Livros que Li

tercio

Sócrates, um filósofo bastardo.

Caros,

 

Há muito venho desconfiando de Platão, o filósofo grego mais admirado que conhecido!

Minhas pesquisas, contudo, ainda engatinham. Não sou filósofo, trabalho na área jurídica. Estudo filosofia por diletantismo e para acalmar minhas inquietações na busca por conhecimento.

 

Minha área de pesquisa, faz 10 anos, é a Sofística grega, que, aliás, é a única, ocorrida no século V antes da era atual (ou da Copa do Mundo de 2014!). A dita “Segunda Sofística” é outro movimento com alguma influência daquela e ocorreu já sob o Império Romano.

Assim, meus companheiros de dias e noites têm sido Protágoras, Górgias, Pródico, Antifonte, Hípias, Crítias, especialmente, e, confesso, gosto muito de suas companhias!

Como Platão e Aristóteles, ou seus intérpretes, levaram a vida para “difamar” os Sofistas, fiquei muito alegre no dia que me deparei com o livro de título até certo modo curioso, que foi o que inicialmente me chamou a atenção: “Sócrates, um filósofo bastardo”.

Alguém ousa criticar Sócrates!? Espantei-me.

Só pode ser um maluco.

Como costumo identificar-me com os malucos/malditos (Luciano de Samosata e Elio Aristides, por exemplo), adquiri o livro!

Seu autor era: F. Cabral Pinto!

Era!?

Sim, pois depois descobri que se trata do Professor Fernando Cabral Pinto, ou melhor: José Fernando Vasconcelos Cabral Pinto, Professor do Instituto Piaget, em Lisboa.

Minha primeira edição era (e é, pois a conservei) pela Editora Livros Horizonte, de Lisboa, e data de 1985.

Em 2002 saiu uma nova edição pelo Instituto Piaget, onde foi acrescentado “um prefácio, em que o autor reforça o esclarecimento da sua interpretação da história pessoal e intelectual de Sócrates. No corpo do texto praticamente não foram feitas alterações, exceto uma que parece significativa: mudou o título do capítulo três para 'A traição de Platão'".

Abaixo, segue a Introdução da maravilhosa, cativante e instigadora obra, com a qual você sentir-se-á estimulado a conhecer o livro em sua integralidade, certamente, pois o autor nos prende em sua história filosófica como um autor de conto policial nos prende ao desfecho do crime “insolúvel”

Platão traiu Sócrates!?

Você acredita nisso?

Eu já desconfiava, pois o velho Aristófanes não poderia ter se enganado tanto, pois se o tivesse feito, jamais seria o autor genial que foi!

Para mim, a maior traição de Platão para com Sócrates é dizer e afirmar e implorar e gritar e vociferar e agredir e escrever que seu mestre não era um Sofista!

E ele o era, absolutamente.

Então, por que Platão nega tal fato?

Leiam a obra do Professor Fernando Cabral Pinto e saberão.

(Fiz alguns comentários na dita Introdução para mostrar o meu deleite e para meu consumo, embora, agora, ouse dividi-los com você).

 

Boa leitura,

 

 

 

Sócrates, um filósofo bastardo

 

F. Cabral Pinto

 

INTRODUÇÃO

 

Em 403, cai definitivamente o governo dos Trinta Tiranos; a democracia é então restaurada. Em 399, Sócrates é condenado à morte num processo que teve como principal acusador Anito; este é um dos homens fortes do novo regime.

 

Tenha-se agora em atenção o seguinte: Crítias, o mais cruel do grupo dos Trinta, terá sido discípulo do filósofo; e, como ele, muitos outros destacados membros da aristocracia ateniense — desde logo, Cármides, primo do tirano, e, sobretudo, Platão, parente de ambos. [Osório diz: Crítias, um dos Trinta Tiranos era parente de Cármides, e ambos parentes de Platão. Todos pertenciam à Aristocracia. Todos eram discípulos de Sócrates, em especial Crítias e, depois, Platão]

Será possível, face a estes factos, deixar de ver em Sócrates o que Taylor viu nele: “o activo e perigoso chefe de um clube antidemocrático”? Magalhães-Vilhena, por seu lado, afirma que ele foi “o dirigente intelectual incontestado e incontestável da reacção aristocrática no momento decisivo da democracia triunfante”; e vê nos diálogos platónicos a confirmação disso.

[Osório diz: Sócrates é um antidemocrata? Sim, segundo Taylor (“o ativo e perigoso chefe de um clube antidemocrático”) e Magalhães-Vilhena (“o dirigente intelectual incontestado e incontestável da reacção aristocrática no momento decisivo da democracia triunfante”). Platão não aborda essa acusação!].

 

Sendo assim, a morte de Sócrates, reclamada em tribunal por Anito (e outros) só pode ter o significado de uma execução política: ele foi morto “como criminoso de Estado”. No Livro I das Memoráveis, encontramos a enumeração dos crimes de natureza política que, não constando embora da acusação oficial (aquela que Meleto, sob instigação de Anito, afixou no pórtico do arconte-rei), poderiam ter, contudo, pesado de forma determinante no veredicto dos juízes. [p. 7]

 

[Osório diz: acusadores de Sócrates no tribunal: Meleto, Anito e Lícon, p. 11].

[Osório diz: Meleto acusa Sócrates de: “crimes de natureza política”].

 

Hoje sabe-se que tais crimes não teriam sido referidos durante o julgamento e que as refutações de Xenofonte não visavam o verdadeiro discurso de Anito, mas um panfleto que Polícrates escreveu entre 393 e 392 fazendo crer tratar-se de uma reprodução daquele. Mas nem por isso os que vêem em Sócrates um saudoso da “constituição dos antigos” admitem ter sido outro o motivo que terá levado o tribunal a decidir-se pela pena capital. Só aparentemente o julgamento não terá sido político; na realidade, subjacente a ele estaria a vingança dos democratas. O que Polícrates fez dizer a Anito no seu panfleto corresponderá ao que o mesmo Anito diria na presença dos juizes se a lei da amnistia então em vigor o não tivesse impedido. [Osório diz: Falsidade de Xenofonte, atribuí a Anito um escrito de Polícrates! Quais outras ele praticará?] [Osório diz: (“Sócrates um saudoso da 'constituição dos antigos'”, morreu por crime político.)

 

Sabemos assim, dando por verdadeiro o conteúdo desse panfleto, que Sócrates era considerado responsável pela formação política de Crítias e de Alcibíades e que, entre outras coisas, incitaria os jovens a menosprezar as leis e a igualdade: “Atenienses, Sócrates induz a juventude a combater as leis — teria dito Anito (se pudesse), segundo Polícrates —. O regime está em perigo. São insolentes, amigos da tirania, indivíduos intoleráveis, difamadores da igualdade, aqueles que devemos ao sofista”. (cf. J. Humbert, p. 15). [Osório diz: Alcibíades, outro aluno de Sócrates e que foi extremamente prejudicial à Atenas, de quem chegou, por duas vezes, a ser seu dirigente máximo! Mas, segundo Platão, apenas os Sofistas punham seus alunos em mau caminho, embora seu mestre incitasse “os jovens a menosprezar as leis e a igualdade”. As leis formais eram as desprezadas, pois votadas pela maioria democrática. E a igualdade era condenada por que um cidadão qualquer não poderia ser igual a um Aristocrata, cuja linhagem provinha dos deuses, de quem eles recebiam parcela de divindade, logo de sabedoria]. [Osório diz: Polícrates, soma-se a Aristófanes e aponta, claramente, Sócrates como Sofista, que Xenofontes e Platão tentarão, em vão negar, pois ele tinha tudo de Sofista, como a feijoada tem do porco].

 

Nesta ordem de ideias, será sob a inspiração antidemocrática do mestre, que Platão sustentará na República a incompatibilidade entre a igualdade e a justiça, acabando por definir esta pelo oposto daquela. A filosofia platónica será a actualização da “verdade” potenciada nos diálogos vivos de Sócrates. [Osório diz: e ainda há quem glorifique a tal República, pinçando as partes que lhes interessa e passando uma borracha sobre os absurdos que prega!].

 

Aristóteles ajuda a formar esta perspectiva. Nas poucas e esparsas referências que lhe faz, sempre reitera a ideia segundo a qual Sócrates, seduzido pelas questões morais, “procurou neste domínio o universal e fixou, no que foi inovador, o seu pensamento nas definições” (Metafísica, A. 987 b) [Osório diz: Por que Aristóteles cita tão pouco a Sócrates? Ele não era tão Sócrates como se diz? Ou por ele estar no gênero Sofistas?]. Platão, por seu lado, elevou a nível ontológico o que o seu precursor terá procurado a nível lógico. Assim, a teoria das Formas, que é, na opinião expressa por Aristóteles, estranha ao socratismo [Osório diz: embora Platão ponha tal teoria na boca de seu mestre. Será que ele fez isso apenas com seu admirado?], acaba por ser a solução finalmente encontrada por Platão para um problema que Sócrates teria deidado [Osório diz: a palavra é deixado] por resolver: o da intemporalidade e universalidade dos valores. Os primeiros diálogos de Platão, [p. 8] os chamados “diálogos socráticos”, dão-nos conta de como o mestre viveria dramaticamente esse problema, a todos interpelando e de nenhum recebendo a resposta que ele também não teria para dar [Osório diz: por que os diálogos são inconclusos, mas todos, ou poucos ressaltam este fato].

A resposta, já o sabemos, encontrá-la-á mais tarde Platão. Revelam-na os seus diálogos da maturidade nos quais, por recurso ao mundo mítico das Ideias, aparece superado o relativismo axiológico dos sofistas e metafisicamente justificadas a desigualdade e a ordem aristocrático-tribal. Vitória póstuma, pois, de Sócrates sobre os ideais da sofística contra os quais teria passado a vida a lutar. [Osório diz: se supera, supera apenas para quem aceita tal mundo. Os cristãos, talvez!] [Osório diz: quanto ao relativismo axiológico, se aceita a teoria, e se ela o resolve, resolve apenas o problema dos “valores”, mas não o do conhecimento. O que Platão faz, é trazer, de novo, para o seio da filosofia, o pensamento mitológico, por cuja superação, justamente, lutaram os ditos pré-socráticos! Não foi ele capaz de “racionalmente” fazer a dita superação]

 

Só que há algumas peças que não encaixam neste puzzle [Osório diz: quebra-cabeças]. Atente-se, por exemplo, nos termos do libelo da acusação de Meleto contra Sócrates: “Eu, Meleto, filho de Mele to, do demo de Piteia, acuso sob juramento Sócrates, filho de Sofronisco, do demo de Alopece. Sócrates é culpado de negar os deuses reconhecidos pelo Estado e de querer introduzir divindades novas e ainda culpado de corromper a juventude. Castigo pedido: a morte” (Diógenes de Laércio, l, p. 116). Parece, indubitavelmente, que Meleto foi buscar o seu requisitório às Nuvens de Aristófanes. Também nesta obra, com efeito, Sócrates passa por ímpio e mau conselheiro dos jovens. E a morte será o seu castigo. [Osório diz: termos da acusação contra Sócrates].

 

O Sócrates de Meleto e o de Aristófanes estão separados por cerca de vinte e cinco anos. Por outro lado, os juizes, sem escândalo da assistência, consideraram provada a acusação. Ora, não parece nada lógico que o filósofo fosse na realidade uma coisa e durante tantos anos tivesse logrado passar por outra.[Osório diz: o conjunto probatório contra Sócrates: Aristófanes, 25 anos depois dele Meleto e o conhecimento público e notório dos juízes].

 

Aquando da representação das Nuvens, Sócrates teria aproximadamente 45 anos (nessa altura Platão andaria pelos cinco). O que ele pensava e dizia deveria ser bem conhecido do comediógrafo e do público que assistia à representação da peça. Esta era essencialmente uma obra política, panfletária mesmo, dirigida contra os ideais da democracia na pessoa do intelectual coevo que provavelmente melhor os simbolizaria. [Osório diz: Aristófanes/Sócrates/Platão. Platão tentaria combater Aristófanes sem nunca citá-lo? E ele o conhecia, obviamente].

 

Acrescente-se agora a perplexidade seguinte: desde a juventude até à morte, ao longo de várias décadas, Sócrates terá tido um único móbil filosófico: descobrir a essência de cada uma das virtudes para poder fixá-la numa defi- [p. 9] nição universal; dessa forma, a moral converter-se-ia numa ciência (cfr. Aristóteles, Metafísica, associando A 987 b com M 1, 1078 b). E, afinal, com 70 anos, terá morrido apenas consolado pela consciência da sua ignorância! Quanto ao conhecimento que se propusera atingir, o conhecimento verdadeiro das virtudes morais, encontrar-se-ia no fim como estava no princípio. Ora, nenhuma fama se constrói sobre um fracasso tão grande.

[Osório diz: objetivo de Sócrates é seu fracasso! De onde, então, a fama de que goza?]

 

O que nos coloca perante este dilema:

 

1) ou nos resignamos a ver nele tão-só uma figura extravagante, talvez capaz de exercer alguma atracção sobre a mocidade ociosa, talvez um espírito desencaminhador [teria, por exemplo, desencaminhado o filho de Anito, convencendo-o a não seguir a profissão do pai (Xenofonte, Apologia, 29), facto que poderia conferir à intervenção de Anito, no processo o carácter de uma vingança pessoal; de resto, esta hipótese parece encontrar confirmação na acusação de Polícrates: “Sócrates incita os novos contra os velhos e os filhos contra os pais”], talvez, finalmente, alguém que já -no fim da vida e sobretudo pelas circunstâncias espectaculares da sua morte, tivesse suscitado a simpatia de homens que vieram a tornar-se célebres e que, por contingentes motivos, fizeram questão em assumir-se como discípulos seus—mas nunca alguém que, de facto, merecesse a projecção que esses mesmos pretensos discípulos lhe trouxeram; [Osório diz: tem um Sofista que pergunta e afirma: “É certo um pai bater num filho para corrigi-lo? E se ocorrer o contrário”. Aristófanes fala dos galos, dizendo: “Ardilosamente o filho indaga: 'Então me diga: não é justo que eu agora dê provas de interesse por você e lhe dê porradas, já que bater nas pessoas é sinal de interesse por elas? Ora, por que seu corpo deve ficar livre de surras e o meu não ficou? Está certo que as crianças chorem, e na minha opinião um pai também deve chorar. Chorar é mais natural nos velhos que nos moços, entre outras coisas porque as faltas dos moços são mais desculpáveis'. O pai, estarrecido proclama: 'Mas em parte alguma a lei permite tratar o pai assim'. Fidípides argumenta: 'Não foi um homem como você e eu que impôs essa lei, e não foi com palavras que ele convenceu os antigos? Por que não posso fazer também uma lei nova, determinando que os filhos podem bater também nos pais? Veja como os galos e outros animais que você conhece retribuem as pancadas de seus pais: em que eles são diferente de nós, senão no fato de eles não fazerem decretos?']

 

2) ou então — segunda alternativa do dilema — teremos que admitir que a missão que Sócrates a si mesmo se impusera acabava quando, aturdidos, os seus ocasionais interlocutores em temas de natureza ético-política se viam obrigados a reconhecer a invalidada lógica das suas definições. Se os ensinamentos socráticos, como diz Aristóteles, “incidiam exclusivamente sobre as questões morais”, não era, ao contrário do que pensava o mesmo filósofo, porque procurasse «neste domínio o universal» , mas antes porque estava convencido — e disso quereria convencer os outros — de que justamente nesse domínio era inútil procurar o universal visto as virtudes não se definirem como se definem, os seres sensíveis, isto é, pela essência comum. [p. 10] [Osório diz: muito bom!]

 

O que implicava recusar a educadores e sacerdotes a pretensão de ensiná-las, de impô-las como verdades insusceptíveis de discussão. [Osório diz: o que faz de Sócrates um Sofista, pois isso foi o que disse Górgias!].

 

Só desta maneira a acção socrática fará sentido; só desta maneira ela não se salda por um rotundo fracasso. [Osório diz: mas para isso ele não é platônico!]

 

É esta a tese que defendo. Sendo ela certa, Aristófanes não terá feito a “imperdoável confusão” de que o acusa, por exemplo, Châtelet — de resto, a esta luz poderemos ver que não há contradição, pelo menos flagrante, entre o Sócrates aristofânico, o Sócrates dos primeiros diálogos de Platão e, por fim, o Sócrates das Memoráveis de Xenofonte. E se Aristófanes não se enganou, também os acusadores de 399 não terão mentido, isto é, não encobriram sob um falso libelo o principal crime que, na realidade, quereriam imputar ao filósofo, qual era o de ser ele um activo militante do partido aristocrático-oligárquico, um inimigo da democracia. A razão pela qual Anito, Meleto e Lícon fizeram julgar e condenar Sócrates não é outra senão a que publicamente constou do processo: razão coincidente com a que levou Aristófanes a ridicularizá-lo e a condená-lo, em cena,. à morte pelo fogo. Sócrates era, de facto, tanto para aqueles como para este, um mau conselheiro da juventude e um homem insensível às crenças religiosas tradicionais.

 

Fica, no entanto, uma questão por resolver: com efeito, como explicar a convergência no ódio a Sócrates da aristocracia mais retrógrada, representada pelo poeta e comediógrafo, e da democracia triunfante de 403, tendo esta como procurador Anito, um dos seus chefes?

 

Questão que nos impõe saber que democracia era aquela. Ora, a mais curta investigação que sobre ela se faça não permitirá chegar a conclusões diferentes daquelas que topicamente passo a enunciar: 1) o regime que condenou Sócrates estava ideologicamente mais próximo do conservadorismo, de Aristófanes do que do antidogmatismo ético-político dos sofistas; 2) a restauração democrática resultou de um compromisso, ou melhor, de uma efectiva aliança entre nobres e democratas “moderados” (talvez fosse preferível escrever “democratas” moderados) contra o radicalismo popular; [Osório diz: os radicais populares não podiam pagar aos sofistas!] 3) o domínio da classe possidente (mercadores e aristocratas) exigia uma ideologia conservadora que funcionasse como travão moral contra a insatis- [p.11] fação mal contida do povo miserável; [Osório diz: também não podiam pagar aos sofistas!] 4) Sócrates, com o seu processo refutativo, põe em perigo essa ideologia. Ele luta contra o dogmatismo do senso comum, ou seja, contra a predeterminação das decisões normativas a partir de modelos acriticamente interiorizados. Ele não foi condenado e executado por outras razões.

 

Isto aceite, modificam-se as perspectivas quanto às relações entre Platão e Sócrates. Platão era um aristocrata, um conservador. Talvez tivesse chegado a nutrir, na juventude, alguma simpatia pela constituição democrática (acontecera o mesmo a Cri tias); se isso é verdade, tal simpatia passara-lhe de todo. Aceitava a paz de 403, mas abominava as instituições político-constitucionais que ela restabelecera. Sócrates, julgado por um tribunal popular, aparece4he como uma vítima dessas instituições. Assim, fará dele uma bandeira.

 

Surge então menos importante o que há de socrático em Platão do que aquilo que nele há de anti-socrático. Interrogar sobre o que é o bem, o justo, etc., parece implicar a necessidade de uma resposta positiva. Sócrates, já foi dito, apenas pretendia refutar o lugar comum, denunciar o falso saber, e tal era o que se verificava nos primeiros diálogos platónicos. Porém, a partir de certa altura Platão começa a dar resposta às interrogações socráticas: avança para as teorias da reminiscência e das Formas. Aristóteles tem razão quando sublinha que tais teorias nada têm de socrático; já não tem, contudo, quando afirma que Sócrates procurava aplicar às questões morais o modelo teórico do conceito.

 

São anti-socráticas aquelas teorias e do mesmo modo o são, necessariamente, o conservadorismo e o elitismo políticos que delas derivam, designadamente a metafísica correlação que Platão estabelece entre as classes sociais e as partes da alma, absolutizando dessa forma a incompatibilidade entre o princípio da justiça e o da igualdade.

 

Também as relações entre Sócrates e os sofistas mudam de perspectiva. Quem Sócrates visava atingir com a sua ironia era (já se disse) o dogmatismo do senso comum, expressão da ideologia dominante, e de forma alguma o relativismo ético-crítico dos sofistas. Inspirava-o a função que estes tinham desempenhado e continuavam a desem- [12] penhar (excepção feita a alguns discípulos transviados) na superação do dogmatismo mítico sob o qual a velha nobreza assentara outrora — sem desistir de o reconquistar— o seu poder hegemónico. [Osório diz: aqui a demonstração de que Sócrates também era um Sofista! Tanto assim que tinha, também, discípulos “transviados”, como Crítias e Alcibíades, por exemplo].

 

O facto de ser ateniense justificava as particularidades que o distinguiam dos sofistas-estrangeiros: preocupava-se mais em discutir as questões de ordem prática (ético-polí-ticas) do que em transmitir conhecimentos técnicos; não seria como eles um profissional do ensisno [Osório diz: a palavra é ensino]. Mas não os considerava arrogantes. De resto, nem Platão lhes atribui essa arrogância. Pelo contrário, Protágoras aparece como figura prestigiada no diálogo com esse nome e no Menon é mesmo defendido perante Anito; o mesmo acontece com Górgias, tanto no diálogo homónimo como no Menon. Normalmente arrogantes são os discípulos dos sofistas. [Osório diz: respeito de Platão para com os Sofistas]. [Osório diz: sobre Cálicles, ver Jacqueline de Romilly].

 

Os sofistas criaram a teoria do contrato social; com ela legitimavam o acesso da nova classe ao poder, a constituição democrática. Sócrates tem a mesma teoria como referente; continua, porém, a explorar-lhe as virtualidades pedagógicas e democráticas numa altura em que o povo já deixara de ser aliado da burguesia (expressão que usarei mau grado referir-se a uma categoria sociológica de formação histórica posterior 1) para passar a ser o seu inimigo de classe. Episodicamente, na crise de 403-404, os burgueses voltaram a aliar-se ao povo. Mas, ultrapassada essa conjuntura, como poderia a burguesia consentir que alguém andasse junto das camadas populares a defender que o único fim da vida social é a utilidade e que não há valores que obriguem quem quer que seja a tomar decisões contrárias ao seu interesse real?

 

Sócrates estava, de facto, convencido de que o interesse de cada um, criticamente reconhecido, seria igual em todos os homens enquanto cidadãos. Assim, segundo ele, seria sempre possível encontrar consensos racionais [Osório diz: mas não é isso o proposto por Protágoras no diálogo homônimo com o mito de Prometeu?] sobre os assuntos respeitantes ao governo da cidade. Obstando a um tal desiderato, estariam apenas os preconceitos do senso comum. Estes, ideologicamente erigidos em valores absolutos, apenas servem a quem tenha em vista particularizar o que, na lógica do pacto social, deveria ser comum. [p. 13]

 

Na defesa e reprodução desses preconceitos estará, pois, interessada toda a classe possidente — sem que nisso a divida a diferença de nascimento. Esta é a razão pela qual aristocratas e burgueses atenienses concordarão em condenar Sócrates à morte.

Só a esta luz se poderá, na minha opinião, compreender a semelhança entre a denúncia aristofânica de 423 e a acusação de 399, levada a tribunal por Meleto sob o patrocínio de Anito. Espero que para essa compreensão ressalte algum contributo das páginas que vão seguir-se.

 

NOTA

 

1 O facto de o capitalismo mercantil antigo não ter desembocado no modo de produção capitalista, antes ter prosseguido na ordem esclavagista em que se gerou, não justifica que o neguemos (como praticamente o faz M. I. Finley: ver A Economia Antiga), nem deve impedir-nos (quanto mais não seja pela indisponibilidade de outro signo de correcção mais líquida) de designar por burguesia a classe enriquecida com o comércio e outras actividades lucrativas (Finley, recusando-se a aplicar a noção de classe social à 'sociedade ateniense, apenas vê nela “ricos e pobres”. Ver Démocratie Antique et Démo-cratle Moderne, pp. 113-4). Thomson cita Engels para afirmar que o erro dos que subestimam a intensidade do comércio na Grécia antiga — e isso por não observarem o efeito dessa, actividade na dissolução do regime esclavagista—'Vem de suporem que o modo de produção capitalista só se baseava no desenvolvimento do capital mercantil: “No mundo antigo, a acção do comércio e o desenvolvimento do capital mercantil conduziram sempre a uma economia esclavagista (...). Em contrapartida, no mundo moderno, a acção do comércio conduz ao modo capitalista da produção. Donde se segue que estes resultados eram em si meemos ainda condicionados por outras circunstâncias que não apenas o desenvolvimento do capitalismo mercantil” (Os Primeiros Filósofos, u, p. 27).

 

 

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