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Natal em outubro!

 

Natal em outubro!

 

Sexta-feira, final de tarde, depois de um dia extenuante, recebo um telefonema-convite de um advogado amigo para um happy hour tardio; o qual é aceito imediatamente. Combinamos de nos falar logo depois.

 

 

Saio da Procuradoria em que trabalho e caminho pela av. Paulista, de drogaria em drogaria, atrás de um leite PROBIÓTICO para o meu filho de oito meses. Em uma das drogarias a atendente pergunta-me se tenho cartão da empresa, antes de me dizer se tinha ou não o bendito leite. Engoli a seco o absurdo e lhe disse que não. Ao que ela me respondeu também com um não, acrescentando que o leite estava em falta no mercado.

 

Continuei o meu itinerário e, após algumas outras frustradas tentativas de aquisição do alimento do “bruguelo”, cheguei em frente ao prédio onde trabalha o meu amigo, uma daquelas duas torres que a Regina “Rainha da Sucata” Duarte queria conservar e a D. Armênia queria “ver na chon”. Liguei para o seu celular e ele já estava à minha espera junto à imensa fonte de som acalentador que fica na frente dos edifícios.

 

Após os cumprimentos, a pergunta:

 

- Aonde vamos?

 

- Ao de quase sempre. Vamos ao Monarca.

 

Monarca é um boteco-lanchonete que fica na esquina da rua Luís Coelho com rua Augusta. Como tudo na vida, o ambiente é bom e é ruim. É bom por fechar às 23 horas, pois nos indica o caminho de casa. É ruim quando queremos ficar mais um pouco e a portuguesa proprietária, hoje, após o período de conhecimento e aceitação recíproca, já nos permite tomar apenas UMA “saidera” após aquele horário, não permitindo a vinda da “expulsadeira” e, finalmente, a “pé-nas-nádegas” (com perdão da expressão neste espaço, embora ela seja mais chula no ambiente em que é pronunciada) ou “chute-nos-testículos” (outro perdãozinho, com a mesma explicação), que, realmente, para quem já sentiu a dor, sabe que não pode mais ficar!

 

Lá chegamos e pedimos uma brahma. Logo em seguida mais outra, pois as três primeiras “descem” estupidamente rapidamente!

 

Seu Ernesto, um portuga tio dos proprietários, com seu sotaque típico, fez a pergunta que sempre faz:

 

- E aí, como é que estamos?

 

Também respondemos o de sempre, algo como: “se melhorar estraga”!

 

- Querem o cardápio? Tornou ele.

 

- Pode ser, alguém (um de nós) respondeu.

 

Enquanto esperávamos o “frango à passarinho”, que segundo outro amigo, o Márcio, é um dos “melhores da cidade”, e, para quem sabe das coisas, sabe que “é o tira-gosto que faz engordar”, apareceu uma criança com sua caixa de engraxate. “Um menino bem criança mesmo”, e se dirigindo a mim disse:

 

- Tio, engraxa o seu sapato para me ajudar.

 

Respondi-lhe que não, mas iria ajudá-lo. Enfiei a mão no bolso e tirei uma moeda de 50 centavos, lhe entreguei e ele partiu após um “muito obrigado”.

 

Uma sugestão: em locais onde, infelizmente, passam muitos pedintes, troque R$ 10,00 em notas de R$ 1,00 e ponha-as, separadas, num dos bolsos. Ou pode ser R$ 1,00 “trocado” em moedas de 10 centavos. Assim, todas as vezes que aparecer um “deserdado da sorte”, R$ 1,00 ou 10 centavos fará para ele uma grande diferença!

 

O “frango à passarinho” chegou. Muito bom, como de costume. Beliscamos e, após, o meu conviva foi lavar as mãos. Enquanto ele estava no “toilette” apareceu um vendedor de chapéu de couro, estilo boné. Me interessei, pois eram muito bem feitos. Me disse o vendedor que “costuma vender em Moema, para artistas”, ao que retruquei:

 

- Você tem sorte, então, pois está vendendo para mais um...

 

Ambos sorrimos.

 

- Quanto custa um chapéu?

 

- R$ 10,00, disse-me o artesão.

 

Nisso, sem que tivesse tempo para a “pechincha”, volta o pequeno engraxate e, a mim se dirigindo, com um sorriso largo, ingênuo e infantil, disse:

 

- Tio, tio, olha que aquela moça japonesa me deu!

 

Trazia na mão direita uma nota de R$ 10,00.

 

Como estava com um chapéu nas mãos, não tive dúvidas e lhe perguntei:

 

- Compra esse chapéu para mim?

 

Ele sem responder, mas com o mesmo sorriso lindo e encantador, apontou a nota para entregá-la ao chapeleiro. Este titubeou e me olhou, eu, com os olhos e com movimento labial sem som, disse-lhe:

 

- Receba!

 

Ele recebeu e o pequeno trabalhador continuou a sorrir, demonstrando uma felicidade esplendorosa.

 

Não tive outra ação, já com o rosto lavado em lágrimas, senão abraçá-lo fortemente e distribuir vários beijos em sua cabeça e em seu rostinho sujo de graxa preta.

 

De um dos três rapazolas que estavam na mesa ao lado e muito próxima, que não sabiam o que se passava, ouvi:

 

- O que é isso?! Disse um deles ao me ver abraçar o garoto e soluçar.

 

Só vieram a saber sobre o que acontecia quando o vendedor de chapéus, também entre lágrimas, tentou explicar-lhes o gesto poético, desprendido, desapegado, caridoso, inocente e humano daquela criança.

 

Nisso, volta o meu amigo, que também não compreende nada ao me ver abraçado ao meu benfeitor. Banhado por um rio de lágrimas lhe narrei a história, da qual ele já sabia o começo, e ele, também começou a chorar, enquanto o pequeno projeto de grande homem continuava a sorrir, sem entender a beleza e a generosidade de seu ato, pois só mesmo uma criança, ainda livre dos “males do mundo”, é capaz de uma ação tão nobre quanto aquela que ele acabara de praticar.

 

Paguei o chapeleiro e ele, limpando os olhos partiu, mas nos deixou a seguinte frase:

 

- Hoje, depois dessa, vai ser difícil trabalhar!

 

Nos recuperamos aos poucos e eu perguntei ao meu primeiro e único, até agora, modelo de homem-gente:

 

- Você quer comer?

 

- Eu quero.

 

Perguntei o que ele queria, e ele:

 

- O que que tem?

 

Chamei o seu Ernesto e o pequeno a ele se dirigindo:

 

- O que que tem prá comer?

 

- Tem salgados, sanduíches.

 

- Não, comida, feijão, arroz...

 

- Ah! Tem carne e frango.

 

- Frango.

 

- Você não quer carne? Intervi.

 

- Não, frango mesmo.

 

- Traga, seu Ernesto, disse eu.

 

E o portuga, para não deixar morrer a fama, relutante, dirigiu-se à criança dizendo:

- É R$ 8,00.

 

Ao que eu, quase gritando pelo canto da boca, retruquei:

 

- TRAGA seu Ernesto!

 

Ele, finalmente, compreendeu e foi fazer o pedido.

 

Como meu amigo tinha um compromisso, teve que ir embora. Após nos estender a mão, partiu.

 

Esperei chegar a comida e pedi ao seu Ernesto que olhasse para a criança que comia, enquanto eu ia até um caixa eletrônico nas proximidades. Levantei-me e caminhei como se levitasse, meus pensamentos não conseguiam se afastar da atitude incrivelmente singular no mundo em que vivemos.

 

Voltei e encontrei a comida quase intocada, o que me surpreendeu e me levou a perguntar:

 

- Você não comeu?

 

- Tio, é que eu estou tão cansado que eu não agüento nem comer! Foi outro abalo para o meu coração, sempre meio “manteiga derretida” e, agora, meio já cercado por colesterol e algum entupimento e excesso de açúcar!

 

- Mas, come mais um pouquinho.

 

- Tio, é que também meu dente dói quando bate o frango.

 

Sem palavras me resignei a perguntar-me: meu Deus, será isso uma provação? Por que comigo?

 

- Você mora onde?

 

- Em Guaianases!

 

- Tem irmãos?

 

- Tenho dois.

 

- Qual a idade deles?

 

- Um tem 4 anos e o outro 6 meses.

 

- E você, tem quantos anos?

 

- Tenho oito anos.

 

- Você estuda?

 

- Tô fazendo a terceira série, disse-me mostrando três dedos levantados, enquanto prendia o mínimo com o polegar.

 

- E seus pais?

 

- Minha mãe está em casa cuidando dos meus irmãos e meu pai cuida de carros na Paulista.

 

- Quanto você ganha, numa noite boa de trabalho?

 

- Dez reais.

 

Meu Deus, é provação mesmo, não tive dúvidas. Que homem de “bem”, educado, trabalhador, consciente e egoísta daria o valor correspondente a um dia de seu trabalho a uma pessoa totalmente desconhecida? Quem, em sã consciência faria isso? Apenas um louco disso seria capaz... ou uma criança, em sua pureza ainda não corrompida pela sede do ter e ter e ter sempre mais, embora sequer seja capaz de desfrutar do muito que tem.

 

- Você quer levar essa comida para sua casa?

 

- Quero.

 

Pedi que a sobra fosse colocada numa marmita. Ele não aceitou nem refrigerante, que é bebida adorada pela criançada de sua idade.

 

- Como que você volta para sua casa?

 

- De metrô e ônibus (melhor, “condução”, que eu não sei o que seria).

 

- Como assim?

 

- Dez horas eu me encontro com o meu pai e aí vamos embora.

 

- No “metrô Consolação”?

 

- É.

 

- Você paga passagem?

 

- Pago.

 

- Você não passa por baixo da catraca?

 

- Não, eu pago.

 

Meu Deus, é gozação sua? Estou sonhando? Como é que pode, Senhor, uma pessoa que ganha 10 em um dos seus bons dias de trabalho, paga 4 de condução, ficando portanto com 6, se predispor, com alegria e contentamento a pagar 10 por um chapéu para um cara que, se foi “bom” ao lhe dar 50 centavos, sequer foi simpático em lhe dar qualquer atenção que distinguisse sua presença no local?

 

Olhei no relógio e as 10 horas se aproximavam.

 

- Você liga prá mim?

 

- Eu não tenho cartão!

 

Tirei um cartão de visita da minha carteira e anotei os números dos meus telefones: celular e de minha casa, já com o 9090 na frente, para que ele ligasse a cobrar. Disse que ele, daquele dia em diante não precisaria mais trabalhar de engraxate, que iria apenas estudar, que seu trabalho era ir até minha casa e passar na escola.

 

- Me liga amanhã.

 

- Tá bom, eu ligo.

 

- Agora vá que já são quase dez horas.

 

- Tchau, tio.

 

- Tchau.

 

Ele colocou sua caixa nas costas, apoiada no ombro e no peito por aquele suporte onde se apóia os pés para que se engraxe os sapatos. Com os dedos da mão direita pegou a argola da sacola branca e saiu meio a correr na Augusta sentido Paulista, enquanto eu acompanhava sua pequena figura sumir na distância e na escuridão, pude ver que ele estava descalço naquela noite que não estava nem muito fria, nem muito quente, mas suficientemente fria para incomodar pequenos pés como os dele.

 

Comecei a fazer planos em como oportunizar àquela criança chances de tornar sua vida diferente daquela levada por seu pai, mas, a primeira providência, seria comprar-lhe um par de sapatas e um de sandálias no dia seguinte.

 

Levantei, paguei a conta e fui para casa contar às pessoas que amo o milagre que eu tinha acabado de vivenciar, além de beijar longamente meu filho que está próximo, enquanto em espírito beijava os dois outros que estão longe.

 

Quando estava com meu filho no colo, o telefone tocou, era o meu amigo que há pouco tinha partido, querendo saber se eu estava bem. Disse-lhe que sim, e ele ponderou:

 

- Na nossa idade, a gente não pode mais viver emoções como a que estamos vivendo hoje!

 

Rimos, nos despedimos e desligamos.

 

Voltei às proximidades para encontrar outros amigos, onde tive oportunidade de contar-lhes o ocorrido, quando eles me questionaram ao me ver de chapéu, hábito que não cultivo.

 

Minha noite foi calma e cheia de paz.

 

Passei o sábado e o domingo esperando pelo telefonema do meu benfeitor, daquele que me fez acreditar que eu não estou errado quando acredito que existem pessoas bondosas, generosas neste mundo, embora algumas teimem em querer provar o contrário.

 

O silêncio do meu pequeno amigo está me levando à seguinte conjectura: Teria Deus naquela noite, novamente, se feito homem apenas para me demonstrar o que eu já sei: que Ele existe?

 

 

São Paulo-SP, 16.10.06.

 

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