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Porque me tornei um humanista!

eu mensagem de 2020

 

Porque me tornei um humanista!

 

Muitas vezes, na paz ou no desespero, me pergunto, como alguém, saído, literalmente, do meio da selva amazônica, filho de pai analfabeto e mãe semiletrada pode embarcar nessa nave frágil e bela, construída de cristal e papel crepom, a navegar por mares com suas águas revoltas e seus rochedos invisíveis, que é a defesa do ser humano?

Certamente que essa defesa intransigente me veio quando percebi a beleza, a fragilidade e a unicidade da vida.

Talvez o maior golpe de beleza me tenha vindo quando, ao meus 22 anos de idade, ainda muito pobre, vi uma mãe negra, desdentada, maltrapilha e que pedia esmolas juntamente com seus três filhos na Rua Nossa Senhora de Copacabana levantar-se da calçada acompanhada de sua prole e sair cantando ao seguir a banda que passava.

Era carnaval!

Já a unicidade me veio com a morte precoce de meu pai, ele tinha 51 anos e eu apenas 16!

Não apareceu outro Juarez em minha vida, mesmo eu esperando, até hoje aos 57 anos de idade, por sua volta!

Ainda espero encontrá-lo ao dobrar uma esquina, ou vê-lo caminhando pela rua enquanto me desespero para descer do ônibus em movimento para ir ao seu encontro, tudo para irritação do motorista e de alguns passageiros que não entenderão o que estará acontecendo na explicação breve e sem sentido!

Já a fragilidade da vida, que sempre esteve em meu raio de visão, a ele se chocou como um pássaro que estilhaça o vidro de um carro em movimento, no dia em que li sobre a brutal morte de um jovem que foi vítima de um ataque com um taco de beisebol no interior de uma livraria situada na avenida Paulista!

As perguntas que imediatamente me fiz foram:

- como pode isso ter acontecido?

- como alguém pode ser atacado com um taco de beisebol?

- como alguém pode ser atacado com um taco de beisebol no interior de uma livraria?

- como alguém pode ser atacado com um taco de beisebol no interior de uma livraria em uma das avenidas mais seguras da grande metrópole?

Não! Não! E não!

A vida, talvez por não ter nenhum sentido prévio tenha em si todos os sentidos!

Até hoje, desde que os registros começaram, nos debatemos sobre o sentido da vida, porém, melhor seria, se dialogássemos sobre os sentidos da vida! Embora isso nos metesse em um maior cipoal que aquele em que já nos encontramos, uma vez que ainda não fomos capazes de descobrir o sentido, imaginem os sentidos!

E certamente eles são plurais, eu não tenho dúvidas quanto a isso!

Temos, por exemplo, o sentido do viver como filho, viver como pai, viver como amigo, viver como estudante e tantos outros na mesma proporção em que são as máscaras que colocamos todos os dias para sermos os seres plurais que somos na interpretação de nossos personagens que nos permitem sobreviver e, assim, melhor, conviver!

A vida é uma nau sem rumo!

Ela pode nos levar aos paraísos, e eles são muitos, como também aos abismos, e estes não são menores!

Mas quem pilota as nossas vidas?

Qualquer piloto que tenha sido apontado é uma farsa!

Qualquer piloto que venha a ser apontado será uma mentira!

Mas os copilotos somos nós, os viventes, e isso é uma “certeza”!

Entretanto, o copiloto pode fazer muito, mas não pode fazer tudo para que a melhor trilha seja seguida!

A velocidade ou a falta dela, os buracos, os montes, o excesso ou a escassez dos ventos, tudo pode ser causa para um “eu devia ter feito diferente”, isso quando se tem tempo para refletir em como você poderia ter feito melhor, embora, nas circunstâncias iniciais de escolha sendo isso mesmo que você tenha feito!

O jovem morto no interior da livraria poderia ter ficado em casa para ir a um baile funk a noite em um bairro periférico de São Paulo. Se no baile fosse morto, como o Estado mata muitos, alguém diria: “ele estaria vivo se tivesse ido a uma livraria!”

Assim, nos encontramos em um beco sem saída, em uma “sinuca de bico”, como dizia meu pai quando ele, juntamente com amigos e eu jogávamos bilhar em pequenas mesas de oito bolas lá em Maraã nos anos 70!

Mas, embora eu ainda não saiba como me livrar das “sinucas de bico” da vida, tenho uma simples proposta:

Ame a vida, a sua e a dos demais.

Respeite a vida, a sua e a dos demais.

Queira viver, mas deixe os outros também viverem.

Ajude-se a viver.

Ajude os demais a viverem.

Faça o que entender melhor, nas circunstâncias, por si e pelos demais, mas, se não puder ajudar, se omita para não prejudicar outros seres humanos que são únicos, frágeis e irrepetíveis, tal qual você!

Inté,

São Paulo, 31.12.19.

Osório Barbosa.

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