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Pitagoriando em Sampa - Capítulo III

 

Pitagoriando em Sampa

 

CAPÍTULOIII

 

Dormir com fome dizem que não é bom, mas de barriga cheia posso garantir que não é cômodo.

 

Acordei várias vezes por não encontrar uma posição confortável.

Alguém bateu à porta às dezenove horas. Era minha mãe perguntando se queríamos um lanche. Com a negativa, ela foi embora.

Dormi novamente e acordei sem sono. Eram três horas da madrugada! O que fazer? Tinha sede. Fui até a cozinha e bebi muita água. Resolvi e levei um copo para a Luíza B.. Como ela dormia profundamente, resolvi não incomodá-la. Liguei o computador e fui navegar pela net. Fiquei pouco tempo em salas de bate-papo. Naquele horário tinham pessoas interessadas em sexo. Embora goste do assunto, estava cansado naquele momento.

Saí da net com a ideia de escrever algo sobre o meu projeto, ou melhor, como diz meu pai, sobre o nosso projeto. A primeira coisa a fazer era encontrar um nome para ele. Mas qual?

Ora, deve ser um que prestigie ou ligue meus futuros convidados e a cidade onde será realizado o evento, disse-me.

Pensei em Tales, por ter sido o primeiro filósofo. Ficaria bem: Tales em São Paulo? Muito estranho! Sem sonoridade.

Que tal: São Paulo é filosofia? Pode ser confundido com apóstolo.

Estava difícil entrar sonoridade para São Paulo. Foi então que pensei em Sampa, cunhada por Caetano Veloso e título da música em que ele homenageia a cidade, e que segundo Paulo Vanzolini, é um plágio de sua música Ronda. Como não entendo de métrica, acordes etc, deixo a resolução da pendência para os especialistas.

- Sampa, sampa, sampa... pensei em voz alta.

Que tal Tales in Sampa?

O in é latino, e os latinos roubaram muitas coisas dos gregos, inclusive os seus heróis e deuses mitológicos, que foram rebatizados com nomes latinos: Odisseus recebeu o nome de Ulisses, e vários outros. De modo que os gregos poderiam não gostar.

Tales também não era um nome assim tão bom para compor uma frase com uma certa musicalidade que combinasse com Sampa.

- Eureka! Achei, gritei baixinho o suficiente para que a Luíza B. se mexesse na cama.

Estava decido, minha proposta para o meu pai seria a de que o evento deveria chamar-se: PitagoriandoemSampa.

Era o nome perfeito, que com ele homenageava o filósofo Pitágoras e a minha cidade querida: São Paulo.

O fato de ter encontrado o nome me deu um ânimo redobrado. Mas será que meu pai aprovaria? Mas se ele me disse que o evento é meu, por que me preocupar com sua opinião? Por que se ele, que está entusiasmado, não gostar do nome, quem irá gostar?

Fui até a cozinha novamente na esperança desem querercruzar com o velho, a fim de perguntar-lhe se aprovava o nome. Infelizmente o apartamento estava em silêncio total. Desapontado voltei para o quarto. Mas alguém tem que me ouvir, preciso dividir com alguém minha ansiedade. Adivinhem quem foi a escolhida? Isso, ela mesma, a Luíza B. Me aproximei dela, beijei-lhe o pescoço, ela o esticou mais um pouco em sinal de aprovação, como sempre fazia. Falei:

- Môooo...

- O que foi?

- Queria falar com você?

- Que horas é isso?

- Cinco horas da madrugada.

- pra ser no café?

- Não.

- Pois vai ser. Boa noite. Vai dormir.

Virou para o lado e eu levantei de fininho, optando por não incomodá-la.

Triste fui desligar o computador, mas estava suficientemente certo de que marquei um gol de placa, tanto assim que ao voltar para cama dormi imediatamente após agradecer a Deus por mais aquele dia, como sempre faço antes de dormir.

Acordei tarde. Meu pai tinha saído, mas deixou um bilhete marcando hora e local para nos encontrarmos. Percebi que o horário marcado estava muito próximo. Engoli o café rapidamente. A Luíza B. Censurou-me com palavras e minha mãe com o olhar.

- Não tenho tempo. Vocês leram este bilhete? Inquiri mostrando-lhes o papel. Papai deve estar a caminho.

- Estando ou não, não é assim que se come. E sua aula?

- estou levando minha mochila com o material. Depois do encontro vou direto para o colégio.

- E o almoço? Quis saber minha mãe.

- Depois eu vejo. Vamos, Luíza B..

- Acho melhor não. Vou terminar o café e depois vou para casa. Podemos nos ver à noite?

- É claro. Depois da aula te ligo.

Beijei mamãe no rosto, Luíza B. nos lábios e saí .

No elevador liguei o celular. Tinha uma mensagem de uma paquerinha do colégio, a Lélia, e um recado do Thadeu. Responderia ambos quando chegasse ao colégio.

Ao reler o bilhete, percebi que o local do encontro com meu pai era um banco que fica na avenida Paulista, o centro financeiro do Brasil e da América Latina. Não ficava longe de casa, portanto, poderia ir em passos mais lentos.

O que papai ia querer comigo num banco? Melhor não ficar gastando pensamento à-toa, quando chegar saberei.

Cheguei com dez minutos de antecedência ao horário marcado, meu pai me esperava. Tomei-lhe a benção com um beijo no rosto. Ele me retribuiu o gesto. Pegou em meu braço e me guiou em direção a uma mesa. O rapaz moreno que estava por trás levantou-se e esticou a mão para cumprimentar meu pai.

- Olá, Dr. Tancredo, prazer revê-lo. Esse, por certo, é o Juarez? Disse ele gentilmente.

- Exatamente, respondeu papai.

Ele estendeu a mão e disse:

- Muito prazer, Juarez, eu sou o Arthur C.

- O prazer é meu, respondi.

Ele indicou as cadeiras e nos sentamos.

- A papelada está pronta, Dr. Tancredo, tudo como falamos ao telefone, informou Arthur, que retirou um envelope de dentro de uma das gavetas de sua mesa, e do interior deste, a dita papelada, acrescentando em seguida: como o Juarez ainda é menor, a conta dele será uma conta coligada à sua, sendo o senhor o responsável. Tudo bem?

Foi então que entendi a razão da minha ida ao banco. Um frio percorreu meu corpo, pois fiquei muito feliz em saber que teria uma conta bancária.

- Sem problemas, respondeu papai.

- Então vamos às assinaturas. O Juarez assina em todos os locais que estão destacados com um xis e o senhor onde consta abonador, ensinou Arthur.

Senti que estava tremendo. Comprovei isso quando da primeira assinatura. Papai percebeu e disse:

- Capriche na assinatura.

Sorri amarelo e continuei após uma longa e surda respirada. Foram em torno de seis assinaturas. Depois da terceira, as demais foram ficando melhor.

Concluído o procedimento, Arthur disse:

- Por enquanto, você vai receber um talão de cheques provisório. Dentro de dez a quinze dias estarão chegando dois ou três novos talões em sua casa.

Ele me estendeu a mão com o talão. Era lilás e tinha na capa o nome Banespa-Santander. Tremi ao receber. Ambos perceberam e Arthur brincou:

- Depois do quinto você vai ver que é mais fácil que andar de bicicleta nesse trânsito maluco aqui de São Paulo, e eu sei que você faz isso, seu pai me disse.

Sorrimos todos.

- Arthur, você providencia a transferência dos R$ 50.000,00 para a conta exclusiva do Juarez, conforme combinamos, e qualquer coisa, é me ligar.

- Sem dúvidas, respondeu Arthur.

- Vamos almoçar? Convidou-me em forma de pergunta, meu pai, acrescentando ainda: o Arthur foi convidado para nos acompanhar, mas, infelizmente, disse que não pode ir por ter outros compromissos.

- Vamos, respondi, embora não estivesse com fome.

Nos despedimos de Arthur e saímos do prédio do banco.

Ao sairmos do banco, meu pai colocou a mão em meu ombro e fomos caminhando em silêncio em direção ao Arabesco, um restaurante cujo nome denuncia que é árabe e serve uma comida saborosíssima, e que fica localizado também na avenida Paulista, na altura do 1.765.

Meu pai pediu uma cerveja Cerpa, marca paraense muito gostosa e servida nos melhores bares e restaurantes do país. Pedi um guaraná Antártica com gelo e laranja, depois que estávamos instalados em uma mesa.

O local é self-service, mas se podem pedir acompanhamentos.

- Vamos nos servir? Convidou papai.

Nos dirigimos à mesa-balcão e nos servimos. Como estava sem fome, fui modesto. O mesmo não aconteceu com papai, que apanhou um pouco de cada coisa. Fiquei no quibe cru e na coalhada. Apanhei uns dois pedaços de pão sírio. Um torrado e um normal.

Ao voltarmos para a mesa, o garçom perguntou:

- Algum grelhado para acompanhar?

Eu recusei, meu pai pediu uma cafta.

- Pai, o que significa tanto dinheiro na minha conta? Perguntei quando o garçom se afastou.

- Ora, você vai pagar as despesas do seu, digo, do nosso evento.

- Mas será que precisarei de tanto?

- Talvez precise de mais.

- Impossível!

- É possível sim. É claro que eu preferia que não fosse precisar. Isso não significa, entretanto, que esteja dizendo não para o projeto, estou apenas sendo realista.

- Ah pai, lembrei. Ontem a noite desejei falar com o senhor para...

- E por que não falou? Disse interrompendo-me.

- Era tarde e o senhor devia está dormindo.

- Que me chamasse.

- Deixa pra lá, nada que não pudesse esperar, como esperou.

- Vamos lá, me diga, então.

- É que pensei num nome para o evento...

- E qual é? Perguntou-me ansioso.

Meio tímido, respondi-lhe:

-Pitagoriando em Sampa.

Ele ficou calado e pensativo, como a procurar por algo escondido em seus pensamentos. Fiquei meio decepcionado, pois esperava uma resposta imediata e de aprovação. Perguntava-me: será que ele não gostou?

- FAN-TÁS-TI-CO! Disse em voz alta que chamou a atenção de todos. Brilhante, filho. Não podia ser melhor.

- O senhor aprova então!?

- lhe disse que eu não tenho que aprovar ou não as coisas. Quem deve saber é você. estou dizendo que não podia ser melhor, estou apenas externando minha opinião, que você me pediu um parecer.

Aquela aprovação foi o gesto definitivo, a força que eu precisava para não mais duvidar de que o nosso objetivo seria alcançado.

Papai ainda tomou mais uma cerveja e eu mais um guaraná.

- Pai, preciso ir à escola.

- Sem dúvida, filho. A conta, por favor, disse ele dirigindo-se à proprietária, cuja fisionomia denunciava sua ascendência árabe.

Ao chegar a conta, papai disse:

- Use seu talão de cheques.

- Mas, já!?

- Encare este como um almoço de negócios. Vocês terá muitos outros. Entendeu agora a necessidade do dinheiro na sua conta?

- Entendi.

Paguei a conta e nos retiramos. Na rua, após nos beijarmos, cada um tomou seu rumo. Papai voltou para seu escritório, que fica também na Av. Paulista, no Conjunto Nacional, e eu fui para o Colégio Dante A., um colégio italiano que fica na rua Peixoto Gomide, esquina com Alameda Jaú, onde estudo.

Encontrei o Thadeu na porta do colégio como a me esperar.

- E aí? Perguntou ele.

- Tudo bem. Respondi.

Cumprimentamo-nos batendo as palmas de nossas mãos, depois tocando-as cerradas em ponto de soco.

- Sumiu?

- vendo umas coisas com o velho. Algo legal. Quero que você me ajude.

- O que que vai rolar?

- Trabalho.

- fora! A não ser que pinte grana.

- Isso é consequência. Primeiro trabalho, depois a grana.

- Começou a melhorar. Diz mais.

- promovendo um encontro cultural.

- Pensei que era festa.

- Também. São ambos: cultura e festa!

- Não entendendo, explique-se, mano.

-Siguinte, no intervalo conversaremos, na hora de entrarmos. Tu vais gostar. Nos encontramos na quadra de esporte na hora do recreio. Certo?

- Certo, mas sem furo, tu meio estranho.

- Eu ou você?

- me estranhando, mano?

- Vamos à aula, depois conversaremos.

- Valeu!

A professora de geografia, Mirtes Nicolino, faltou. Substituiu-a a professora Luciana. Tinha um belo par de seios. As nádegas não eram nem grandes, nem pequenas, diria que eram proporcionais. Tinha uma bela dentição, apesar de seus dentes precisarem de um aparelho. Em compensação, seu sorriso era lindo. Sua pela morena me atraiu bastante. Fiquei a admirá-la mais que a ouvi-la. Ela percebeu meu interesse e começou a ficar um pouco encabulada, apesar de ter passado a me olhar mais, embora tentasse despistar.

Percebi que a Lélia estava me filmando. Seu rosto estava para poucas conversas. Ela era mulher e sentiu meu interesse pela outra, especialmente porque na aula anterior ela tinha sido o centro das minhas atenções.

Felizmente a sirene soou. Eu não podia me levantar, pois se o fizesse, alguém, especialmente, a Lélia poderia notar um volume anormal a saltar da minha braguilha.

A professora Luciana, na porta, voltou-se e me dirigiu um leve sorriso. Retribuí e, imediatamente, olhei para a Lélia, que estava com a face muito vermelha e os olhos a me triturar vivo. Baixei a cabeça, como a escrever algo no caderno. Esperei, pois sabia que isso ia acontecer, que ela se aproximasse. Foi o que ocorreu.

- Eu vi você trocando olhares e sorrisos com aquelavaga. Disse ao meu ouvido.

- Aquela o quê?

-Vaga, de vagabunda!

- Não sei do que você está falando.

- Ela tem idade para ser sua mãe.

- Continuo sem entender.

- querendo me fazer de idiota?

- De maneira nenhuma, apenas queria saber de que que você está falando.

Para minha alegria, o professor de matemática acabou de entrar em sala.

- fora, na hora do intervalo, conversamos, me disse ela dirigindo-se à sua carteira.

- Não sei se vou poder...

Ela não ouviu ou fez que não ouviu e se foi.

O ciúme de Lélia fez com que aumentasse minha admiração pela professora Luciana. Mas o que fazer?

Pouco ouvi das explicações sobre equações do segundo grau que eram transmitidas pelo professor Márcio S., um mineiro com um sobrenome alemão que se acha o homem mais lindo do mundo, e que fundou na escola oclube dos bonitões, do qual alega ser presidente.

Na hora do intervalo, saí rápido em direção à quadra para falar com o Thadeu, mas vi que, como uma sombra, Lélia me seguia.

O Thadeu estava na quadra, sentado sob a sombra do muro. Quando me aproximei ele foi dizendo:

- vem aquela chata. Agora ela é tua segurança?

- Calma, cara. Deixe eu falar com ela antes.

Voltei um pouco em direção da Lélia e disse:

- Lélia, tenho algo para falar com o Thadeu. É particular. Podemos conversar na saída?

- Você promete?

- Claro que sim.

Ela me olhou, eu me aproximei e passei a costa da mão em seu rosto. Ela, mesmo não gostando do fora, virou-se e foi embora.

Fui conversar com o Thadeu. fui mostrando meu talão de cheques.

- O que é isso? Perguntou.

- Cheques.

- Que são cheques eu sei. Quero saber de quem são.

- Meus.

- Teus!?

- Meus, sim, papai acabou de abrir uma conta corrente em meu nome.

- E tem fundos?

- Claro, ele depositou um bom dinheiro.

- Beleza! Vamos gastar tudo, uhuuuuuuuuu!

- Nada disso. Vamos gastar sim, mas em algo importante.

- E o que pode ser mais importante que roupas, calçados, mulher e bebidas?

- Nada. Mas existem mais coisas.

- Quais?

- Primeiro gostaria de saber se vais me ajudar no meu projeto.

- Como é que eu posso ajudar se eu nem sei do que se trata.

- Posso explicar?

- Deve. Sou todo ouvidos.

Contei-lhe sobre o projeto e sobre as providências adotadas, como os reparos no sobrado e a abertura da conta corrente. Ao final da exposição disse-lhe:

- Estou contando com você para me ajudar. Topas?

- Cara, eu com uns probleminhas aí, não sei se vou poder.

- Posso ajudar?

- Sei lá, creio que ninguém pode.

- Me conta e eu te digo se posso ou não.

- Você sabe que o papai e a mamãe estão se separando?

- Sei...

- Pois é, isso me trazendo alguma angústia. Não sabendo como lidar com isso. muito triste.

- Não seria melhor encarar de frente as coisas em vez de partir para a fuga?

- Sei lá. Como é que vai ficar a minha vida e das minhas irmãs com eles separados?

- Será que a separação não é melhor? Será que eles ainda se amam? Eles andam brigando?

- Sei lá. Sei que eles brigam muito, passam vários dias sem se falar. O humor deles fica péssimo, inclusive conosco.

- Pois é. Será que vale a pena viver assim?

- Eles pareciam se gostar tanto e de repente tudo acabou. Não consigo aceitar isso.

- Tudo acaba, meu.

- Que nada. Teu pai e tua mãe, por exemplo, parece que vivem hiperbem.

- Mas eles são uns dos poucos casais que conseguiram isso. A regra geral parece ser a separação. Veja quantos dos nossos colegas são filhos de pais separados.

- Você parece que achando fácil o que eu estou vivendo.

- Não dizendo isso, até porque nunca vivi. dizendo que tem muitas pessoas na tua situação.

- E isso resolve o quê?

- Não resolve nada, mas também não é o fim do mundo. Você pode aprender com quem passou por isso.

- Logo, não tenho nada a aprender com você, que nunca passou por isso.

- Pode ser. Mas gostaria de ajudar.

- Gostaria nada. Você não tem mais tempo sequer para a gente aprontar.

- Por que que você acha que eu estou te ouvindo?

- Sei lá. Drama de consciência.

- Por que drama de consciência?

- Você vendo que eu não estou bem.

- sabendo disso agora.

- Pois é, por que você me abandonou.

- Que é isso cara, andei ocupado, disse. Mas pensei em você, tanto assim que estou te convidando para me ajudar.

- Sei não. a fim de fumar.

- Mas você não fuma, Thadeu.

- Não fumava. Agora fumando.

- Desde quando?

- Desde faz tempo. Lembra aquele dia que te chamei para a gente experimentar aquele cigarro?

- Sim, claro.

- Você não aceitou. Disse que depois conversávamos e até hoje.

- Falta de tempo, disse. Mas, voltando aquele cigarro, o que era aquilo?

- vendo, você também pegando no meu pé.

- Como pegando no teu pé? Apenas estou perguntando. Afinal, você não me ofereceu?

- Mas você não aceitou.

- Por isso estou perguntando agora.

- Era um baseado.

Caiu a ficha. Fiquei em silêncio por algum tempo. desconfiava que era de maconha aquele cigarro estranho. Procurei não me mostrar espantado nem surpreso, para que não parecesse que iria censurá-lo. Depois de medir as palavras, disse:

- conversou com seus pais sobre isso?

- Prá quê? Eles, como você faz agora, não iriam entender, devem, como você, estar mais preocupado com seus próprios umbigos.

- Cara, você me agredindo de graça. Sou teu amigo e você parece que não percebendo isso.

- Desculpe. cheio.

- É, você realmente deve estar cheio, até porque sempre valorizou aqui a escola, e ela sempre alertou a respeito do envolvimento com drogas.

- São sempre repressores, como todo mundo.

Com muito jeito, perguntei-lhe:

- Será que todo mundo está errado?

- Sei lá, mais isso não me interessa.

- Mas devia. Podemos conversar com o papai.

- Tudo para você écom o papai, na hora de cortar o cordão umbilical.

- É o que venho fazendo. Mas o coroa é legal, conversou comigo sobre o assunto.

- E o que ele disse? Certamente que é feio, que faz mal e outras idiotices.

- Quer ou não conversar com ele?

- Com ele não. Por que você não me diz o que ele disse?

- Quer mesmo ouvir?

- Sim, quero.

A sirene soou marcando o fim do intervalo.

- Vamos à aula e te espero na saída, depois vamos em casa, convidei.

- Na sua casa não!

- bom. Vamos num barzinho legal aqui perto.

- Falou.

Partimos cada qual para sua sala de aula.

O que eu iria dizer para o Thadeu? Como encarar os problemas dele? Passei a aula divagando sobre como me sair bem dessa bem e mostrar para o Thadeu meu ponto de vista sem machucá-lo ou sem parecer repressor.

Ao final da aula a Lélia caminhou em minha direção. Que desculpa poderia dar a ela? Expliquei-lhe que tinha acontecido algo e que não poderíamos conversar agora. Mas que iria a casa dela às vinte horas. Ela fez uma cara de quem não gostou, mas acabou aceitando.

Na saída, o Thadeu estava me esperando. Descemos na companhia de alguns outros colegas. Como ia acontecer um campeonato internacional de skate no parque do Ibirapuera, programamos de irmos assistir a final que ocorreria no próximo domingo. Nesse papo esquecemos de ir ao barzinho, que ficou muito para trás de onde estávamos quando nos lembramos. Mais alguns passos, estávamos em frente ao portão do meu prédio.

Ao chegarmos ao prédio, seu João perguntou-me se ainda era corinthiano, pois meu time tinha perdido para o rival Palmeiras por cinco a zero. Uma goleada!

- Claro que sim. É uma fase.

- Se for igual a fase do Palmeiras, vai acabar na segunda divisão.

O Thadeu era um sorriso só, ele torce para o São Paulo, que sempre está bem na fita.

- Depois continuamos, seu João. Vamos, Thadeu?

Nos despedimos e subimos.

Mamãe, após nos beijar, ofereceu-nos lanche. Agradecemos e fomos para o meu quarto. O tempo não estava quente, mas deu para suarmos com a caminhada em ritmo acelerado, tirei uma toalha e entreguei ao Thadeu, dizendo-lhe:

- Toma banho primeiro, depois eu vou, preciso antes falar com o papai.

- cagado não, meu irmão. Respondeu-me risonho. Apanhou a toalha e foi para o banheiro.

Aproveitei e corri para o escritório. Papai estava de pijama e ouvia música clássica lendo a nova versão da Ilíada, realizada pelo Haroldo de Campos, publicado pela Editora Arx, em dois volumes.

- Pai, tenho urgência em falar com o senhor.

Ele percebeu minha aflição. Fechou o livro e desligou o som.

- Diga, filho.

Relatei a ele o que me tinha dito o Thadeu. Ele ouviu atentamente e disse ao final:

- Filho, conversamos sobre o assunto, lembra?

- Sim. O senhor poderia conversar com ele?

- Acho melhor não. Não sei se ele iria entender. Além do mais, poderia perder a confiança em você.

- Mas estou pensando no melhor para ele.

- É difícil as pessoas entenderem que pensamos no melhor para elas. Você sabe disso.

- O senhor poderia repetir nossa conversa sobre drogas?

- Claro, lhe disse que você deve primeiro estudar, depois, tendo consciência das vantagens ou desvantagens dos entorpecentes, optar se quer usar ou não. Se optar por usar, que você possa manter, pagar pelo seu vício. Não pode machucar as pessoas ou se machucar para adquirir entorpecentes.

- Sei...

- Mas não repetir isso para o Thadeu.

- Por que não?

- Ele pode não entender. A propósito, você sabe quanto tempo ele está usando entorpecente?

- Claro que não. Respondi meio intrigado, achei que papai estava desconfiando de mim também.

Ele entendeu minha reação e disse:

- Calma, querido. Fiz a pergunta porque sei da proximidade de vocês e, portanto, você tem mais chance que eu de saber se faz tempo ou não que eleestá nessa, como se diz.

- Desculpa. Penso que faz pouco tempo.

- Então ele ainda não pode ser considerado viciado. Sugiro o seguinte: chame-o para trabalhar com você, como fez, e mantenha-o extremamente ocupado. Se você achar que precisa, no futuro, voltamos a conversar.

- bem, pai.

Beijei-lhe o rosto e saí.

- Você demorou. Onde estava? Perguntou-me o Thadeu.

- Esqueceu que agora sou um misto de curioso e empresário?

- Isso é sério mesmo?

- Seriíssimo. Inclusive, vamos começar a trabalhar agora.

- Eu ainda não respondi se aceito o convite para trabalhar com você.

- Não precisa responder. Você sabe que estou precisando, logo não vai me deixar na mão.

- Golpe baixo não vale.

- Não é golpe baixo. Estou precisando mesmo. Você vai recusar?

- Você sabe que não. Mas o que devo fazer?

- Em primeiro lugar me chamar de patrão. Brincadeirinha... rimos juntos. Preciso que você, na net, localize os e-mails das pessoas que iremos convidar, cuja lista é esta, disse passando-lhe minhas anotações, a fim de que possamos formular os convites. Depois, rascunha um modelo de convite. Também vou rascunhar um e em seguida fazemos a comparação entre ambos e fechamos o convite. Data e local vamos deixar em aberto. Entendido?

- Claro. E meu salário?

- Falamos sobre isso depois. Mas saiba que não vou te cobrar nada para você ouvir nossos convidados, o que é um ganho indireto incomensurável...

- Prefiro dinheiro mesmo.

- Você sabe que terá, mas somente quando completar o mês. Estamos no final de fevereiro, no final de março, receberá o primeiro salário. Prometo. O carnaval passou mesmo.

- E até como é que eu fico? A mesada foi.

- Posso pensar num vale.

- Então pense logo, estou precisando.

- estou pensando. Mas agora vamos ao trabalho. Fica com o meu computador, vou escrever no meu caderno. Se precisar, vou para o computador do escritório. Boa sorte!

- Brigado.

Thadeu foi para o computador e eu apanhei meu caderno e uma caneta bic. Meu primeiro rascunho ficou assim redigido:

 

PrezadoSenhor,

 

Temopresenteafinalidadedeconvidá-loaviràcidadedeSãoPaulo,EstadodeSãoPauloBrasil,eaquificarporumasemana.

Omotivodesteconviteéquegostaríamosimensamentedeouvirosseuspensamentosfilosóficose,assim,nosinteirarmosmelhordavossadoutrina.

Outrospensadores,seusconterrâneos,tambémestãosendoconvidados.

Estamosprovidenciandotransporteehospedagem,bemcomoalimentação.

Suapresençairácoroardeêxitooevento,eencherdealegriaocoraçãodosseusadmiradores locais.

 

Atenciosamente,

 

JuarezeThadeu.

 

Olhei no despertador e se aproximava das dezenove horas e trinta minutos.

- Thadeu, vou ter que sair. Tenho um encontro com a Lélia.

- Também posso ir?

- Você não vai querer atrapalhar nossos projetos, vai? Além do mais, precisamos encerrar o teu trabalho para ontem.

- Mas...

- Não tem mais nem menos. Esqueceu que está recebendo salário? São os ditos ossos do ofício, meu.

- É a volta da escravidão?

- Ainda não, são as tais responsabilidades.

- E você sabe o que é isso?

- Como vês, estamos aprendendo.

- Você aprendendo é ser capitalista e me explorando.

- Não vais querer o vale?

- Jogo sujo.

- É, cara, é assim que o mundo dosadúlterosfunciona.

- fora, disse rindo do trocadilho.

- Até quando.

- Sei lá.

- Chega essa hora para todos.

- querendo adiar a minha.

-Impossible, como dizia o Cazuza:o tempo não pára.

- Te manda então.

- Fui.

Ao sair, percebi que o Thadeu voltou-se novamente para a tela do monitor.

Papai estava na sala assistindo o Boris Casoy. Ao me ver, perguntou:

- Como andamos?

- Agora tenho que sair, depois conversamos, mas está tudo bem.

- Não vais jantar conosco?

- Infelizmente não. Marquei com a Lélia às vinte horas. Tenho que ir.

- Sua mãe foi avisada? Deve está fazendo comida para um batalhão.

- Avise-a, por favor. Chame o Thadeu para jantar.

Beijei-lhe a testa e saí. Fui para a Rua Augusta, onde apanhei umbusãoaté a Avenida Paulista. Na Paulista apanhei outrobusãocom destino ao Bairro da Barra Funda, pois ele passa no Bairro das Perdizes, onde mora a Lélia.

No túnel da avenida Paulista que passa sob a rua da Consolação, vi os grafites das paredes e me veio uma ideia: convidar uns grafiteiros para fazer a parte visual do nosso encontro.

Desci numa parada que fica nas proximidades da PUC, na Rua Cardoso de Almeida. O prédio da Lélia ficava na Rua Bartira. Após o porteiro avisá-la da minha chegada, a Lélia desceu uns 15 minutos depois.

 

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