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Pitagoriando em Sampa - Capítulo II

Pitagoriando em Sampa

 

CAPÍTULOII

 

Levantamo-nos por volta das dezessete horas. Após o banho, fomos fazer um lanche. Voltamos para o quarto e fomos ouvir, mais uma vez, o CD dos Titãs.

 

Precisei ir buscar um copo com água para tomar um engov, que estava com um pouco de dor de cabeça. Ressaca pura. Ao abrir a porta, vi meu pai com o ouvido colado nela, ouvindo a música "Epitáfio". Estava com os olhos marejados. Tentou disfarçar, mas percebi o quanto aquela música o comovia profundamente, que sua vida está indo na mesma direção apontada pela letra musical.

Enquanto os Titãs continuavam cantando, lembrei-me do Marcelo Fromer, que tinha morrido recentemente, numa situação brutal, como são todas as mortes não-naturais. Achei engraçado o fato de a morte não matar a obra do artista e assim ele continuar presente junto àqueles que o admiram. Mas sempre que me lembrava dele, contraditoriamente, não podia me esquecer da Karen Kupfer, que conheci por fotografia tirada durante o funeral do seu namorado. Ela é demais. Linda, mesmo chorando.

O jantar foi animado. Não só a comida estava saborosíssima, como minha dor de cabeça tinha ido embora. Meu pai, que sempre toma um bom vinho ao comer macarronada, nos ofereceu uma taça da bebida. Minha recusa não mereceu a solidariedade da Luíza B., e os dois acabaram por secar a garrafa.

Meio sem assunto, já que os dois degustadores não se calavam, voltou-me a mente a boate e a filosofia. Com isso, imaginei um plano para encerrar a conversa e levar a Luíza B. para o quarto. Buscando provocar meu pai, disse, então:

- Pai, estou pensando em convidar uns amigos gregos para ficarem uns dias conosco. O que o senhor acha?

Pensei que receberia uma boa reprimenda, pois além de meu pai não ser rico para bancar as despesas, nosso apartamento não comportaria tanta gente, em especial por serem todos homens. Para minha surpresa, e pelo efeito do vinho, cheguei a não acreditar quando ele, sorrindo, me perguntou:

- Quem são eles?

Percebi que a resposta era de adesão a minha e ideia de cumplicidade. Então respondi:

- Tales de Mileto, Heráclito, Leucipo, Demócrito, Zenão e outros.

Ele foi um sorriso só. Não precisava dizer nada, pois compreendi sua felicidade; seus olhos ficaram mais brilhantes e suas bochechas mais rosadas. Esse último detalhe sempre acontecia nos momentos de alegria. Sua mão levada à boca, como a esconder o sorriso, dizia da sua emoção por ter conseguindo, creio eu, me iniciar na arte de, se não de filosofar, pelo menos de admirar a filosofia. O que já era um início incomensurável.

Ele me abraçou, me beijou ternamente, e disse:

- Filho, o deus do Olimpo me olhou. Você acredita que hoje recebi um sobrado que fica no Bairro de Vila Madalena, aqui em São Paulo e um bom dinheiro em honorários. Como o meu cliente, que já vinha me devendo há tempos, não tinha como me pagar tudo o que me devia em dinheiro, propôs e eu aceitei que uma parte fosse o sobrado. E eu que não sabia o que fazer com aquela casa imensa, agora já sei.

- E o que é que o senhor vai fazer? Perguntou a curiosa Luíza B..

- Tocar com o Juarez o projeto que ele acaba de nos apresentar. Vamos receber seus amigos...

- Mas pai...

Tentei interrompê-lo. Porém ele foi mais rápido e, sem que eu pudesse completar o que queria dizer, levantou-se apressadamente e foi em direção à adega e apanhou outra garrafa de Casa Valduga, o vinho gaúcho de sua preferência. E, parecendo que sorria com e por todo o corpo, perguntou à Luíza B.:

- Me acompanha ou vou tomar sozinho?

Aquela pergunta, tão terna e carinhosa, era impossível de ser recusada, razão pela qual, eu que olhava para a Luíza B. pedindo que ela não aceitasse o convite, desviei meus olhos de reprovação e fui apanhar uma taça para poder acompanhá-los também.

Minha mãe, que fora chamada às pressas por uma de suas vizinhas e amiga do piso inferior, abriu a porta e, ao se deparar com a cena inusitada, perguntou:

- A comemoração ou bebemoração é pela minha ausência? Foi só eu sair e minha casa foi transformada numa taverna?

Meu pai correu até ela e tascou um longo beijo em sua boca, beijo como eu não via há anos, o que a deixou mais espantada ainda.

- O que está acontecendo, pelo amor de Deus? Disse ela com uma expressão que era um misto de curiosidade e ansiedade.

- Ganhei na loteria duas vezes hoje, meu amor. Meu pai pronunciou a palavra amor com a boca cheia de felicidade e paixão.

- Como assim? Quis saber minha mãe.

- Lembra que te contei a história dos honorários atrasados e do sobrado?

- Sim, claro. Mas e daí?

- E daí, é que o Juarez acaba de me dar uma notícia melhor do que a dos honorários.

Minha mãe fez uma expressão de quem não gostou muito. No momento não entendi, mas, tempo depois, ela iria me confessar que pensou que a notícia era de que ela iria se tornar avó. Arrematando, impaciente, em seguida:

- Tire-me desta aflição, conte tudo de uma vez.

Papai abraçou-a pela cintura e levou-a a para cadeira da cabeceira da mesa. Sentou-a e contou nossa conversa. A medida em que ele narrava, o rosto de minha mãe voltava a placidez de um lago em calma, pois sua expressão de ansiedade foi sumindo aos poucos e as poucas rugas de seu rosto voltaram à altura de sua idade.

Meu pai voltou sua atenção totalmente para minha mãe, a fim de convencê-la de algo que ela, em momento algum, tinha questionado contrariamente. Ele atribuía aomeuprojeto intenção, execução e consequências que eu jamais imaginara, muito menos lhe dissera. Na verdade, estava nascendo ali um projetodele. Não me importei, contudo, com a paternidade do projeto, até porque ouvi coisas que eu nem imaginava que seriam necessárias para executá-lo, por isso gostei muito de ouvi-lo, pois entendi que, mesmo sendo ainda um sonho, o projeto era viável.

Meu pai continuava vendo tudo como plenamente factível e em cores de sua preferência, enquanto tomava seu vinho em largos goles.

Aproveitei a euforia, até porque sabia que a conversa ia ser longa entre ele e minha mãe, que ele mudara o foco, deixou de ser o projeto e começou a falar de minha desenvoltura como estudante de filosofia e, agora, empreendedor da educação, e puxei a Luíza B. pela mão e saímos de fininho rumo ao meu quarto. Apenas minha mãe percebeu que nos afastávamos. Joguei-lhe um beijo e sumimos no corredor.

A euforia de meu pai ao encarar o meu projeto como algo realizável, dando a ele maior dimensão do que eu mesmo imaginara, me deixou preocupado, com uma responsabilidade que até então eu não tinha assumido. A Luíza B. tentou me fazer carinho, mas eu estava suficientemente longe para corresponder. Ela percebeu minha ausência e perguntou:

- O que foi?

Eu não estava disposto a falar, até porque não sabia o que dizer. Balbuciei:

- É o meu pai...

- Realmente ele ficou extasiado, está fascinado pela ideia. Talvez seja o vinho. Amanhã passa.

Não respondi. Ela viu que eu continuava impassível olhando para o nada e decidiu me deixar divagando com meus sonhos. Pensei notalvez seja o vinho. Não, não era o vinho. Meu pai era dado a beber seu vinho costumeiramente e até em maior quantidade, não seriam portanto aquelas duas garrafas divididas conosco que iriam dar-lhe aquela disposição juvenil de sonhadores entusiasmados com suas próprias ilusões. Meu pai tinha passado da idade de se empolgar com algo tão simples e tão sem sentido para um homem de negócios. Iria gastar, caso levasse adiante o agoranossoprojeto, um dinheiro que talvez lhe fizesse falta no futuro, quem sabe. Logo ele que ficou tão preocupado com o fato de que poderia não receber aqueles benditos honorários, como agora se predispunha a gastá-lo sem a esperança de qualquer retorno? Tive que concordar com a Luíza B.: talvez fosse o vinho.

Cobri-me com a minha metade do edredon e tentei dormir.

A noite foi longa e mal dormida. Acordei diversas vezes. Sempre pensando na conversa que tivera com papai. Caso ele realmente cumprisse o prometido, como eu iria sair daquela enrascada em que me metera? Ao ver minhas olheiras pela manhã, minha mãe perguntou o que tinha ocorrido. Disse-lhe da noite mal dormida e das razões para tal. Ao que ela concluiu:

- Filho, isso é a tal preocupação. Você está começando a ficar adulto. Homem de verdade.

Meu Deus, pensei eu, será que ser homem de verdade significa dormir tão mal? Estava quase desistindo da ideia de me tornar homem.

- Isso se chama assumir responsabilidades, meu filho. Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer.

- Mas o papai não desistiu? Vocês ainda ficaram até tarde? Ele ainda bebeu mais?

- Até a hora que dormimos seu pai não havia desistido. Ficamos até a madrugada conversando à mesa, onde ele bebeu mais outra garrafa de vinho. Nunca tinha visto a bebida deixá-lo tão lúcido. Depois que nos deitamos, ele ainda, rapidamente, tornou ao assunto. Não insisti na conversa porque era tarde. Fiquei observando-o com o canto dos olhos. Ele sorriu até a hora que pegou no sono. Dormiu a noite de um sono só. Nunca mais o tinha visto dormir tão bem. Parece que dormia em colchão de nuvens. Não o vi mudar de posição constantemente, como é seu habito e sequer roncou quando esteve dormindo de peito para cima. Pela manhã, ao sair do quarto ele ainda estava dormindo. E olha que hoje é domingo, seu dia favorito de ir jogar bola.

Realmente era domingo. Papai costumava ir jogar bola com um grupo de amigos de sua idade. Quando era mais novo, até os 14 anos, costumava acompanhá-lo. Depois fui ficando muito veloz em relação ao grupo. Achei melhor procurar gente da minha idade, a fim de tornar a disputa leal.

- E você, que costuma acordar sempre tarde, quem diria!?

- É, espero que o bom sono do papai demova-o danossaideia.

- Pois eu, filho, francamente, espero que isso não aconteça. Ele estava tão feliz e me contou da sua felicidade também, além de ter me convencido da importância dessa aventura de vocês. Acho que, se vocês concretizarem isso, será bom para todos, especialmente para o seu pai, e para você também, é claro.

- Até a senhora, mãe. Disse, tomado pelo espanto. A ideia parece que tinha contaminado a todos.

Fui para o banheiro, e quando escovava meus dentes olhei no espelho e vi que a minha, até então, rala barba estava bem mais preenchida e definida. Eu que quando era menor adorava passar o pincel de barbear do meu pai em meu rosto e usar seu aparelho, isso tudo para imitá-lo, percebi que era chegada a hora de usar meus próprios instrumentos de higienização e tortura masculina.

Após tomar banho voltei para o quarto; como a Luíza B. ainda dormia resolvi deitar ao seu lado, a fim de receber o calor de seu corpo sob os lençóis.

Acordei-me com a Raitza, a moça que ajudava minha mãe nos afazeres domésticos, nos chamando para almoçar.

Esse meu sono matinal foi muito bom. Consegui recuperar minhas forças sugadas pela noite mal dormida.

A Luíza B. estava no banheiro, tinha levantado sem que eu percebesse. Voltou poucos minutos depois do chamado. Estava com uma toalha enrolada nos cabelos, como sempre fazia, para secá-los um pouco, segundo ela, antes de usar o secador!

Disse-lhe que estavam nos esperando para o almoço, tendo ela respondido que tinha ouvido o chamado.

- Então vamos?

- Preciso secar meus cabelos e me arrumar. Respondeu-me.

se vão horas, pensei. Mulher quando diz isso leva uma eternidade para dizer que terminou. Como não queria encarar meu pai sem alguém que me apoiasse moralmente, e era tal apoio que eu esperava da Luíza B., resolvi esperá-la, embora essa espera pudesse implicar em um novo chamado do tipo:a comida vai esfriar.

Aproveitei para pensar em como deveria me comportar frente ao meu pai. Sinceramente, agora, estava com medo da nossa conversa da noite anterior. Pensei: vou ficar calado e esperar que ele não relembre o assunto. Assim damos o caso por encerrado. Caso ele volte ao tema, procurarei demovê-lo fazendo ver os gastos que terá com o empreendimento, o qual não lhe garante nenhum retorno. Estava resolvido.

Finalmente ouvi a palavra mágica:

- Vamos, disse Luíza B..

Sem responder, abri a porta para que ela passasse e a segui.

Tinha por hábito pedir a benção aos meus pais beijando-lhes as mãos direitas. Como tinha tomado benção à minha mãe, por um segundo pensei não me aproximar do meu pai, até porque com isso queria que ele esquecesse nosso ex-projeto. A força do hábito, contudo, empurrou-me em sua direção e, como de costume, disse-lhe:

-Bençapapai.

Ele levantou a mão e eu a beijei. Quando ia soltando sua mão, ela apertou a minha e me puxou em direção aos seus braços abertos. Meu pai me abraçou carinhosamente e me beijou a fronte, sem dizer palavra.

Soltou-me e eu tomei assento. A mesa estava, como de costume, muito farta. Mas naquele dia, pouco se conversou. Parece que todos nós nos observávamos de cabeça baixa, como a querer cada qual a adivinhar o pensamento um do outro. Tentei comer rápido para rapidamente abandonar a mesa e ir para o meu quarto. Quando coloquei o guardanapo que estava sobre minhas coxas em cima da mesa, em sinal de encerramento, ouvi:

- Mas, já!? Era meu pai percebendo que eu tinha comido com sofreguidão e muito pouco em relação ao que eu comia normalmente.

- É ... estou sem fome. Respondi meio sem graça. Aliás, sem nenhuma graça. O que eu queria mesmo era fugir do olhar penetrante dele.

- Mas logo hoje, que teremos um dia longo pela frente.

Meu coração parece que queria saltar do peito, e quem olhasse para minha camisa, certamente perceberia seu movimento. Me fiz de desentendido e perguntei:

- Como assim?

- Vamos começar a executar o seu projeto. Respondeu-me dando ênfase à palavraseu.

- Pai, eu estive pensando a respeito e concluí que os gastos nesse projeto serão elevados e não nenhuma garantia de retorno. Respondi dentro do script que tinha montado anteriormente.

- De que espécie de retorno você está falando?

- Retorno financeiro, é claro.

- Não é esse retorno com o qual estou preocupado.

- Mas eu estou, afinal, apesar de ser o seu dinheiro que está em jogo, ele é também da mamãe... disse buscando cumplicidade e apoio.

- Da minha parte eu abro mão em favor do projeto de vocês, disse ela me interrompendo e tornando-se mais uma aliada do meu pai.

- Tudo bem, mas é meu também, e eu não sei se estou disposto a gastar nisso, tentei ser incisivo.

- Filho, você sabe que não existe herança de pessoa viva, portanto, posso gastar todo esse dinheiro como eu bem entender. Além do mais, como te disse em outras ocasiões, meu compromisso com você é te dar educação. isso! O resto você deve conseguir com seu próprio esforço. Lembra?

- Sim. Fui monossilábico.

- E você naquela oportunidade disse que queria isso, não foi?

- Foi.

- Mudou algo?

- Não.

- Então, você não acredita no seu pai?

- Acredito.

- Pois é, meu compromisso está mantido, para sua educação e para a sua alimentação jamais faltará alguma coisa. Você acredita no seu pai?

- Acredito.

- Qual o problema, então?

- Não sei.

- E em você, você acredita?

- Mais ou menos?

- Como assim mais ou menos?

- Não sei lhe explicar.

- E nos seus sonhos você acredita?

- Sim. Acredito.

- Então!?

- Sabe o que é pai, eu não quero lhe trazer prejuízos. Além do mais eu nunca fiz nada. Sequer sei por onde começar. Se é que o senhor está falando da nossa conversa de ontem.

- É exatamente sobre ela que eu estou falando. Agora me responda sinceramente, como você sempre faz: você não acredita que será bom trazer os seus amigos gregos?

- Eu acredito que será bom, mas...

- Não tem mais nem menos não. Vamos trazê-los e pronto. Se você acredita, e isso é o f-u-n-d-a-m-e-n-t-a-l, o resto é plenamente exequível. Quanto a você nunca ter feito nada, você sabe que um dia terá que começar a fazer, certo?

- Certo.

- Pois é, a hora se apresentou: é agora. Quando lhe disse pouco que o dia de hoje seria longo, é porque estou disposto a te ajudar a encontrar por onde começar.

Olhei para minha mãe como a buscar ajuda para demover meu pai mas ela, compreendendo meu pedido apenas com o olhar, balançou a cabeça dizendo não. Que não estava do meu lado. Busquei ajuda na Luíza B., mas esta baixou a cabeça como a dizer: nesse assunto não conte comigo. Voltei a olhar para papai e disse-lhe:

- Pai, apesar de acreditar e querer, como lhe disse, estou com medo.

Ele sorriu e asseverou:

- É natural, filho, você é humano, não podia ser diferente. É bom que tenha medo, pois assim saberá medir os teus passos. Mas teu pai ainda tem forças suficiente para te iniciar em mais essa caminhada, como fez quando dos teus primeiros passos. Mais ainda, neste caso não tenho força, tenho também coração e alma, ou seja, os mesmos instrumentos que precisei quando decidi, juntamente com tua mãe, que você viria ao mundo. Portanto, vamos começar, agora, juntos.

Fui até meu pai, ele se levantou, e nos abraçamos, ele sentiu meu coração e eu pude sentir o dele. Ambos batiam em ritmo acelerado, mas iguais, em perfeita sintonia.

Ele iniciou o processo de separação. Tomou o último gole de café da xícara e disse:

- Espero todos na garagem em vinte minutos.

Era um convite em tom de ordem. Portanto, não poderíamos faltar. Levantamo-nos e cada um tomou sua direção.

no quarto, dirigi-me à Luíza B..

- Que bela amiga que você é, não me ajudou em nada na conversa com meu pai. Muito pelo contrário, fugiu.

- Não ia adiantar, minha experiência, após a adesão da sua mãe, me disse que qualquer argumento seria inútil. E você agora sabe que seria, não é mesmo?

- Sim, mas pelo menos você poderia ter dito...

- Dito o quê? Seu pai está decidido. Na verdade, você teve oportunidade de demovê-lo da empreitada, lembra da pergunta que ele lhe fez?

- Qual delas? Foram tantas.

- Se você acredita no projeto.

- Sim. Lembro.

- Pois é, se você tivesse dito que não acreditava, com certeza ele teria encerrado o assunto.

- Mas eu não podia, pois eu acredito.

- Então continue acreditando e arque com as responsabilidades e consequências. Se eu puder ajudar, conte comigo.

Ela tinha razão. Eu era responsável por meus próprios sonhos, constatei.

Escovamos os dentes, nos agasalhamos, pois estávamos em pleno inverno paulistano e nos dirigimos ao elevador.

Ao chegarmos na garagem, que fica no segundo subsolo, papai e mamãe estavam no carro, que tinha o motor ligado. Era a álcool e com o frio demorava para aquecer.

- Vamos à Vila Madalena ver o sobrado, informou-nos papai.

Ninguém disse nada e o carro começou a se mover. Descemos a Rua Frei Caneca até o seu final. Dobramos na Rua Caio Prado e fomos até a rua Consolação. No viaduto sobre a avenida Paulista dobramos à direita, indo para a Dr. Arnaldo. Bem mais à frente, dobramos à esquerda na rua Cardeal Arcoverde. Descemos até á embaixo e entramos na Rua Fidalga, à altura do 1.962 paramos, tendo papai apontado com o dedo e dito:

- Aquele é o sobrado.

Percebi que tinham dois carros estacionados em frente ao imóvel. Imediatamente identifiquei o Sig B. e o R. Ohtake, que são decorador e arquiteto, respectivamente, e que os tinha conhecido quando fizeram uma mini-reforma no nosso apartamento.

Descemos e fomos cumprimentá-los. A única a ser apresentada foi a Luíza B., que eles não a conheciam, embora eles fossem por ela conhecidos pelos jornais e revistas.

Meu pai tirou um molho do bolso e com uma das chaves abriu o portão de alumínio que dava para um corredor que também servia de garagem. Papai dirigiu-se à porta principal e, após várias tentativas, conseguiu localizar a chave que a abria. Percebi que acertar a chave que abriu o portão foi mero ato de sorte, pois o molho era de tamanho considerável.

Entramos e ele foi até a caixa de força e ligou chave principal. Dirigiu-se ao interruptor mais próximo e pôde comprovar que as lâmpadas estavam funcionando.

- Então, Sig? Perguntou papai, abrindo os braços e buscando aprovação.

- Está em melhores condições de conservação do que imaginei quando você me descreveu ao telefone.

- E a você, Ruy, que te parece? Inquiriu papai ao arquiteto.

- Parece que você realmente exagera em suas informações, como disse o Sig. Está em ótimas condições, aparentemente, mas vamos ver todas as dependências?

- Sim. Claro. Respondeu papai.

Nós estávamos no salão principal, que media, depois comprovei, seis metros de largura, essa era a largura do prédio, por seis de comprimento. Saímos pelo corredor que ficava ao lado da garagem, razão pela qual a claridade era muito boa. Em seguida havia um amplo banheiro; depois uma dependência que era a sala de jantar, seguida de outra sala mediana, e, a seguir uma despensa. A cozinha ficava no final do corredor. Era, também, muito ampla. A escada que dava acesso ao piso superior fica entre o banheiro e a sala de jantar.

Após percorrermos essas dependências e constatarmos que todas estavam com o sistema elétrico e hidráulico funcionando, e os dois profissionais fazerem anotações em suas agendas, fomos ao piso superior, onde estavam dispostos oito quartos, sendo que três deles eram suítes. Os outros cinco eram servidos por dois banheiros. Como a construção era antiga, tudo era muito espaçoso e, realmente, pelo menos para mim, estava tudo razoavelmente bem conservado. O pouco que tinha para ser consertado poderia ser resolvido com uma boa pintura, pensei.

Descemos novamente para o piso inferior.

No corredor que levava à cozinha, antes de chegar a ela, em frente à despensa, mais especificamente, tinha uma porta larga que dava acesso à garagem. Papai a abriu e fomos para o quintal, que media nove por dez metros. No centro desse quintal tinha um de amoreira, que estava exuberante com suas flores lilases.

Os olhares dos técnicos eram sagazes. Os nossos, curiosos.

- E então? Perguntou meu pai ansioso por uma resposta que satisfizesse sua expectativa, que eu, evidentemente, não sabia qual era.

- Na parte de arquitetura, você vai gastar menos do que estava disposto, disse o Ruy.

- Então não vou gastar nada, pois nada de nada é igual a nada.

Todos rimos.

- de minha parte, eu teria que saber exatamente o que vocês querem. O que você me disse ontem, Tancredo, não ficou muito claro, acrescentou Sig.

- Na verdade, acredito que quem melhor pode nos dizer o que queremos é o Juarez.

- Então diga, Juarez, incentivou Sig.

- Bem, estamos pensando em preparar essa casa para recebermos uns amigos nossos gregos. Eles, por certo, não são muito dados ao conforto. Mas gostaríamos de recebê-los bem, mas com simplicidade.

Falei isso com tanta segurança e espontaneidade que eu mesmo me surpreendi.

- Compreendo. Disse Sig. Mas quantos são?

- Ainda não sei ao certo, tudo irá depender da data em que promoveremos o encontro e da disponibilidade dos nossos convidados.

- Mas precisamos saber, pelo menos, de um número aproximado, a fim de que possamos jogar com os espaços disponíveis, ponderou R. Ohtake.

- Eu diria, a princípio, que pretendemos receber, mais ou menos, umas vinte e cinco pessoas. Com possibilidade de chegar a trinta ou quarenta.

- Ótimo. Não vejo problemas em acomodarmos trinta pessoas em oito quatros. 30 divido por 8 seria igual a, mais ou menos: 3,5 pessoas por quarto. Nada que dois beliches, por quarto, não acomode. Aliás, como para cada beliche nós temos duas vagas, vezes dois, teríamos 4 pessoas por quarto. 4 pessoas vezes o número de quartos, que são oito, teremos, no piso superior: 32 vagas. Portanto, duas vagas a mais do que número que você nos apresenta, Juarez; concluiu Ruy.

- Como os quartos são amplos, todos ficarão confortavelmente alojados. E se forem espartanos, por estarem acostumados ao desconforto, poderemos colocar mais um beliche em cada quarto, disse Sig.

- Não, entre eles nenhum é espartano, respondi.

- Diga-nos quem são eles. Interveio minha mãe, que até então se mantivera calada.

- Em casa conversaremos sobre eles, não vamos tirar a atenção do Sig e do Ruy, falei buscando encerrar o assunto.

- Mas nós também gostaríamos de saber, falou o Sig.

Será que eles estavam seguindo recomendação do meu pai? Indaguei-me. Mas ao olhar para o rosto de papai pude notar que ele também estava com a mesma curiosidade dos demais, e seu leve sorriso demonstrava ausência de planejamento do meu interrogatório.

- É claro que a lista ainda não está completa, mas vamos lá. Convidarei, por exemplo:

- Anaxágoras de Clazômenas;

- Anaximandro de Mileto;

- Anaxímenes de Mileto;

- Aristóteles.

- Demócrito de Abdera;

- Diógenes de Apolônia;

- Empédocles de Agrigento;

- Filolau de Crotona;

- Górgias;

- Heráclito de Éfeso;

- Leucipo de Mileto;

- Melisso de Samos;

- Parmênides de Eleia;

- Pitágoras de Samos;

- Platão;

- Protágoras;

- Sócrates;

- Xenófanes de Cólofon;

- Zenon de Eléia;

- Tales de Mileto;

- Homero;

- Hesíodo;

- Orfeo;

- Péricles;

- Pródico;

- Hípias

- Antifonte;

- Trasímaco;

- Crítias;

- Antístenes;

- Alcidamas;

- Lícofron;

- Sócrates;

- Aristipo;

- Euclides;

- Hipócrates;

- Platão;

- Aristóteles;

- Diógenes de Sinope;

- Crates;

- Epicuro;

- Zenon de Cítio;

- Pirro;

- Arcesilau;

- Carnéades;

- Fílon;

- Antíoco;

- Euclides;

- Arquimedes.

- Contei quarenta e seis nomes citados, disse Ruy.

- Eu também, confirmou Sig, que acrescentou: mas como é que você decorou esses nomes todos?

- São dias trabalhando com eles, além das leituras efetuadas.

- Sua lista cresceu, em relação aos nomes que você me citou ontem à noite, que foram quatro ou cinco, não mais, interveio papai.

- Ora, pai, mais eu disse oet cetera, lembra?

- Como não haveria de me lembrar, filho? Disse sorrindo.

Agora é a hora de testar se o apoio de papai é realmente para valer, pensei, que filho adora testar o que dizem os pais. Foi então que acrescentei:

- Mas pai, se o senhor estiver achando que são muitos, podemos reduzir o número de convidados.

- Nada disso, minha preocupação maior e única é acomodá-los bem.

- Quanto a isso você não terá problemas, ponderou Sig, acrescentando: não é mesmo Ruy?

- Sem dúvidas. Para esse número podemos colocar três beliches por quarto, que acomodam quarenta e oito pessoas, ou seja, duas vagas estão sobrando. Respondeu.

- Perfeito, atalhou meu pai. Mas quando terei um orçamento dos nossos gastos?

- Te darei uma resposta em três dias, Tancredo, disse Sig, pois preciso apenas consultar os preços de uns materiais novos que estão recentes no mercado. São bons e, certamente, atenderão aos seuse por que não nossos?convidados.

- Não preciso dizer que confio em você, arrematou meu pai abraçando-o.

- Eu preciso de mais tempo, talvez uns quinze dias, pois terei que riscar algumas propostas para a parte externa da casa, das quais vocês poderão optar por uma delas. E prosseguiu Ruy: acho conveniente uma revisão geral da parte elétrica e da hidráulica, para evitarmos a possibilidade de incêndios e deixar nossos convidados, como diz o Sig, sem água e banho quente. Vou pedir a uma empresa especializada no assunto, com a qual costumo trabalhar, que nos faça essa revisão.

- Perfeito, disse papai.

- Uma última pergunta, considerou Ruy: você não vai precisar de auditório, Juarez?

Fiquei meio atônito com a pergunta e, após um balbuciar ininteligível, respondi:

- Creio que o espaço do salão principal é suficiente, bem como a área do quintal, onde podemos sentar ao redor da quaresmeira.

- Muito bem, vou dimensionar o espaço e planejar bancos em forma de arquibancadas, como eram os anfiteatros e estádios gregos, que sejam capazes de acomodar um número bem maior de pessoas, pois, pelo que senti do Sig, ele e eu vamos querer participar de alguns desses encontros. Podemos?

- É claro, mas no caso do nosso projeto, o público e o uso desses dois locais serão bem restritos, usaremos o local apenas para descanso, diversão e para ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Queremos mesmo é mostrar-lhes a cidade de São Paulo e seus arredores, se possível. No entanto, iremos gravar em áudio e vídeo nossa programação, a fim de que possamos difundir o conhecimento que eles nos trouxerem.

Meu pai estava de boca aberta, admirado com a minha performance e até, creio eu, com a explicação do projeto, que, até então, existia na minha cabeça.

- Ainda tenho outro compromisso para hoje, tenho que ir, infelizmente, disse Ruy.

- Eu também, acrescentou Sig.

- Não tempo nem para o cafezinho aqui napadocaao lado? Perguntou papai.

Padocaé como os paulistas chamam, carinhosamente, as milhares de padarias que existem na cidade. Sendo que padaria é uns dos pontos de encontro preferido por eles. Nelas eles tomam o famoso cafezinho brasileiro, bebem e falam de futebol.

- Não, fica para quando da próxima visita, ou para quando tiver uma máquina instalada aqui no sobrado. Será que os nossos convidados gostam de café? Perguntou Ruy.

- De café eu não sei, disse mamãe, mas de pizza é muito provável, que elas levam azeite de oliva, paixão dos gregos.

- Isso é verdade, e pizzaria é o que não falta aqui em São Paulo, completou a Luíza B., que desde a nossa chegada não dissera palavra alguma, o que foi percebido por Sig, que, espirituosamente, disse:

- Se ela não tivesse dito o muito prazer e seu nome quando fomos apresentados, eu ia pensar que essa belezura nem falasse.

Rimos todos. Os dois se dirigiram rumo ao portão. Após os cumprimentos de costume, partiram rumo aos seus compromissos.

- E nós? Alguém tem fome? Inquiriu D. Walquíria, a minha mãe.

Meu pai, sem responder, dirigiu-se novamente ao quadro de força e luz e desligou a chave-geral. Fechou a porta e veio ao nosso encontro perguntando:

- Que tal irmos a uma churrascaria hoje? Afinal, São Paulo não tem somente pizzaria, temos ótimas churrascarias também. Tem uma na Rua Treze de Maio, no Bairro da Bela Vista, próximo de casa, que é muito boa, eu diria até, excelente. Vamos lá?

- Será que podemos conversar, pai?

- Sim, por que não? Afinal a Bassi é também um ambiente muito gostoso.

- E você Luíza B., o que diz do meu convite?

- Na verdade Tancredo, eu preferia uma comida mais leve, pois tenho que perder uns quilinhos.

- As mulheres e os seus malditos quilinhos... disse papai pelo canto da boca.

- Se vamos, vamos logo, pois tenho um compromisso mais tarde, apressou-se mamãe.

- Vamos, madame, brincou papai.

Após fecharmos o portão e papai ligar o alarme eletrônico, fomos para o automóvel e nos dirigimos ao nosso itinerário.

Ao chegarmos ao local e entregarmos o carro ao manobrista, o maître nos informou que a espera estava girando por volta de meia hora. São Paulo tem isso. Como é uma cidade muito grande, em todos os locais temos que enfrentar umafilinha básica. Disse-nos também que, enquanto aguardássemos nos bancos sob guardas-sol que ficam na calçada, poderíamos beber algo e provar uns aperitivos. Sugeriu uma sangria. O que foi aceito por todos.

A sangria estava ótima e comemos pão de alho, abobrinhas assadas e linguiça frita.

Tudo estava bem, mas eu estava ansioso para explicar o projeto em detalhes para o meu pai, estava também um pouco preocupado, pois pensei que não saberia fazê-lo, planejando-o e executando-o, ou mesmo se ele iria aprová-lo.

- Mesa dezessete, chamou-nos o garçom da porta da churrascaria.

A mesa de quatro lugares ficou na extrema entre as áreas de fumantes e não-fumantes. Nós não fumamos.

A todos nós foi dado um cardápio imenso de capa de couro escuro. Após uma rápida olhada, fechei o meu e o coloquei sobre a mesa, no que fui acompanhado pela Luíza B. e pela minha mãe, que disse:

- Pelo jeito, Tancredo, a você caberá a escolha do que comeremos.

- Isso não é problema, respondeu ele fechando imediatamente o cardápio.

O garçom se aproximou e ele disse:

- Mais uma jarra de sangria e aquela costela famiglia, disse carregando no italiano a última palavra, certamente para agradar o garçom, que o bairro da Bela Vista é reduto de imigrantes italianos. Não lembrou, certamente, que, hoje, quase todos os garçons que trabalham em São Paulo são originários do nordeste brasileiro.

- Pois não, respondeu o garçom com um sorriso e se retirou.

- Muito bem filho, diga o que você queria falar.

- É que eu gostaria de expor melhor, que agora parece irreversível, qual é, na verdade, o nosso projeto.

- Não precisa, eu confio em você. Leve-o adiante e seu pai estará ao seu lado. quero saber um coisa...

- O quê? Interrompi.

- Queria que você me ouvisse se em algum instante de nossa caminhada eu achar que devo falar com você. Pode ser?

- Mas que pergunta pai, o senhor sabe que sim. Não precisava perguntar isso.

- Precisa sim, filho. É que quando estamos vivendo um problema costumamos não ouvir quem quer nos falar. Por isso estou pedindo seu consentimento antecipadamente, embora esteja certo de que esse momento jamais chegará, é apenas uma precaução.

- Quer dizer que o senhor não quer mesmo saber do nosso projeto?

- Definitivamente não, quero ajudar a construí-lo, isso. De acordo? Disse estendendo-me sua mão. Nos cumprimentados num longo aperto de mãos e olhando-nos nos olhos.

- Muito bem, disse mamãe, que o contrato está firmado, vamos mudar de assunto enquanto esperamos nosso manjar.

Encostei a costa no espaldar da cadeira e, com um leve virar de pescoço, beijei os lábios da Luíza B..

Agora estava com a alma mais leve, especialmente pela cumplicidade integral de papai no projeto.

- Vou ao banheiro lavar as mãos, disse e me retirei.

Ao chegar ao banheiro lembrei de uma lição recentemente aprendida: primeiro se lava as mãos, depois urinamos. É que o pênis é um dos órgãos mais importante do homem, e sem dúvidas o mais querido, por isso, quando se pega nele, deve-se estar com as mãos limpas, apesar de um amigo ensinar que se lava de novo depois de guardá-lo. Assim o fiz. Consegui urinar sem fazer qualquer pressão na bexiga. Parece que com a urina saíram milhares de quilos que estavam acumulados sobre meus ombros.

No caminho de volta para a mesa encontrei com meu pai que rumava para o banheiro. Trocamos sorrisos com o olhar. A mesa estava vazia, nossas acompanhantes, como costuma acontecer com as mulheres, que sabem ir ao banheiro em dupla, para tinham se dirigido.

Antes da chegada do prato principal foi servida salada com molho temperado na hora. É deliciosa.

A costela servida alimentaria mais de seis pessoas, era quase que um quarto de um boi. Estava maravilhosa.

O pecado da gula foi completo.

A conta não foi barata, posso dizer, no entanto, que, pelo que foi servido e pelo serviço oferecido, foi razoável. O importante é que é bom pagar preço de comida, o horrível é pagar conta de drogaria.

O único inconveniente foi a falta de educação de uma outra cliente que sentou-se à mesa ao nosso lado, na área dita de fumante. Ao terminar a refeição não pudemos ir à sobremesa, pois a infeliz começou a fumar. O mais engraçado de quem fuma é que o viciado prefere incomodar outros que ele não conhece aos seus companheiros de mesa. Como isso acontece? Eles costumam virar a cabeça para trás ou para o lado e expelir a fumaça em direção oposta aos seus convivas.

Como iríamos à sobremesa depois de comermos tanto? A Luíza B. aprendeu e nos ensinou a seguinte técnica: sempre deve ser reservado um espaço no estômago para a sobremesa. Eu, francamente, fora!

Saímos todos caminhando em passos lentos. Apanhamos o automóvel e fomos para casa. Cama foi o destino de todos, local onde, sem queimar calorias, engordamos muitos gramas.

Naquele dia me perguntei sobre algo que ainda não tinha percebido: por que não se tem disposição para o sexo quando se está de barriga cheia?

Dormi sem que viesse a resposta.

 

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