Contos Escritos Meus

O que você gostaria que sua família fizesse por você?

Mamãe e eu

O que você gostaria que sua família fizesse por você?



Esse foi o tema da redação do ano (1982) em que passei no vestibular na Universidade Federal do Amazonas.

Lá se foram 38 anos!

Menino, ainda guardo na memória que disse mais ou menos o seguinte:

"Que mais eu posso querer que minha família faça por mim depois de tudo que ela já fez e faz?

Somos muito pobre e, na medida de nossas forças, minha família me dá tudo que pode, eu é que tenho que pensar no que eu posso fazer por ela, daí o meu esforço nos estudos..."

Não lembro mais, mas sei que o peso da redação, que nem procurei saber depois da aprovação, que era o que me interessava na época, foi muito importante.

Hoje me deparo com um amigo de rede social dizendo em uma postagem que fiz o seguinte:

"Tantas mentes brilhantes por aí que poderiam mudar o Brasil ou o mundo, mas que não têm condições financeiras para estudar.

Bem que eu queria ter me formado em alguma área, porém eu não queria escravizar minha mãe."

Tal afirmação mexeu comigo e me fez lembrar do que eu disse acima e do que direi agora.

Depois que a minha mãe morreu, no dia dos namorados no ano passado, a minha irmã Júlia que cuidava dela veio passar uma temporada comigo aqui em São Paulo.

Conversando sobre nossas tristezas, eu disse à Júlia que não sabia se tinha feito o melhor por nossa mãe, então ela me diz:

"Cara, você fez o melhor que uma mãe pode esperar!

Nossa mãe não teve saúde nos últimos anos de vida, mas teve tudo que precisava para se tratar. Teve casa, carro, plano de saúde e alimentação. O que mais você poderia fazer?

Você fez o que pôde e estava ao seu alcance, portanto, não fique se cobrando por isso."

Esse dito da Júlia veio fortalecer o que eu imaginava ter feito, mas a gente deve sempre desconfiar de nossas opiniões, mas, quando a opinião vem de alguém que viveu a situação a coisa melhora muito!

Portanto, embora o que minha mãe fez por mim não tenha pagamento, eu, sinceramente, não entendo o que ela fez como uma escravidão minha para com ela.

É dever da família criar e educar seus filhos.

É dever dos filhos educados pela família manter seus familiares, especialmente pai e mãe.

Essa troca de vivência não é favor nem escravidão, é a única forma de perpetuar a própria vida.

Quando olho e vejo e agradeço tudo que minha mãe fez por mim, posso dizer, friamente, que ela fez o melhor “investimento” da vida dela!

Digo isso pelo que imagino e pelo que disse a Júlia!

Claro que se eu pudesse faria muito mais, mas, especialmente no caso da saúde dela, estava fora das minhas possibilidades.

Imagino o sofrimento que teria sido a vida da minha mãe, o meu, o de Júlia e de todos mais caso ela não tivesse investido em mim.

É melhor nem pensar, na verdade.

Portanto, amigo e filhos, não vejam como sendo a escravização da mãe de vocês o que ela faz hoje por vocês, pensem no dia em que ela venha a precisar e vocês não possam fazer nada!

Aí o mundo desaba!

A mãe faz quando ela ainda é nova e tem forças para lutar. Aproveite essa ajuda e retribua quando ela estiver velha e sem forças.

É o ciclo natural da vida. Só isso!

Obrigado, mais uma vez ao amigo por permitir que possa colocar no papel, pela vez primeira, essas lembranças dolorosas mas queridas da D. Rosa, que, onde estiver, certamente, não me desmentirá, pois
foi isso o que ela fez, e não eu!

Saudades sempre, mas com a alma leve, não por sua partida, mas por saber que, pelo menos, tentei ser e lhe dar aquilo que você esperava de um filho.

Inté,

Osório Barbosa

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