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Pitagoriando em Sampa - Capítulo I

 

Pitagoriando em Sampa

 

CAPÍTULOI

 

 

Como o dia estava frio, resolvi ficar em casa jogando videogame no computador; passei algum tempo num desses sites de bate-papo, com pessoas que, naquele dia, se mostravam pouco interessantes. O som da LegiãoUrbana no último volume chegou a incomodar alguns vizinhos, é certo, motivo pelo qual meus pais várias vezes bateram à porta, fazendo-me diminuir um pouco o som estridente. O CD que o computador reproduzia era uma miscelânea por mim mesmo produzida no gravador do próprio computador, que eu acabara de ganhar de aniversário, e incluía, além da Banda Legião Urbana, os Titãs e Os Paralamas do Sucesso. Puro rock nacional. Além do GunsnRoses, Nivarna, Beatles, PepinodiCapri e CharlesAznavour, estes dois últimos por influência direta do meu pai.

Sabia que a Legião jamais seria o que foi com o desaparecimento do Renato. Os Paralamas ainda eram uma esperança com a recuperação surpreendente do Herbert. Dos Titãs, em “a melhor banda de todos tempos, da última semana”, apenas a música “Epitáfio” havia me chamado a atenção, por isso era reproduzida 16 vezes ininterruptamente, para compensar as outras 15 das quais não havia gostado. Essa fixação chegava a incomodar meus pais. Não pela música em si, com a qual eles também simpatizavam, mas pelo excessivo número de repetições. Gravei até um CD com vinte vezes a música Epitáfio, num dia de baixo astral. Diziam meus pais que essa música não combinava bem comigo, estava mais para aqueles que já estão na curva descendente da vida, que segundo eles começa após os 40 anos, e eu só tinha 17. A letra é poema puro. Diz:

 

Deviateramadomais,terchoradomais

Tervistoosolnascer

Deviaterarriscadomaiseatéerradomais

Terfeitooqueeuqueriafazer

Queriateraceitadoaspessoascomoelassão

Cadaumsabeaalegriaeadorquetraznocoração

 

Oacasovaimeproteger

Enquantoeuandardistraído

Oacasovaimeproteger

Enquantoeuandar

 

Deviatercomplicadomenos,trabalhadomenos

Tervistoosolsepôr

Deviatermeimportadomenoscomproblemaspequenos

Termorridodeamor

Queriateraceitadoavidacomoelaé

Acadaumcabealegriaseatristezaquevier


Oacasovaimeproteger

Enquantoeuandardistraído

Oacasovaimeproteger

Enquantoeuandar.

 

A Luíza B., minha namorada preferida, me ligou e convidou para sairmos à noite. Disse a ela que sim, que viesse à minha casa por volta das vinte horas.

A escola naquela sexta-feira não tinha sido um dos meus locais preferidos, tanto assim que combinei com meu colega de classe e meu primo, Thadeu, para que no final da tarde fôssemos andar de skate num parque próximo de casa. pelas dezessete horas ele me ligou e disse que estava em frente ao MASP. Peguei o skate, as luvas, as joelheiras e o capacete e fui ao seu encontro. Thadeu tinha acabado de comprar a última Playboy e me mostrou apenas a página central, com a promessa de que iríamos olhar o restante das fotos mais tarde. Apesar da foto não ter me interessado muito, senti uma força mecânica, reflexa, a percorrer meu corpo e ir se alojar na região pélvica.

Devidamente equipados, pusemo-nos a desafiar a lei da gravidade e acima de tudo a do bom senso, totalmente estranho as pessoas da nossa idade, que Thadeu tinha apenas 16 anos. Carros e moto-boys desesperados buzinavam incessantemente para que déssemos passagem. Algumas senhoras chegaram a perguntar se não tínhamos pais, outras levavam as mãos à boca e outras nos prometiam um bom corretivo se fôssemos seus filhos. Mas como Deus protege as crianças, embora achássemos que não éramos mais, além de leves tombos nada anormal teria acontecido, não fosse o infeliz de um pitbull ter mostrado-me seus caninos e levado-me a bater com a mesma região excitada pela revista Playboy no farol de uma moto que estava estacionada, causando-me a pior dor que um homem pode sentir. Esse desastre já aconteceu na Rua Augusta, que é excelente rua para down-hill, que na linguagem do skate significa descer ladeira. Como havíamos nos divertido bastante e já era tarde, resolvemos continuar no rumo de casa, eu com a minha dor, a qual certamente traria também tristeza para a Luíza B., pois estava em dúvidas se poderíamos fazer o que tanto gostávamos.

Ao me despedir do Thadeu ele me mostrou um cigarro diferente (mal enrolado e sem filtro), perguntando-me se eu não o queria. Como a dor era forte, sem maiores indagações o recusei, achando estranha aquela atitude do meu colega e primo, pois, ao que sabia, ele também não fumava. Deixei para conversar com ele sobre isso depois.

Seu João, o zelador do prédio, amigo que cativei com segundas intenções, especialmente para que me avisasse da chegada de qualquer menina me procurando quando outra estivesse no meu apartamento, me disse que a Luíza B. já havia chegado há alguns minutos. Agradeci e, sem maiores diálogos, subi ao oitavo andar. Minha mãe percebeu, como todas as mães percebem, que algo me incomodava. Disse a ela que não era nada de mais que um bom banho não resolvesse. Peguei a toalha e dirigi-me ao banheiro, após o beijo na Luíza B., que já ouvia o mesmo som estridente de costume deitada em minha cama. Como não estava com pressa, resolvi levantar a tampa do sanitário e urinar como mijam os homens educados, segundo minha mãe. A saída da urina chegou a aliviar um pouco a dor. Abri o chuveiro e esperei que a água quente começasse a cair. Fiquei embaixo do esguicho por um longo tempo. A quentura do líquido também ajudou a aliviar a minha dor, tanto assim que ao passar o sabonete na região pubiana o que me veio à mente foi a lembrança da foto da revista que o Thadeu me mostrara. Meu pênis foi ficando "em ponto de bala", como dizia minha mãe quando eu era pequeno. O sabonete convidava a acariciá-lo mais e mais, levando-me a supor que tudo acabaria numa masturbação. E o que fazer depois com a Luíza B.? Já tínhamos feito amor algumas outras vezes, meus pais sabiam e até já haviam me chamado a atenção, segundo eles pelo fato dela ser dez anos mais velha que eu, embora sua aparência fosse a de que tinha a minha idade. Embora não me preocupasse com isso, ou melhor, as mulheres mais velhas me atraíam, levei adiante nosso caso. Resolvi não me masturbar. Já saí do banheiro de moletom e fui para o quarto e me deitei sob o mesmo edredon que cobria o corpo de Luíza B., que estava só de calcinhas, pois não usava sutiã. Com o controle remoto diminuí o volume do som e contei a ela as minhas aventuras da tarde, inclusive a vontade que tive durante o banho. Nos beijamos longamente e ela puxou meu corpo para sobre o seu. A mesma sensação da hora em que vi a foto da revista voltou a se manifestar, só que agora tinha alguém de carne e osso com quem poderia compartilhar a minha excitação. Percebi que a porta do quarto estava sem o trinco, levantei-me rapidamente e a fechei. O ritual foi longo e agradável, como tinha sido de todas as outras vezes. O cansaço da tarde somado ao cansaço do amor tirou-me toda a coragem para cumprimos o que havíamos planejado: sair para irmos dançar.

Ela não concordou com a ideia de ficarmos em casa, pois como eu já havia furado algumas outras vezes com ela, aquele era o dia. Pedi-lhe, então, que me deixasse dormir por uma hora, tempo que seria suficiente para recuperar minhas energias e assim podermos sair. Ela concordou e já colocou o despertador para funcionar às dez horas. Me acordei com o trin-trin que me acordava todos os dias dizendo que era hora de ir para a escola. Luíza B. beijou meu rosto levemente e disse para irmos.

Puxei-a para meus braços e com seu calor consegui enrolar por mais uns dez minutos. Foi, então, que ela se desprendeu bruscamente dos meus braços e levantou-se. Rapidamente já me estendeu a escova com creme dental que ela tinha ido buscar no banheiro.

O ritual de vestimento durou aproximadamente uma hora. Vestimo-nos de preto. Eu tinha acabado de comprar uma bota cujo solado era feito com pneu de caminhão e ela tinha colocado três piercings: na orelha, no nariz e no umbigo. Apesar de não gostar muito, untei com bastante gel meus cabelos, a fim de não destoar do pessoal que iríamos encontrar.

Depois de um trânsito infernal chegamos nA Loca, que é uma boate frequentada por gays, lésbicas e simpatizantes, ou, simplesmente, GLS (ou, ainda GLBT – sigla de: gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), situada na rua Frei Caneca. Enquanto comprávamos os ingressos já podíamos ouvir o som alucinante, martelado por guitarras infernais. Os leões de chácara nos revistaram e tivemos acesso a um corredor escuro. A partir deste momento não consegui ver mais nada. Porém fui em frente seguindo um comboio que me antecedia, puxava a Luíza B. pela mão. A cegueira era total, e assim permaneceu por alguns minutos após chegarmos ao local, que, posteriormente, identificamos como sendo a pista de dança. A cegueira que nos acometia foi se esvaindo aos poucos, com a adaptação da retina à falta de claridade, embora refletores jogassem bastante luz em um globo de vidro espelhado que girava freneticamente, facilitando o reconhecimento do ambiente. Já familiarizado com o local, e enquanto não encontrávamos uma mesa disponível, dançamos alguns hits num ritmo bastante moderado, em relação à postura de alguns outros frequentadores do local. Pedimos ao garçom uma schweppes citrus para a Luíza B. e uma dose de absinto para mim. Há pouco tempo tinha tomado conhecimento do absinto; li que o Oscar Wilde e Fernando Pessoa gostavam de degustá-lo. É uma bebida realmente bastante forte e por isso não bebi mais que meia dose; em compensação, segundo Luíza B., o hálito ficou bastante perfumado. Mesmo que a conta devesse ser paga ao final da festa, coloquei uma nota de R$ 10 no bolso do garçom, a fim de obter dele fidelidade canina. O que de fato ocorreu, pois em poucos minutos ele nos descolou uma mesa num dos cantos do salão e que dava uma visão total do ambiente. Somente após nos sentarmos é que conseguimos identificar melhor o comportamento dos nossos companheiros de balada. O que tínhamos, até então, por uma relação aparentemente comum entre casais, em muitos casos não era bem assim, ou seja, alguns dos casais eram formados por pessoas do mesmo sexo. Embora não me importasse nem um pouco com isso, estando até bastante curioso para ver como funcionava, perguntei sobre a ideia de termos ido àquele local, ao que Luíza B. me respondeu que tinha sido a indicação de uma amiga; nada demais, portanto, segundo ela. Resolvi pedir ao nosso garçom, em substituição ao absinto, um chopp. O atendimento foi rápido e vários outros chopps se sucederam. Dançamos bastante, se é que aquilo se pode se chamar de dançar, já que não tenho nenhum talento para essa arte, bem como a Luíza B., que embora seja alta e magra, dançando fica um pouco desengonçada. Bastante suados voltamos para a mesa.

Aquele ambiente escuro, abafado, com um cheiro insuportável de fumo, me levou a pensar em algo que não combinava com o local. Lembrei-me que, a despeito das ponderações de meu pai, não tinha ido bem na prova de filosofia. Me dizia ele, apesar da opinião de vários outros em contrário, que filosofia servia para alguma coisa, coisa essa que eu não conseguia ainda saber o que era. Todavia, aquele ambiente me fez refletir sobre o assunto. Se a Luíza B., que continuava se rebolando na cadeira, soubesse o que eu estava pensando, certamente, me convidaria para sair do clube. Embora eu fizesse um esforço supremo para demonstrar uma felicidade que realmente existia, era difícil explicar o meu estado emocional. Como combinar filosofia com uma casa noturna GLS (ou GLBT)?

Fui levado a tal devaneio por dois motivos:

Primeiro: a casa noturna ficava próxima de meu apartamento; por isso, a minha mãe, com a indiferença do meu pai, já tinha me falado muito mal do local. Me dizia que quem ali entrava saía com rabo e chifres, pois encontrava com o satanás, que era quem multiplicava seu rabo e chifres e dividia com os frequentadores. Ao adversário de Jesus faziam companhia outras criaturas horrendas, que além de muito feias cheiravam, ou fediam, não sei bem, a enxofre. Lá, filhos não respeitavam os pais, razão pela qual costumam ser tragados por monstros que de quando em vez passam pelo local. Além disso, doenças incuráveis eram adquiridas pelo simples ato de respirar o ar que naquele local circulava.

Ela tinha uma bronca maior com os góticos, pois, como dizia: “onde já se viu vivo querer ficar com a cara de morto? E aquelas meninazinhas lindas de pele translúcidas? Parace que têm medo do sol”.

Os góticos, como vocês sabem, gostam de músicas melancólicas, poesias com assuntos mórbidos, roupas escuras e maquiagem bastante carregada: basicamente, essa é a vida de um gótico. Eles amam e vivem em função do "dark". A banda inglesa TheCure mostra o puro espírito da tribo dos góticos

Será que mamãe já esteve aqui? Questionei-me e respondi-me: aparentemente, não. Então, como sabe? Ou não sabe? Fala sem conhecimento?

Segundo: a cegueira que me acometeu logo que chegamos ao salão. É que eu havia estudado que com os filósofos ocorreu o mesmo, ou seja, até eles o mundo era uma escuridão, como minha vista antes da adaptação, mas que a partir deles e de seus questionamentos o mundo foi tomando forma e ganhando sentido, como tomaram formas as mesas, as cadeiras, as pessoas, o DJ e o nosso fiel garçom.

Meu pai tinha me dado um livro de filosofia, o qual havia sido lido por extrema insistência dele e a partir de sua vigilância, pois me cobrava todos os dias um resumo do que eu havia lido. Como as cobranças dele eram, quando as solicitava, recompensadas com dinheiro, fiz o sacrifício de ler aquela obra infernal.

A boate naquele momento me trouxe à lembrança o meu livro, que era uma edição portuguesa bastante volumosa. Só não conseguia entender aquela conexão totalmente estapafúrdia, mas que passou a ser engraçada, a partir do momento em que passei a fazer algumas ilações entre as duas e a achar que meu pai tinha uma certa razão.

Se logo que chegamos ao clube alguém me perguntasse como era aquela boate de notívagos, por está ainda tateando o ambiente, eu jamais saberia explicar convenientemente. Assim também ocorreu com os filósofos: desenvolveram eles um esforço para explicar o mundo a partir da razão, o mesmo esforço que fazia minha retina para enxergar as coisas naquela escuridão, a princípio, total.

Depois que comecei a enxergar o que se passava ao meu redor, vi que os fantasmas descritos e pintados pela minha mãe, se existissem, naquele dia tinham resolvido não aparecer. É certo que tinham várias tribos presentes. Assim vi, além dos góticos, os clubbers, que são aqueles que vêem os DJs como deuses e a danceteria como seu templo. Usam trajes muito coloridos, acessórios modernos, penteados e cortes excêntricos. A música dominante, para eles, é o techno, o trance, house etc. Lá estavam, também, os skaters, tribo em que as pessoas se unem pelo esporte que praticam, o skate. Não é muito fácil reconhecer um skatista, mas geralmente eles usam roupas bastante largas, de cores neutras. Não é que, em Sampa, vi os surfers, que são os surfistas que dão tudo (literalmente) pela onda perfeita. Seu uniforme é: bermuda de tac-tel, óculos escuros tipo ray-ban, camiseta regata e cabelos compridos. Tudo isso, de preferência, numa praia, claro, mas, nem por isso, ausentes no ambiente. Tinham, poucos, mas tinham, os jiu-jiteiros, aqueles que adoram uma pick-up preta, pitbull na janela, orelha toda ralada (de esfregar no chão durante as lutas) e uma “Maria Tatame" (namorada) ao lado. Felizmente, nesse dia, não usaram suas técnicas do jiu-jitsu para brigar. Não podia faltar, evidentemente, as patricinhasemauricinhos, já que sempre estão em todas. Essas são tribos em que os "membros" vivem em função da moda. Normalmente, para fazer parte dessa tribo, é necessário ter uma boa condição financeira (ou criatividade), pois os acessórios e roupas não custam muito barato. Felizmente não vi plocs circulando, também pudera, já que a frase “queria tanto que minha infância voltasse!”, é a mais usada do vocabulário dessa tribo. Como ainda não foi inventado um meio de voltar à infância, eles usam acessórios, roupas e obviamente brinquedos infantis. Os ídolos líderes entre eles são HelloKitty, Meninas Superpoderosas, Piu-Piu, e por aí vai.

O mais legal dessas tribos é o vocabulário próprio de cada qual. Vejam algumas definições que consigo lembrar:

Dos Clubbers:

Bofe: homem bonito, é geralmente usado pelos gays da tribo.

Cyber: Pessoal com visual psicodélico. Por exemplo, existem os Cyber-punks - são punks mas usam o cabelo todo colorido.

Barbie: garota clubber. Usa roupas e acessórios coloridos. Não se esqueça dos piercings!

Visu: diminutivo de visual. "Você está no maior visu" quer dizer "você está superbem".

Rave: Festa clubber ao ar livre. Chega a durar dias.

Padrão: normal.

Prong: sem estilo, feio.

Zerado: Está tudo beleza, tudo bem. "Tô zerado!".

Os Skatistas:

Jam: juntar a galera para andar de skate.

Radical: legal, dez, muito bom, ótimo, maravilhoso.

Rad: abreviação de radical.

Slam: quando alguém cai do skate e se estoura.

Beat: batida (de música)

Àpampa: muito legal.

Mano: irmão, amigo.

Mana: irmã, amiga.

Mina: menina, garota.

Mino: menino, garoto.

Bagaça: uma coisa. Por exemplo, "pega a bagaça"; ou detonar: "fulano bagaçou no show".

Chapôococo: ficou doido, ficou bêbado.

Chegado: amigo.

Éoqueliga: é isso aí

Gambé: polícia.

Vacilão: bobão.

Os Surfers:

Bigrider: surfista que é bom e gosta de pegar ondas grandes.

Swell: ondulação.

Lombra: efeito da maconha: "ficar lombrado"

Larica: fome.

Bro: abreviação de brother (irmão).

Pro: surfista profissional.

Maroleiro: surfista que gosta de ondas pequenas.

Marola: onda pequena.

Pipeline: onda em formato de tubo.

Prego: surfista ruim.

: pode crer.

Rockmetal: heavy metal.

Hardcore: rock parecido com o surfmusic.

Hard-coco: é a forma com que os metaleiros se referem ao hard-core, claro, tirando a maior onda.

Punk: estilo dos roqueiros anarquistas que usam coturnos e calças rasgadas.

Caruda: tá na cara.

Grunge: estilo dos roqueiros que gostam de Nirvana e bandas de Seattle (EUA) em geral. Às vezes aparentam ser depressivos.

Ficarvaca: ficar bêbado.

Tosco: feio, estranho.

Sonzera: som (música) muito bom: "Lá só tem sonzera" .

Como em todos os locais alternativos, não podiam faltar os punks com suas roupas dark e cabelos coloridos e empinados pelo gel, correntes penduradas, outros de cabeças raspadas, mas, todos, como pude comprovar melhor ao ir ao banheiro, onde estava melhor iluminado, perfeitamente humanos, com boca, orelhas, narizes etc.

Lembrei-me que a filosofia, igual ao tempo, está dividida em antes e depois. Enquanto o tempo foi dividido em antes e depois de Cristo, a filosofia está dividida em antes e depois de Sócrates. Antes de Sócrates existiram alguns filósofos, cujos pensamentos chegaram até nossos dias, em pequenos pedaços de suas obras, chamados fragmentos, a partir dos quais os intérpretes constróem suas teorias sobre o pensamento deles. Antes dos pré-socráticos, como são chamados aqueles que antecederam Sócrates, contudo, existiram outros homens que tentaram explicar a origem do mundo e do homem, sendo que suas explicações partiam de deuses e mitos, seus sucessores, os pré-socráticos trocaram o mito pela razão (logos, em grego). O mito é um relato tradicional transmitido de uma geração para outra de memória, pela oralidade, que, no entanto, mui tardiamente, veio a receber a forma escrita. Nesse relato, aquele que o faz não tem nenhum compromisso para com a veracidade de sua narrativa. Não sabendo sequer como ela nasceu ou se tem fundamento, sendo, no entanto, a forma pela qual explica o mundo e sua existência, recebendo o nome de cosmogoniai, palavra de origem grega formada por kosmo (mundo ou universo) + gonia (geração ou origem), ou seja, origem ou geração do mundo ou do universo. Os antecessores dos pré-socráticos explicavam o mundo antropomorficamenteii, que é o raciocínio ou toda a doutrina que, para explicar o que não é o homem lhe aplica noções retiradas da natureza ou da conduta humana (por exemplo, deus, os fenômenos físicos, a vida biológica, a conduta dos animais etc). Assim é que os deuses tinham, por exemplo, corpo de cavalo e cabeça de homem. Os deuses se apaixonavam, se casavam, brigavam e tinham filhos. Ou seja, tinham sentimentos puramente humanos. Deve-se ao poeta grego Homero as obras mais antigas que expõem o antropomorfismo; são elas a Ilíada e a Odisséia.

Exemplo do pensamento não-filosófico é o que acreditava que o mundo tinha fim. Que se seguíssemos em frente numa caminhada, uma hora cairíamos num abismo, que era, justamente, o fim do mundo. Esse modo de pensar foi aos poucos sendo afastado, especialmente após os gregos empreenderem suas navegações comerciais. Ao partirem dos portos de suas cidades, os gregos não caíram no abismo que, segundo a exposição mitológica, existia no fim dos mares, nem foram tragados por monstros marinhos, que, também segundo a mitologia, infestavam esses mesmos mares. Na verdade, os gregos chegaram em outras cidades, conheceram outros povos, e viram que as explicações mitológicas não eram verdadeiras, ou, pelo menos em relação ao fim do mundo eram falsas. E se eram falsas em relação ao fim do mudo, não poderiam ser também em relação as demais explicações que apresentavam? Começa assim a se desenhar o pensamento filosófico, aquele que quer explicação e prova dessa explicação.

Isso me levou a pensar na Bíblia que tem várias histórias não muito bem explicadas. Dentre essas lembrei-me da de Adão e Eva. Eles tiveram, no início, dois filhos: Caim e Abel. Depois nasceu outro filho, Seth. Segundo a narrativa bíblica, sobre a face da terra existia apenas essa família, da qual toda a humanidade descende. Caim, numa atitude humana de embrutecimento, um dia matou seu irmão Abel. Após o fato reprovável em todos os sentidos, saiu a vagar pelo mundo, indo parar em uma cidade.

Pergunto-me: quem eram os habitantes dessa cidade, já que sobre a face da terra Deus deixou somente Adão e Eva? E, se os filhos eram todos homens, como puderam gerar descendência?

São esses, segundo os que crêem na narrativa bíblica, os mistérios da fé. Que, no entanto, não satisfazem à filosofia.

A minha divagação filosófica foi interrompida por uma briga entre dois frequentadores, felizmente logo contornada com a chegada dos seguranças. O espaço aberto pelos dois briguentos foi sendo preenchido novamente pelos dançantes, sendo tudo superado pela retirada de ambos. A noite e a bebida são dois componentes explosivos para o ser humano. Dia desses li em um jornal que a maioria dos crimes são praticados à noite e quase todos eles sobre a influência de álcool e outras drogas. Já tinha ouvido falar que é durante a noite que todos os gatos se soltam e, ainda por cima, ficam pardos. Embora não compreendesse de todo aquela afirmativa, a forma como as pessoas dançavam, namoravam, bebiam, fizeram-me compreender melhor o assunto. Isso também me levou de volta ao pensamento antecedente e aos pré-socráticos, especialmente às cosmogonias órficas. Órficas porque originárias de Orfeu, que era um grego da Trácia, cuja pureza sexual, seus dotes musicais e seu dom de profecia arregimentou seguidores. inclusive, no Brasil, uma peça de Vinícius de Moraes cujo título é OrfeudaConceição, a qual o poeta, juntamente com Tom Jobim, adaptou para uma ópera afro-brasileira. Como peça teatral foi encenada em 1956, Haroldo Costa personificou Orfeu e Dirce Paiva Eurídice. Em 1959, OrfeudaConceição foi filmado pelo diretor Marcel Camus, com o título de OrfeuNegro, sendo o elenco principal formado por: Breno Mello, Marpessa Dawn e Lourdes de Oliveira. O diretor Cacá Diegues, em 1999, com o título apenas de Orfeu, filmou, novamente o enredo, ficando os papéis principais com Toni Garrido e Patrícia França.

Não confundir Orfeu como Morfeu, este o deus grego do sono, que está ligado à noite, e segundo a lenda é ele quem nos protege durante o sono. A propósito, certo dia, ouvi de meu pai a seguinte piadinha, que viria a compreender após a leitura do meu livro português de filosofia sobre o qual falei. Dizia ele:

"O marido ligou para casa e perguntou de sua nova empregada pela esposa, tendo a empregada respondido que a mesma estava no quarto. Como já era tarde o marido presumiu que a esposa estivesse dormindo e completou: - certamente ela está nos braços de Morfeu. Ao que a empregada retrucou: - ‘olha patrão, o nome do homem que hoje está com ela não sei se é esse que o senhor acabou de falar não!'".

De Morfeu vem morfina, droga que dá sono, dizem.

Certamente Orfeu e Baco, este o deus do vinho e de cujo nome origina-se bacanal, que é usado como sinônimo de devassidão, orgia, também estavam naquele local se divertindo conosco.

Após a sequência de músicas internacionais entrou a de cantores e bandas brasileiros, sendo a primeira delas a LegiãoUrbana, cantando a música "Eusei", cuja letra é esta:

Sexo verbal não faz o meu estilo
Palavras são erros, e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também
Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também
Eu sei...
Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas
A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
Mas não,não vá embora, quero honras e promessas
Lembranças e histórias
Somos pássaro novo longe do ninho
Eu sei...

A música foi tocada talvez por combinar um pouco com o ambiente, cuja oralidade era extremamente aguçada, beijos longos e melados eram trocados em todos os cantos, recantos e locais. Levei a Luíza B. para pista de dança e lá ficamos durante todo a execução da música. Em seguida tocou OsParalamasdoSucesso, com a música "Quaseumsegundo", que foi dançada por nós agarradinhos.

O Herbert estava triste e inspiradíssimo quando disse:

 

Euqueriaveroescurodomundo

Ondeestátudoquevocêquer

Prametransformarnoqueteagrada

noquemefaçaver
Quaissãoascoreseascoisasprateprender

Eutiveumsonhoruim

Eacordeichorando

Porissoeuteliguei
Seráquevocêaindapensaemmim
Seráquevocêaindapensa
Àsvezesteodeioporquaseumsegundo

Depoisteamomais

Teuspelosteugosto

Tudoquenãomedeixaempaz
Quaissãoascoreseascoisasprateprender

Eutiveumsonhoruimeacordeichorando

Porissoeuteliguei
Seráquevocêaindapensaemmim
Seráquevocêaindapensa.

 

Não sei por quê, mas a sequência musical me encheu de nostalgia; talvez porque o líder da banda LegiãoUrbana, Renato Russo, estivesse morto e o líder dOsParalamasdoSucesso, Herbert Vianna, paraplégico, embora com a esperança e a torcida pela sua recuperação, após um acidente de avião. A fragilidade humana me levou novamente aos filósofos, especialmente a pensar de onde viemos e para onde vamos. Se seguirmos a bíblia, o Renato, que veio do pó, a este já retornou. O Herbert Vianna, em sua batalha para superar as limitações que lhe impôs o acidente, seja no caminhar, seja no falar, veio reforçar essa verdade, que todos sabem mas somente uns poucos observam, ou só observam quando vivem e sentem na carne a constatação dessa fragilidade.

Um antecessor dos pré-socráticos, Ferecides de Siros, afirmou que o deus mitológico Zeus sempre existiu, assim como o deus Cronos, e que Cronos fez de seu próprio sêmen o fogo e o vento e a água, a partir dos quais, após terem sido dispostos em cinco recessos, se formaram numerosos outros descendente dos deuses. Isso é uma explicação mítica para a origem da humanidade.

Seriam Renato Russo e Herbert Vianna produtos do fogo, do vento e da água? Neste momento, para mim é mais fácil aceitar uma versão cosmogônica contada pelos egípcios, que diz que os primeiros constituintes do mundo foram produzidos mediante o onanismo de um deus primevo.

Onanismo, origina-se do nome de Onã, um personagem bíblico que praticava coitos interrompidos, e significa masturbação, que os colegas de escola chamam de “punheta”, para masturbação masculina. Um outro denominou de “auto-erotismo”. Outro de “amor solitário”. Esse tema não é de todo muito conversado entre pais e filhos, embora seja de todos conhecido, o que de certo modo tira a culpa daqueles que levam as revistas Playboy, Sexy, Ele&Ela, Butman, Abusada, Man, UM-UniversoMasculino, ou outras do gênero para o banheiro, como, aliás, tinha me passado pela cabeça no início da noite.

De tudo isso, é mais fácil aceitar que não só Renato e Herbert, mas todos nós, somos produtos do sêmen de nossos pais, que por sua vez são produtos do sêmen de nossos avós, e assim por diante, sem que jamais sejamos capazes de saber, imagino, onde tudo começou, pois pouco se sabe sobre os primeiros seres humanos que habitaram a terra. Poucos registros há de datas mais recuadas. Homero é um dos raros escritores que nos deixaram seus legados, embora a vida sobre o planeta, já se sabe, date de milhões de anos, nos quais nada foi registrado de modo a servir de explicação para as futuras gerações.

A mente humana é realmente prodigiosa; constatação dessa obviedade é que, embora meu corpo estivesse naquele local, meu pensamento poucas incursões a ele fazia. Eu estava vivendo na Grécia antiga e transformava a Luíza B. em Reia, que foi a deusa que deu à luz o deus da tempestade, Zeus, embora ela certamente se sentisse melhor na pele de Alanis Morissette, cujas músicas levavam-na para outra dimensão, certamente futura, enquanto a minha pertencia a um passado mais distante.

Fomos ao banheiro e pude perceber a grande quantidade de pessoas que tomavam água mineral em vez de bebidas alcoólicas ou energéticos, que estavam na moda. Fiquei curioso com aquilo, pois não imaginava que a água fosse capaz de dar tanta energia para dançantes. Perguntei à Luíza B. sobre aquela constatação, tendo ela me explicado que algumas pessoas que bebiam água poderiam ter consumido uma droga sintética chamada ecstasy, que é incompatível com bebidas alcoólicas, deixando a boca seca e causando desidratação, o que leva as pessoas a ingerirem bastante líquido, especialmente água.

Veio uma sequência musical de discothèque dos anos 70, que, por incrível que pareça, não deixou ninguém sentado. Como já tinha observado anteriormente em outros bailes, Donna Summer, Bee Gees, o Village People e outros, ainda fazem bastante sucesso!

Nova briga se formou no salão e dessa vez as luzes se acenderam. Pude ver uma moça que trabalhava em uma outra casa noturna chamada "Piranha", que estava de mãos dadas com uma outra moça e me cumprimentou com um leve aceno de cabeça. Como já estava preparado para tudo naquele ambiente, o espanto não foi maior ao ver aquela conhecida naquela situação, contudo ficou-me a sensação de que era melhor ter continuado a vê-la apenas atrás do balcão, quando me atendia vendendo ingressos e me encantava com seu sorriso quase infantil. Homens também formavam casais. E todos trocaram carícias sem qualquer constrangimento.

É que sexo sempre é tema tabu, e especialmente quando entre pessoas do mesmo sexo, embora a prática seja, aparentemente, tão antiga quanto a humanidade. De um dos locais e fase mais antiga de que temos memória escrita, a Grécia é exemplo da existência de tal relacionamento. Tanto assim que a palavra lésbica, que designa a mulher que se relaciona amorosamente com outra mulher, tem a seguinte origem: na ilha grega de Lesbos viveu uma poeta de nome Safo, isso entre 625 – 580? a.C., cujos poemas amorosos eram dirigidos para outras mulheres. Num deles, traduzido por Pedro Alvim, ela diz:

 

Umdia

De ti, Áttis, me enamorei um dia

no amor que passa

e tão criança eras,

tão pequena

e tão sem graça.

Alívio

Enfim, cara, vieste – e bem. Com

ânsia te esperava – e muito. Que

saibas: em minha alma acendeste

um fogo que a devora”.

 

Entre os homens gregos a pederastia era aberta e quase aceitável. Como existia um pensamento pré-socrático de que a criação do mundo é originária do sêmen do deus Cronos ou que viemos do úmido lodo, os gregos acreditavam que quando do coito, estavam injetando em quem se predispunha a receber, por intermédio do sêmen, vida, e, consequentemente, sabedoria.

Quando li sobre isso, entendi uma conversa que tinha tido com meu pai há muito tempo. Foi quando falamos sobre o assunto e ele encerrou a conversa dizendo: Lembre-se que você tem muita vida pela frente e é extremamente sabido, portanto, não precisa de nada mais.

Lembrei-me de olhar no relógio e vi que já eram sete horas da manhã de sábado. Pensei na preocupação de minha mãe naquele momento, pois não costumava chegar demasiadamente tarde em casa e não havia levado o celular. Mas como podia ser sete horas da manhã se a festa ainda estava bastante animada e a escuridão era total? Resolvi perguntar à Luíza B. sobre o horário, tendo ela me confirmado que realmente eram sete horas e que, portanto, meu relógio não estava com problemas. Convidei-a para irmos embora, com o que ela concordou, desde que dançássemos a próxima música, com o que fui obrigado a concordar, especialmente pelo argumento do ritmo que tocou nas caixas de som. Enquanto dançávamos, compreendi, ao ver no local pessoas que trabalhavam em restaurantes, bares e outras boites que eu frequentava, que elas ali acorriam para se divertir após o encerramento de seus trabalhos. Ou seja, se divertiam após terem divertido os outros.

Após poucos minutos de espera pela conta, a dividimos igualmente. Paguei minha parte com dinheiro e a da Luíza B. foi paga com o seu cartão de crédito Visa.

Ao sairmos do local o choque visual foi ao contrário do anterior, a claridade deixou-nos ligeiramente cegos. Apanhamos o táxi que sempre fica à espreita, igual ao urubu que observa sua futura refeição. Nos dirigimos para o apartamento de meus pais, onde minha mãe e meu pai, este ainda de pijama, nos aguardavam com ar de ansiedade.

Minha mãe fechou as narinas com os dedos após beijar o meu rosto e sentir o odor de minha camisa, que realmente não era dos melhores, já que estava impregnada daquele fedor horroroso de cigarro. Sabia que estavam preocupados, mas como não fizeram nenhuma pergunta, pedimos licença e fomos para o quarto. Tirei minhas roupas e já as depositei no cesto de roupas sujas, no que fui acompanhado por Luíza B.. Fechamos as janelas e caímos na cama.

O sono profundo só foi interrompido quando minha mãe nos chamou para almoçar, ao que agradecemos, mas dissemos que apenas jantaríamos com ela.

i Cosmogonia

ii Antropomorfismo

 

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