogo fiz algumas observações, com as quais espero incentivar a leitura da obra monumental.

Tenho algumas traduções, além de publicações em castelhano, estas, como a crítica publicada pelo Instituto Cervantes (da qual me servi para algumas informações, mas com parcimônia, para deixar transparecer a opinião do leitor) é de matar de alegria, em especial pelas milhares de notas que a compõem.

As traduções que disponho são as de:

1 - Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809-1876) Conde de Azevedo Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) Visconde de Castilho, pela Clássicos Jackson e Abril Cultural.

2 - Sérgio Molina, editora 34, com gravuras de Doré.

3 - Ernani Ssó, pela editora Penguin.

4 - Miguel Serras Pereira, pela Dom Quixote, esta com gravuras de Salvador Dalí.

5 - Eugenio Amado, pela editora Itatiaia.

6 - Almir de Andrade e Milton Amado, Ediouro, com gravuras de Doré.

Aconselho/sugiro a comprarem todas, mas, se a grana tiver curta, melhor ouvir o seguinte e decidir: a linguagem de Cervantes é rebuscada, mas perfeitamente inteligível (a tradução de Ernani Ssó atualiza e inverte a ordem das palavras de Cervantes, sendo boa para quem quer ler pela primeira vez, já a de Sérgio Molina atualiza um pouco mas mantém a melodia cervantina).

A primeira tradução citada acima é um primor em melodia.

Sérgio Molina trás muitas notas, o que é bem legal para a consulta e esclarecimento, consequentemente, além do livro ser bilíngue.

Cervantes era antes de tudo um poeta! Vejam como ele descreve sua amada, apenas para abrir-lhe o apetite da leitura, já que o trecho está contido num dos dois capítulos abaixo. Olhem, mirem e espelhem-se, senhores:

 

Não poderei afirmar se a minha doce inimiga gosta, ou não, de que o mundo saiba que eu a sirvo. Só posso dizer, em resposta ao que tão respeitosamente se me pede, que o seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos atributos de formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são ouro; a sua testa campos elíseos; suas sobrancelhas arcos celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore o seu peito; marfim as suas mãos; sua brancura neve; e as partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são tais (segundo eu conjecturo) que só a discreta consideração pode encarecê-las, sem poder compará-las.”

 

Não é demais?

Aprendamos com Cervantes: fidelidade, sentido de Justiça, delicadeza, coragem, honra e outras condutas tão necessárias ao homem para sua vida em sociedade.

Boa leitura.

 

Osório

 

D. QUIXOTE

 

Miguel de Cervantes [Saavedra] (1547-1616), vol. I, 1.605, tradução: Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809-1876), Conde de Azevedo, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875), Visconde de Castilho, Edição eBooksBrasil (www.ebooksbrasil.com), 2005.

 

PRÓLOGO

 

DESOCUPADO LEITOR: Não preciso de prestar aqui um juramento para que creias que com toda a minha vontade quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo, e discreto que se pudesse imaginar: porém não esteve na minha mão contravir à ordem da natureza, na qual cada coisa gera outra que lhe seja semelhante; que podia portanto o meu engenho, estéril e mal cultivado, produzir neste mundo, senão a história de um filho magro, seco e enrugado, caprichoso e cheio de pensamentos vários, e nunca imaginados de outra alguma pessoa? Bem como quem foi gerado em um cárcere onde toda a incomodidade tem seu assento, e onde todo o triste ruído faz a sua habitação! O descanso, o lugar aprazível, a amenidade dos campos, a serenidade dos céus, o murmurar das fontes, e a tranqüilidade do espírito entram sempre em grande parte, quando as musas estéreis se mostram fecundas, e oferecem ao mundo partos, que o enchem de admiração e de contentamento. [Osório diz: Cervantes, com o seu “Desocupado leitor”, inaugura nos romances esta técnica de conversar com o leitor! O que é fascinante, tanto assim que ele será copiado por todos que querem usar a mesma invenção. / Também desconheço escritor que o tenha precedido ao tratar o livro como se fosse um filho. É legal, também, o desenho que o pai costuma traçar do seu filho: “o mais formoso, o mais galhardo, e discreto”. / Como o próprio Cervantes vêo seu Quixote? “um filho magro, seco e enrugado, caprichoso e cheio de pensamentos vários, e nunca imaginados de outra alguma pessoa”. / Prova de que todo escrito é autobiográfico, ou tem traços de autobiografia é este: “cárcere onde toda a incomodidade tem seu assento, e onde todo o triste ruído faz a sua habitação”, pois Cervantes esteve preso e mostra o que é o “inferno” de um cárcere! / Como se verá mais adiante, Cervantes era extremamente letrado, com uma cultura muito vasta, pois conhecia muitos autores e seus livros, além da história, religiões, filosofia etc. Ao invocar “as musas” ele se assume poeta, que o é, realmente, e demonstra conhecimento da mitologia greco-romana, como veremos outros detalhes a seguir].

 

Acontece muitas vezes ter um pai um filho feio e extremamente desengraçado, mas o amor paternal lhe põe uma peneira nos olhos para que não veja estas enormidades, antes as julga como discrições e lindezas, e está sempre a contá-las aos seus amigos, como agudezas e donaires. [Osório diz: “desengraçado” não é ótimo? Nada de feio! / “o amor paternal”, realmente, costuma encobrir os defeitos dos filhos tornando os pais cegos, bem como aumentar-lhes as virtudes. / Donaire significa garbo; gentileza; elegância e graça.

 

Porém eu, que, ainda que pareço pai, não sou contudo senão padrasto de D. Quixote, não quero deixar-me ir com a corrente do uso, nem pedir-te, quase com as lágrimas nos olhos, como por aí fazem muitos, que tu, leitor caríssimo, me perdoes ou desculpes as faltas que encontrares e descobrires neste meu filho; e porque não és seu parente nem seu amigo, e tens a tua alma no teu corpo, e a tua liberdade de julgar muito à larga e a teu gosto, e estás em tua casa, onde és senhor dela como el-rei das suas alcavalas, e sabes o que comumente se diz que debaixo do meu manto ao rei mato (o que tudo te isenta de todo o respeito e obrigação) podes do mesmo modo dizer desta história tudo quanto te lembrar sem teres medo de que te caluniem pelo mal, nem te premeiem pelo bem que dela disseres. [Osório diz: a modernidade cunhou, como novidade, a figura má da “madrasta”, mas Cervantes, há séculos, já tinha cravado a figura masculina correspondente, a do “padrasto”! / A crítica à falsidade é muito engraçada: “pedir-te, quase com as lágrimas nos olhos, como por aí fazem muitos”! / Todos devemos respeitar a casa alheia, inclusive o Estado, que era, no caso, a figura do rei. / “Alcavala”, palavra de origem árabe (al-kavala), que significa imposto. / Cervantes era também um crítico literário, ensinando como deve comportar-se um profissional desta área: “dizer desta história tudo quanto te lembrar sem teres medo de que te caluniem pelo mal, nem te premeiem pelo bem que dela disseres”].

 

O que eu somente muito desejava era dar-ta mondada e despida, sem os ornatos de prólogo nem do inumerável catálogo dos costumados sonetos, epigramas, e elogios, que no princípio dos livros por aí é uso pôr-se; pois não tenho remédio senão dizer-te que, apesar de me haver custado algum trabalho a composição desta história, foi contudo o maior de todos fazer esta prefação, que vais agora lendo. [Osório diz: o simples uso da palavra “prefação” já é em si uma graça! / E a conversa com o leitor continua...].

 

Muitas vezes peguei na pena para escrevê-la, e muitas a tornei a largar por não saber o que escreveria; e estando em uma das ditas vezes suspenso, com o papel diante de mim, a pena engastada na orelha, o cotovelo sobre a banca, e a mão debaixo do queixo, pensando no que diria, entrou por acaso um meu amigo, homem bem entendido, e espirituoso, o qual, vendo-me tão imaginativo, me perguntou a causa, e eu, não lha encobrindo, lhe disse que estava pensando no prólogo que havia de fazer para a história do D. Quixote, e que me via tão atrapalhado e aflito com este empenho, que nem queria fazer tal prólogo, nem dar à luz as façanhas de um tão nobre cavaleiro: Porque como quereis vós que me não encha de confusão o antigo legislador, chamado Vulgo, quando ele vir que no cabo de tantos anos, como há que durmo no silêncio do esquecimento, me saio agora, tendo já tão grande carga de anos às costas, com uma legenda seca como as palhas, falta de invenção, minguada de estilo, pobre de conceitos, e alheia a toda a erudição e doutrina, sem notas às margens, nem comentários no fim do livro, como vejo que estão por aí muitos outros livros (ainda que sejam fabulosos e profanos) tão cheios de sentenças de Aristóteles, de Platão, e de toda a caterva de filósofos que levam a admiração ao ânimo dos leitores, e fazem que estes julguem os autores dos tais livros como homens lidos, eruditos, e eloqüentes? Pois que, quando citam a Divina Escritura, se dirá que são uns Santos Tomases, e outros doutores da Igreja, guardando nisto um decoro tão engenhoso, que em uma linha pintam um namorado distraído, e em outra fazem um sermãozinho tão cristão, que é mesmo um regalo lê-lo ou ouvi-lo. [Osório diz: achei muito bonita esta cena e pus-me a imaginá-la olhando para uma gravura de Doré! / O texto demonstra, também, a questão da inspiração, que, nalguns, vem quando ela quer, não quando quem está escrevendo/compondo a deseja. Isso, de resto, como viu Nietzsche, ocorre com todo o pensamento: ele nos pensa e não nós o pensamos! Mas, e talvez daí, vem a importância de se invocar a “musa inspiradora”, que, na verdade é a “musa que trás a inspiração”. A musa, em si, pode não ser o objeto da inspiração! / Uma forma mais poética de dizer a famosa frase “sabedoria popular” / Outra forma pizer “velhice”. / Tudo que o Quixote não é! O livro é o oposto de tudo isso. / Ao “desejar” tais sentenças, quando na verdade as renega, Cervantes tece uma crítica aos trabalhos dito científicos atuais, em especial às dissertações, onde o estudante é estimulado a não inovar com seu pensamento, mas apenas repetir o que os autores já disseram! / Cervantes conhece, como se verá em sua obra, a Bíblia, a Divina Escritura, e seus estudiosos, dentre os quais, em especial, os doutores da Igreja, como Santo Tomás de Aquino. / “Sermãozinho tão cristão” é de uma ironia desconcertante!]

 

De tudo isto há-de carecer o meu livro, porque nem tenho que notar nele à margem, nem que comentar no fim, e ainda menos sei os autores que sigo nele para pô-los em um catálogo pelas letras do alfabeto, como se usa, começando em Aristóteles, e acabando em Xenofonte, em Zoilo ou em Zeuxis, ainda que foi maldizente um destes e pintor o outro. [Osório diz: Xenofonte foi um historiador grego. / Zoilo escreveu contra Homero em busca da própria fama. Acabou ficando como antonomásia de grosseiro, tosco etc. / Zeuxis foi um pintor grego]

 

Também há-de o meu livro carecer de sonetos no princípio, pelo menos de sonetos cujos autores sejam duques, marqueses, condes, bispos, damas, ou poetas celebérrimos, bem que se eu os pedisse a dois ou três amigos meus que entendem da matéria, sei que mos dariam tais, que não os igualassem os daqueles que têm mais nome na nossa Espanha. Enfim, meu bom e querido amigo, continuei eu, tenho assentado comigo em que o senhor D. Quixote continue a jazer sepultado nos arquivos da Mancha até que o céu lhe depare pessoa competente que o adorne de todas estas coisas que lhe faltam, porque eu me sinto incapaz de remediá-las em razão das minhas poucas letras e natural insuficiência, e, ainda de mais a mais, porque sou muito preguiçosoe custa-me muito a andar procurando autores que me digam aquilo que eu muito bem me sei dizer sem eles. Daqui nasce o embaraço e suspensão em que me achastes submerso: bastante causa me parece ser esta que tendes ouvido para produzir em mim os efeitos que presenciais. [Osório diz: ao finalizar o “ou poetas”, Cervantes quer dizer que os demais citados na relação não o são, criticando, assim, aqueles que acham que, por tais pessoas portarem tais títulos, acham que eles as tornam poetas! É um resquício da aristocracia na nobreza. / Aqui Cervantes demonstra saber quem realmente é poeta e o que é poesia, além de mostrar que a fama, muitas vezes, é maior que a própria obra ou seu autor. / Os arquivos são, verdadeiramente, sepulturas para seus conteúdos. / Modesto ou cínico? Ou os dois? Graciliano Ramos repetirá Cervantes em um relatório de uma época em que foi prefeito. / Que lê tudo que ele, Cervantes leu, e escrever tudo que ele escreveu pode ser tudo, menos preguiçoso! / Raul Seixas usará o: “eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz” 500 anos depois].

 

Quando o meu amigo acabou de ouvir tudo o que eu lhe disse, deu uma grande palmada na testa, e em seguida, depois de uma longa e estrondosa gargalhada, me respondeu: [Osório diz: repita a gargalhada e dê uma grande palmada na sua testa, como eu fiz! É fácil e nos insere definitivamente na história, em especial por nos ser este gesto tão familiar].

 

Por Deus, meu amigo, que ainda agora acabo de sair de um engano em que tenho estado desde todo o muito tempo em que vos hei conhecido, no qual sempre vos julguei homem discreto e prudente em todas as vossas ações; agora, porém, conheço o erro em que caí e o quanto estais longe de serdes o que eu pensava, que me parece ser maior a distância do que é do céu à terra. Como?! Pois é possível que coisas, de tão insignificante importância e tão fáceis de remediar, possam ter força de confundir e suspender um engenho tão maduro como o vosso, e tão afeito a romper e passar triunfantemente por cima de outras dificuldades muito maiores? À fé que isto não vem de falta de habilidade, mas sim de sobejo de preguiça e penúria de reflexão. Quereis convencer-vos da verdade que vos digo? Estai atento ao que vou dizer-vos, e em um abrir e fechar de olhos achareis desfeitas e destruídas todas as vossas dificuldades, e remediadas todas as faltas que vos assustam e acobardam para deixardes de apresentar à luz do mundo a história do vosso famoso D. Quixote, espelho e brilho de toda a cavalaria andante.” [Osório diz: um comportamento tido por escorreito tem que ter discrição e prudência. / Como ofender poeticamente!].

 

Aqui lhe atalhei eu com a seguinte pergunta: [Osório diz: “atalhei” fica bem mais belo que interrompi, não é?].

 

Dizei-me: qual é o modo por que pensais que hei-de encher o vazio do meu temor, e trazer a lúcida claridade ao escuro caosda minha confusão?” [Osório diz: “encher o vazio do meu temor” é demais! Eu nem sabia que temor tinha vazio! Somente os poetas para construírem discursos tão belos. / Cervantes leu a mitologia grega e, aqui, parece invocar o poeta Hesíodo.

 

A isto me replicou ele:

 

O reparo que fazeis sobre os tais sonetos, epigramas e elogios que faltam para o princípio do vosso livro, e que sejam de personagens graves e de Título, se pode remediar, uma vez que vós mesmo queirais ter o trabalho de os compor, e depois batizá-los, pondo-lhes o nome da pessoa que for mais do vosso agrado, podendo mesmo atribuí-los ao Prestes João das Índias, ou ao imperador de Trapizonda, dos quais eu por notícias certas sei que foram famosos poetas; mas, ainda quando isto seja patranha e não o tenham sido, e apareçam porventura alguns pedantes palradores, que vos mordam por detrás, e murmurem desta peta, não se vos dê dez réis de mel coado desses falatórios, porque, ainda quando averigúem a vossa velhacaria a respeito da paternidade dos tais versos, nem por isso vos hão-de cortar a mão com que os escrevestes. [Osório diz: portanto, ele sabe compor sonetos, ele é poeta e se reconhece como tal. / Personagem lendária cujas sentenças constavam dos livros de cavalaria. / [Osório diz: também personagem lendária. / Patranha é sinônimo de mentira. / “Mel coado” é expressão do tradutor que significa “coisa nenhuma” ou “nada”. Cervantes usa “dois maravedís”, ou “não os importa nada”. / O próprio Cervantes tinha uma mão cortada. Era maneta. / Dica para como falsificar].

 

Enquanto ao negócio de citar nas margens do livro os nomes dos autores, dos quais vos aproveitardes para inserirdes na vossa história os seus ditos e sentenças, não tendes mais que arranjar-vos de maneira que venham a ponto algumas dessas sentenças, as quais vós saibais de memória, ou pelo menos que vos dê o procurá-las muito pouco trabalho, como será, tratando por exemplo de liberdade e escravidão, citar a seguinte: [Osório diz: honestidade intelectual. / Cervantes confessa saber ou, pelo menos, onde as encontrar com facilidade. / Este tema (escravidão) já preocupava o autor!]

 

Non bene pro toto libertas venditur auro, [Osório diz: tradução: “não existe ouro suficiente para pagar pela venda da liberdade”. Esopo diz: “A liberdade não se compra com ouro”, informa Ernani Ssó em sua tradução].

 

e logo à margem citar Horácio, ou quem foi que o disse. Se tratardes do poder da morte, acudi logo com: [Osório diz: escritor latino]

 

Pallida mors aequo pulsat pede pauperum tabernas

Regumque turres. [Osório diz: tradução: “que a pálida morte vá tanto à choça do pobre como ao palácio do rei”. Tradução de Ernani Ssó].

 

Se da amizade e amor que Deus manda ter para com os inimigos, entrai-vos logo sem demora pela Escritura Divina, o que podeis fazer com uma pouca de curiosidade, e dizer depois as palavras pelo menos do próprio Deus: Ego autem dico vobis: Diligite inimicos vostros. Se tratardes de maus pensamentos, vinde com o Evangelho, quando este diz: De corde exeunt cogitationes malae; se da instabilidade dos amigos, aí está Catão que vos dará o seu dístico: [Osório diz: Cervantes e conhecimento da Bíblia. / Tradução: “Eu vos digo: amai os vossos inimigos”, Mateus, 5,44. / Tradução: “De dentro do coração saem os maus pensamentos” Mateus 15,19. / Os amigos são instáveis! / Cervantes cita os versos abaixo como sendo de Catão, mas são de Ovídio]

 

Donec eris felix, multos numerabis amicos

Tempora si fuerint nubila, solus eris. [Osório diz: tradução: “quando és feliz, tens muitos amigos. Em maus tempos, ficas só”, na tradução de Ernani Ssó].

 

Com estes latins, e com outros que tais, vos terão, sequer por gramático, que já o sê-lo não é pouco honroso, e às vezes também proveitoso nos tempos de agora [Osório diz: desde então os latins já impressionavam, como continuam até hoje, em especial no mundo jurídico! / Cervantes desprezava os gramáticos? Fiquei com essa impressão].

 

Pelo que toca a fazer anotações ou comentários no fim do livro, podeis fazê-los com segurança da maneira seguinte: Se nomeardes no vosso livro algum gigante, não vos esqueçais de que este seja o gigante Golias, e somente com este nome, que vos custará muito pouco a escrever, tendes já um grande comentário a fazer, porque podeis dizer, pouco mais ou menos, isto: “O gigante Golias, ou Goliath, foi um Filisteu, a quem o pastor David matou com uma grande pedrada que lhe deu no vale de Terebinto, segundo se conta no livro dos Reis, no capítulo onde achardes que esta história se acha escrita.” Em seguida a esta anotação, para mostrar-vos homem erudito em letras humanas e ao mesmo tempo um bom cosmógrafo, fazei de modo que no livro se comemore o rio Tejo, e vireis logo com um magnífico comentário, dizendo: “O rio Tejo foi assim chamado em memória de um antigo rei das Espanhas; tem o seu nascimento em tal lugar e vai morrer no mar Oceano, beijando os muros da famosa cidade de Lisboa, e é opinião de muita gente que traz areias de ouro, etc.” Se tratardes de ladrões, dar-vos-ei a história de Caco, a qual eu sei de cor; se de mulheres namoradeiras, aí está o bispo de Mondonedo que vos emprestará Lâmia, Laís e Flora, cujo comentário vos granjeará grande crédito; se de mulheres cruéis, Ovídio porá Medéia à vossa disposição; se de feiticeiras e encantadoras, lá tendes Calipso em Homero, e Circe em Virgílio; se de capitães valerosos, Júlio César se vos dá a si próprio nos seus Comentários, e Plutarco vos dará mil Alexandres; se vos meterdes em negócios de amores, com uma casca de alhos que saibais da língua toscana topareis em Leão Hebreu, que vos encherá as medidas: e se não quereis viajar por terras estranhas, em vossa casa achareis Fonseca e seu Amor de Deus, no qual se cifra tudo quanto vós e qualquer dos mais engenhosos escritores possa acertar a dizer em tal matéria. Em conclusão, nada mais há senão que vós procureis meter no livro estes nomes, ou tocar nele estas histórias, que vos apontei, e depois deixai ao meu cuidado o pôr as notas marginais, e as anotações e comentários finais, e vos dou a minha palavra de honra de vos atestar as margens de notas, e de apensar ao fim do livro uma resma de papel toda cheia de comentários[Osório diz: como todos sabemos, personagem bíblico, mas que ressaltamos, mais uma vez, para mostrar a familiaridade de Cervantes com as escrituras. / Mais que um amigo, o amigo de Cervantes era um fantástico incentivador! / Cosmógrafo, aquele que descreve o universo, claro. / Rio Tajo, em castelhano, nasce na Espanha e deságua no mar em Portugal. / “Beijando os muros” é uma imagem muito linda! De um lirismo profundo. / As areias de ouro lembrou-me minha infância nas margens do Rio Japurá, em Maraã, quando eu ficava pensando se tinha um jeito de recolher os farelos de ouro depositados juntos com a areia, embora nunca tenha tentado fazê-lo. / Caco era filho de Hefesto que roubou os bois de Heracles. Lenda contada por Virgílio na Eneida. / No original está “mulheres rameiras”, o tradutor em sua época achou melhor ... melhorar. / Trata-se do frei Antonio de Guevara, “que teve merecida fama de inventor de falsas histórias que dava por verdadeiras”. / As três são citada pelo referido frei. / Como se percebe, o conhecimento de Cervantes era vasto também na literatura. / Seria tal citação uma crítica a Plutarco capaz de um único fazer mil com sua pena? / “Negócio”, por seu uso comercial, é ótimo em se tratando de amores! / Leão Hebreu é Judá Abravanel, é o autor de Dialoghi d'amore, tratado de retórica renascentista. / Fonseca é frei Cristóbal de Fonseca. / “Meter no livro estes nomes” da a impressão de que nele, honestamente, não caberiam. / Exagerado com uma resma de papel!]

 

Vamos agora à citação dos autores que por aí costumam trazer os outros livros, mas que faltam no vosso. O remédio desta míngua é muito fácil, porque nada mais tendes a fazer do que pegar em um catálogo, que contenha todos os autores conhecidos por ordem alfabética, como há pouco dissestes; depois pegareis nesse mesmo catálogo e o inserireis no vosso livro, porque, apesar de ficar a mentira totalmente calva por não terdes necessidade de incomodar a tanta gente, isso pouco importa, e porventura encontrareis leitores tão bons e tão ingênuos que acreditem na verdade do vosso catálogo, e se persuadam de que a vossa história, tão simples e tão singela, todavia precisava muito daquelas imensas citações: e quando não sirva isto de outra coisa, servirá contudo por certo de dar ao vosso livro uma grande autoridade; além de que ninguém quererá dar-se ao trabalho de averiguar se todos aqueles autores foram consultados e seguidos por vós ou não o foram, porque daí não tira proveito algum, e de mais a mais, se me não iludo, este vosso livro não carece de alguma dessas coisas que dizeis lhe falta, pois todo ele é uma invectiva contra os livros de cavalarias, dos quais nunca se lembrou Aristóteles nem vieram à idéia de Cícero, e mesmo S. Basílio guardou profundo silêncio a respeito deles. O livro que escreveis há-de conter disparates fabulosos, com os quais nada têm que ver as pontualidades da verdade, nem as observações da astrologia, nem lhe servem de coisa alguma as medidas geométricas, nem a confutação dos argumentos usados pela retórica, nem tem necessidade de fazer sermões aos leitores misturando o humano com o divino, mistura esta que não deve sair de algum cristão entendimento. No vosso livro o que muito convém é uma feliz imitação dos bons modelos, a qual, quanto mais perfeita for, tanto melhor será o que se escrever: e pois que a vossa escritura tem por único fim desfazer a autoridade que por esse mundo e entre o vulgo ganharam os livros de cavalarias, não careceis de andar mendigando sentenças de filósofos, conselhos da Divina Escritura, fábulas de poetas, orações de retóricos, e milagres de santos; o de que precisais é de procurar que a vossa história se apresente em público escrita em estilo significativo, com palavras honestas e bem colocadas, sonoras e festivas em grande abastança, pintando em tudo quanto for possível a vossa intenção, fazendo entender os vossos conceitos sem os tornar intrincados, nem obscuros. Procurai também que, quando ler o vosso livro, o melancólico se alegre e solte uma risada, que o risonho quase endoideça de prazer, o simples se não enfade, o discreto se admire da vossa invenção, o grave a não despreze, nem o prudente deixe de gabá-la. Finalmente, tende sempre posta a mira em derribar a mal fundada máquina destes cavaleirescos livros aborrecidos de muita gente, e louvados e queridos de muita mais. Se conseguirdes fazer quanto vos digo, não tereis feito pouco. [Osório diz: a primeira frase deste parágrafo me soou debochada! / Muito boa essa figura da “mentira calva”! Aqui no Brasil não usamos o “mentira cabeluda”? / Há sempre alguém disposto a acreditar num rol volumoso de gente famosa! Chegam mesmo a criticar e ridicularizar as inovações que não partam da pena de um famoso. / Uma apresentação de um famoso é tudo, quando não deveria ser nada ou ser indiferente, devendo o leitor ligar-se no conteúdo do livro, propriamente dito. / Quem confere o rol de autores citados em monografias, dissertações e teses? Creio que ninguém! / Cervantes explica,faz uma sinopse de seu livro e “espanta-se” de autores famosos não terem tratado do assunto. / Fabulosos no sentido de provenientes de fábulas ou sinônimo de magníficos? Fiquei com a segunda opção após a leitura. / A verdade é pontual! / Deboche da astrologia? E da geometria? Esta aqui não mede, calcula nada? / “Confutação” é sinônimo de refutação. / Seria a retórica irrefutável para Cervantes? / “Fazer sermões aos leitores”, significa ser longo, prolixo? O humano não deve ser misturado com o divino! Difícil isso, pois o divino foi inventado e é usado pelo humano. / Mais para a sinopse. Embora o autor não mendigue, ele usa todos os citados. / Mais sinopse. O autor conseguiu, realmente, atingir esse propósito! Muito bela a condenação cervantina aos “conceitos intrincados e obscuros”. / Creio que nesse objetivo também foi muito feliz Cervantes, pois rimos com seu livro, ele não enfada e é admirável, não podendo ser desprezado e merece todos os elogios possíveis. / Esse jogo de palavras em Cervantes é magnífico! Veja que ele não diz, por exemplo, “fizeste muito”, mas quase que nega para exaltar com o “não tereis feito pouco”].

 

Com grande silêncio estive eu escutando o que o meu amigo me dizia, e com tal força se imprimiram em mim as suas razões, que sem mais discussão alguma as aprovei por boas, e delas mesmas quis compor este prólogo: aqui verás, leitor suave, a discrição do meu amigo, a minha boa ventura de encontrar um tal conselheiro em tempo de tão apertada necessidade, e a tua consolação em poderes ler a história tão sincera e tão verdadeira do famoso D. Quixote de la Mancha, do qual a opinião mais geral dos habitantes do Campo de Montiel é haver sido o mais casto enamorado, e o mais valente cavaleiro que desde muitos anos a esta parte apareceu por aqueles sítios. Não quero encarecer-te o serviço que te presto em dar-te a conhecer tão honrado e notável cavaleiro; mas sempre quero que me agradeças o conhecimento que virás a ter do grande Sancho Pança, seu escudeiro, no qual, segundo o meu parecer, te dou enfeixadas todas as graças escudeiraisque pela caterva dos livros ocos de cavalarias se encontram espalhadas e dispersas. E com isto Deus te dê saúde, e se não esqueça de mim. [Osório diz: o “se imprimiram em mim” parece linguagem atualíssima ligada àinformática. Ou seriam os termos da informática tão antigos quando o Quixote? / Inicia com desocupado, que pode parecer agressivo, e termina com o suave, que é um agrado em busca pela cumplicidade da leitura. / Cervantes destina o qualificativo “grande” a Sancho. Por quê? É que Sancho é um juiz implacável com o seu senhor e um sonhador, quase louco, para consigo mesmo quando se trata de seus sonhos e não dos de Don Quixote. / Sim, sincera e verdadeira, pois esta é a função do romance: criar tais histórias que prescindem da tal realidade para serem tais! Você não precisa ir à Mancha para ver os campos pelos quais rocinante levava seu dono, basta que leia o livro e estará neste lugar que será criado pela imagem que se formar em sua mente. Ir à Mancha, talvez, prejudique a beleza que você criou, mas, mesmo assim, se possível, não deixe de ir até lá. / “Graças escudeirais”! Seria o mesmo que dizer que o lavrador tem “graças machadais”, “graças enxadais”, mas sem a beleza da sonoridade proveniente de escudeirais. / Cervantes condena e se abebera nos muitos “livros ocos de cavalarias”, quase que numa demonstração de falso ódio e amor verdadeiro. / Nada de “juntos e misturados”! / Esta construção final é simplesmente genial. Cervantes pede a Deus saúde ao leitor, antes de tudo, mas pede também que ele próprio Deus não se esqueça. Claro que está expresso o pedido por saúde, mas, aparentemente, ele pede apenas para não ser esquecido por Deus, o que, no fundo, seria tudo, embora o pedido seja uma negativa da onisciência divina, já que, para alguns, Deus não se esquece de nada por conhecer tudo e ver tudo!].

 

Vale [Osório diz: esta é uma fórmula latina de despedida própria das escritas familiares, significando: “que estejas bem, são”. Ou seja, com ela, mais Cervantes se mostra querer se familiarizar com o leitor, deixando para trás, definitivamente, o “desocupado”, que, hoje, poderia soar pejorativo, algo como vagabundo, por exemplo].

 

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