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A Magna Carta - um olhar diferenciado!

 

A MAGNA CARTA

 

 

 

A Magna Carta é realmente um documento notável. Eu a li durante a FeiraMundial de Nova York, em 1939. Ela atraiu uma multidão de dez milhões em apenas seis meses. Nove em cada dez americanos acreditam que é um pecado mortal esperar cinco minutos para ser atendido por um médico. E lá estavam dez milhões dispostos a esperar horas na fila pela oportunidade de passar um nanossegundo na frente de um pedaço de papel rasgado e sujo que a maioria não conseguiu nem ler.

Da mesma forma que outros documentos famosos, também existe certa controvérsia quanto à Magna Carta. Algumas pessoas dizem que ela é a "fonte da nossa liberdade". Outras dizem que não.

Depois de setecentos e cinqüenta anos, era de se esperar que os estudiosos já tivessem chegado a uma conclusão quanto a esse documento, mas não o fizeram.

Tudo o que sei é que se essa é a “fonte da nossa liberdade”, então estamos com problemas.

Lembra-se da hedionda prática medieval de julgamento por combate? Era legal sob a Magna Carta. E do julgamento por provação? Também era legal. (Em um julgamento por provação, o acusado podia provar a inocência mergulhando num barril cheio de piche fervente e sobrevivendo)

Julgamento através de júri? As pessoas dizem que a Magna Carta instituiu o julgamento por júri, mas não o fez. Em 1215 não havia júri na Inglaterra. Os suspeitos não tinham o direito de interrogar testemunhas, excluir fofocas das provas, produzir uma defesa ou mesmo de esconder a cabeça ao entrar e sair do fóruns.

E quanto ao direito de ser julgado por um júri de seus pares? Esse é, realmente, um direito que todo mundo deve ter e que pode ser encontrado na Magna Carta, como todo mundo acredita. É um dos diversos direitos importantes que podem ser encontrados no documento. A pegadinha é que apenas as pessoas livres podiam exercer os novos direitos listados na Magna Carta, e em 1215 apenas um pequeno número de britânicos era livre. Cinco sextos da população era de servos.

Então quem se beneficiou da Magna Carta? Os barões britânicos. Toda a conversa sobre a Magna Carta ésobre os novos direitos que eles conseguiram do rei para sua própria proteção. Mas a Magna Carta não deu ao inglês comum um direito a mais do que tinha antes.

Agora, só para esgotarmos os argumentos, vamos dizer que pode ser provado que a Magna Carta limitou o poder da monarquia inglesa. Isso não valeria algo para o inglês comum? A triste resposta é: "não". O inglês comum de 1215 não era oprimido pela monarquia, mas por seu barão senhorial.

A Magna Carta, de qualquer modo, não limitou tanto assim a monarquia. Foi depois dela que a Grã-Bretanha teve seus reis verdadeiramente tirânicos.

Então por que, se tudo isso é verdade, nós celebramos a Magna Carta hoje em dia? Porque há centenas de anos um inglês brilhante chamado Sir Edward Coke assim decidiu. Um belo dia ele anunciou que uma coisa chamada Magna Carta, que encontrara esquecida numa estante empoeirada de biblioteca, dava aos britânicos direitos que o monarca não poderia retirar. E foi assim. Daquele dia em diante os britânicos começaram a imaginar que seus direitos e liberdades tinham origem naquele documento, de que ninguém tinha ouvido falar antes." *

Depois da descoberta da Magna Carta, nenhum rei podia cuspir na calçada sem que alguém começasse a pular na sua frente, gritando: “Magna Carta, Magna Carta. Cuidado, companheiro!” Ela tirou toda a graça de ser rei.

0 rei João, a propósito, não assinou a Magna Carta de verdade. Seu selo real foi carimbado em cera no documento. Todos os filmes de Hollywood que o mostram assinando estão errados. Um rei não se curvava a assinar qualquer coisa. (Muitos nem sabiam como fazê-lo.)

Não está em discussão que ele mereça ser lembrado como um mau rei. A questão é se ele foi mau ou muito mau. Ele perdeu a Normandia numa guerra fracassada em que deixou seus soldados no campo enquanto fugia para salvar a pele. Aparentemente assassinou seu primo Artur. E manteve a irmã de Artur numa cela de prisão por quarenta anos. Roubou a noiva de outro homem para si. Tomou reféns de seus barões para garantir a fidelidade deles, e então exigiu resgate pelos reféns ou os matou. E, apenas por diversão, prendeu a mulher e o filho de um ex-amigo, deixando-os morrer de fome.

Por outro lado, dizem que foi um administrador muito eficiente, um dos melhores que a Grã-Bretanha já teve.

O que mais incomodava os barões no rei era sua posição a respeito dos aluguéis.Era a clássica disputa entre proprietário e inquilino. Ele queria aumentar os aluguéis, os barões eram contra.

Aliás, os barões, quando se organizaram contra João, chamaram a si mesmos de "Exército de Deus". O exército de João era chamado de "Exército de João". Foi um confronto desigual desde o início.

 

Fonte: SHENKMAN, Richard; tradução de Antonio Carlos Vilela. As Mais famosas lendas, mitos e mentiras da História do Mundo (Título original: Legends, Lies and cherished myths of world history). 3ª edição. Editora Ediouro, 2002.

 

 

 



*    Shakespeare, em sua peça sobre o rei João, sequer menciona a Magna Carta.

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