Livro

tercio

In Livro

Pitagoriando em Sampa - Capítulo V

Pitagoriando em Sampa

 

CAPÍTULOV

 

 

A aula, naquela segunda-feira, foi tranquila, mas na hora do recreio encontrei a professora Luciana. Como percebi que não estava sendo observado pela minha guardiã Lélia, e o amplo sorriso da mestra era convidativo, aproveitei para puxar conversa.

- Olá professora, tudo bem?

- Tudo, e contigo?

- Mais ou menos...

- Como assim, mais ou menos? Você está ótimo.

- Por fora, a senhora está vendo apenas as aparências.

- Não estou entendendo...

- É que eu estava com saudades da senhora.

Ela ficou séria, olhou para os lados e, aparentemente sentindo-se segura, disse:

- Eu também estava com saudades de você.

Senti meu rosto esquentar e um calafrio percorrer minha espinha dorsal.

- Que tal umabreja(assim alguns paulistas chamam a cerveja) ou um suco na saída? Disse-lhe com a voz trêmula.

- Prefiro umbloody mary.

- Podemos ir ao restaurante Mestiço?

- Claro, mas não estou lembrada onde fica.

- Fica na rua Fernando de Albuquerque, quase esquina com a rua da Consolação. Aliás, como a Fernando é mão-única, deve-se apanhá-la pela Consolação.

- lembrei, nos encontraremos às dezenove horas.

- Estarei lá.

Seguimos direções opostas.

A muito custo, consegui me concentrar para assistir o restante da aula.

Na saída, como tinha combinado com o Thadeu, nos encontraríamos no portão principal. Percebi que a Lélia me acompanhava quando saí rapidamente da sala, mas me alcançou quando parei junto ao meu primo.

- fugindo de mim?

- De modo algum. Não podia perder de me encontrar com o Thadeu, pois precisamos voltar ao trabalho, não é mesmo, primo? Busquei cumplicidade.

- É verdade, gatinha, mas se ele não tiver tempo para você, eu tenho, disse o Thadeu.

- Quem sabe, respondeu Lélia.

- Vai fundo, meu, acrescentei.

- pensando que é assim, que sou uma qualquer porque te dei confiança?

- brincando, meu amor.

Agarrei-a pela cintura e dei um beijo longo em sua boca.

- O cara que toca em mulher minha eu mato, disse fazendo um revólver com os dedos indicador e polegar e apontando para o Thadeu.

O carro da mãe de Lélia se aproximou e ela buzinou rapidamente. Como ela estava de costas para a rua, disse-lhe que sua mãe estava chamando e que ligaria mais tarde.

Lélia beijou a mim e ao Thadeu no rosto e foi em direção ao automóvel.

Liguei meu celular e partimos em direção ao nosso apartamento.

- Thadeu, não vais acreditar.

- Em quê?

- Vou sair com uma gatona que estava azarando algum tempo.

- Quem é?

- você quer saber demais. Depois te conto, até porque não sei se irei tomar um bolo dela. Marcamos às dezenove horas. Hoje, portanto, irás iniciar o nosso trabalho sozinho.

- Posso ir não?

- Que isso cumpadi, vais querer atrapalhar minha festa. tem uma dama.

- Sujeira, mano. Mesmo assim vou segurar a peteca.

- É assim que um amigo fala.

Fomos para o apartamento. Troquei apenas a camisa e o Thadeu começou a trabalhar.

- indo, comuniquei.

- Não muito cedo não?

- Um cavalheiro nunca deve deixar uma dama esperando por ele. Por isso, devo chegar primeiro.

- Boa sorte, então.

- Fui.

Cheguei ao local uns dez minutos antes do horário marcado. Pedi um suco de laranja e um krathong-thong, um petisco de nome complicado mais muito gostoso, confeccionado em cestinhas tailandesas de massa crocante, recheadas com carne moída, milho e especiarias, dentre estas cebolinha picada. Fiquei sentado na ante-sala, em local a partir do qual podia visualizar todas as pessoas que adentravam no ambiente. Como consultava a todo instante o relógio, percebi quando Luciana chegou, faltava ainda um minuto para as dezenove horas.

Levantei-me e fui em sua direção para recebê-la. Cumprimentamo-nos e, como tinha reservado uma mesa, a garçonete sorridente nos introduziu no ambiente principal, abrindo a porta e indicando a direção de nossa mesa.

- O que vocês vão beber? Indagou a atendente, quando nos sentamos.

- Eu vou de cerveja preta, o clima está apropriado, disse Luciana.

- Eu quero um suco de abacaxi com hortelã.

- Com licença, pediu a garçonete e se retirou.

Ficamos nos fitando, como a estudarmo-nos por longo tempo. Resolvi interromper nossa troca de olhar afirmando:

- Você está mais bela agora de que a tarde na escola.

- Que nada, estou com a mesma roupa e tudo mais.

- Talvez seja por eu estar podendo vê-la sem preocupação em causar-lhe constrangimento. Ou por você estar menos tensa. Seja como for, seus olhos estão bem mais brilhantes.

- Você não acha que é muito mentiroso para sua idade?

- Mentiroso por quê?

- Por tudo que está dizendo.

- Se eu disser que você está horrorosa você vai acreditar?

- Não.

- Pois é.

- acho que você está exagerando.

Um garçom baixinho e sorridente aproximou-se e nos entregou o cardápio. Mostrou as sugestões da casa e ficou esperando pelo pedido. Disse-lhe que íamos escolher e o chamaríamos. Ele se retirou.

- Carne ou peixe? Perguntei.

- Estou em dúvida, respondeu Luciana. Mas vou de carne. Quero umásia.

Ásia é um filé mignon fatiado, estilo tailandês, ao molho de ostra, cogumelos e cebolinhas.

- Para mim, um spaghettini com frutos do mar.

Chamei o garçom, que anotou os pedidos e retirou-se.

O jantar foi agradabilíssimo. Terminou por volta das vinte e uma hora e quarenta minutos. A Luciana me disse que morava com o pai, sua mãe tinha falecido coisa de dois anos, um ano após o casamento de sua única irmã mais nova. Me disse que tinha sido noiva, mas que desistira do casamento por motivo que me contaria um outro dia. Não insisti, a despeito da enorme curiosidade. Ela sorria com frequência, mostrando todos os seus dentes alvíssimos a proteger sua língua rubra. Tinha um hálito perfumado, como têm quase todas as mulheres nos primeiros encontros. A saliva que ficava como teia de aranha entre seus dentes quando ela falava era cremosa e me provocava um desejo quase incontido de roubar aquele néctar a meu sentir adocicado. Várias vezes ela chegou a me perguntar o que tanto eu olhava nela. Naquele momento não convinha dizer. Restringia-me a roçar minha perna na dela.

- Queres uma carona, perguntou-me Luciana, após pagarmos a conta.

Como tinha segundas intenções, respondi positivamente. Dirigimo-nos ao estacionamento e, quando o automóvel começou a mover-se, atrevidamente, coloquei minha mão esquerda sobre sua coxa direita e com a esquerda, suavemente, puxei seu pescoço e o cheirei fundamente. Senti que ela se arrepiou e seu corpo enrijeceu-se, seus olhos fecharam-se levemente.

- Não faça isso, pediu ela docemente.

- Você não gosta de carinho?

- Isso não é carinho. Tem algo mais, e é contra isso que estou me batendo.

- Prometo não fazer nada que você não queira.

O meu telefone celular, que estava no bolso da minha calça e no vibra-call, foi acionado, retirei o aparelho do bolso e vi que era a Luíza B. Não atendi e coloquei o telefone novamente no bolso.

- Você carrega o celular no bolso da sua calça?

- Claro, onde iria carregá-lo?

- Você ainda não leu sobre os perigos à saúde decorrentes da emissão de ondas eletromagnéticas pelos celulares?

Um pouco envergonhado, respondi:

- Não.

- Pois é, quando em funcionamento, os celulares emitem essa energia. Alguns cientistas, geralmente aqueles ligados aos fabricantes, dizem que ela não causa mal nenhum, outros, pelo contrário, dizem que ela é cancerígena. Na dúvida, é melhor não arriscar. Mas próstata você sabe o que é, não sabe?

- Claro, é uma glândula masculina que envolve a uretra.

- É isso aí, mas como você se informou sobre isso?

- Não vamos entrar em detalhes, ainda sou muito novo.

- O que é que tem isso?

- Você sabe que esse assunto é tabu entre os homens...

- Não sei, por quê?

- Exatamente porque você não é homem.

- Se fosse, não teria o menor problema.

- Isso você diz porque não é. Deve ser chato o exame, mas o pior é a gozação.

- O toque retal é o último recurso, hoje existe a ultra-sonografia e exame de sangue também.

- Como você sabe tudo isso?

- Esqueceu que meu pai é homem?

- É verdade.

- Pois bem, como você sabe, muitos homens morrem de câncer de próstata, como muitas mulheres morrem de câncer de mama ou de útero. Nós, mulheres, para piorar, temos dois locais sensíveis a essa maldita doença, vocês têm um.

- Mas, pelo que li, todo homem, se tiver a sorte de ficar velho, vai ter câncer de próstata.

- Resumindo: é melhor você não usar o celular no bolso de suas calças.

- Beleza, vou usar no bolso da camisa.

- você pode morrer de câncer no coração.

- Prefiro isso a uma dedada.

- Vocês homens.., disse enquanto sorríamos.

nos aproximávamos de casa. Ela parou em frente ao portão que indiquei, do outro lado da rua, e disse.

- Foi legal.

- Também gostei muito. Pena que não vamos poder ficar mais tempo juntos.

- Hoje não. Quem sabe outro dia. Até porque, sinto você um pouco ansioso.

- É verdade. Nesse outro dia te conto do que se trata, tocando um projeto cultural e estou querendo ver isso pronto.

- Projeto cultural, agora me interessou. Podemos marcar para o final de semana?

- Te ligo e confirmo. A propósito, não tenho o número do teu celular. O meu é: 97814888. Cadê teu telefone? Me liga agora que você fica com o meu e eu também posso gravar o seu número.

Ela tirou o celular da bolsa e disse:

- Repete o número, por favor.

- 97814888.

O meu telefone começou a vibrar e eu li o número dela: 94272933.

- Satisfeito?

- Claro.

Trocamos um longo beijo, e pude perceber que aquela beleza de boca era também muito quente. Ela beijava divinamente bem. Meu desejo era continuar beijando-a, mas desvencilhei-me de seus braços e saí do automóvel. Não queria que ela percebesse minha alegria a tufar minha calça. Rodeei o carro por trás e fui até a janela da motorista. Beijei a testa de Luciana, e disse-lhe:

- Amanhã nos vemos. Dirija com cuidado.

- Certamente. Até amanhã.

Atravessei a rua e o automóvel se afastou lentamente.

Antes de subir ao apartamento, liguei para Luíza B.

- Alô amor, onde estás?

- Na tua casa, respondeu-me.

- chegando aí. Beijo.

Fiz uma horinha com o seu João e o Wellignton, o porteiro do prédio, para ver se meu sangue se acalmava.

refeito do efeito da testosterona, subi ao encontro de Luíza B.

Como de costume, estando a porta de serviço aberta, por ela adentrei. Ninguém me recebeu. Estava tudo em silêncio. Fui para o meu quarto. Ao entrar, encontrei a Luíza B. trabalhando junto com o Thadeu. Ela lia algo enquanto ele digitava.

- Oi, amor, disse ela vindo em minha direção. Beijamo-nos e eu perguntei:

- O que que vocês estão fazendo?

- Resolvi contatar algumas empresas que trabalham com impressão gráfica. Não vamos precisar de, pelo menos, alguns banners? Respondeu o Thadeu.

- Vamos sim, ótima ideia...

- Boas ideias são o meu forte.

- Isso porque eu ajudei, completou a Luíza B.

- Ajudou nada, está apenas querendo ganhar os méritos que são aqui da criança, disse batendo no peito.

- Tudo bem, os méritos são de ambos, disse eu. Aliás, tínhamos falado sobre isso algum tempo.

Os dois se entreolharam e ficaram cabisbaixos, então amenizei:

- Mas vocês executaram e é isso que importa.

- Andei olhando as ideias e gostei muito, acrescentou Luíza B.

- Se você gostou, é certo que está bom, então. Bom gosto você tem mesmo, afinal, está comigo.

- Além de mentiroso é convencido, retrucou ela.

Senti que a pronúncia daquelementirosotinha algo errado. Não era a Luíza B. de sempre que estava falando. Preferi, no entanto, não puxar assunto para saber o motivo. Resolvi acalmá-la com carinho e atenção.

Trabalhamos em detalhes até por volta da meia-noite. Expulsei o Thadeu para o quarto de hóspedes e fiquei repassando com a Luíza B. a concepção do nosso projeto. com muito sono, resolvermos parar e, depois de uns beijos lascivos, namoramos e fomos dormir.

No vigésimo terceiro dia após a sexta-feira em que efetuei o primeiro pagamento, recebi um telefonema do R. Ohtake, pedindo que eu fosse até o sobrado, pois queria me mostrar o andamento dos trabalhos.

chegando, encontrei tudo diferente de quando da nossa primeira visita: as paredes estavam ricamente pintadas, bem como o muro e os portões. O R. Ohtake estava do lado de fora do muro, escorado em seu automóvel. Após descer do táxi, ele veio em minha direção e disse:

- E aí, Juarez, tudo bem?

- Tudo, e com o senhor?

- Senhor é o seu pai, pedi para me chamar de tu. Eu vou bem.

- Que bom, todos estamos bem, portanto. Estou a sua disposição.

- Pois é, Juarez, como podes ver não tem ninguém trabalhando mais aqui. O dinheiro acabou, eu não tive mais como pagar o pessoal e eles se foram. Queria saber se ainda tens dinheiro?

Enquanto ele falava aquilo senti que me faltava terra nos pés, que meu sangue sumia e que meu estômago estava um vazio completo. Ele percebeu o meu estado, certamente que pela minha palidez, então disse, retirando uma chave do bolso:

- Brincadeirinha, sua obra está pronta.

Como eu ainda estava me refazendo, ele continuou:

- Tome a chave, abra o portão e vamos conferir.

O imóvel nem parecia o mesmo que tínhamos visitado aproximadamente um mês! Estava lindo, da pintura ao piso e aos lustres. Os banheiros receberam fino acabamento. Fiquei extasiado de tanta alegria. Gostei profundamente, também, do que foi feito no quintal. Uma espécie de arquibancada, como se fossem os degraus/assentos de um anfiteatro grego, inclusive com a forma circular na parte que ia dar nos muros lateral e dos fundos, ficando a entrada voltada para quem chegava pelo corredor. Exatamente como ele havia idealizado quando visitamos o imóvel pela primeira vez. Sobre as arquibancadas foram colocados pergolados com trepadeiras plantadas.

- Mas mal você acabou as obras, como é que estas trepadeiras estão tão grandes? Perguntei.

- compramos as mudas bem crescidas. foi mudar dos vasos para o solo. Parece que elas estão gostando do adubo.

- Parece mesmo. Estou sem palavras para dizer o que estou sentindo.

- É bom ou é ruim? Perguntou R. Ohtake.

- É maravilhoso, estou encantado.

- Então não precisa dizer mais nada. Agora é falar com o Sig e dizer para ele que a minha parte está entregue.

- E quanto estou lhe devendo?

- Sei planejar meus serviços, esqueceu? Na verdade, ficou faltando um pouco de dinheiro, após o segundo pagamento que você me fez, mas muito pouco, fica como minha contribuição pessoal para a causa.

- Muito obrigado, então. Agora que você terminou e nos deu esse presente quero dizer que admiro muito o trabalho que o senhor vem fazendo na favela de Heliópolis, onde vem pintando as casas. O colorido vida a elas, que o cimento e o tijolo desnudo, aparente, as deixam meio mortas, ou sem vida, não transmitem alegria. A paisagem fica monótona, pois é repetitiva. Parabéns por ambos os trabalhos, portanto, e cá. Vou pagar o almoço.

- Obrigado eu pelas palavras, mas estou apenas procurando fazer a minha parte. Está aceito o convite.

- Pois então vamos. O que queres almoçar?

- A escolha fica com você.

- Pode ser carne?

- Ótimo.

- Vamos ao Jacaré, é um ótimo restaurante ali na rua Harmonia, pertinho daqui.

- Eu conheço, também gosto de lá. Vamos.

caminhávamos para a saída e ele disse:

- O portão maior abre e fecha por controle remoto.

- Que bacana.

- Vamos sair por ele agora?

- Vamos sim.

Acionei o controle, que estava pendurado no chaveiro que R. Ohtake, anteriormente me entregara, e o portão foi abrindo lentamente. Ao sairmos, acionei novamente, a imensa porta fez o movimento oposto. Nos dirigimos ao automóvel de R. Ohtake e fomos almoçar.

Após fazermos os pedidos, puxei conversa:

- R. Ohtake, é certo que eu conheço a história do beija-flor e ofazendo a minhade que você falou agora a pouco quando citei o seu trabalho na favela, mas faz tempo que eu não a ouço, será que você poderia me contar. Assim terei a mesma história contada por um narrador diferente, que, na verdade, por ser diferente daqueles que me narraram, contará uma outra história.

R. Ohtake, anos depois, iria me dizer que, quando desse meu pedido, viu que eu ainda era uma criança, embora concordasse comigo que nunca se um mesmo livro duas vezes, sempre que o lemos temos uma outra visão do mundo, por isso, toda leitura da mesma obra é uma leitura diferente.

Ele sorriu e disse:

- Se ainda me lembro é assim:dizem que um dia uma floresta onde morava um beija-flor pegou fogo, incendiou. O beija-flor pôs-se a combater o incêndio. Ele, como voa muito rápido, ia na margem do rio e enchia seu pequenino bico com água e ia despejar as gotas sobre o fogo. Ora, como as gotas eram minúsculas para o tamanho do fogo, elas nada apagavam, mesmo assim ele continuava seu trabalho. Alguém percebeu aquele sacrifício do beija-flor e o achou inútil. Então, resolver dizer à pequena, veloz e colorida ave: - você não está vendo que seu trabalho é inútil, que você jamais vai conseguir apagar esse fogo? Por que você faz isso? Foi então que o beija-flor respondeu: - eu estou fazendo a minha parte. Moral da história: se cada um de nós fizer a nossa parte, a vida de todos tornar-se melhor.

Com a voz embargada, contei a ele que o papai, no escritório e em nosso apartamento, nos ensinou a fazer a coleta seletiva de lixo. Temos um balde para plásticos, outro para papel, outro para alumínio e outro para vidro. Todos os dias quando vou para a escola levo na mochila os sacos coletores que estiverem cheios, para depositá-los nos coletores que existem no Conjunto Nacional. eles somente não recolhem papel, até porque existem muitos catadores para esses produtos na cidade, por isso, o entregamos na porta do prédio. As pilhas e baterias para celulares, lixo altamente poluente, nós recolhemos na sede do Metrô, na Rua Augusta 1.626Cerqueira César. Ou seja, segundo ele, nós somos uma família quase auto-sustentável ambientalmente. Mas, o melhor de tudo é que não contribuímos para as catástrofes que ocorrem quando das grandes chuvas que caem sobre São Paulo, quando o lixo, principlamente os plásticos, entopem os bueiros e fazem com que pessoas percam tudo que têm e até morram nas enxurradas. É claro que isso, no começo, me enchia a paciência, pois quando caminho pela rua, o que vejo são pessoas sujando tudo, os comércios, especialmente as padarias, não fazem qualquer coleta seletiva. Ou seja, o que elas não coletam em um dia, a coleta de nossa casa em um ano não será suficiente para compensar. Poucos são os shoppingcenters e outros estabelecimentos que recolhem seletivamente seus lixos. Diante do meu desânimo inicial frente a tudo isso, foi que meu pai contou a história do beija-flor que agora você repetiu. Na questão lixo, nós também fazemos a nossa parte, embora, eu, para alguns colegas, tenha servido de chacota quando me viram carregando lixo.

- É assim mesmo, mas não desanime, faça sua parte, e quando cada qual fizer a sua nós teremos um mundo melhor. A imobiliária Hubert, na alameda Santos, também faz coleta seletiva. Alguns supermercados do grupo Pão de Açúcar também, uma pena que não sejam todos, mas, certamente, um dia serão.

Assim transcorreu o nosso agradável almoço. Ao seu término, como meu comensal estivesse atrasado para outro compromisso, me deixou na estação Vila Madalena do metrô. Apanhei o trem e fiquei na estação Consolação. Voltei para casa com o coração pulsando aceleradíssimo.

Contei a novidade para o Thadeu, que também ficou bastante entusiasmado. Tentamos ligar para o papai mas o celular dele estava na caixa postal. Não deixamos recado porque queríamos contar-lhe a novidade como surpresa. Perguntei e minha mãe disse que ele vinha para o almoço.

- Vamos partir logo para a outra etapa? Perguntou Thadeu.

- Qual outra etapa, meu? não estamos tocando?

- Estou falando da segunda etapa da obra, a parte de decoração, mané.

- É mesmo, cara. É que estou tão feliz que não conseguindo pensar direito.

- Pois é bom que pense, senão estamos fritos.

- Vou ligar agora mesmo para o Sig. Me passa essa agenda ao lado do computador, por favor.

- Você não tem o número dele gravado no seu celular?

- Tenho, mais ligação de telefone fixo é mais barata, temos que economizar.

- Você é mesmo um mão-de-vaca.

Rimos de nossa conversa. Liguei para o Sig. A secretária dele disse que ele não estava no escritório e que não tinha informado a hora que voltaria, mas que se fosse importante ela poderia localizá-lo. Agradeci, mas não deixei recado. O Thadeu, que ouviu minha conversa, disse:

- É a hora de gastar uma ligação do celular.

- Vamos fazer isso, que a situação exige.

Liguei para o celular do Sig e perguntei se estava muito ocupado, ele disse que sim, mas que poderíamos conversar. Disse-lhe que a reforma estava terminada e que estava tudo pronto para ele iniciar a sua parte. Ele pediu que eu deixasse as chaves no escritório dele a fim de que ele fosse ver como tinha ficado e pudesse fazer o orçamento. Disse-lhe ainda da minha pressa e ansiedade, ao que ele respondeu que compreendia e que iria fazer tudo com a mesma pressa. Agradeci e desliguei.

Dois dias depois, recebi um telefonema da secretária do Sig, pedindo-me que eu fosse até o seu escritório, pois precisávamos conversar. Para me dirigi no horário combinado. Cheguei com dez minutos de antecedência. Como a reunião com outro cliente terminou antes do meu horário, o Sig, após conduzir a senhora que recebia até a porta de saída, quando voltou foi em minha direção.

- Como vai, Juarez?

- Tudo bem, e com você?

- Ótimo, também. Vamos entrar, disse-me estendendo a mão esquerda em direção à porta de sua sala.

Entramos e ele me indicou a bela poltrona que fica em frente à sua mesa de tampa de vidro sustentada por colunas de mármore em estilo jônico.

- Estou com o orçamento pronto.

- Que bom!

Ele retirou uma pasta suspensa do arquivo de rodinhas, igual a um criado mudo, que ficava ao seu lado direito quando sentando. Abriu-a, retirou várias folhas de papel ricamente desenhadas e disse:

- Aqui está o esboço inicial do que eu quero te apresentar como concepção para a decoração do ambiente. Vou trabalhar com motivos orientais, especialmente árabes. É que conheci uma loja, na rua Joinvilli, 44Ibirapuera, a Claud Decor, onde posso encontrar o que quero facilmente.

- Sig, na verdade eu vim até aqui para saber se o esboço estava pronto e saber o valor do orçamento. É claro que quero olhar, mas apenas por olhar, confio no seu bom gosto.

- Obrigado pela confiança, mas...

- Não temmais nem menos, vamos acertar e começar a fazer o que tem que ser feito pois preciso saber se está ainda certo que o prazo é de trinta dias para a conclusão.

- Sim, o prazo continua de trinta dias, no máximo, podendo terminar antes.

- Ótimo. Mas, quanto ao valor do orçamento?

- Você é rápido, mesmo, hem?

- Estou tentando ser prático.

- O orçamento está no final desses rascunhos. Primeiro a gente conquista a simpatia do cliente pela ideia, depois é que a gente diz o preço. Depois do coração conquistado, o preço passa a ser um detalhe menos importante.

- Beleza de lição!

- O total ficou em 30.000,00.

- Mas eu tenho 28.000,00, ou melhor, 27 mil e poucos.

- Não tem problema, recebo os outros 2.000,00 do teu pai.

- Será!?

- Caso ele não pague, eu fico com o prejuízo.

- Mas isso não está certo!

- Certo ou errado, eu assumo o risco.

- Então tá. Faço o cheque para que o prazo comece a correr a partir de quando?

- De amanhã, pois hoje estamos no final da tarde.

- Combinado.

Preenchi o cheque após consultar o meu saldo e em sua totalidade e o entreguei ao Sig. Após a conferência de praxe, me despedi e saí, acompanhado pelo meu anfitrião até o elevador. Enquanto descia, fui tomado por um misto de alegria e desespero. Alegria por ter chegado com o projeto até ali, e tristeza porque o dinheiro de minha conta tinha acabado. O que será que o papai vai dizer? Certamente não vai gostar, pois ainda faltam algumas coisas e o dinheiro acabou. Será que ele ainda estará disposto a prosseguir nesse projeto? Melhor não pensar nisso, posso estar sofrendo por antecipação, como ele diz. Tentei pensar em outras coisas mas foi impossível desviar meu pensamento da falta de dinheiro em minha conta.

Após caminhar com aquele pensamento fixo, o celular tocou, foi como se ele me tirasse de um sonho sonhado acordado, pois não vinha prestando atenção em nada que acontecia à minha volta. Olhei no display do aparelho e não consegui identificar o número, era de alguém que não constava da minha agenda.

- Alô, disse eu.

- Alô, é o senhor Juarez Barbosa?

- Sim, é o Juarez.

- Aqui é do banco Banespa-Santander, eu sou a Ana Carolina K., e gostaria de lhe comunicar que foi efetuado um depósito em sua conta bancária, em espécie, no valor de 30.000,00.

Achei muito estranho aquilo e perguntei.

- Ana Carolina, posso saber quem fez o depósito?

- A pessoa pediu para não ser identificada. Ou melhor, como o depósito foi em dinheiro, ela não se identificou, apenas solicitou ao gerente, como a quantia é vultosa, que o senhor fosse avisado.

- bem, obrigado.

- Mais alguma coisa?

- Não, Ana, obrigado.

- O banco agradece, disse ela e desligou.

Fui imediatamente a uma agência que ficava nas imediações e tirei um extrato. Nele constava, realmente, o depósito que me foi informado. Fiquei alegre com o acontecido, pois podia ter sido o papai quem fizera o referido depósito. Rumei para casa onde esperava encontrá-lo e contar a todos os acontecimentos daquela tarde, em que, infeliz e irresponsavemente, falte à escola.

- Pai, obrigado pelo depósito, mas como o senhor sabia que eu estava sem dinheiro?

- Não sei do que você está falando, Juarez.

- Como não sabe? O senhor depositou hoje R$ 30.000,00, naquela minha conta no Banespa-Santander.

- Desculpe, filho, mas não fui eu.

- Peraí, pai! Alguém depositou essa quantia na minha conta e o senhor diz que não foi você!?

- E não foi mesmo. Você tem certeza que esse depósito foi feito?

Tirei da carteira o extrato e mostrei-lhe. Ele arregalou os olhos e mudou a fisionomia, com o que percebi que, realmente, não tinha sido ele.

- Francamente, filho, não fui eu, como te disse. Mas, como essa conta é conhecida por poucos, não é difícil descobrirmos quem é o mecenas que contribui para a sua causa. Vou ligar para o banco e perguntar.

- Não adianta, fiz isso, o depositante não se identificou.

- Então deve ser um erro do banco, logo irão estornar da sua conta esse depósito.

- Essa possibilidade também está descartada, pois quem depositou pediu que o banco me informasse do depósito, portanto, é impossível ter ocorrido algum engano.

- Seja o que tenha ocorrido, então, a pessoa que depositou está querendo ajudar-nos, sendo assim, vamos fazer o seguinte: gaste esse dinheiro no que for preciso, se houver estorno por parte do banco ou cobrança no futuro por parte do depositante, pagaremos. Mas, afinal, como anda seu saldo?

- Acaba de ficar negativo, paguei ao Sig B., 27.380,00 dos 30.000,00 que ele cobrou. Disse que os 2.620,00 que faltaram ele acerta depois com o senhor.

- Não precisa mais ser comigo. Agora você tem dinheiro novamente. Pague-o, portanto.

- bem, vou fazer o que o senhor disse: gastar se necessário e, se for o caso, pagaremos no futuro, ou melhor, o senhor pagará, e, um dia, prometo lhe devolver.

- Ótimo. Vou cobrar com juros.

Com a promessa de papai de pagarmos caso houvesse erro ou cobrança, fiquei tranquilo quanto ao insólito ocorrido, pois dinheiro não costuma cair do céu, especialmente em contas bancárias. Aquilo teria uma resposta, caberia a mim descobri-la, mas isso ficava para depois. O importante agora era dar continuidade à missão.

Beijei o rosto de papai e fui para o meu quarto. Thadeu estava lá, juntamente com Luíza B.

- E pessoal? Tudo bem?, perguntei.

- Da minha parte, disse Thadeu, se melhorar estraga.

- Digo o mesmo, disse Luíza B. num sorriso que mostrava seus lindos dentes desalinhados.

- Então, meus caros, mãos à obra! Estamos com tudo sob controle; como o sobrado será entregue daqui a trinta dias, acredito que podemos trabalhar desde com mais dez dias, por via de qualquer imprevisto. De qualquer modo, daqui a quarenta dias podemos estar recebendo nossos convidados!

- Ótimo, disse Luíza B., vamos correr, então.

- podemos marcar uma data em definitivo? Perguntou o Thadeu.

- Acredito que sim, vamos marcar para daqui a sessenta dias, é tempo suficiente para organizarmos tudo que está faltando.

- Então podemos soltar os convites? Quis saber Luíza B.

- Certamente, respondi.

- Como hoje é 22 de julho, quer isso significar que dia 22 de setembro estaremos participando da abertura? Perguntou Thadeu.

- É para isso que vocês devem trabalhar a partir de agora, disse eu.

- Vocês quem, cara pálida? Você quer dizernóis, mano? Brincou Luíza B.

- bom, nós, então, respondi. Vamos formular os convites pela internet e também por escrito, assim, nossos convidados não terão desculpas para dizer que não os receberam, se é que usariam esse vil artifício, no que não acredito.

- Irei amanhã à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e pediremos o patrocínio para a remessa; caso ela aceite, como faz com tantos outros projetos culturais, em vinte e quatro horas os sedex com os convites estarão nas mãos dos convidados, ponderou a Luíza B.

- Os endereços estão digitados, é imprimir nas etiquetas e está tudo pronto, acrescentou Thadeu.

- Seria bom, disse Luíza B., que fizéssemos uma exposição, por escrito, do projeto de vocês ...

- Nosso, você quer dizer, interrompeu o Thadeu.

- É isso mesmo, garanti.

- bom, mas isso não vem ao caso. O importante é que coloquemos no papel o projeto a fim de que nossos possíveis patrocinadores possam avaliá-lo, pois, após as palavras lindas que dissermos, eles certamente solicitarão tal providência, uma vez que dificilmente decidem individualmente, sempre tem que passar por outras pessoas, a tal diretoria!

- Bem pensado, menina! É por isso que você me ama, digo, que eu te amo.

- Demonstre, então. Esta última frase não me soou bem, mas me fiz de desentendido.

- Tudo bem, vou redigir e aproveitar a presença do papai em casa para pedir ajuda. Vocês corram atrás dos endereços dos convidados brasileiros, professores e pessoal da mídia.

- Fico com a mídia, disse Thadeu.

- Pra mim sobrou o mais difícil, os senhores não acham? Mídia é ir na net que está o endereço de todos.

- Da próxima vez você ganha, disse o Thadeu, não bastou a ideia brilhante de colocarmos o projeto no papel. Todos rimos.

Cada qual partiu para cumprir sua tarefa.

Depois de alguns folhas rabiscadas jogadas no balde de lixo, como se fora uma cesta de basquete, cheguei ao seguinte resultado:

 

Senhor(a),

 

UmdosfatosapontadoscomoapiorcausadodesenvolvimentodoBrasiléafaltadeculturadeseupovo.

Comessaconstataçãotemosque,pelomenosemparte,concordar,sem,noentanto,aceitarmosessatristerealidade.

Dentreosváriosmotivosquetemosparaentendermosqueaeducaçãoéamelhorsaídaparadebelarmuitosdenossosmales,estáoexemplovindodeoutrospaíses.Nessesaspessoasestãovivendoemníveisdedignidadehumanabemmelhoresquenós.Neles,oíndicededesenvolvimentohumano,queserveparaseterumaideiadascondiçõesdevidadaspopulações,oqualémedidopelaOrganizaçãodasNaçõesUnidas,apareceemíndicesbastanteelevados,oqueindicaobemestardeseupovo.

ÉexatamenteissoquequeremosparaoBrasil.Diasmelhores,compovoesclarecidoeconscienteporintermédiodaeducação,somenteassimteremosumapaísmelhorparatodos,ondeoriconãoprecisetransformarsuacasanumafortalezaporqueospobrenãoestarãodispostosaroubá-lonaprimeirapossibilidade.

Emborasaibamosquepobrezanãoésinônimodecriminalidade,todostemosqueconvirqueumapessoacomfomeficamuitomaisvulnerávelaroubarumpedaçodepão.Éparaquenãochegueaesseextremoquetemosquedaratodos,viaeducação,diasmelhores.

Pensandoebuscandoisso,resolvemostrazeràcidadedeSãoPaulováriosfilósofosgregos,osquaisdispensammaioresapresentações,poissobseuspensamentospensaasociedadeditaocidental,naqual,evidentemente,nosincluímos.

Emboratenhamoscontadoparaarealizaçãodoevento,atéaqui,comoapoiodenossospais,estamospercebendoqueessaboavontadenãoésuficiente,poistemosquefazerfrenteainúmerasdespesasque,peloqueconhecemosdenossarealidade(orçamentodoméstico),nãopodemosarcar,infelizmente.

Olocalondeserárealizadooeventoé,relativamente,pequeno,portanto,nãopodemoscobraringressoparacomplementaropagamentodedespesas;aspessoasqueacorreremserãoconvidadas,asquaisiremossolicitaradifusãodoqueforestudadoduranteoevento.

Tambémiremosfilmaraspalestras,asquais,nofuturo,poderãorenderalgumdividendo,mas,nomomento,nãopodemossequercontarcomisso.

Oevento,portanto,nãotemfinalidademonetária-lucrativa.

Sendoassim,sabendoqueVossaSenhoriatempatrocinadooutroseventosculturais,solicitamosamesmaajudaemrelaçãoaonossoencontro,comprometendo-nos,desdedejá,inscreverovossonomee/ouo devossaempresanosnossosprospectos,foldersebannersdedivulgação.

 

Atenciosamente,

 

Juarez,ThadeueLuíza B.

 

- terminei a minha parte, disse o Thadeu.

- E eu o meu rascunho, respondi.

- Mais cinco minutos e a minha parte estará concluída, falou a Luíza B.

Quinze minutos depois, Luíza B., levantando-se gritou:

- FINALMENTE!

- não era sem tempo, brincou o Thadeu.

- Vamos ver então? Perguntei.

- Começando pelos mais velhos, disse o Thadeu.

- Nada disso, respondi, pela última a acabar. Que, no caso, também era a mais velha.

- A última ainda está cansada, melhor começar por quem terminou primeiro.

- Tudo bem, eu começo.

Li o rascunho que tinha elaborado. Ao final, ambos concordaram com o teor, exceto com a palavradesenvolvimento, aposta no início do texto, a qual realmente, estava errada, a expressão correta ésubdesenvolvimento, razão pela qual houve a substituição.

- que está aprovado, com a alteração, vou submetê-lo ao papai. Agora é contigo Thadeu.

- Listei para convite as seguintes pessoas: além do Daniel Piza, do Estadão; do Gilberto Dimenstein da Folha de São Paulo, sobre quem tínhamos falado, acrescentei o Contardo Calligaris, também da Folha, o Arnaldo Jabor pelo Estadão e Rede Globo. Do Diário de São Paulo estou em dúvidas sobre quem convidar. Pensei na Miriam Leitão, que ela palpite sobre tudo na sua coluna dela sobre economia. Das rádios (Tupi, CBN, Jovem Pan, Eldorado, Record, Capital, Bandeirantes) e das Revistas (Istoé, Veja, Carta Capital, Época), penso que é melhor que elas indiquem os profissionais que queiram que faça a cobertura. Apenas o Diogo Mainard eu acho que a gente deveria convidar individualmente.

- Também sugiro o José Macaco Simão e a Paula Pacheco, aquele da Folha de São Paulo, esta da Revista Carta Capital, disse a Luíza B.

- Concordo com vocês, respondi.

- Então fechado, até porque, como ainda falta muito tempo, podemos pensar com mais calma, ponderou Thadeu.

- Você é que pensa, mano, você vai ver que os dias vão passar correndo, acrescentei. E você Luíza B.?

- Também me vali dos nomes que anteriormente tínhamos cogitado. Assim, ficamos com: Miguel Spinelli, Roberto Romano, Jacy de Souza Mendonça, Cláudio Di Cicco, Tercio Sampaio Ferraz Jr, Miguel Reale, José Reinaldo de Lima Lopes, Fábio Konder Comparato, Eduardo C. B. Bittar, Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, Marilena Chauí, Olgária Matos, Márcia Tibury, Marcos Nobre, Mário José dos Santos e Franklin Leopoldo e Silva.

- Perfeito, concordei; apenas, como iremos receber, também, os sofistas, é melhor convidarmos um especialista sobre eles, temos o professor W. K. C. Guthrie, que poderá nos ajudar. O que acham?

- Já até escrevi seu nome na lista, respondeu Luíza B.

- Da minha parte, como sempre, tudo bem, brincou Thadeu.

- Fechada essa parte, vamos partir para a divulgação do evento, acresci. Vou falar com o papai e se ele não tiver reparos no texto que li para vocês, vamos mandá-lo via e-mail para os nossos parceiros. Você, Luíza B., já pode mandar os convites também pela net, depois mandamos via postal. Thadeu, naquele arquivo do meu computador denominado evento, tem algumas pastas: pré-socráticos, sofistas, socráticos, cínicos, epicuristas, estóicos, céticos, ecléticos e outros. Em cada uma delas consta um texto com o nome e o endereço dos nossos convidados, vá em frente. Lá consta, também, o convite que já redigimos, é só colar a data do evento e, foi.

- “Xá” comigo.

Cada qual tomou seu rumo. Fui até a sala, mas papai não estava. Também não o encontrei em seu quarto. Estava, como de costume, na biblioteca, ouvindo suas músicas e tomando um cálice de vinho. Mostrei-lhe o texto. Ele leu e releu, como era seu hábito. Ao fim disse:

- Ótimo, de minha parte não tem reparos.

- Brigadão, pai, beijei-o e saí.

Voltei ao quarto, agora mais escritório que quarto propriamente.

- O velho aprovou, vamos em frente. Mandamos hoje para alguns possíveis patrocinadores e amanhã a nossa abrealas vai correr atrás das respostas, isso após reiterar a proposta pessoalmente.

- Você quer dizer “a cara de pau”, não é? Perguntou o Thadeu.

A Luíza B. ficou séria, mesmo percebendo que ele brincava.

- É isso aí cara, acrescentei, no nosso país, que não tem quase nenhuma tradição cultural, qualquer pessoa que proponha projeto com essa finalidade é visto com maus olhos. Vocês acreditam que o presidente Getúlio Vargas, se não estou enganado, disse a respeito do Assis Chateaubriand o seguinte:toda vez que o Chateaubriand, vem falar comigo sobre cultura eu tiro logo o talão de cheques do bolso. A frase até estaria correta, não fosse carregada de ironia e maledicência. Como se sabe, o Chateaubriand foi o criador do Museu de Arte de São Paulo, o nosso glorioso e imponente MASP, situado, ou cravado, no coração da Avenida Paulista. Como ele faria aquela maravilha sem recursos? Dizem que ele recebeu ajuda de várias pessoas, mas o certo é que também colocou do seu lá também, além do seu trabalho para concretizar o projeto, que, certamente, vale muito mais do que muitas doações. A Fundação Calouste Gulbenkian, situada em Lisboa e exemplo para o mundo, foi fundada pelo armênio Calouste Sarkis Gulbenkian, que era nada mais nada menos que um dos fundadores das companhias petrolíferas. O cara tinha grana “a dar com o pau”, por isso pode contribuir tanto para o progresso da humanidade. Não se faz cultura, ainda, sem dinheiro, especialmente em países pobres como o nosso, onde as pessoas, até por questão de sobrevivência, preferem comprar um prato de comida a um livro. Eu vejo isso nos filmes e reportagens de TV, os quais, quando produzidos ou rodados nos países desenvolvidos, a gente vê as pessoas em aeroportos, aviões, trens, estações, todas, ou a grande maioria, com um livro na mão. Nos filmes e reportagens brasileiros ocorre exatamente o oposto, o difícil é encontrar alguém lendo. Isso é muito triste.

Com esse meu falatório, percebi que a Luíza B. tinha desanuviado o mau humor provocado pela brincadeira do Thadeu. Não tive mais dúvidas quanto a isso quando ela disse:

- Mesmo que não fosse verdade o que você acaba de dizer, eu iria fazer o que tem que ser feito, mas enquanto você falava eu relembrei algumas cenas e sei que você tem razão. Numa viagem que fiz à Itália, agora lembro, percebi a grande quantidade de livrarias em aeroportos e estações. Thadeu, valeu pelo incentivo, disse ela com sinceridade.

O Thadeu não perdeu o bom o humor e respondeu:

- Afinal, eu estou aqui para ajudar!

- Então vamos em frente, pessoal.

- Tô pensando pedir material de divulgação de algumas gráficas, falou o Thadeu. Já até selecionei algumas. São elas: a gráfica da própria Folha de São Paulo, bem como a do Estadão, a Imprima, que fica na Rua Augusta, na altura do nº 1449; a Compugraf, que fica na Paulista, 2421, tem a BestDesign, que fica no Shopping Frei Caneca, na Rua Frei Caneca, nº 569, tem o Bureau Bandeirante de pré-impressão, situado na rua Rua Mairinque, 96, tem a CHP Cópias Digitais, que fica na Alameda Ministro Rocha dos Santos, 291, esquina com a Alameda Santos, a Palas Athena, rua Serra de Paracaina, 240 - Cambuci e a Vida e Consciência, rua Santo Irineu, 170. Ou seja, se pegarmos um guia ou aqui na net mesmo, encontramos gráficas que não acabam mais. O difícil vai ser elas toparem.

- Quanto pessimismo, Thadeu, o caso é mandarmos para umas mil, não é possível que ao menos uma não nos ajude. Isso é estatística. Se mandarmos para duas mil, as possibilidades dobram, considerou Luíza B.

- Boa ideia, acatou Thadeu.

- Thadeu, eu estive pensando da gente falar com a Associação Amigos da Paulista e com a Prefeitura, para ver se é possível que a gente trabalhe com alguns grafiteiros. Acho que a arte deles é legal para incentivar a meninada que não está muito ligada em filosofia. Eles grafitaram obras de arte ali naquele túnel no final da Avenida Paulista que passa sob a rua da Consolação. São reproduções das obras de Portinari, Di Cavalcanti, Djanira, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral. Está lindo. Basta que arranjemos espaços, que é o que pediremos à Prefeitura, a Associação pode solicitar sprays da Coral, Suvinil, Ypiranga, SherwinWilliams ou Novacor, que certamente elas não se negarão. Que acham?

- Concordo, disse Luíza B. Já que é assim, conheço alguns e-mails de algumas tribos, podíamos pedir a elas que colocassem para funcionar os seus stickers pois ao lado dos assuntos sobre rock, motos, mulheres e caveiras, certamente cabe também filosofia, e adesivassem a cidade para divulgar o evento.

- Aprovado, falamos em uma só voz, eu e Thadeu.

- Calma, turma, pensei ainda no pessoal da MICA, aquela empresa que produz cartões postais publicitários e os distribui gratuitamente em vários locais, em especial nos cinemas, bares, restaurantes e clubes em geral. Eles têm um 08007713336 e uma página: www.mica.com.br.

- Como é que você sabe de tudo isso?

- É que coleciono postais. Simples, não é? Aliás, onde encontrarem postais, por favor, me tragam. E aí?

- Aprovado, repetimos.

- Nossa, já é uma hora da matina! exclamou a Luíza B., melhor dormirmos, amanhã teremos um longo dia.

- Então, reunião de trabalho encerrada. Eu ainda estou com fome, vou à cozinha tomar pelo menos um copo de leite. Alguém me acompanha?

- Vou nessa, respondeu Thadeu.

- Eu também, só que também encaro biscoitos, disse Luíza B.

Nos dirigimos para os comes e bebes, onde, moderadamente, desincumbimo-nos dos nossos propósitos. Depois fomos dormir.

O tempo não passava! Cada aula durava uma eternidade. A ansiedade corroia-nos a todos, pois já estávamos com a sensação de que nos atrasaríamos em nosso projeto, que nada sairia como o planejado.

Quando, em fim, a aula terminou, saímos todos correndo para nos encontrarmos no portão principal, como havíamos combinado na hora do recreio. Ao chegar lá, percebi que a Lélia me observava de longe. Fiz que não a vi e saí caminhando rápido, sendo seguido pelo Thadeu e pela Luíza B., que, naquele dia, foi lá ao nosso encontro. Resolvi parar no restaurante Pequi, que fica na rua Peixoto Gomide, nº 988, esquina com alameda Santos, onde pedimos sucos naturais.

- Por que você vinha correndo, seu mal educado? Perguntou a Luíza B.

Thadeu, que tinha percebido a razão da minha pressa, abriu um leve sorriso que somente eu percebi.

- Você sabe como estamos cheios de trabalho e eu estou morrendo de sede.

A garçonete, com seu belo sorriso, chegou com a bandeja e impediu que a conversa continuasse, pois todos nós, sofregamente, pusemo-nos a sorver o delicioso líquido.

Pagamos e saímos caminhando em direção ao nosso apartamento. Vi que o telefone estava vibrando no meu bolso e resolvi olhar no identificador de chamada para ver quem era. Era a Lélia . Apertei no botão end, e desliguei o celular.

- Meu, tu usas o telefone no teu bolso? Perguntou o Thadeu.

- Vai dizer que você nunca tinha percebido? Respondi.

- De verdade não, se tivesse já tinha te dito...

- Dito o que?

- Andei lendo uma reportagens sobre o que alguns chamam de perigo do celular. É que essas coisas emitem ondas eletromagnéticas, que, dizem, é possível de causar câncer. Fiquei preocupado porque sei que nós homens corremos o risco de sofrer câncer de próstata e as mulheres câncer de útero e de seios. Logo, carregar o aparelho nessas regiões do corpo, que têm a tendência natural para contrair essas doenças pode aumentar o risco. Os estudos não são conclusivos, mas, na dúvida, é melhor não arriscar.

Percebi que a Luíza B. retirou o seu aparelho do bolso traseiro de sua calça. Como eu já tinha ouvido essa história pela boca da professora Luciana, não poderia dizer para o Thadeu que já a conhecia, pois a Luíza B. poderia perguntar de onde e por quem, logo, resignadamente, resolvi ou tive que ouvir novamente. Assim, como o meu telefone estava desligado, deixei no local que estava, mas comentei.

- Vou usar no bolso da camisa.

- Aí você pode morrer de um ataque cardíaco, disse a Luíza B. Ao que respondi:

- Prefiro isso a andar pegando dedada no ânus no futuro.

- Não que eu queira que você pegue dedada, mas, no futuro, isso será necessário, seu preconceituoso, completou ela.

- Deixemos, então, que o futuro chegue, só espero que junto com ele venha também uma tecnologia que impeça meu estupro.

- Vai ver que você vai gostar, comentou o Thadeu e todos rimos.

- Dia desses ouvi o Clodovil dizer, no seu programa de TV, que não existem três tipos de ex: ex-anão, ex-sogra e ex-viado. Então deve ser bom, disse Luíza B.

- Vindo de quem veio a afirmação, com a sua autoridade sobre o assunto, não duvido de nada, acrescentou o Thadeu.

Rimos novamente. A conversa se encerrou com a nossa chegada ao portão do nosso prédio.

- Seu João, viu só a nova parceria que o seu Corinthians está arrumando? Perguntei ao meu amigo.

- Pois é, mas como vocês já estão acostumados com o pavilhão 9, mais alguns bandidos, como vocês sabem, não vai fazer diferença. Mas será que a empresa é ligada ao crime mesmo?

- Sei lá, é o que a imprensa anda dizendo.

- Não sei se é só a imprensa não, acho que é briga entre os diretores do clube.

- Mudando de assunto, o que que o senhor achou da morte do jogador Serginho do São Caetano?

- Meu amigo, a coisa tá virando moda, já tinha morrido um africano, de Camarões, Marc-Vivien Foe, e um europeu, o croata Miklos Feher, que jogava em Portugal. Quando tem que acontecer, parece que não tem jeito. E olha que eram todos atletas! Os médicos vivem dizendo que eu tenho que fazer exercícios físicos, pois estou gordinho e vivo sentado, mas será que isso adianta?

- É claro que adianta, se compararmos o números de atletas mortos nessas condições com o número daquelas pessoas que, como o senhor, estão acima do peso e não fazem exercícios, a diferença é gigantesca. Vocês são a regra das mortes por ataque cardíaco, os atletas são a exceção.

- Mas tu achas, Juarez, que o clube tem responsabilidade pela morte do atleta, como estão dizendo?

- Sei não, mas se tem, o atleta tem também, pois se o clube sabia que ele estava doente, ele também sabia.

- Mas o clube, como empregador, não deveria ter impedido ele de jogar?

- Será que ele aceitaria? Se o clube fizesse isso ele teria que se aposentar, se aposentando ele teria que receber uma merrequinha do INSS, comparado com o que ele ganhava como jogador.

- Você tem razão.

- E tem mais, como eu disse, o jogador também tem sua responsabilidade pelo ocorrido, pois se não quisesse jogar, deveria ter se recusado a entrar em campo.

- Tu achas que ele ia perder a grana do contrato, do direito de arena e ficar desempregado ou ganhando miséria?

- Pois é por isso que eu digo que ele assumiu riscos também, portanto não se pode culpar o clube. Até porque ninguém é proibido de se suicidar. Agora, suicidou-se, assuma sua responsabilidade, especialmente deixando seus filhos em condições de estudar e sobreviver até chegar o tempo de trabalhar.

- Falar em suicídio, será que não é isso que o Washington, jogador do Paraná e artilheiro com campeonato brasileiro, está fazendo? que ele sofreu uma cirurgia cardíaca, oportunidade em que os médicos colocaram três stens em seu coração. Stens, pelo que andei lendo, é uma prótese de aço vazado e flexível que ao ser introduzido na artéria, é inflado por um balão de alta pressão, retirado em seguida. O mecanismo força o alargamento do vaso, normalizando a irrigação do sangue. Acho que são colocados para evitar as pontes de safena.

- Olha aí, depois o cara morre e a família vai querer culpar o clube.

- É muita grana que está em jogo.

- Exatamente. Então, esteja disposto a assumir os ricos que existem para ganhá-la. Agora mesmo eu estive lendo que a família da Cássia Eller quer processar os médicos que a atenderam, exigindo uma vultosa indenização. Tudo bem se houve, realmente, erro médico, mas se ela se suicidou com uma overdose, não podem os médios responder por isso, pois são médicos e não Deus, portanto não podem fazer milagre. Quem assume o risco de cheirar muita coca, como faz o genial Maradona, sabe o risco que corre, por isso não pode transferir esse risco para os outros. É que agora tá virando moda as pessoas quererem que outras pessoas assumam responsabilidade por atos que são seus. É a moda da indenização.

- Você me acredita que outro dia, quando fui buscar minha filha na escola, tinha uma mãe brigando com uma professora por que ela tinha chamado a atenção da sua filha. Se fosse lá no Ceará, além da bronca da professora, a moleca tinha levado uma boa surra. É por isso que, no futuro, os filhos não obedecem mais nem os pais.

- Mas irão obedecer aos traficantes que os adotarem, acrescentei enfaticamente.

- Os pais de hoje não sabem dar educação para os filhos, depois vão se queixar quando a árvore já estiver torta e não tiver mais condição de se endireitar.

- É a geração dos psicólogos, seu João, tudo traumatiza. Os pais não podem repreender, merecidamente, os filhos.

- Será que é por isso que lá pelas bandas dos Estados Unidos, de vez em quando, filhos metralham toda a família? Perguntou seu João.

Por essa e por outras é que percebi que ele estava sempre antenado, e era portador de grande sabedoria.

- Só pode ser, respondi.

- Se deixar, vocês vão ficar a tarde toda conversando, não é? Vamos jantar, disse a Luíza B.

- Vamos sim, até mais seu João. Hoje à noite o meu São Paulo Futebol Clube, o melhor de todos, vai encher o Santos de chocolate, concordou o Thadeu.

- Vamos ver, os bambis do Morumbi não tão com essa bola toda não.

- Até mais.

Subimos e percebi que o Thadeu estava sério, calado, e que esse seu comportamento apareceu quando da conversa que tive com seu João, e carreguei nas tintas exatamente com aquele objetivo. Mostrar a ele o que eu pensava sobre o assunto, embora não quisesse magoá-lo, apenas alertar para a situação sobre a qual tínhamos conversado anteriormente.

Tomamos banho e fomos jantar. Como era uma quarta-feira, nos aguardava uma deliciosa feijoada, a comida dos paulistas das quartas e sábados. A Luíza B., indicada pelo Thadeu e por mim, contou ao papai e mamãe todos os nossos trabalhos da noite anterior. Papai, então, disse:

- Gostaria de indicar os nomes de algumas pessoas que poderiam ser convidadas. Pode ser?

- Evidentemente, disse Luíza B., com o que aquiescemos com gestos de cabeça.

- São os seguintes: Haroldo Ceravolo Sereza, da Folha e o Sérgio Augusto, do Estadão.

- Aprovado, adiantou-se o Thadeu.

- Estou pensando no seguinte, prosseguiu papai, para que fazer tanta veiculação do evento, se a gente não vai poder receber tantas pessoas como são aquelas que, acredito, desejarão participar?

- Na verdade, pai, essa divulgação tem a finalidade, também, de atender aos interesses de nossos patrocinadores. Devemos divulgar suas marcas. Assim, podemos pensar num outro evento no futuro. Mesmo que a sua preocupação se concretize, lembre-se que vamos filmar as palestras, depois podemos, além de doar para bibliotecas, vender o material para todo Brasil e, quiçá, o mundo.

- Você andou estudando com o Washington Olivetto? Perguntou o velho.

- Taí, mesmo ele tendo o mau gosto de ser corintiano, devemos convidá-lo, pois na sua profissão ele também é mestre, disse o Thadeu.

- Com certeza, disse papai. Vocês poderiam pedir a ele que idealizasse uma ou umas vinhetas que seria(m) enviada(s) para emissoras de rádios e de televisões.

- Luíza B., pode agendar mais uma visita, meu amor.

- Sem dúvidas que o farei.

Após a sobremesa, fomos para o meu quarto, nosso escritório único e central. Enquanto ligava o computador, Luíza B., disse:

- Ontem perdi o sono e vim para o computador. Mandei todas as mensagens para os nossos parceiros. Como sou participante de vários grupos no orkut, também entrei em contato com essa moçada, pedindo a eles a divulgação do evento. Agora vou ver se já temos algum retorno.

Após fazer a conexão com a UOL, o nosso provedor, vi um sorriso largo no rosto da Luíza B., que, esfuziante, disse:

- Nossa! Maravilha! D-E-M-A-I-S! A net é tudo!

Corremos para junto dela e podemos observar na tela inúmeras mensagens de retorno dos nossos e-mails.

- Por favor, Luíza B., já que você teve o trabalho de enviar, deixe que eu tenha o trabalho de ler. Me empresta a cadeira, sentem-se na cama, que eu vou ler todos e em voz altíssima, disse o Thadeu.

- Pois não, senhor! Respondeu Luíza B.

Thadeu sentou-se e disse:

- A maioria das respostas são dos grupos no orkut, mas, também, não poderia ser diferente, já que ele são maioria mesmo. Digo isso porque estou ansioso mesmo é para saber as respostas dos nossos convidados, pois elas serão nossos cartões de visita para o resto.

- Isso mesmo, asseverou Luíza B., portanto, seleciona as mensagens por nome que fica mais fácil.

- É isso que eu já fiz. Virou-se, então, de costas para a tela e de frente para nós e prossegui: vamos selecionar o nome de um dos nossos convidados e ir direto sobre ele, pois se ele tiver respondido ele será a nossa chave-mestra. Estou com dúvidas entre Platão e Aristóteles, já que eles possuem a obra mais extensa.

- Fico com Platão, eu disse.

- Eu com Aristóteles, disse Luíza B.

- A bola voltou para você, meu, asseverei apontando para o Thadeu.

- Tudo bem, vou escolher Platão, pois além de anteceder Aristóteles na história da filosofia, foi seu mestre.

- Vá em frente, ordenou Luíza B.

Ele virou-se lentamente e desceu o cursor até os nomes que iniciavam com a letra p. Com voz pouco entusiasmada, disse:

- Negativo, Platão não disse nada. Ele, Thadeu, é que não precisava dizer nada, pois a sua entonação já dizia tudo.

- Vá, então, até a letra a e veja Aristóteles, pediu a Luíza B.

Ele obedeceu e, imediatamente, deu um pulo sobre a cadeira e soltou um grito de alegria capaz de incomodar todos os vizinhos do prédio. Também não precisa dizer mais nada, entendemos que o ora selecionado tinha respondido. Thadeu correu para nos abraçar, ao mesmo tempo em que mamãe e papai entravam no quarto para ver o que estava acontecendo. Explicamos para eles que Aristóteles tinha respondido a nossa mensagem. Foi então que papai, realisticamente, mas desmanchando prazer, ponderou:

- Vocês já leram o teor da resposta?

Entreolhamo-nos e respondemos em coro:

- Não.

- Então é bom que o façam, pois ela pode ser negativa, embora não seja isso que eu também espere.

As palavras foram um balde de água fria em nossa euforia. Deu para sentir que nossos corações, que batiam acelerados, e nossa respiração tomaram outros caminhos. Como temíamos pelo pior, como é natural ao ser humano, sempre acreditar que é mais provável ocorrer o ruim que o bom, pedi:

- Faça isso, por favor, papai.

Ele se dirigiu para a máquina, clicou e abriu o arquivo. Leu, mas, desta vez, não releu, e disse:

- A mensagem diz: “ESTAREI PRESENTE, atenciosamente, Aristóteles”. Goooooooooooooooool, gritou a todos pulmões papai.

- Só isso? Perguntei meio decepcionado.

- O que mais que você queria, meu, se o filósofo disse que vem é o suficiente, ponderou o Thadeu.

- É isso mesmo, acrescentou Luíza B., não esqueça que estamos falando com o homem da lógica e da classificação, portanto, da concisão.

- Concordo com o que foi dito, parabéns para vocês, agregou minha mãe, levando-nos todos a rirmos e a nos abraçar.

- A pizza do jantar é por minha conta, disse papai.

- Vamos à pizzaria Camelo, aqui na Rua Pamplona, nº 1.873, Jardins. A pizza lá é divina, ponderei.

- Combinado, vamos às oito e trinta, enunciou papai. Agora voltem ao seus trabalhos.

Após a saída do casal, fomos ler os outros e-mails.

Dos filósofos convidados, aqueles que responderam, responderam aceitando o convite. Foram eles, além de Aristóteles: Tales, Heráclito, Parmênides Anaximandro, Protágoras, Xenófanes, Anaxímenes, Górgias, Pitágoras, Zenon.

- é uma seleção! Alegrou-se Luíza B., contagiando todos nós.

Alguns possíveis parceiros também responderam, todos eles solicitando mais informações e agendando encontros.

Dos orkuteiros, a grande maioria deu a maior força, incentivou prontamente e comprometeu-se a fazer a sua parte. É claro que, como em todo grupo humano existem os negativistas, os que torcem contra, os invejosos, os rancorosos, os débeis mentais, os ignorantes, os idiotas e os imbecis, para não fugir a essa regra, aqui também essas bestas não faltaram. Dessa parcela, que existe até por necessidade de existência do que é positivo, a maioria dizia que nosso objetivo era obter vantagens financeiras, outros usavam o refrão imbecilizante de que “filosofia não serve para nada”. Teve um que escreveu: “filosofia é aquele ciência com a qual ou sem a qual o mundo permanece tal e qual”.

Respondemos a todos, aos que apoiaram o projeto agradecendo-os, aos que a ele se opunham, mostrando que estavam equivocados e que nunca é tarde para repensar os erros cometidos.

 

 

Você está aqui: Home Livros Pitagoriando em Sampa - Capítulo V