Contos Escritos Meus

tercio

O terror mora em cima!

Mão peluda

O terror mora em cima!

 

 

Há muito tempo moro sozinho em meu apartamento!

 

Melhor, moro na companhia inseparável e “irreclamável” dos meus livros!

 

Pela manhã costumo abrir as janelas para trocar o ar, mesmo que o vento da capital paulistana traga junto consigo sua irmã gêmea, a inconveniente senhora poeira, de sobrenome “Asfáltica”!

 

São Paulo tem um clima instável, tantos que as pessoas mulheres sempre saem preparadas para o calor, frio e chuvas, coisas que nós, pessoas homens, somos relutantes em fazer, pois não gostamos de carregar trecos.

 

Para mim, por exemplo, guarda-chuva é coisa de velho! Detesto este invento, exceto na hora das chuvas, mas como em São Paulo, quando chove, os tais guarda-chuvas brotam dos bueiros a 10 dinheiros, não costumo me preocupar muito com eles.

 

Amigo leitor que não é de São Paulo, quando falei no parágrafo anterior sobre brotar de bueiros, saiba que isso é uma meia verdade, quase uma mentira, mas verdadeira!

 

Ocorre que alguns vendedores desse instrumento envelhecedor, ao ouvirem a previsão do tempo já se preparam para suas vendas e, antes da tempestade, costumam guardar suas mercadorias nos bueiros das redondezas.

 

Feito o esclarecimento, posso prosseguir?

 

- Obrigado!

 

Às vezes, estando pela rua, longe de casa, sou surpreendido pelas chuvas!

 

Como fechar as janelas?

 

Não tem jeito, terei que, na volta, arcar com o ônus do enxugamento-limpeza!

 

Dia desses cheguei em casa debaixo de uma chuva torrencial, quase amazônica, com bagos (que os afetados chamam de pingos) enormes, que pareciam granitos (não confundir com granizos, pois estes são pedras de gelo vindas das nuvens, mas os que caiam naquela noite pareciam o primo pobre do mármore!). Rajadas de vento e trovões de sonoridades gigantescas e incessantes!

 

Corri para fechar as janelas dos quartos onde o piso é de madeira. Deixei para o último lugar a janela da cozinha, pois lá o piso é de cerâmica e, portanto, pode molhar sem maiores danos!

 

O basculante da janela estava escancarado! Tive que me deitar um pouco sobre a pia da qual ele fica em frente para pegar no trinco e puxá-lo e, assim, fechar a janela de alumínio e vidro.

 

Quando pego no trinco sinto algo segurar no meu braço, abro os olhos, pois fazia o movimento de olhos fechado para escapar do vento, e vejo uma mão peluda e ensanguentada!

 

Creio que meus cabelos ficaram iguais aos pelos dos cachorros quando sentem ou pressentem algo ameaçador!

 

Não entrei em pânico, pois o medo é o inimigo nas horas de desespero!

 

Lembrei que ao lado da pia, pendurado, tem um cutelo com o qual costumo cortar os ossos das costelas bovinas, suínas e caprinas que às vezes sabreco no forno. Olhei para o instrumento divinamente amolado e o apanhei!

 

Puxei meu braço para dentro de casa e a mão resistiu me puxando para fora! Forcei um pouco e o braço da mão peluda chegou sobre o batente da janela! Não tive dúvidas: usei toda a minha força somada a do medo e apliquei um potente golpe sobre o braço!

 

Senti que a força sobre o meu punho cessou e via a mão, separada do seu braço, afrouxar e cair!

 

Puxei meu braço e ouvi um gemido gritar lancinantemente:

 

- Doutor Osório...

 

Então a voz desesperada me conhecia!

 

Corri para a porta que dá acesso ao pequeno quintal para o qual a janela se abre e vi um corpo estendido junto a um pequeno tanque de lavar roupas!

 

- quem é você, perguntei.

 

Ente gemidos estarrecedores ouvi:

 

- sou seu vizinho do terceiro andar. Me socorra!

 

Voltei para trás e apanhei uma lanterna!

 

Com ela encontrei a mão decepada, mas não fitei no rosto do moribundo, uma vez que já sabia de quem se tratava!

 

Coloquei a mão sobre a máquina de lavar roupas e perguntei:

 

- será que você consegue andar?

 

- uma das minhas pernas está quebrada, mas se o senhor me ajudar consigo me arrastar!

 

Me abaixei e ele colocou o braço são sobre o meu ombro!
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A duras penas e com a minha ajuda ele se arrastou até o elevador e o levei para a garagem no subsolo!

 

Em breve o porteiro chamou o zelador, que chamou o síndico e outros vizinhos acorreram e um deles chamou o SAMU!

 

O moribundo foi colocado em uma cadeira e gemia como qualquer outro animal ferido!

 

- o que houve, não ouvi nada?, disse o zelador.

 

Fazendo caretas de dor o homem, ferido também na alma, encontrou forças e respondeu:

 

- eu estava viajando e tive que antecipar meu retorno. Quis fazer uma surpresa para minha mulher e nada disse sobre minha volta! Cheguei em casa e, ao abrir a porta, a sacola de papel na qual eu trazia uns potes de vidro com doces para ela, por ter se molhado na chuva, rasgou o fundo e os vidros caíram! Tentei afastar para um canto os cacos com os pés e, enquanto fazia isso, senti o cano de uma arma em minha nuca.

 

- não se vire, disse a voz de um homem!

 

- Compreendi e fiquei quieto.

 

- Ele já conhecia o meu apartamento, tanto assim que mandou a Xantipa trazer suas roupas e ajudar a vestir-se! Ela o fez! Vestido, ele mandou que eu caminhasse para a janela que dá para o quintal! O fiz e ele mandou que eu me sentasse no batente da janela, para isso usando um tamborete para que eu subisse! Após eu estar sentado ele retirou o banco e disse:

 

- fique aí por pelo menos uns dez minutos, até eu sair do prédio, caso contrário estouro teus miolos!

 

- Calado estava e disse apenas sim!

 

- Minha mulher não teve a mesma generosidade! Apenas ouvi ela dizer:

 

- ah, não!

 

- E senti suas mãos empurrarem minhas costas e eu desabei rumo ao Hades! Isso ocorreu justamente na hora de uma rajada de raios e trovões, daí, ninguém ter ouvido minha queda!

 

Ele ia prosseguir o restante da história, mas como esse trecho eu já conhecia, pedi licença e me retirei me colocando à disposição, já que precisava tomar um banho imediatamente!

 

Subi e vi o rastro de sangue deixado em minha casa!

 

Antes que os trabalhos de limpeza começassem, tirei e coloquei minha camisa dudalina original na máquina de lavar, pois ela, tão alva, parecia ter participado de uma guerra de tomates, como aquelas das quais participo quando estou de férias na Espanha!

 

Poucos minutos alguém bateu à porta para buscar a mão!

Inté,

 

Fonte da imagem: https://noticias.bol.uol.com.br/fotos/entretenimento/2013/01/03/incrivel---as-imagens-mais-curiosas-de-2013.htm?fotoNav=136.

 

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