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tercio

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A sede por leitura em Maraã.


Em Maraã, todos nós crianças e analfabetos.

Chegava o "Colombiano" (apelido de Orlando Bezerra da Silva, que nascera na localidade de nome "Colômbia", dai...), filho do prefeito, “Durico” (ou Odorico), e da professora D. Nonata, menino acostumado a quebrar a cabeça de outros a pedrada, daí sua fama de furioso, e que dizia que sabia ler!

Todos ficávamos admirados e invejosos com tal afirmativa.

Então ele apanhava e levantava uma lata de aveia que trazia consigo e demonstrava sua habilidade dizendo:

 

- "A velha qualquer"!

Ouvia-se um silencioso “ah!”.

Maravilhados púnhamos a imaginar o dia em que seríamos igual ao "Colombiano"! Ou seja, o dia em que saberíamos ler.

Hoje, passados mais de trinta anos daquele episódio que o tempo não foi capaz de borrar, toda vez que vejo o rotulo abaixo, objeto da leitura do amigo de infância, riu e choro de saudade da inocência que jamais voltará e que foi embora, justamente, com o aprendizado da leitura que eu e os demais tanto ansiávamos e invejávamos no também furioso Orlando!



A imagem ajuda: cabelos brancos (“velha”) e longos (“mulher”).

O “k” do “quaker”, para nós um mais que ilustre desconhecido, ajudava a complicar a imagem da "bondosa sorridente"!

Portanto, a imagem se somava à ignorância.

Assim, a história é velha, mas a emoção da lembrança é sempre nova.

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