Contos Escritos Meus

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A caixa de bacalhau.

 

Bacalhau da Noruega 1Bacalhau da Noruega 2

A caixa de bacalhau.

 

Escrevendo as lembranças da minha infância no interior do Amazonas, na cidade de Maraã, a presença de meu pai se faz cada vez mais abundante e fecunda, pois, afinal, ele é o personagem principal.

 

No mês de dezembro estava em Manaus e fui a um shopping center e lá, em um de seus estabelecimentos, vi uma grande caixa de madeira (pinho) na qual estava escrito “Bacalhau da Noruega”.

 

Como sempre gostei de caixas de madeiras, especialmente as de vinho e as de charutos, e depois passei a gostar mais quando a Cris me apresentou o livro “O homem que amava caixas”, de Stephen Michael King, me encantei, a despeito do tamanho maior, com a caixa de bacalhau, a qual kiss acrescentar à minha coleção.

 

Me dirigi à gerente do comércio e perguntei-lhe o que fariam com a caixa depois de esvaziá-la. Não lembro a resposta, mas lembro que, ao final da conversa, ela disse que me daria a caixa. Que eu fosse apanhá-la no próximo domingo. Como eu ia viajar no sábado, minha ida ao encontro de meu objeto de desejo seria impossível. Então, encontrei o que achava ser a solução.

 

Pedi a meu filho, que tem carro, que no domingo fosse apanhar a caixa e levasse para a casa da minha mãe.

 

Depois de poucos dias procurei saber com a minha irmã se ele tinha levado a caixa e a resposta foi negativa.

 

Liguei para o filho e a resposta dele foi: “Esqueci”!

 

Engoli a seco!

 

Agora em abril, em Santos, ao passar em frente a um comércio vejo sendo entregues duas caixas iguais àquela lá de Manaus. Entrei e perguntei à portuguesa (sei disso pelo bigode e depois pelo sotaque) se, após as caixas serem esvaziadas, ela me as venderia. A resposta foi sim.

 

Bebi Chopps das 12 às 18:30 horas.

 

Na volta fui atrás das caixas.

 

Ela me vendeu por R$ 20,00 (vinte reais) as duas.

 

Levei para detrás do prédio e fui desmontá-las. O trabalhador do prédio, ao me ver em ação, disse-me, ao saber que eu tinha comprado, que a vendedora costuma jogar tais caixas no lixo. Não me importei com isso, estava feliz com as maravilhas.

 

Desmontei com cuidado (martelo, chave de fenda e alicate) para que os grampos não quebrassem a frágil madeira.

 

Levei-as para o apartamento com a intenção de lavar, mas desisti pelo tamanho do banheiro.

 

Corri atrás de um saco de lixo grande. Arranjei um no boteco em que bebo de vez enquando. O saco era menor que as quatro tabuletas maiores. Tive que colocar uma sacola em sentido contrário e, depois, com barbante, amarrá-los, como já o tinha feito com as tábuas. Ao fim, passei fita gomada e guardei o pacote em um banheiro que chamo dos excluídos.

 

O cheiro forte do bacalhau rescendia muito, só tendo melhorado depois de ensacadas e amarradas as tábuas.

 

Na manhã seguinte apanho um uber e levo o pacote objeto do meu carinho para a rodoviária. Apanho o ônibus e ele vem no bagageiro. Chegando em São Paulo levo-o para o metrô. Linha azul e depois verde. Chego na estação Consolação. Como é domingo, dia de feira, eu seria apenas um expositor a mais. Passo na banca de jornais com meu instrumento debaixo do braço, o qual começa a pesar e apanho os jornais do final de semana e vou para casa. O caminho fica cada vez mais longo e os braços fraquejam, por isso preciso mudar o pacote de braços constantemente. Finalmente chego em casa. Ufa!

 

Desembrulho as tábuas para que o odor do bacalhau não entranhasse nelas mais ainda. O cheiro toma conta do apartamento.

 

Na manhã seguinte: esponja, escova e desengordurante!

 

Lavei-as! Coloquei-as ao sol para que secassem. Felizmente não choveu e elas secaram rapidamente e o cheiro do peixe diminuiu bastante.

 

Contei-lhes tudo isso para dizer-lhes de um dos conselhos do meu analfabeto pai! Dizia ele para mim: “Seja audacioso”!

 

Este foi um conselho que sempre o papai nos transmitiu. Tenha coragem, enfrente, ouse, arroje, enfrente os obstáculos.

 

Creio que ele tinha razão, pois nunca me conformei com o fracasso sem sequer ter tentado.

 

Sempre disse o mesmo para os meus filhos, mas parece que berço de ouro atrapalha um pouco, pois a mãe necessidade, felizmente, não impõe a eles a oportunidade de serem “audaciosos” no sentido que seu Juarez Barbosa de Lima me ensinava!

 

Entretanto, não posso me queixar que eles sejam esquecidos, tenham memória ruim, pois quando lhes prometo algo, sempre para o dia 25 de cada mês (de olho no vencimento do cartão de crédito), no dia 24, às 23 horas, 59 minutos e 59 segundos eles não deixam que eu me esqueça da promessa que lhes fiz. São de uma pontualidade de relógios atômicos, que superam, em muito, os suíços!

 

Me sinto feliz em atendê-los, mas me sinto mais feliz ainda em nunca ter desprezado a bússola na minha vida que foram os conselhos do meu pai.

 

Inté,

 

Osório Barbosax

 

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