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Zero (a biografia casual de um ninguém), de Osório Barbosa

 

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Zero

(a biografia casual de um ninguém)

 

 

 

 

Osório Barbosa

 

 

 

 

 

 

 

 


 

O céu estava plúmbeo, um cúmulo-nimbo se acumulava, deixando o horizonte a jusante de Manaus todo cor de chumbo. O vento encrespava as águas escuras e sempre calmas do Rio Negro, tornando-o, com as espumas das cristas das ondas, um verdadeiro algodoal. O chumbo e o branco se encontravam lá onde a vista alcançava, mas poucos tinham olhos para admirar aquele encontro vigoroso e belo. Os olhares e respirações demonstravam a ansiedade de quase todos os presentes, como a daquele homem, muito bêbado, desdentado e de cara lisa como uma laranja que expõe sua resina, que era o único a falar, e sempre frases sem sentido. A única que disse mais arrazoada foi: “Ele tá do outro lado do rio! É amigo dos botos!”.

Todos, após o breve espanto, voltaram à introspecção e não deram mais atenção ao que dissera o bêbado.

A mulher do pequeno bar sobre a balsa de ferro que servia de ancoradouro para os barcos que chegavam e saíam do porto da cidade, em especial os recreios de passageiros, rezava com devoção, e junto com o seu suor, em seu rosto escorriam também algumas lágrimas que temiam pelo pior.

Ali se reunia uma pequena multidão, ansiosa e aflita, que olhava para as águas escuras do Rio Negro quando os bombeiros, ajudados pelos holofotes das embarcações e os seus próprios refletores – poucos, diante da escuridão daquela noite que chegou mais cedo, acompanhada por fortes trovoadas e chuva inclemente –, trouxeram à tona o corpo inerte de Zero, já com as primeiras mordidas de piracatinga. Felizmente nenhuma tinha mordido a face bonita daquele jovem amazônida de pele queimada pelo sol, pouca barba, cabelos negros e encaracolados, quase longos e bem cuidados. As mordidas haviam se concentrado em um dos mamilos do afogado e na região da sua cintura.

Estava vestido apenas com calção, como sempre, e suas sandálias havaianas ainda o esperavam junto aos pés do mesmo tamborete de madeira onde ele as havia deixado.

Os olhos cor de mel ainda estavam abertos e vivazes, mas tiveram as pálpebras fechadas pela dona do bar que, a despeito de casada, depois soube-se que tinha algo mais que uma simples amizade para com Zero.

Constatada a morte – por afogamento, foi o laudo inicial –, a quem entregar o corpo inerte? Foi a dúvida dos bombeiros, já que ninguém apareceu para reclamá-lo.

O padre da igreja próxima, ainda que Zero nunca tivesse ido até lá, apenas feito alguns carretos de graça para a casa paroquial, resolveu assumir o trabalho de enterrar o defunto.

Antes que o corpo fosse colocado sobre uma padiola, estando ainda sobre o ferro frio da balsa, um dos colegas de trabalho de Zero tirou sua própria camisa e vestiu-a no morto. Outro, vendo que os testículos do finado saíam pela beira do calção, cueca Zero nunca usava, trouxe uma calça comprida bem maior que o corpo do amigo e nele a vestiu. Zero, que na vida não era exigente, mostrou-se também assim na morte, e não reclamou do favor.

Durante o velório, seus conhecidos se reuniram dentro e fora da igreja de Nossa Senhora dos Remédios e passaram a noite bebendo cachaça, a bebida favorita do morto. Aqueles que não aprovavam o álcool se contentaram em tomar café com bolacha água e sal. Das conversas, que vararam a noite, ouvi algumas notícias e relatos que seriam, para sempre, a biografia daquele homem que, se não fosse por sua bondade viril e beleza cabocla, teria passado pelo mundo sem deixar rastros, como passaram, passam e passarão milhares de pessoas.

Quantos homens bons, ou maus também, talentosos ou nem tanto, sábios e não sábios, excelentes poetas, pintores, cantores, tocadores e tantos outros que passaram pelo mundo sem que se tenha o menor registro de suas existências e de suas ações e obras?

Muitas vezes, mesmo aqueles que deixaram sua obra nós não sabemos quase nada, nem mesmo o nome ou a razão de havê-la feito. Mas, se a fez e a preservou, é porque desejou legar seu talento para a humanidade, fazendo da obra algo mais importante que o seu criador.

Muitas vezes vi fotografias e filmes onde são expostos milhares de crânios de pessoas, todas somente tendo em comum a brancura, porém nada mais que as identifique, as individualize e nos diga quem foram, o que fizeram, o que pretendiam em sua passagem pelo mundo, seus sonhos, suas esperanças, suas decepções e tudo o mais. Quem foram seus pais, maridos e esposas, filhos e netos? Deles não resta nada de antes, nem de depois, apenas uma informação sem nenhum valor, apenas que se tratava de um ser humano.

A memória é que dá uma sobre-existência às vidas breves dos seres humanos, é ela que presentifica e pereniza na lembrança dos vivos as passagens dos homens sobre a terra, nada mais.

Foi pensando em tudo isso que eu, que tinha ido ao porto da cidade apenas para comprar um bilhete de passagem em um barco que me levasse de Manaus para Belém, desde que ouvi o alarme de que um banhista mergulhador não voltou à superfície, resolvi acompanhar as últimas cerca de vinte e quatro horas do que restava daquele homem, até que a terra, a eterna mãe, o acolhesse novamente em seu portentoso e acolhedor ventre. Meu barco partiria apenas setenta e duas horas depois daquele acontecimento.

Como viajava desacompanhado, pus-me a me informar com aqueles que se acervavam de Zero e demonstravam ter com ele algum conhecimento, por mínimo que fosse, para poder fazer estas mínimas anotações.

Consegui anotar o que se segue e isto será, certamente, a única biografia de um “ninguém” que marcou sua breve existência com frases, ditos e ações na vida de muitas pessoas, algumas das quais possuidoras de estudos, mas desinteressadas em deixar para a humanidade algum registro de um ser humano tido por menor. Um ser humano, ao fim, que para mim teve sua passagem igual à de um cometa, breve e excitante, admirada, comentada e, depois, esquecida. Espero que o papel sobre o qual escrevo não venha também a esquecê-lo.

Eis o pouco que consegui registrar a respeito da rica vida desse homem:

Ninguém percebeu como e quando ele chegou na zona portuária junto ao Mercado Municipal de Manaus. Ou melhor, ninguém se lembra daquele primeiro, segundo, terceiro ou sabe-se lá quantos dias da sua chegada por aquelas bandas até ser notado e, a partir de então, observado e gravado nas memórias. E como ele não falava sobre seu passado, ninguém pôde me informar mais a respeito. “Não há beleza para alegrar a mim nem a ninguém em meu passado, por que então falar de tristeza? Que tal começarmos nosso conhecimento a partir de agora, do zero?”, perguntava ele quando alguém o questionava. Era o suficiente para que o interlocutor não insistisse. E foi esse zero que acabou se transformando no nome pelo qual ele ficou conhecido.

Do que vi de seu corpo inerte e das narrações que ouvi de sua aparência, descreveria Zero assim:

Caboclo com cerca de 1,82 m de altura, nem alto demais, para não ser desproporcional às suas parceiras, nem baixo demais para incorrer na mesma desarmonia!

Sua cor era uma mistura do mais negro mármore com o rosáceo de Carrara cujo amálgama mostrava o sangue a jorrar por detrás da mais lisa e aveludada pele.

Um escultor grego parece ter esculpido aquele corpo, onde nada excedia nem faltava!

Pescoço longilíneo a segurar uma cabeça proporcional de cabelos de eclipse.

Ombros largos e quadris estreitos como são os machos das mais puras raças de touros, a demonstrar força capaz de carregar o mundo.

A barriga tinha sido cinzelada nas mais ajustadas e belas medidas, deixando os gomos como se fossem escamas de um dragão que traz uma forja dentro de si a espalhar fogo quando deseja, tudo arrematado por um umbigo retraído que formava um cálice perfeito para receber o mais puro e nobre dos vinhos e onde ele costuma distribuir brindes de sua bebida preferida!

Coxas e panturrilhas a saltarem numa tensão capaz de equilibrar aquela obra irrepetível.

Mãos e pés alongados a coroar suas extremidades num conjunto incapaz de merecer reparos.

Lábios levemente carnudos e ensangue a formarem uma boca sequiosa e desejável por quem a pudesse ver e, mais, desejasse senti-la.

Nariz levemente alongado mas que não destoava do conjunto, com suas narinas sempre em movimentos regulares como a sugar o mais cheiroso dos perfumes.

Sobrancelhas da cor do cabelo. Fartas, mas que não se misturavam.

Testa lisa como o mármore polido, com uma mecha negra caindo sobre ela como que para mantê-la sempre e cada vez mais límpida.

Mas ele não poderia ser obra de um grego, também não de Michelangelo, pois, para inveja dos homens e para a curiosidade das mulheres, era o oposto do ideal daqueles no quesito volume da virilidade.

Todo esse monumento não tinha como ser imperceptível! Os homens o olhavam desejando ser ele, as mulheres o olhavam querendo tê-lo.

Zero vivia de seu trabalho como carregador de tudo que um homem forte pudesse transportar nos ombros, no porto. Fazia também pequenos mandados e favores e, por que não?, dava pequenos golpes dignos de um estelionatário boa praça. Jamais roubou ou aceitou produto do que sabia ser de roubo. Não queria envolvimento com a polícia nesse assunto. Como era bem-apessoado e educado no falar, os fregueses novos costumavam dar-lhe preferência, e os antigos eram seus cativos. Era conhecido por não ser explorador e não cobrar caro demais por seus trabalhos, como, regra geral, e antes de sua concorrência, faziam os demais.

Não era gaiato, enxerido, apresentado, folgado, depravado, e por isso era aceito por todos. Estava sempre atento a tudo que se passava ao seu redor, mas pouco falava das situações. Ouvia, via e calava, poder-se-ia dizer que este era o seu lema.

Uma das razões pelas quais Zero foi logo aceito no meio arredio dos demais carregadores é que ele, vendo que não podia transportar de uma única vez os objetos de seu carreto, não fazia como os demais, que davam duas, três “carradas” para transportar tudo. Ele não, sempre, sempre dividia com os outros o frete. Os demais, observando isso, passaram a admirar seu desprendimento e o acolheram.

Seus hábitos mais observáveis eram as mulheres e a bebida. Sempre a cachaça feita de cana. Dizia que matava os insetos, vermes e bactérias interiores, especialmente aquelas que descem “rasgando o peito”. “O que é que se usa para fazer limpeza em hospital?”, perguntava e ele mesmo respondia: “Álcool!”. A cachaça sempre ele escolhia, diante da grande variedade de marcas, já as mulheres… “Todas são filhas de Deus”, dizia, “precisam e merecem ser amadas”. Não impunha nenhum juízo estético, o que lhe importava era apenas que fosse “mu-lher”, pronunciava separando as sílabas em cadência musical. “Não me meto com menores de idade, não quero pai me procurando nem polícia me prendendo! Já as maiores podem ser de qualquer idade”, afirmava e punha-se a rir, mostrando sua dentição completa e alva. Das mulheres mais belas às consideradas mais feias, e às que misturavam todos esses matizes, todas foram vistas felizes e sorridentes ao seu lado, umas com dentaduras como o marfim, iguais à sua, outras com dentes enegrecidos pela cárie ou o tabaco, além de algumas com poucos dentes, ou até mesmo sem nenhum.

Todas mereciam seu respeito, seu carinho e sua atenção e seu amor.

Zero não suportava o fedor do tabaco, mas fazia qualquer sacrifício para não contrariar a sua companhia fumante. Dava graças ao fato de que, em Manaus, as mulheres fumam muito pouco e, nas ruas da cidade, menos ainda.

As mulheres que o acompanhavam sempre voltavam para os seus braços. Tudo, acredita-se, por tratá-las como princesas, damas, únicas, sempre a merecer toda e completa atenção e dedicação de sua parte. Zero, para o riso de muitos daquele mundo em que vivia, afastava os bancos ou cadeiras para que suas acompanhantes se sentassem, acendia os cigarros para elas, servia-lhes os copos da bebida escolhida por elas. Chegava ao ponto de catar as espinhas dos peixes que elas comiam. Eram damas sim, para elas, que sentiam, viam e viviam a dedicação devotada, e para ele, que queria realmente servi-las da melhor maneira. Amantes únicas, ademais, pois, nas suas noites, não se via nele o menor sinal de que observasse outra mulher com alguma espécie de interesse viril. Se não chegava a ser grosseiro, quando acompanhado de uma dama mostrava indiferença e desprezava aquelas que apareciam “sem ser convidadas” – sendo certo, contudo, que tinha olhos de lince e procurava informar-se de todos os movimentos ao seu redor, inclusive para segurança de sua própria companhia, como dizia. Teve mesmo oportunidade de afastar, pacífica ou violentamente, alguns que insistiram em importunar ou destratar a mulher que estava ao seu lado.

As mulheres que aparentavam, para os demais, não ter nenhum atrativo físico que fosse capaz de dar início a uma paquera, “deviam ter algo escondido e a ser procurado, e a simples procura já era um prazer”, ensinava Zero.

“Cada mulher é única e, sendo única, tem o 'quê' único, basta que se saiba encontrá-lo”, era a receita do jovem.

E um incentivo, do qual Zero nem precisava, diga-se de passagem, ocorria quando ele via uma mulher vestindo bustiê e short de lycra, como é muito comum em Manaus, e que “não mostra tudo, mas dá uma ideia do caminho que é uma beleza, assim como um mapa”, confessava. Trajando-se assim, seminuas, Zero dizia não poder conter os impulsos de seu coração: “É mais forte que eu”.

Mulheres sem sutiã e vestindo camiseta constituíam outra de suas perdições, pouco importando a estética dos seios: grandes, pequenos, túrgidos, murchos, pretos, brancos, com ou sem estrias… “O importante é serem seios!”, afirmava com as mãos em concha.

Se Zero não tivesse ganhado esse apelido, provavelmente seria conhecido como “Cheirador”, de tanto que adorava praticar o cheiro em suas amadas. Em público, em algumas regiões dos corpos delas, e quando sozinhos, em todo o corpo.

“O cheiro me atrai e excita, só preciso encontrá-lo. É o que mais me agrada e me marca. Minha memória olfativa ficará vagando quando eu morrer”, contava.

Uma jovem de traços indígenas me declamou o seguinte poema, que era de autoria de Zero, como ela falou, e eu não tive dúvidas, por sua temática:

 

As axilas

 

As axilas merecem descrição, estudo, reflexão profunda.

São elas fontes de inexplicável volúpia, tesão.

Têm as mais variadas formas, sensibilidade, odor e cores.

Oh mulher!, que carregas sob teus braços todos os

homens cativos,

sabes que por ti é feito tudo que é feito.

Não só pelo aconchego do teu peito,

mas, pela proteção do teu braço e do odor cioso que exalas.

Tuas axilas são a porta da sala.

Por elas adentramos em tua vida como se galga a casa,

embora não saibamos por onde iremos sair.

Quanto às formas, quem há de se importar?

Podem ser retangulares ou até quadradas.

As cores são o de menos, podem ter a cor dos brancos, dos morenos ou dos negros, amarelos, tanto faz.

Sensibilidade sim, isto importa!

Acariciando-as, sabemos que não estás morta.

Quanto aos odores, para eles foram feitas as flores,

dá-lhes cores, frescor, sabores, embora o natural dei-nos mais tremores.

Deixa-me beijá-las, cheirá-las e lambê-las, já que macios e saciantes são os seus pelos.

 

Zero não demonstrava muito talento para trabalhos manuais, ou, pelo menos, não os exercitava, mas gostava muito de fazer colares para suas paqueras, usando produtos, madeiras nobres, sementes bonitas e fibras fortes da região.

“Mas por que colar, Zero?”, alguém um dia lhe perguntou.

“É que quando vou colocar no pescoço da mulher já consigo sentir o cheiro que ela exala, aí é só felicidade”, foi sua resposta.

Sabia cozinhar os pratos básicos do Amazonas e até se arriscava em alguns pratos mais refinados e de outros lugares, mas, quando não sabia ou não se sentia capaz, comprava o manjar que sua companhia desejasse. Assava carnes e peixes com perfeição, sem sabrecar. Para isso a receita era deixar a comida a uma boa altura do fogo, para que nela chegasse apenas o calor, e não a labareda, e virá-la de um lado para outro com uma certa insistência, especialmente as carnes. Já o peixe deve ser virado uma única vez. Começa-se por assá-lo pelo lado das escamas. Se, ao ser espetado com um garfo, este lhe penetrar sem resistências maiores, é hora de virar e esperar menos tempo do que o esperado para o lado das escamas. Estando tostado, é hora de retirá-lo e comê-lo. Todo esse preparo deve ser feito com calma, “na democracia”, como dizia Zero, que confessava ter aprendido o preparo com um amigo de cachaças e assados, o Ru, que morava em Maraã. Como Zero não tinha casa própria, arriscava seus pratos nos restaurantes e bares que frequentava, sempre com o incentivo dos proprietários, que também provavam e aprovavam suas iguarias.

Seu prato mais famoso era peixe assado. Menos no tambaqui, que é grande, naqueles menores, Zero, antes de levá-los ao fogo, já tinha preparado uma espécie de farofa com farinha de mandioca, ovos de galinha e temperos, dentre os quais o cheiro-verde, que punha nas barrigas dos peixes, no lugar das tripas, costurando-as, para que de lá de dentro não saísse a farofa. Às vezes prendia as bordas das barrigas com pequenos pedaços de arame. Quando pronto o assado – a farofa ficava molhadinha, cheirosa e saborosa –, do peixe sobravam apenas as espinhas.

“Isso nem cachorro come”, diziam seus convivas, “pois não sobra”! Depois do espanto inicial daqueles que ainda não estavam acostumados com a sacada, todos riam.

Fazia também uns bifes de carne bovina fresca, temperados com sal e pimenta do reino. Quando os bifes estavam fritos, era necessário e imprescindível que na frigideira tivesse ficado um pouco de banha da fritura, pois aí punha farinha de mandioca e fazia uma farofa sem igual, para acompanhamento, em que se prescindia até do arroz.

Zero fazia também picadinho de bucho de boi. Comprava bucho ao natural, “ainda com capim dentro”, cortava miudinho e colocava na panela de pressão. O cozimento exalava um fedor insuportável. Depois, quando o bucho estava mole, lavava-o bem e o colocava dentro da panela com os temperos necessários, para nova fervura. Uns quinze minutos depois do início do chiado da panela, o prato estava pronto. Apagava o fogo e ia servir junto com o feijão e o arroz preparados enquanto o bucho fervia. Não existia coisa melhor e o sabor apagava até a lembrança daquilo que, há poucos minutos, exalava cheiro tão desagradável.

Era especialista em sopas e caldos, especialmente o verde, fundamentais para iniciarem ou findarem uma boa bebedeira. O caldo verde era sempre bem nutrido com a couve, o paio, o toucinho de porco e a batata amassada, tudo misturado formando um caldo grosso e saboroso servido em pequenas cuias que os comensais repetiam diversas vezes.

Sua macarronada era básica: macarrão, creme de leite, tomate e pimentão picados, molho vermelho, bacon frito e cortado em pequenos cubos e sempre muita, muita mesmo, calabresa ou paio.

Era também exímio preparador de “bichos de cascos”, como são chamados os quelônios pela “cabocada”. Aprendera isso, especialmente o preparo da tartaruga, quando morava na Vila Bitencourt, uma vez que na cidade vizinha, a colombiana La Pedrera, havia muita tartaruga. Os colombianos, porém, não são fanáticos por elas como os amazônidas brasileiros. Sabia fazer o sarapatel, o guisado, o assado de casco e peito, o miúdo e até mixira, como aquela que se faz do peixe-boi.

O mesmo que fazia com a tartaruga fazia com o tracajá, uma espécie de tartaruga em tamanho menor. O tracajá pequeno e o aiaçá, o menor dos bichos de casco quando adultos, eram assados com “casca e nó”, como ele dizia. Ou seja, eram apenas mortos, quando o eram, e levados ao fogo, que podia ser de um fogão a gás ou de lenha. Não há necessidade de temperos. Sal e limão vêm após. Os “cabocos” se deliciam, “comem e lambem os beiços” de tanto prazer e felicidade.

Zero não economizava na bebida favorita de suas companhias, embora sempre com a preocupação de que elas não se excedessem, pois não gostava de bêbados.

Sabia preparar vários drinques, mas somente se arriscava neles quando não tinha garçom que soubesse prepará-los, pois não gostava de se afastar da amada. Cuba Livre, Marguerita, Bloody Mary, Piña Colada, fazia todos eles pelo charme da apresentação e “para agradar o paladar das moças”, como dizia. Nessas horas sempre aparecia alguma outra mulher querendo que ele fizesse um igual, mas ele raramente as atendia, somente se sua companhia ou o dono do bar pedissem ou autorizassem.

Zero bebia, mas raramente dava sinais de bebedeira, pois procurava ter um controle absoluto sobre si, principalmente com a intenção de proteger a sua amada. Quando estava desacompanhado, costumava quase, mas apenas quase se exceder. Tinha uma técnica que julgava infalível: quando sentia que já estava ficando bêbado, procurava um local apropriado e enfiava o dedo na “guela”, a garganta dos amazônidas. Vomitava tudo que podia e ia para o rio tomar um bom banho. Em breve estava pronto para recomeçar.

Não era gabola! Jamais comentava sobre seus relacionamentos amorosos. Quando alguém dizia que ele tinha um “cacho” ou namorava (a palavra era outra típica do ambiente) com fulana ou cicrana, ele limitava-se a dizer: “o mais próximo que cheguei de uma lingerie foi quando passei perto de uma vitrine”.

Gostava de flertar com o perigo, porém mais por brincadeira do que por maldade, pois procurava não querer e não fazer o mal a ninguém. Era mais um gozador nato que um maldoso. A partir daqui, conto alguns episódios específicos que alguns dos seus conhecidos me falaram naquela noite que prometia ser escura, mas na qual brotou uma lua nova que prateou a tudo, e em que, coisa rara em Manaus, uma brisa leve veio acariciar o rosto do morto e o de todos nós.

Boca de 12, porque tinha a boca grande, igual à da espingarda desse calibre, contou que Zero tinha um fôlego anormal, de tão grande. Ganhava de todos os demais que apostassem com ele no mergulho. Ficava por longos minutos debaixo d'água. Enquanto alguns brincavam com garrafas, daquelas de cerveja de 600 ml, ele brincava com litros. Mergulha-se com a garrafa vazia na mão, que logo é submersa para que se encha. Cheia, leva-se para fora d'água e derrama-se o conteúdo. Enche-se novamente e derrama-se, repetindo-se até quando o fôlego aguentar. Zero enchia e secava o litro várias vezes, o suficiente para derrotar seu adversário, que era quem iniciava a brincadeira. Uma de suas proezas ocorria quando as pessoas jogavam objetos, não muito pequenos, como relógios, por exemplo, e ele mergulhava atrás e somente voltava à tona com o objeto na mão. Daí vinha a sua fama, lembrada pelo bêbado quando ainda não se tinha encontrado seu corpo, de ser amigo dos botos, que o ajudavam a respirar debaixo d'água.

Uma vez essas histórias de mergulhos estavam sendo contadas para um daqueles “coronéis de barranco” lá do Rio Japurá, que as ouvia quase incrédulo, sentado em uma cadeira confortável que um de seus empregados tinha providenciado. Tinha ele um relógio marca “mido”, de ouro, no braço. Era final de tarde e nisso Zero apareceu na balsa onde a conversa ocorria. Aqueles que rodeavam o coronel o chamaram e Zero, atencioso como sempre, se aproximou. Um deles disse: “Coronel, jogue seu relógio n'água pro Zero ir buscar”, ao que o coronel retrucou: “Bem capaz de eu confiar uma fortuna dessas nas mãos desse vagabundo!”. Como um raio e não se sabe como, Zero já estava com uma faca no pescoço do coronel e tinha os olhos como brasa e as carnes a tremer, quando disse: “Quem é mesmo o vagabundo, seu filho da puta?”. O coronel gaguejou sem conseguir dizer nada, então Zero prosseguiu: “O senhor me conhece? Eu lhe devo alguma coisa? Já lhe enganei alguma vez na vida?”. “Desculpe”, balbuciou o coronel. “Eu não ouvi”, disse Zero rispidamente. “Perdão”, falou claramente o coronel para que todos ouvissem. Zero tirou a ponta da faca do pescoço do homem e a jogou no rio, deu as costas e saiu veloz como um raio por entre a multidão que fazia uma roda para assistir. Tenho a impressão de que o coronel estava todo cagado, mas como estava escuro não deu para ver. Só sei que ele se levantou e caminhou para o camarote do barco no qual ia seguir viagem e de lá não saiu mais até a hora da partida.

Soube, depois, que quando o coronel voltou a Manaus, procurou por Zero, pediu-lhe novamente desculpas e o convidou para uma bebida. Zero, sentindo que o pedido era sincero, aceitou-o dizendo: “Então vamos, a partir de hoje, começar do zero, vamos esquecer o que se passou”. Fizeram-se amigos, pois o coronel passou a utilizar-se dos trabalhos de Zero, além de levá-lo, em sua companhia, para as noitadas que patrocinava. Numa dessas idas para a capital, o coronel trouxe um garrote de presente para Zero, que o matou e destinou um quarto não se sabe pra quem; os outros três quartos viraram churrasco para todos, ali na beira mesmo! Foi uma noite de farra, com muita cachaça e comida.

Zé Galo, que tinha o pescoço comprido e sem pelos, nos disse que, certo dia, um soldado que trabalhava no posto policial junto ao mercado estava de folga e apareceu por lá para comprar os ingredientes para preparar o almoço, mas, antes disso, pôs-se a conversar com seus colegas de trabalho. Muitos amazonenses, quando começam uma conversa, têm o costume de descalçar a sandália de um dos pés após escorar-se em uma parede, e colocar o solado do pé descalço na parede em que se apoia, na altura do joelho da outra perna, formando uma espécie de número quatro com elas, e, então, esquecem-se do mundo perdidos nas divagações. Era o que acontecia naquele dia.

Zero, sem que o descalço percebesse, passou por perto dele e, na velocidade de um relâmpago, chutou a sandália do policial para um pouco longe. Caminhou na direção dela, apanhou-a e colocou-a sobre a cobertura do container que era o posto policial, praticamente sobre a cabeça da vítima, e foi para longe apreciar o resultado de seu gracejo.

Quando terminou a conversa e baixou o pé para calçar a sandália, o policial pisou sobre o chão frio e molhado. Seu rosto corou com o acesso de raiva que percorreu suas entranhas. Pôs-se a olhar para os lados e seus colegas, que também não tinham percebido a sandália ser retirada, começaram a rir, para aumentar a ira do gracejado, que chegou ao extremo quando alguém disse: “Sandália é para estar nos pés!”.

Para diminuir a cólera, alguém teve a feliz ideia de olhar para o alto e viu a ponta da sandália sobre o teto, e gracejou: “Sua sandália é aquela que está voando ali?”, e apontou na direção. O nervoso saltou e apanhou a sandália. Calçou-a e saiu bufando em direção às bancas de carne, legumes e hortaliças, enquanto os outros riam às suas custas.

Osga, que era assim apelidado por subir por “qualquer parede”, relatou-nos que Zero adorava colocar rabos feitos de tiras de papel, plásticos e outros materiais nas pessoas. Com a mão leve, ele colava o rabo na altura da cintura da pessoa, por detrás, pregando-o no cós da calça ou na beira da camisa com uma fita adesiva, um clipe ou um arame qualquer em forma de anzol. O “enrabado”, como se dizia, punha-se a caminhar sob os risos de todos que, ao olharem para ele, levavam-no a sorrir também, embora não soubesse o motivo para o seu sorriso amarelo. Às vezes demorava uma eternidade para que a pessoa se apercebesse do que acontecia, ou que alguém mais moralista o tirasse do foco dos olhares e do som dos risos e sorrisos, dizendo-lhe o que se passava. Muitos pareciam, depois de descobrir a brincadeira, não se importar; outros bufavam de raiva e soltavam palavrões; outros, por fim, queriam brigar, mas não encontravam com quem e iam embora praguejando.

La Pau, assim apelidado por uma namorada colombiana, lembrou que a mesma técnica era usada para colar placas nas costas das pessoas, sempre homens, com dizeres tais como: “Sou corno”, “Sou viado”, “Vim para roubar”, “Sou velhaco”, “Sou miserável”, e muitos outros, que alegravam a todos, menos às vítimas.

João Pombão disse que as várias tatuagens que Zero tinha pelo corpo eram de uma única e mesma mulher. Sabia-se disso porque, quem as olhasse, perceberia que um dos olhos da retratada era vazado, um defeito não ocultado nas tatuagens, aparentemente por pedido do próprio tatuado. Tal mulher, Zero disse uma vez a alguém, era a sua mãe.

Depravado, tido por licencioso, gaiato, descreveu-nos que, certo dia, meio bêbado, Zero comprou uma briga que não era sua, pois viu um policial batendo com o cassetete em um bêbado que, de tão bêbado, era inofensivo, apenas balbuciava palavras desconexas. Após Zero segurar o cassetete, impedindo o prosseguimento da ação covarde, foi a vez de o policial segurar Zero pelo pescoço, fazendo-o dar uns três passos para trás até encostar as costas em uma parede de concreto. O policial então armou um potente murro e o desferiu na direção do rosto do quase sufocado, mas Zero, com a velocidade da luz, apenas inclinou a cabeça para o lado direito, já com o braço do policial em movimento, e a mão deste, cerrada, acertou em cheio e violentamente a parede. O policial urrou de dor e a fratura exposta pôs-se a sangrar, diante do riso de todos que assistiam à cena, inclusive do outro policial que, com aquele, formava a dupla de “Cosme e Damião”. Enquanto com a outra mão, a que sufocava, o policial passou a segurar o punho da mão machucada, Zero escapou imediatamente e sem que fosse percebido do local, restando ao companheiro do policial machucado levar seu colega para o hospital.

Instalação Trocada, assim conhecido por ser vesgo, recordou outra de Zero. Os “ratos d'água”, como são chamados os ladrões que atuam nas águas da zona portuária, costumam roubar as palhetas dos barcos. Eles mergulham e, com uma serra de serrar ferro, serram o eixo para poder se apropriar da hélice de metal mais raro e vendê-la aos receptadores. Alguns motores têm seu sistema de partida para serem postos em funcionamento a partir de cilindros de ar comprimido. Tais motores marítimos, em suas caixas de marcha, chamadas de reversíveis, têm apenas três estágios: neutro, frente e ré. Zero sugeriu a um proprietário, o que depois foi copiado por quase todos, que deixasse a máquina com o reversível ligado para impulsionar o barco para frente ou para trás, o que não fazia diferença. Quando o motorista, ou algum outro embarcadiço que estivesse vigiando os acontecimentos, escutasse o barulho da serra no eixo, bastava que acionasse a garrafa de ar para que a hélice rodasse, mesmo que poucas vezes, o que seria suficiente para estraçalhar o corpo de qualquer ser humano. E isso foi feito muitas vezes nos portos de Manaus, sem que os corpos mutilados sequer tivessem seus pedaços resgatados, apenas a água ficava tingida de vermelho por poucos instantes.

Pedro Cão nos contou que os carregadores costumam se acercar dos caboclos que chegam nos recreios e se propõem a carregar suas bagagens. As pessoas perguntam o preço dos serviços e eles dizem que cobrarão ao final do trabalho. Quando o final chega, cobram preços exorbitantes, os quais consumiriam, se pagos, todo o dinheiro que o caboclo traz consigo. Isso era feito de má-fé, especialmente com as mulheres, que se desesperam com o ocorrido. Zero, sempre que via um caso assim, ia em socorro das vítimas e, quase aos safanões, baixava o preço de cem para dez ou cinco.

Chico Rola, por ter a aparência de um pênis, diziam, e que presenciou várias dessas paradas, lembrou-se de que um dia um homem jovem e forte veio apanhar um porco que haviam lhe enviado do interior pelo recreio. O carregador se aproximou e insistiu para fazer o carreto. O dono do animal concordou. Quando chegaram no carro e o porco foi posto na mala do automóvel, o proprietário perguntou quanto sairia. “Duzentos”, respondeu o carregador. Como o porco não valia cem, o jovem disse: “Meu amigo, só o porco é que é do interior, eu sou aqui da capital, pega dez e dá no pé”. Os presentes caíram na gargalhada, inclusive o carregador, que recebeu a nota e foi embora.

Pé de Cumbo, que ao caminhar arrasta os pés no chão, como se não tivesse forças para suspendê-los, narrou que Zero presenciou uma história e nela interveio, fazendo com que o ladrão devolvesse o bem. Um caboclo foi apanhar um paneiro de farinha que seus familiares lhe tinham enviado do interior. Apanhou o paneiro e o pôs sobre a cabeça, caminhando para uma parada de ônibus. Lá chegando, tirou o paneiro e o pôs próximo aos pés. Afastou-se um pouco para olhar se o ônibus que se aproximava era o que ele desejava apanhar. Quando voltou para o local onde estava, percebeu que o seu paneiro de farinha não estava mais onde o deixara. Entretanto, a dois passos, tinha um homem com um paneiro igual ao seu sobre a cabeça. Atônito e desconfiado, aproximou-se do desconhecido e perguntou: “O senhor não viu um paneiro de farinha que eu tinha deixado aqui agora mesmo?”. Ao que o outro respondeu: “Amigo, aqui em Manaus tem muito ladrão, é por isso que eu não arrio o meu no chão para não ser roubado!”. Deu as costas ao boquiaberto caboclo e ia se retirar quando Zero, que vira tudo, o obrigou a devolver o produto do crime.

Zero era um homem que sorria e gostava de sorrir, me disse o Chupador, apelido que ganhou das mulheres que trabalhavam na beira do cais. Gostava de fazer e ouvir as piadas trocadas entre os magarefes e peixeiros que trabalhavam no mercado. Uma vez, junto a Zero, que se contorceu na risada, ouviu que um peixeiro chegava para trabalhar bem mais tarde que os outros. Então, um deles disse: “Chegando tarde, né, seu corno?”. Ao que o outro de bate-pronto respondeu: “É, tava dormindo com a tua mulher”. O mercado todo quase veio a baixo com a gargalhada geral.

Zé Galinha disse ter ouvido de Zero a história de um outro carregador, que saiu de mais uma das suas várias prisões, e então um outro lhe disse: “Quando tu tava preso, tua mulher vivia te botando chifres!”. Todos riram. O outro, cheio de orgulho ferido, estufou o peito e respondeu: “E tu, que nem precisa tá preso para que a tua te corneie?”. Os risos dobraram.

Pezão ouviu e repetiu-nos esta: Zero chegava ao mercado e um gaiato, cheio de malícia, disse: “Zero, eu vi um cara pulando o muro da tua casa!”. Todos o olharam e tentaram segurar o riso. Ele de pronto rebateu: “Qual que é? E tu tava pensado que só tu podia ser corno? Os outros também têm o mesmo direito que tu tem!”. O mercado explodiu em risos e o gaiato baixou a crista.

É muito comum esse tipo de tratamento entre os homens que ali trabalham manuseando suas peixeiras de várias polegadas e com afiação capaz de cortar até pensamento, como se diz. Isso tudo se dá quando a palavra é soltada em tom de “brincadeira”, brincadeira que é extremamente repelida e reprimida na dita alta sociedade, especialmente entre os cornos de verdade, que tendem a querer lavar suas honras com sangue, como se, na verdade, tivessem alguma, pois dificilmente um homem é chamado de corno se o agressor não tiver certeza disso.

Bacural contou que Zero, quando tomava banho de rio com seus colegas, para revolta e quase agressividade destes, costumava promover uma verdadeira guerra de bosta. Ou melhor, ele costumava jogar sua bosta nos demais, sem dar tempo para que estes reagissem, já que ele, além de nadar rápido, tinha muito fôlego, o que tornava difícil a reação. Era um verdadeiro peixe.

Zé Lorota lembrou que na frente da cidade de Manaus existia uma verdadeira “cidade de flutuantes”, montados sobre toras de árvores, em especial o açacuzeiro. Assim é que Zero e outros, quando corriam da polícia ou de algum inimigo armado, se jogavam nas águas e iam boiar sob tais casas flutuantes. Sempre existia espaço suficiente a permitir que o escondido boiasse, ficasse com a cabeça entre as toras, onde se segurava e respirava normalmente até o perigo (inimigo ou polícia) ir embora.

Frigideira, que ganhou este apelido por falar chiando frases totalmente desconexas, com as quais ela pensava impressionar falando difícil, disse que Zero costumava vestir apenas um calção de tecido preso à cintura por cordões que, amarrando-se uma ponta na outra, não o deixavam cair. Não usava cuecas, pois isso era um luxo desnecessário, embora tenha passado alguns vexames quando seus calções, já velhos, se rasgavam, deixando quase à mostra suas intimidades, que ele protegia com as mãos grandes enquanto se dirigia a uma loja da região para comprar um novo. Isso quando não se sentava no meio-fio e pedia a um colega que lhe fizesse o favor que ele mesmo não tinha condição de executar no momento sem ficar com tudo à mostra: ir comprar a peça de roupa. À noite, quando estava pelas ruas, costumava levar sobre os ombros uma camiseta regata, que somente era usada quando entrava em algum ambiente merecedor de respeito, e estes eram todas as casas de famílias, bares e restaurantes. Durante o dia as camisetas eram deixadas nos mais variados locais, desde que os proprietários, seus conhecidos, se propusessem a guardá-las dentro de uma pequena sacola, tipo uma pochete, onde tinha também um barbeador, escova e pasta de dente, um pequeno pente, brilhantina e um minúsculo espelho. Quando não tinha quem a guardasse, ele escondia sua mala, como dizia, nas reentrâncias das casas, edifícios ou boxes e bancas do mercado. Quando não tinha pasta de dente usava sabonete ou algum sabão qualquer no lugar. Para o “cc” usava limão, “o melhor desodorante”, dizia.

Zero era, além de um bon vivant, um gozador. Ria e sabia fazer os demais sorrirem, daí sempre estar cercado de pessoas para vê-lo em ação.

Frieira – disse uma moça que ele só coçava, daí seu apelido – lembrou da história de laçar dinheiro que Zero sempre fazia, muito antes das atuais pegadinhas da TV. Elas ocorriam assim: ele pegava uma nota de dinheiro e numa de suas extremidades fazia um pequeno furo pelo qual passava um finíssimo fio incolor de nylon, que ele amarrava, dando um laço. Deixava a nota no meio da rua e se escondia com a outra ponta do fio na mão. Quando um ambicioso desavisado se abaixava para apanhar a nota, ele colhia o fio e a pessoa se punha a andar e até a correr atrás do dinheiro, tentando alcançá-lo, enquanto Zero colhia o fio. A gana era tanta que alguns somente percebiam a brincadeira quando a nota já estava nas mãos de Zero e era preciso olhar para cima para poder acompanhar o movimento de subida dela.

Alguns, quando viam o dinheiro, primeiro chegavam e pisavam em cima da nota. Olhavam para os lados para ver se não estavam sendo observados e, quando pensavam que não, tiravam o pé de sobre ela e se abaixavam para apanhá-la. Era o momento sublime de iniciar seu sacrifício....

Candiru – por gostar de pênis, diziam, ganhou este apelido – contou que sempre ia ao mercado um senhor muito educado, uma verdadeira moça, com fala mansa e baixa, muito distinto, que tratava bem a todos e não se metia em discussão, sequer regateava o preço dos produtos, a fim de não ofender o vendedor, era um verdadeiro cavalheiro. Vavá, este seu apelido, era um homem de elevada estatura para a região, muita barba, sempre bem-feita, contudo tinha um defeito na mão direita, do qual tinha vergonha, e por isso a levava sempre dentro do bolso da calça. Zero esperava pela presença de algum desconhecido e, quando via Vavá se aproximando, também se acercava de sua vítima e perguntava: “Você conhece aquele homenzão que vem ali?”. “Não, por quê?”. “É melhor que não o conheça mesmo, ele é perigosíssimo, tem sempre um 38 no bolso! Quando tira a mão do bolso, já é para atirar! E nem precisa ter motivo, basta que ele não vá com a cara do sujeito,  é o homem mais valente e violento da cidade. Já matou vários, e por nada! Tome cuidado com ele”. Dizia com convicção e medo e se afastava do assustado, indo olhar de longe. A pessoa perdia totalmente a calma e a atenção no que estava fazendo, ficando sempre a espreitar, com o rabo do olho, o inofensivo Vavá. E quando este parava na banca em que sempre ia, justamente aquela na qual Zero tinha procurado sua vítima, a pessoa ficava em estado lastimável, suando mais que o normal e sempre muito trêmula, a demonstrar pavor em face da proximidade do homem feroz. Quando Vavá começava a se afastar do local, sempre aparecia um “escada”, uma pessoa com a qual Zero havia combinado, que o chamava de volta e o apresentava ao medroso que, só de ouvir a voz do Vavá, já imaginava o trote no qual tinha caído e respirava aliviado, pondo-se a procurar Zero com os olhos, enquanto este e os demais, já sabedores do gracejo, morriam de rir, até o próprio Vavá, que, certa feita, fora informado do gracejo que inconscientemente patrocinava.

Preá, por ter muitos filhos, segundo se dizia, narrou que na zona do porto tinha um grande comerciante, o maior da área. Uma figura folclórica, a começar pelo seu nome original, que era Deusdedit, mas que ele justificou para Dusdethe ou Deusdete. Realmente, Deusdedit ninguém merece! Zero, que também era craque em colocar apelidos e fazer gozação de tudo e todos, aprontou a seguinte com ele. Na cidade, os hospitais estavam sempre precisando de sangue para seus pacientes. Eis que um dia um pobre e ingênuo interiorano chega com um cabra e pergunta: “O senhor sabe quem possa doar sangue para minha mulher que está no hospital?”. “Claro que sei! Tá vendo aquele comércio ali?”, se adiantou e perguntou Zero. “Sim”. “Vá lá e peça para falar com o senhor Deusdete, peça a ele para ir doar o sangue para sua mulher. Ele é o maior doador de sangue da cidade. Adora fazer isso, pois com esse gesto faz o bem”. Satisfeito, o homem agradeceu e rumou para o comércio de Deusdete, pedindo para falar com o próprio. “Pois não?”, disse Deusdete, sempre afobado com a perspectiva de perder tempo sem ganhar dinheiro. “Eu gostaria que o senhor fosse doar sangue para minha esposa que...”. Nem teve tempo de completar a frase, pois foi interrompido por Deusdete: “Seu filho da puta, vá pedir sangue da puta da sua mãe, e sai já daqui”. Virou as costas e se retirou bufando e batendo os pés. O infeliz saiu desconfiado e a roda de malandros foi ao seu encontro gargalhando. Ele não entendeu nada, mas se tratava do seguinte: Deusdete tem muito dinheiro, mas, em compensação, aparentemente, nenhuma gota de sangue nas veias, pois é de uma amarelidão girassolesca! Daí a sua raiva de quem vai lhe pedir para ir doar sangue. Para consolar o pedinte da desfeita, alguns, dentre os quais Zero, o acompanharam até o hospital para fazer a doação, e o caboclo, quando soube da história, também passou a sorrir.

Tolete (Pronuncia-se: Tolête!) – como são conhecidos os cocôs que flutuam pelos rios e, por ser o corpo do rapaz parecido com um deles, recebeu este infame apelido – lembrou-se que Zero era pessoa simples e amiga, tratava todos bem e gostava de ser tratado de igual modo. Algumas pessoas, aquelas metidas a ricas, gostam de humilhar os demais, em especial os trabalhadores mais humildes, como os carregadores. Um desses ricos, certo dia, sem olhar entregou um saco cheio de bodó para que Zero carregasse até o carro, que tinha ficado um pouco longe. O bodó é um peixe cascudo e com alguns esporões, os quais furam o saco onde estão acondicionados e machucam o carregador, um dos piores fardos para se carregar, custando o serviço bem caro, justamente por isso. Zero apanhou o saco e seguiu o dono. Andou por cerca de dois quarteirões com a água que escorre dos peixes e traz o seu cheiro desagradável, que os caboclos chamam de pitiú, derramando sobre o seu corpo. Já tinha alguns arranhões causados pelos cascos dos bodós. Chegando no local o proprietário abriu o porta-malas do carro, onde já estava uma grande caixa de isopor, para não sujar o tapete do automóvel, e indicou que ali fosse depositado o saco. Foi atendido em sua orientação. “Quanto é?”, perguntou. “Sessenta”, respondeu Zero. “Caralho! Eu paguei trinta nos peixes e você quer sessenta pelo carreto?!” “Eu pedi ao senhor para carregar o saco de peixes?” “Não.” “Pois é, foi o senhor que, sem combinar nada comigo, mandou que eu carregasse o saco até aqui, foi o que fiz, e esse é o preço do meu trabalho!” O arrogante, vendo que apenas conhecidos de Zero assistiam à cena, de má vontade entregou os sessenta e saiu com o carro cantando pneus.

Zero, contudo, fez muito carretos de graça, especialmente para mulheres mais velhas e aquelas que, além das compras, arrastavam crianças pequenas. “Para meus protegidos (velhos, mulheres e crianças) é de graça, outros pagam por eles”, costumava dizer. E nunca lhe faltava trabalho, mesmo nos períodos mais escassos. Algumas mulheres queriam que ele carregasse as coisas para elas por ele ser bonito, e os homens, para tentarem humilhá-lo por inveja de sua beleza. Certo é que ele sempre ganhava trabalho.

Por seus protegidos, Zero comprou muitas brigas, inclusive entre e com os seus próprios colegas de trabalho, pois não admitia que explorassem na cara dura aquelas pessoas humildes e indefesas. Fazia, contudo, muitas ressalvas em relação aos velhos, pois dizia: “Ele já foi novo, aprendeu. Se não aprendeu, deveria ter aprendido. Muitos velhos de hoje foram pilantras quando jovens, alguns até continuam sendo, pois não se desaprende o que é ruim. Raramente um velho é vítima de um engano provocado por outra pessoa mais nova. É ele, velho, que, cego pela cobiça, pela vantagem que imagina que vai obter, pensa em dar o golpe na pessoa que lhe oferece um benefício desproporcional ao que a suposta vítima vai gastar – ela quer comprar por dez o que vale cem –, e, então, leva um contragolpe, e depois vai se queixar de que foi vítima do outro, quando, na verdade, foi vítima de sua própria ganância.

Tolete acrescentou que Zero assim definia sua condição no mundo: “Me sinto como um tolete de merda, perdido num mar de urina, tangido pelo vento de um peido”. “Era uma homenagem a você”, gritou alguém que não consegui identificar. Rimos em pleno velório.

Mesmo na escuridão vi lágrimas escorrerem pelo rosto de Tolete e sua voz ficar embargada. Havia nele um misto de inveja saudável e admiração pelo colega que ora velava.

“Zero era brincalhão, mas não era malvado”, nos disse Corta Água, um homem que tinha por defeito tombar um pouco para a esquerda quando caminhava, assemelhando-se assim ao pássaro que lhe dera o nome. Ele também se lembrou de um episódio e contou que é comum, entre os que trabalham e vivem na zona portuária, que quando um deles está dormindo ao sol, depois que a sombra sob a qual deitou-se vai embora, colocar uma tira de papel entre os dedos do dorminhoco e tocar fogo na extremidade maior, para que o fogo, à medida que consume o papel, esquente o pé do infeliz. Este começa por encolher a perna, pensando que seu pé está sob o sol e o resto do corpo ainda não. O calor aumenta e as batidas de pernas e pés, um no outro, aumentam, até que a vítima não suporta mais e acorda, morrendo de dor com a queimadura, chegando a jogar-se na água para apagar o fogo. Zero, uma vez, quase brigou com um desses malvados quando viu que ele estava a fazer isso no pé de um outro, só que, em vez de papel, coisa que Zero já não tolerava, queria usar uma tira de pano embebida em álcool. Zero tomou-lhe a tira e jogou-a no rio, o outro se armou para a briga mas acabou por temer o seu contendor, pois já sabia da fama de Zero como bom de porrada.

Zé Capa Bode, por sua vez, um cearense com cara de brabo, contou-nos que em uma determinada época existia na região do porto um serviço de alto-falantes pendurados nos postes, de propriedade de um homem chamado de Kimura, o qual talvez fosse japonês, ou apenas fosse muito feio, parecido com um sapo. Era metido a lutador de luta livre, na época em que esse tipo de luta fazia sucesso na TV. A voz do Kimura – que, além de dono do sistema, era seu locutor – era também muito feia, mas marcante, pois ele tinha a língua presa por uma papada enorme. Ao fazer propaganda de um determinado comércio, sempre encerrava com um “vaiii láááááááá”, interrompido abruptamente e, assim, deixava sua marca registrada naqueles que o ouviam. Zero gostava muito de oferecer músicas nos alto-falantes do Kimura. Geralmente os destinatários eram outros carregadores, mas, muitas vezes, era algo como: “Aquela que amarei para sempre”, ou:

“Zero oferece ao seu amigo Zé Pinto a música 'Eu amo a sua mãe', que vai na voz de Lindomar Castinho”. Na sequência vinha a música, cujo refrão diz:

 

“Eu amo a sua mãe

Eu amo a sua mãe

Eu amo a sua mãe porque foi ela quem me deu você

Eu amo a sua mãe

a companheira que eu sonhei

Eu amo a sua mãe porque com ela um dia me casei.”

 

Zé Pinto, que já era um homem bem mais velho que Zero, ficava bufando de raiva, já que falava constantemente de sua mãe com muito carinho. Ainda assim, não ousava puxar briga com o gozador.

Outro oferecimento foi: “Zero oferece a melodia 'Lá vai ele', de Alípio Martins, para o seu amigo Bidoca”. E até se ouvia Kimura rindo ao soltar o som:

 

“Lá vai ele

Com a cabeça enfeitada

Sem saber que a sua amada

Lhe traiu com outro alguém.”

 

O cantor amazonense Abílio Farias era um dos mais requisitados. Zero, certo dia, ofereceu “O culpado” para o próprio Kimura, que somente percebeu o destinatário, deixado para o fim do escrito, depois que já tinha lido o oferecimento e, após dizer um palavrão ofensivo à mãe de Zero, além de acrescentar que cliente é cliente, ainda mais pagando... botou o disco para rodar e ouviu-se:

 

“Eu sou culpado dela ter me enganado

Eu sou culpado dela proceder assim

Pois eu confesso que estou arrependido

Não vou deixar o nosso amor chegar ao fim

Já perdoei o que ela fez fora de casa

De ser amada por alguém que não lhe ama.”

 

Os que ouviam gargalharam, e eram quase todos os que frequentavam o porto. Foi muito sorriso naquela manhã de sol, de modo que muitos ficaram sem entender uma cidade posta a sorrir e saíram em busca da explicação. Quando a tiveram, puseram-se a sorrir também.

Mas não se pode dizer que Zero era inteiramente brega, como ele se intitulava: “Tenho a alma brega. A breguice é meu combustível”, pois ocorria de o Kimura ler coisas assim: “Zero oferece para si mesmo, de Lilian, ‘Eu sou rebelde’”, música que diz:

 

“Eu sou rebelde

Porque o mundo quis assim

Porque nunca me trataram com amor

E as pessoas se fecharam para mim.”

 

Ele ouvia “suas” músicas de olhos fechados e acompanhando o ritmo com a cabeça, com as mãos tamborilando e com os pés a marcarem o compasso, como quem usa o pedal de uma bateria.

Zero questionava: “Por que uma música, ao ser cantada por seu autor, é brega, e cantada por Caetano Veloso não é? ‘Você não me ensinou a te esquecer’, por exemplo? Dizem que é brega com o autor, Fernando Mendes, mas não na voz de Caetano! Não entendo isso!”.

E a música sempre era solicitada ao Kimura:

 

“Não vejo mais você faz tanto tempo...”

 

“Também com Caetano e Peninha ocorre a mesma diferenciação com a música 'Era uma brincadeira'”, continuava Zero, sobre a música que tem esta letra:

 

“Tudo era apenas uma brincadeira...”

Zero também prestava atenção nas letras das músicas. Era um comparativista. Por exemplo, na música “Secretária da beira do cais”, de César Sampaio, comparava o verso “ela espera e não desespera na beira do cais” com os versos da música “Minha história”, de Chico Buarque de Holanda, especialmente com “e deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe, esperando, parada, pregada na pedra do porto”.

Zero se via como um e se sentia bem entre “os ladrões e as amantes, que eram seus colegas de copo e de cruz”, costumava dizer. Entretanto, o seu cantor favorito era Odair José, e era este que costumava interpretar nas suas noitadas dedilhando o seu instrumento.

Zero tocava banjo, tinha um já envelhecido pelo uso, mas que nem sempre estava ao alcance das suas mãos, então, quando isso acontecia, ele improvisava, usava caixas de fósforos ou duas colheres que, emborcadas, batia uma sobre a outra tirando o som que desejava, ou ainda “papelinho”, aquele papel para enrolar cigarros, que enrolava num pente qualquer, em especial em um daqueles que suas companhias sempre traziam nas bolsas. Certo é que não era por falta de melodia que não teria festa.

Como tinha morado próximo à fronteira do Brasil com a Colômbia, numa vila militar de nome Vila Bitencourt, no Rio Japurá, também gostava de ouvir, cantar e dançar boleros. E quando dançava, cantava ao ouvido da amada a música que guiava seus passos, sendo considerado um bom pé-de-valsa.

Elas se arrepiavam toda quando ele dizia, por exemplo: sus ojos negros que un dia me miré, ou que bonitos ojos tienes, ou ainda nada te prometo, porque nada tengo. Ele soltava ainda Mujer, se puedes tu com dios hablar, ou Por que yo seguiré siendo el cautivo, ou ainda Non tengo trono ni reina.

Em Manaus, na época, antes de as festas terminarem, primeiro era interrompida a música, para terminar o barulho, seguindo a recomendação da polícia, mas podia-se continuar no ambiente bebendo e... cantando, desde que moderadamente. E era quando os fregueses começavam a sair que Zero iniciava suas cantorias, soltando a voz e reunindo em torno a si alguns dos notívagos mais afoitos e dispostos a verem “o dedo róseo da aurora” aparecer no horizonte ou, como diz o poeta Vinícius Gontijo, “a noite agonizando no clarão da aurora”. Cantava também músicas a pedidos, dando preferência àqueles vindos de sua amada.

“Pare de tomar a pílula”, “Eu vou tirar você desse lugar”, “Meu violão caiu de cima do armário”, “Cadê você, que nunca mais apareceu aqui”, “Esta noite você vai ter que ser minha” e “Mande nem que seja um telegrama” eram versos de Odair José que Zero repetia em suas noitadas para sua própria alegria e a de todos, sem hora para encerrar, especialmente aos domingos, que viram muitas de suas noites se atarem às manhãs de segunda-feira.

Sabia muitas outras músicas e letras, como, por exemplo, “Feiticeira”, de Carlos Alexandre, bem como as de Genival Santos, Roberto Ribeiro, Bartô Galeno e tantos outros, como José Augusto, que, antes de fazer sucesso no Sul/Sudeste, já era conhecido, há muito tempo, pelos amantes nortistas. De Roberto Ribeiro, seu hino era “Apenas um trago”, que diz:

 

“Bom dia, meu amor

Estou chegando agora

O dia já raiou

Passei a noite fora

Não chore, meu amor

Não faça isso comigo

Eu não estou embriagado

Eu só tomei um trago

Com o meu melhor amigo...”

 

Quando a hora exigia mais alegria que romance, Zero cantava Pinduca, o rei do carimbó, e dançava como um paraense nativo. Outro que não faltava em seu repertório era Reginaldo Rossi. Seu “Garçom” era sempre entoado, por iniciativa própria ou por sugestão. “Eu era a raposa, você era as uvas”, cantava para relembrar o início de tudo com aquela amada que estava ao seu lado, pois fazia questão de cultivar esses detalhes na ponta da língua. “Pedaço de mau caminho”, além da música, era um xaveco para quando estava sozinho e passava uma mulher perto dele. “Por que você já não me mata de uma vez”, cantava quando a amada dizia que era hora de partir. “Vaya con dios, querida, vaya con dios, amor”, cantava quando a despedida já se consumava. “Era domingo, um dia lindo e lá se foi meu grande amor”, cantava a saudade da amada que partiu.

Waldik Soriano, que compôs “Adeus Manaus, está chegando a hora da partida”, por essa homenagem à cidade e pelo que suas músicas dizem, era objeto de gratidão eterna dos amazonenses, além de objeto de desejo pelas mulheres e inveja por parte dos homens. “Garçom, olhe pelo espelho, a dama de vermelho que vai se levantar”, “Teu riso é uma rima de amor e poesia, macios teus cabelos, qual ondas sobre o mar. Teu corpo é uma cópia de Vênus e provocas inveja nas mulheres quando te veem passar” e “Quem eu quero não me quer, quem me quer mandei embora” eram entoadas por Zero, para alegria e dor de amor de muitos, inclusive do próprio, como ele dizia.

Waldick e seu similar amazonense, justamente o Abílio Farias, de quem Zero assistiu a muitas apresentações em Manaus, dos locais mais chiques aos botequins mais sujos da cidade, Jupati, Lá Hoje, Galo de Ouro, Saramandaiá, Maria das Patas e outros prostíbulos das ruas do centro da cidade, em especial os situados na Rua Frei José dos Inocentes, que de inocentes tinha muito poucos, e outros tantos que sequer nome tinham, pois Abílio era um “largado na e para a vida”. Dele, Zero gostava, especialmente, de “Coração indeciso”: “Um coração indeciso, busquei no céu um abrigo, me confessei a Jesus Cristo, que fostes na terra um mártir, sob o império de Pilatos, fostes pregado na cruz, quero ouvir de ti um conselho, do qual farei um espelho, pra refletir meu viver, julga-me, julga-me como quiseres, eu amo a duas mulheres, por elas fico a sofrer…”. E ainda de “Mulher difícil, homem gosta”: “Foi ela quem se ofereceu, ela não esperou que eu, lhe fizesse uma proposta, ela sabe que a mulher, consegue tudo que quiser, mulher difícil o homem gosta...”. Gostava também de “Cabeça oca”: “Quando passar esta mania de grandeza, eu quero ver o que será da tua vida, quando a velhice rondar tua beleza e o amigo te negar uma bebida...”; “Vou fechar o cabaré”: “Esperei tanto que a cerveja ficou quente. Esperei tanto e a mulher não vi chegar, porém se ela arranjar um outro homem, eu vou botar outra mulher no seu lugar...”; “Ciganinha feiticeira”: “Estou gamado em você cigana, Ciganinha feiticeira, estou te amando loucamente, e não é mais de brincadeira...”; “O culpado”: “Eu sou culpado dela ter me enganado. Eu sou culpado dela proceder assim, pois eu confesso que estou arrependido, não vou deixar o nosso amor chegar ao fim...”; “O pijama e o chinelo”: “Esse pijama não é meu, esse chinelo também não. Por favor diga, meu bem, se aqui tem vindo alguém pra me roubar seu coração”; “O genro odiado”: “Desculpa, mulher, resolvi mil desculpas pedir. As palhaçadas que eu promovia, quando bebia, não vais assistir. Aí, vergonha não mais passarás e comparando o que fui com que sou no momento, sentirás que o mal foi embora com o vento. Da família, eu era o genro que ninguém gostava, viciado, só me embriagava, satisfação não trazia a ninguém...”.

Mas Zero tinha também outras músicas nas mangas, e as utilizava apenas na ocasião apropriada, como dizia. “Não adianta cantar frevo em velório! As músicas devem ser cantadas de acordo com o local e o momento”, aconselhava. “Quando estou só com minha amada, não posso, jamais, cantar no ouvido dela um funk, ritmo que é um espanta tesão”. “Já pensou, eu e ela cheios de amor para dar, eu cantar baixinho em seu ouvido, para que ela sinta a quentura da minha respiração, algo como ‘É pau, é pedra, é o fim do caminho’, que também não combina com a oportunidade do momento? Ela nunca mais olhará na minha cara! Pois, se fosse o contrário, eu faria o mesmo, ainda a acusaria de assassina de tesão!”. E ria seu riso espalhafatoso, cheio de alegria e encanto, tanto assim que os demais seguiam suas pegadas.

Zero cantava Chico e Caetano e outros poucos da MPB. Roberto Carlos sempre aparecia nos momentos mais oportunos. “Na madrugada, olhando estrelas, você parece ainda tão menina!” E Zero suspirava. “Você não sabe quanta coisa eu faria, além do que já fiz, você não sabe até onde eu chegaria, pra te fazer feliz”. “São tantas que é impossível saber o momento em que uma cairá melhor que a outra”, completava. Chorou muito, não se sabia o motivo, ouvindo ou cantando “Lady Laura”.

“Os poetas tiram de nossas bocas aquilo que queríamos dizer e ainda não sabíamos como”, louvava Zero. “‘Amo tua voz e tua cor, e o teu jeito de fazer amor’, como a dupla gaúcha sabia que eu queria dizer isso? Kleiton e Kleidir me anteciparam em algumas palavras!”, dizia sorrindo.

“Eu sou como um cristal bonito, que se quebra quando cai!” “Essa o Hermes de Aquino se antecipou, pois sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu iria cantar.” E sorria todo seu sorriso largo e de sonoridade ritmada, pois até nos seus exageros Zero era harmonioso.

Zero, muitas vezes, se punha de crítico musical, tanto que ousava censurar monstros da MPB, como Vinícius de Moraes e Tom Jobim: “Como pode essa dupla, na música 'Garota de Ipanema', chamar a mulher de 'coisa'?”, perguntava.

Os Originais do Samba dizem, em “Esperanças perdidas”: “Quantas belezas deixadas nos cantos da vida, que ninguém quer e nem mesmo procura encontrar, e quantos sonhos se tornam esperanças perdidas, que alguém deixou morrer sem nem mesmo tentar. Minha beleza encontro no samba que faço”. “Mas como?”, espantava-se Zero! “Começa tudo tão bem, aí entra o último verso! Para mim, a beleza eu encontro nas ninfas do porto de Manaus, e era para elas que eu pensei que cantariam Os originais do Samba! Cacildiz”, imitava Mussum.

“Já o Paulinha da Viola perde o trilho também em 'Foi um rio que passou em minha vida'! Vejam só: 'Se um dia, meu coração for consultado, para saber se andou errado, será difícil negar. Meu coração tem manias de amor, amor não é fácil de achar, a marca dos meus desenganos ficou, ficou, só um amor pode apagar. Porém, ai porém, há um caso diferente, que marcou um breve tempo, meu coração para sempre, era dia de carnaval. Carregava uma tristeza, não pensava em novo amor, quando alguém que não me lembro anunciou: Portela, Portela...'. Que que é isso, gente?! Por mais que se ame uma escola de samba, como é o caso do Paulinho e sua Portela, toda essa poesia poderia ter sido aproveitada para louvar uma deusa carioca de carne e osso, daquelas que desfilam por Copacabana, Ipanema e Leblon. Francamente, Paulinho, se você não fosse o poeta que é, ficaria de mal com você”. E despejava tonéis de sorriso a puxar os sorrisos dos demais.

Zero sabia trabalhar sua potente voz, pois a modulava tão bem que, para admiração de muitos, imitava Maria Alcina e, também, Tetê Espíndola, contraste que alegrava a todos que o ouviram.

Tinha Zero também alguns versos não musicados na ponta da língua, os quais costumava declamar para suas namoradas, inicialmente em voz baixa, mas, depois, ia aumentando até chegar ao seu timbre normal. Quem ouvia aquilo se acercava e ficava a ouvi-lo, geralmente gerando um pouco de desconcerto inicial da mulher amada, mas alegria no dono do bar, que via o público acorrer para o seu estabelecimento.

E ele declamava sem tirar os olhos da destinatária de sua declamação, além de, quando tirava e olhava para outra pessoa, apontava para ela com o indicador da mão direita, tendo a esquerda pousada nos próprios quadris, numa pose de toureiro espanhol, que seu corpo elegante, mantido e preservado à custa do trabalho que fazia, bem como dos inúmeros abdominais, flexões, corrida e nado que praticava todas as manhãs antes de se banhar.

Nessa pose imponente, iniciava, por exemplo, com: “Enfim te vejo!...”

. Parava rapidamente e virava-se em direção à amada e, apontando com o indicado da outra mão continuava:

 

“... - enfim posso,

curvado a teus pés, dizer-te,

que não cessei de querer-te,

pesar de quanto sofri.

Muito penei! Cruas ânsias,

dos teus olhos afastados,

houveram-me acabrunhado

a não lembrar-me de ti!”.

 

E prosseguia declamando o longo e belo poema de Gonçalves Dias, “Ainda uma vez adeus”, ao término do qual era aplaudido por todos e sempre ganhava um beijo da mulher amada que era o seu objetivo. E ia para Quintana, de quem gostava por serem os seus poemas, geralmente, curtos. Se bons, terminam logo e deixam saudades, se ruins – que nunca o são –, a desaprovação seria, também, rápida.

Passava por Augusto dos Anjos com seus “Versos íntimos”. José Régio e o seu “Cântico negro” era de declamação obrigatória. De Manuel Bandeira recitava vários, mas, em especial, “Temas e voltas”. Sabia e declamava, também, Fernando Pessoa, sempre encerrando os poemas do português com a quadra:

 

“Não sou nada.

Nunca serei nada,

não posso querer ser nada.

À parte isso,

tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

 

Ferreira Gular, Castro Alves, Álvares de Azevedo e tantos outros, que lembrava de cor e salteado, como dizia, por tê-los conhecido e decorado nos seus anos de escola.

“Vi muitos turistas fotografarem aquele declamador das selvas, mas não sei onde encontrar tais fotografias”, disse Soninha entristecida, ao atravessar a história.

Zero raramente adoecia, mas quando isso ocorria, tratava-se com mel de abelha, óleo de andiroba, mastruz e outras folhas e beberagem expostas pelas vendedoras da própria zona portuária. E se a garganta não permitia canções e declamações, ele costumava comprar “todo” o seu dinheiro em fichas para aquelas eletrolas que funcionam tais jukebox, e punha-se a selecionar as músicas que iam fazer a sua alegria e a de todos. Em razão dessa sua paixão por música, um dia recebeu o apelido, mais um, de “DJ dos Lupanares”, o que para ele foi motivo de alegria.

Depois dessas noitadas/diaradas, quando se acordava, a sopa de carne e legumes ou a peixada preparada na hora nas bancas do mercado curava sua sempre moderada ressaca, que se ia de vez com os longos banhos no Rio Negro. Esse comer e banhar-se repunham suas energias e ele estava pronto para o novo dia, sem preocupação com o horário em que seu trabalho ia começar, pois “mesmo Deus ajudando quem madruga, como diz Zé Rodrix, dormir não é pecado, e se for, é um dos melhores, a convidar os homens a cometê-lo, em especial se o sono é nos braços de uma cabocla de carne dura como uma borracha e cabelos negros e longos a nos lapear com o suor que deles escorrem nas noites de calor e sem ventilador da quente e pulsante Manaus”. E gargalhava.

O calção que usava se enxugava no próprio corpo e Zero estava, assim, pronto para iniciar o novo dia!

Machito, cujo apelido derivava do fato de ser quase um anão, e além do mais magro, lembrou-se também de alguns ditos de Zero. Quando alguém falava com ele sem que tivesse visto antes a pessoa, dizia: “Eu estava em cima de ti e não estava te vendo!”. Da disputa, saía-se com esta: 'Deus é bom e o diabo não é ruim'!, e Machito, ao falar isto, se benzeu olhando para a igreja.

Zero, num início de noite, comprou uma lata de conserva para cachorro, mais uns dois tomates, um pimentão e folhas de cebola. Pediu, então, a uma moça que tinha uma banca de comida no mercado que, sem dizer nada, preparasse aquilo como se fosse conserva normal, para ser humano. Ela o atendeu e levou para ele, que já estava numa rodada com os amigos. O preparo estava tão cheiroso que rescendia de longe. Dentro de uma espécie de marmita a carne vermelha mostrava também os condimentos. Tudo acompanhado de farinha e umas três colheres. Zero ofereceu aos amigos, pondo o recipiente sobre uma mesa e deu, sem chamar a atenção, um passo para trás. Os famintos apanharam as colheres que caíram sobre a marmita, deixando a panela limpinha em poucos segundos. Só então perguntou: “Vocês sabem o que comeram?”. “Conserva!” “Sim, conserva, mas esta aqui”, e mostrou a lata vazia. Foi então que um espirituoso igual a ele disse: “Caramba, é por isso que está me dando vontade de mijar no poste com uma perna levantada!”. Todos gargalharam e mandaram preparar mais duas latas.

Zero, quando queria gozar alguém, dizia que a seguinte história tinha se passado com essa pessoa. “Certo dia o X e o Y queriam beber, mas também estavam com fome e só tinham uns trocadinhos para duas doses de cana ou para comprar uma calabresa. Foi então que X teve uma ideia. Vamos fazer assim: Compramos uma calabresa e vamos para um bar beber. Quando já tivermos bebido algumas, ponho a calabresa pela boca do calção e você vai chupá-la. O dono do bar, vendo isso, irá nos expulsar do local sem que precisemos pagar a conta. Depois vamos para outro bar e depois para mais outro até ficarmos bêbados. O outro aceitou e assim fizeram. Correram de vários bares. Já era madrugada e, bêbados e com mais fome ainda, Y diz para X: Bem, agora que já estamos bêbados, vamos comer a calabresa? Ao que o outro respondeu: Que calabresa? Aquela que compramos caiu na primeira corrida que demos.

Era razão para graça de todos e protestos de Y.

Um dia um menino de nome Teixeira chegou e perguntou para Zero se ele tinha visto seu pai. Zero olhou sério para a criança e disse: “Meu caboco, eu não sou vigia de corno!”. Os presentes caíram na gargalhada e ele foi levar a criança de nome até onde o pai estava.

Zé Fraqueza disse que uma das brincadeiras favoritas de Zero era a seguinte: quando ele bebia cerveja em lata com os amigos, costumava mijar dentro de uma delas e, sempre que um dava sopa, trocava a lata com cerveja pela outra com mijo. Quando o sabotado bebia e sentia o gosto, saía escarrando ou até provocando rumo a um local apropriado para tanto, enquanto os demais ficavam a gargalhar do infeliz.

Foi Bombril, assim apelidado por conta de sua cabeleira, que nos avisou que a mulher que se aproximava, junto com as primeiras horas do dia, era a irmã de Zero. Todos se calaram.

Ela se benzeu à porta da igreja e, ansiosa e com olhos vermelhos, foi até o caixão onde estava o irmão. Pôs-se em pranto alto e quase convulsivo, como se, até então, não acreditasse na notícia daquela morte tão imprevista, tão inesperada e, absolutamente, não querida.

— O que será de mim? — Ouvimos todos a pergunta da irmã em desespero, sem que alguém soubesse o que responder.

O choro prolongou-se por muito tempo, com a mulher segurando na mão do irmão e, de vez em quando, beijando-lhe a face inerte e fria.

Ouvi um rumor, dentre os colegas de Zero, de que não iriam ao cemitério, que ficava muito longe de onde estávamos e eles não tinham dinheiro para o transporte. Procurei o padre e pedi que fretasse um ônibus para que os colegas acompanhassem o enterro, já me adiantando que eu pagaria o aluguel, uma vez que acabava de me aposentar e tinha sobrado algum dinheiro do FGTS. O padre providenciou o aluguel na empresa Ana Cássia.

Quando percebi que a moça já estava mais calma, com muito tato me aproximei, transmitindo-lhe meus pêsames. Ela atendeu minha mão estendida com a sua molhada de lágrimas e voltou a soluçar alto. Abracei-a pelo ombro e encostei sua cabeça no meu peito. A irmã de Zero se acalmou e eu me afastei novamente. Vi, contudo, que passou a me seguir com o olhar, já que ninguém mais, além do padre, se aproximou dela.

O ônibus chegou logo após o carro fúnebre, veio pela Rua dos Andradas e estacionou em frente à Faculdade de Direito. Aproximava-se a hora de deixarmos a igreja. Pedi a Bombril, que a conhecia, que convidasse a irmã de Zero a vir até onde estávamos, para que pudéssemos saber de algo sobre ele. O pedido foi atendido e ela veio até nós. Disse-nos que ele serviu ao Exército Brasileiro, vindo daí o seu costume de sempre repetir “PqD”, quando conversava, e que chegou a ser paraquedista. Os presentes entenderam a razão e recordaram e concordaram meneando a cabeça, já que o “PqD” era uma constante em suas conversas, especialmente após algumas doses.

Ela prosseguiu contando que ele nasceu e morou durante a tenra infância em Maraã. Era filho de um coronel do Exército com uma das suas cozinheiras. Quando o coronel soube da existência do garoto o tomou da mãe e o levou para morar com ele na Vila Bitencourt. “Mamãe dizia que era o melhor para ele, já que ela não podia lhe dar qualquer futuro”. Lá cresceu e estudou. Era muito inteligente e seu pai tinha orgulho dele. A mãe escreveu várias cartas pedindo para ver o filho, mas nunca obteve respostas.

A Vila Bitencourt é um distrito do município de Japurá, de cuja sede fica a muitos quilômetros de distância e, por ser uma guarnição do Exército, tudo lá era de “competência”, ou seja, de atribuição, dos militares, não existindo autoridade civil. Em plena ditadura, quem dizia o certo ou o errado eram os militares e tais conceitos dependiam do humor de cada um, de seus interesses ou de seus amigos.

Assim, a irmã de Zero disse que sua mãe não tinha a quem pedir ajuda, embora tenha tentado, tanto que procurou o prefeito de Japurá, de nome Barbosa, mas este era nomeado pelos próprios militares, pois tal município, como muitos outros, era faixa de fronteira, logo, não tinha eleições, sendo o prefeito homem de confiança da ditadura, portanto não ia comprar briga com seus padrinhos políticos.

Os delegados que atuavam no município, um cabo ou soldado da polícia militar do Amazonas, mal sabiam escrever o próprio nome e, além do mais, eram homens de confiança do prefeito, formando com ele o círculo de impunidade e de injustiça.

A comarca mais próxima era Tefé, que tinha um juiz e um promotor de Justiça que viviam na capital, Manaus, deixando os jurisdicionados entregues à violência de quem fosse mais forte. E tais autoridades sabiam com quem não deveriam mexer, uma vez que, se fizessem isso, o “prêmio” poderia ser a aposentadoria compulsória, além de outros males à disposição dos ditadores.

“Quando já tínhamos nos mudado de Maraã para Manaus”, falou a irmã de Zero, “minha mãe resolveu ir pessoalmente até a fronteira em busca de ver meu irmão. Como ela achava que não o reconheceria mais, pois ele certamente tinha crescido, tinha mudado, ela mandou um recado para o pai dele, dizendo que estava no porto, no barco que indicou, para ver seu filho. O coronel não deixou que ela desembarcasse e determinou que ela fosse vigiada por soldados até que o barco partisse novamente. Assim foi feito. Quem ousaria desobedecê-lo e ser punido severamente?

“A esposa do coronel admirava profundamente o meu irmão, especialmente por sua dedicação em tudo que fazia. Tal admiração somente aumentou quando ele chegou à adolescência, pois sua beleza desabrochou. Seu porte atlético encantava todas as mulheres locais, passando a ser objeto de comentários entre elas no clube militar, sendo este o impulso que faltava ao coração de uma mulher bonita e carente para tentar jogar-se nos braços daquele menino-homem de beleza e gestos de carinho e atenção raros entre os nativos.

“O coronel viajava muito. Vivia numa verdadeira ponte aérea entre Tabatinga, outro município em faixa de fronteira e com guarnição bem maior que a Vila Bitencourt e que abastecia a esta de tudo, uma vez que no seu aeroporto pousavam os grandes aviões hércules que faziam os abastecimentos dos militares, tanto em mantimentos como na burocracia.

“A bela gaúcha Maria Madalena passou a cortejar meu irmão, embora este, ainda inexperiente nesses caminhos da vida, não prestasse muita atenção ou não soubesse distinguir a finalidade daquelas expressões e atos de atenção que iam além da desinteressada convivência entre familiares ou amigos.

“Madalena, percebendo a insensibilidade do garoto para com suas insinuações, resolveu ser explícita, e então passou a atentar e tentar seduzir meu irmão, primeiro com palavras e situações constrangedoras, como deixar a porta do banheiro aberta enquanto se banhava, ou andar pela casa trajando apenas roupas íntimas, ou apenas enrolada na toalha de banho, que, algumas vezes, deixou cair propositalmente, apenas para provocar o tesão do adolescente, quando todos os seus hormônios estão em plena efervescência.

“Meu irmão então percebeu a intenção de sua madrasta, passando a recusar até os presentes que ela lhe dava. Ela lhe ofereceu dinheiro em grande soma, mas ele recusou. Disse não aos seus apelos e pedidos, tudo de forma respeitosa, porém terminantemente, pois a tinha como uma mãe – que ela realmente foi, sempre bondosa e generosa para com ele, pois desaprovava tudo que fez o marido, especialmente traí-la com uma cabocla ‘feia e malcheirosa’ – e em respeito ao seu pai que bem o criara, embora tenha sido profundamente desumano e injusto com nossa mãe ao separá-la violenta e definitivamente de seu filho.

“A honradez de meu irmão, que sempre fora sua marca, encantou mais ainda Madalena, e ela, dizendo de suas fraquezas e sua solidão diante da ausência constante do marido, pediu-lhe desculpas e contou-lhe sobre a história de sua vida até aquele dia. Iniciou dizendo ser portadora de um câncer terminal nos ovários, temendo, com isso, que não fosse viver muito e, por isso, não queria levar seu silêncio conivente para o túmulo.

“Disse, para mostrar a índole de seu marido, que o coronel era envolvido com o tráfico internacional de entorpecentes, com o qual ganhou muito dinheiro. Que nas viagens que fazia para Tabatinga, que fica separada da cidade colombiana de Letícia apenas por uma rua, e era o centro do tráfico de cocaína na Amazônia, na volta trazia carregamento de vários quilos da droga e os entregava aos destinatários. ‘E por que ele trazia de Tabatinga para Vila Bitencourt?’, questionou meu irmão. Ela respondeu que ele fazia essa rota porque no Rio Japurá não havia barreiras policiais, como ocorria no Rio Amazonas, onde a Polícia Federal montou alguns postos de vigilância e fiscalização. Pelo Japurá a droga podia chegar tranquilamente a Coari, cidade próxima onde o rio desemboca, e daí ser levada para Manaus, Belém e o exterior, tudo com custo bem menor que aquele necessário para despistar a vigilância policial pela rota do rio Amazonas.

“Disse ainda que uma das rotas menos problemáticas era levar o entorpecente para o Suriname, antiga Guina Holandesa, e de lá para a Europa, porque o ditador do país, Desi Bouterse, era parceiro dos cartéis colombianos nesse rentável negócio.

“Contou que, certa feita, ouviu dentre as várias conversas do marido, uma que lhe chamou bastante a atenção, que foi, mais ou menos, a seguinte: ‘Um traficante peruano disse que nada haveria de melhor para o ramo de negócios deles que o Brasil, no futuro, se tornasse uma potência econômica, com economia estabilizada e com moeda forte. É que isso lhes pouparia o trabalho, embora lucrativo, mas custoso e perigoso, de ter que levar cocaína para os Estados Unidos em busca de seus dólares e para a Europa. Sendo o Brasil um país com moeda forte, bastava atravessar a imensa fronteira pessimamente vigiada e entregar o entorpecente aos distribuidores, sem maiores riscos para suas liberdades e menos custos de exportação’.

“O traficante foi profético, pois isso está ocorrendo na atualidade! Brasil com moeda estável e sem vigilância em suas imensas fronteiras. É o paraíso para os traficantes. Foi com essa atividade que o coronel acumulou uma grande fortuna, disse Madalena ao meu irmão. Disse ainda que ela não teria forças para denunciar o esposo, pois quem acreditaria nela? Além do mais, o próprio marido seria aquele que iria apurar sua própria falta! ‘Espero que um dia você possa fazer algo’, disse ela ao meu irmão, mas este, desde então, pelo teor da conversa, convenceu-se de que a punição para tal crime estava além de suas forças naquele momento, daí tendo dito que iria ver isso no futuro.

“Contou-lhe ainda que ouvira o marido dizer que, por diversas vezes, trouxeram colombianos e peruanos ‘criminosos’ nos voos entre Tabatinga e Vila Bitencourt, e os embarcavam com destino ao presídio de La Pedrera, região de selva de onde seria difícil fugirem. Mas nenhum embarcado chegava ao predito destino, pois eram despejados pela grande porta de embarque de carga dos aviões sobre a selva não habitada. E, o pior, todos eram empurrados ainda vivos, sem receberem sequer um tiro de misericórdia. Tudo isso a despeito de a Colômbia ser o país mais politicamente estável da América Latina, tendo vivido sobre uma breve ditadura apenas entre 1955 a 1957, quando era ditador Gustavo Rojas Pinilla. Mas tais ‘favores’ eram feitos em troca de uma possível futura reciprocidade.

Por que papai não abandona tudo isso? perguntou meu irmão a Madalena.

Certo dia perguntei isso a ele e sua resposta foi: Por que eu deixaria de ganhar dinheiro fácil? Por que eu deixaria minha vida de luxo? Por que eu deixaria isso se não sou perturbado por ninguém e ninguém pode me perturbar?

Mas você sabe que o que pratica é crime!

Sendo ou não disse-me, acredito que mais para encerrar a conversa que ser verdadeiro —, quando me reformar largarei tudo isso, vamos, finalmente, sair dessas brenhas e ricos, viveremos melhor ainda a vida que ora construo e que merecemos disse e se retirou, nunca mais tendo permitido a volta do assunto.

Foi então que ela lhe contou tudo que sabia sobre o nascimento do meu irmão e sobre a má sorte de nossa mãe. Ao saber de tudo isso, meu irmão procurou o pai e disse-lhe que ia embora à procura de nossa mãe. O pai foi contra, mas, mesmo assim, o filho partiu. Em Maraã soube que mamãe tinha se mudado para Manaus e que, na viagem que fizera quando fora procurá-lo, morrera afogada no naufrágio do barco em que viajava. Soube, depois, que o barco não naufragou, apenas ela desapareceu numa noite escura nas águas do Rio Japurá, na altura da localidade Bom Futuro, e seu corpo nunca foi encontrado, se é que um dia foi realmente procurado. Então ele veio para Manaus atrás de mim, que sou sua única irmã por parte de mãe. Depois de muito procurar me encontrou. Chorou muito por tudo e disse que nunca mais se afastaria de mim, que eu era tudo que lhe sobrava na vida. Passou, então, a viver ali pelo mercado e a me ajudar com tudo que eu precisava. Ele deixava tudo lá em casa, e quando queria algo me telefonava. Depositava sempre algum dinheiro na minha conta bancária. Me ajudava em tudo e por tudo. Depois da chegada dele, na minha vida nada mais me faltou.

Vivia por ali, segundo ele, para que seu pai jamais o encontrasse, pois dificilmente iria procurá-lo naquele local. Me disse que tinha escrito toda a história que ouvira de sua madrasta e que, no momento apropriado, iria entregar a quem pudesse fazer algo para punir aqueles crimes.

— Onde ele escreveu isso e onde está? — arrisquei-me a perguntar a Madalena.

— Ele me disse que, no dia em que morresse, eu poderia olhar as suas coisas. Quando soube de sua morte, resolvi ver a caixa onde guardava ditas coisas. Era muito pequena, de madeira, quase do tamanho de uma caixa de sapatos. Além dos documentos dele e outros papéis que acredito sem valor, tinha esta Bíblia quase do tamanho da caixa! Veja-a — ela disse isso e me entregou o livro.

Era uma Bíblia daquelas de capa de couro e com zíper. Abri o fecho éclair e na primeira página tinha um oferecimento: “De mim para mim mesmo”. Após a capa, o escrito: “Ele era meu pai, me criou, me fez homem de bem, mas não o desculpo nem perdoo pelo que fez com nossa mãe! Você, contudo, não é filha dele. Leia esta Bíblia e entenderá o que estou dizendo e decida o que achar que é o melhor”. O bilhete não tinha assinatura, mas a irmã confirmou ser sua caligrafia.

E você leu?

Sim! Passei a noite lendo-a, logo após saber da tragédia. Eu comecei a ler e, inicialmente, era uma Bíblia como outra qualquer. Depois de ler algumas páginas, percebi algo que me chamou a atenção.

E o que foi? perguntei, mais ansioso ainda.

É que algumas palavras estão riscadas com caneta de tinta vermelha…

Se estavam riscadas você não conseguia ler quais eram!

Não, não é riscada em cima, mas embaixo…

Sublinhadas, você quer dizer?

Isso!

E então?

Então é que voltei a leitura para o início e, depois de várias tentativas, entendi a mensagem que ele deixou!

Fez uma longa pausa para me deixar quase que desesperado, pois a curiosidade me consumia.

Continue, por favor.

Descobri que desde a primeira palavra marcada, sublinhada, como o senhor diz, se ligada com a segunda e as seguintes dá uma história!

Que história, minha querida?

Ela percebeu minha impaciência.

Se acalme, pois quero entregar a Bíblia para o senhor.

Para mim!? Por quê!?

É que com as palavras marcadas meu irmão conta toda a história dos crimes do pai dele!

Como assim!?

Ele conta o que seu pai fazia por detrás da carreira militar, quem eram seus comparsas, onde ele guarda seu dinheiro, as atrocidades que cometeu, tudo isso indicando, minuciosamente, onde as provas podem ser encontradas.

Quase não acreditei no que estava ouvindo. E, meio gaguejando, agora após uma longa pausa minha, disse-lhe:

E por que você quer entregar isso a mim? Por que não procura as autoridades?

Minha mãe já está morta, meu irmão também, não tenho motivos nem esperança de que, procurando as autoridades, a minha vida vá encontrar algum sossego. Pensei em queimar a Bíblia, mas, quando já me preparava para isso com o fósforo e o álcool, desisti e a trouxe comigo para cá, pensava enterrá-la junto com ele. Olhando e conhecendo os amigos de meu irmão, como entregar isso a eles? Ao vê-lo dentre os ditos amigos, decidi entregar-lhe isso, que o senhor faça o que deva ser feito.

Meu sangue ferveu! O que dizer e, mais, o que fazer com isso?, perguntei-me. Lembrei-me que já se ouvia falar na volta da democracia no país, com os militares entregando o poder político aos civis, então, disse:

Vou ficar com a Bíblia e pensar melhor em como devo agir, se é que devo agir.

— Obrigada.

Anotei o telefone e o endereço dela e agradeci pela confiança.

Dita confiança, contudo, tirou-me a tranquilidade momentaneamente, pois não sabia o que iria fazer. Cogitei entregar a mensagem codificada para quem, no momento propício, possa dar prosseguimento à decisão da irmã de Zero. Terei tempo para pensar.

Eis que a irmã abriu uma pequena bolsa e dela tirou a carteira de identidade do irmão, me entregou e eu li em voz alta: “Seu nome é Antonio Jorge Pinheiro-Lima Berçoza”. Este é o nome do nosso querido Zero!

Ouvi vários “Que Deus o tenha”!

Zé Boçal, nesse momento, lembrou-se de abrir a braguilha de Zero, e no cordão de seu calção estavam amarradas várias cédulas de dinheiro, todas de maior valor. Ele desamarrou e as entregou para a irmã, que, novamente, desesperou-se mais ainda com a partida de seu irmão e protetor.

Eis que, posto o corpo de Zero no carro que o iria transportar pela última vez, fomos para o ônibus, que, sem ar-condicionado, chegava facilmente a uns 55º C, mesmo ainda sendo as primeiras horas da manhã manauara.

Pouco se conversou durante o percurso, e muitos chegaram mesmo a tirar uma soneca depois da noite insone, já que o cemitério Parque Tarumã ficava bem distante de local de nossa partida.

A cova já estava aberta e, sem discursos, a não ser uma breve encomendação do corpo feita pelo padre, o corpo desceu aos sete palmos. Todos puderam jogar uma mãozada de terra sobre o caixão que, não ficando totalmente coberto pela terra jogada pelos amigos, deu ensejo a que as pás dos coveiros entrassem em ação e, em poucos minutos, os trabalhos estavam acabados, restando apenas um montinho de terra onde foi fincada uma cruz de madeira pintada de cor branca.

O sol escaldante levou-nos, em busca de sombra, para sob a copa de uma imensa e frondosa castanheira. Alguns sentaram e a irmã de Zero começou a contar fatos sobre o passado dele. Fiquei, inicialmente, entusiasmado e curioso, pois ia saber mais sobre aquele homem, mas logo lembrei-me que ele próprio fazia questão de não falar sobre isso, então resolvi respeitar sua vontade e saí do local sem nada dizer. No portão do cemitério tomei a direção à esquerda e pus-me a caminhar pela Estrada do Aeroporto, o principal da cidade, que a liga à estrada da praia da Ponta Negra, tendo como guia as águas do Rio Negro que, do pequeno morro no qual está o cemitério e onde eu também estava, me permitia ver ao longe a outra margem do rio…

Caminhei triste e feliz. Triste por ter conhecido um homem já morto e, mesmo assim, ter me encantado com sua história, sua trajetória efêmera e cheia de poesia, poesia tirada, às vezes, da dor, essa matéria-prima dos poetas. E feliz por ter conhecido essa história, que dou agora por finda, com a garganta apertada e os olhos marejados. Será que é essa brisa quente que provoca isso, ao trazer contra o meu corpo esse clima quente e úmido?

Minha dúvida final era: Zero, um exímio mergulhador, morreu mesmo ou apenas foi encontrar com sua mãe, levado por seus amigos botos?

 

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