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Os bucheiros (um memorial de infância) - Áureo Nonato.

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Os bucheiros

(um memorial de infância)

 

Áureo Nonato

 

Não me recordo se o Aurélio e o Chico Branquinho fizeram a mesma viagem que eu fiz, mas me parece que papai, consciente de sua impossibilidade de ser "marchante" de gado, como "seu" Marques ou o "seu" Andorinha, dos quais ele comprava os miúdos que tratava no curri e os vendia no Mercado Público, sempre com a nossa ajuda e de mais dois ou três empregados, tinha como propósito nos preparar para realizar o seu sonho impossível.

 

O "seu" Antonio Branquinho, neste particular não foi ajudado pela sorte.

 

Seus filhos homens, a começar pelo Chico Branquinho, eu, Aurélio, Aristides e Tonico, o mais novo, não eram, nunca foram jamais seriam comerciantes ou negociantes, pois falava em todos nós mais alto o coração.

 

Eu, desde pequeno, era um rebelado com aquela espécie de trabalho: troca de comida por dinheiro.

 

Do que eu gostava mesmo era de sonhar, de fazer longos passeios, de ver filmes de cinema, de aventuras, de ler livros, revistas e tudo o que me caia as mãos, até histórias-em-quadrinhos e as estórias de Trancoso, do Jeca-Tatú e do Zé-Macaco, além dos almanaques do Biotônico Fontoura, do Capivarol e aquele das pílulas-de-vida do Doutor Ross, e o da Bristol!

 

O único que ainda hoje permanece no ramo e no mesmo nível que papai deixou o trabalho é o Aristides. Seus dois filhos homens Adelson e Antonio, não deram para a coisa e seguiram outros caminhos.

 

O Tonico   Antonio Nonato dos Santos Filho – o mais novo, este eu o levei, ainda menino, para o Rio de Janeiro. Hoje ele está em Brasília, servindo no Estado Maior das Forças Armadas, no posto de Primeiro-Tenente do Exército. Está casado e com três filhos: dois rapazes, Antonio Cecílio e Ricardo, e uma menina, Patrícia.

 

O Aurélio, este foi o que mais se aproximou de nosso pai, em sua dedicação ao ofício de vender vísceras no Mercado, juntamente com seus filhos Arthur, Adhemar e Nathanael. Estes, porém, não quiseram prosseguir no negócio do pai e do avô. O Arthur, cedo prestou concurso para o Banco do Brasil e de imediato conseguiu uma transferência para o Rio, onde terminou seus estudos de contabilidade e casou. O Adhemar, este também entrou, por concurso, para o Banco do Brasil. O mais novo, Nathanael, ficou em Manaus e, hoje, já casado, tem um bom emprego numa multinacional da Zona Franca de Manaus. Tendo já completado os seus 59 anos, Aurélio resolveu aposentar-se e viver da renda de algumas de suas propriedades e terrenos.

 

O Chico Branquinho, nosso irmão mais velho, filho do primeiro matrimonio de papai, foi outro que não passou daquilo que aprendeu com o nosso pai.

 

Boêmio inveterado, era ele bem um personagem típico das estórias da "vida-real' que Nelson Rodrigues tão bem soube transpor para a nossa literatura.

 

Todas as noites se embrenhava ele lá pelas bandas da "zona fria" da Cidade, onde funcionavam os cabarés La Hoje, Verônica e o Rosa de Maio e outras casas do baixo meretrício. Sua mesa ficava apinhada de jovens "mariposas" atraidas pela comida e bebida sempre a farta. Depois, já alta a madrugada, ele levava para suas casas, em seu grande jipe, aquelas que não conseguiam se "arrumar" com algum caboclo endinheirado ou um comerciante qualquer.

 

No dia seguinte, na sua banca do mercado, ele distribuía, de graça, comida para as que iam a sua procura.

 

Lembro-me de um fato, isto lá pelos princípios dos anos 50, por ocasião de uma das minhas idas a Manaus, que me impressionou muito pelo desprendimento e astúcia demonstrados.

 

Estava ele, pachorrentamente sentado numa daquelas cadeiras-de-vime do Pavilhão, nas proximidades da Matriz e da antiga estação de bondes, quando ali cheguei para um encontro à noite depois do jantar.

 

Em menos de meia-hora chegaram e passaram por ele umas quatro mulheres já trintonas. Abraçavam-no efusivamente e sentavam-se por alguns momentos num dos braços da cadeira.

 

Era o suficiente para que eu observasse que, sem darem muito na vista, elas metiam a mão em seus bolsos, do blusão ou da calça, e retiravam notas de 10, de 20 e até 50 cruzeiros.

 

Foi quando eu então lhe fiz uma observação:

 

- Chico, as mulheres estão levando o teu dinheiro, rapaz!

 

Um vasto e complacente sorriso se estendeu por todo o seu rosto e calmamente me confessou:

 

- Esse é delas. O meu está aqui, debaixo da bunda.

 

De fato, ele trazia sua enorme carteira sempre bem recheada no bolso fundo trazeiro de sua calça.

 

Baixinho e gordo, ele era preferido e amado pelas pobres e infelizes "mariposas".

 

Quando morreu, antes de completar os 60 anos, seu enterro levou ao cemitério dezenas e dezenas de mulheres que choravam um choro triste e sentido.

 

Não deixou nada para a família – sua esposa Coló e seus dois filhos: Raymundo e Marinha – além da casa onde residia, dada a ele pelo papai, e uma pequena casa de negócio alugada para terceiros e que nunca prosperou.

 

Todo o seu dinheiro, que ganhou vendendo bucho e que não foi pouco, ele o gastou, segundo seus companheiros de trabalho e de farras, ajudando o Sul América Sport Clube a se firmar como o melhor clube do bairro de São Raymundo e em divertimentos alegres com mulheres.

 

Já o "bucheiro" – era assim que chamavam os que exerciam a profissão de vendedor de vísceras ou miúdos – Antonio Branquinho, meu pai, esse não era comerciante, e jamais seria, embora tivesse prosperado bastante em seu ofício.

 

Seu tino aguçado e perspicaz, como que para compensar-lhe a falta de instrução, dava-lhe margem a pensamentos e conselhos de âmbito universal e que nos são úteis até hoje, por onde quer que andemos.

 

Era um romântico. Um amante das coisas belas e singelas. Participava sempre de grupos folclóricos como “Os Índios” e "Marujadas".

 

Frequentava sempre, acompanhado de mamãe, os grandes bailes da Sociedade Beneficente Espanhola, cuja sede era quase pegada à Casa Dias, ao lado do Quartel do 27.0 BC; os do Ideal Clube e do Luso.

 

Guardou, até morrer, há nove anos, uma espada usada por ele nas "marujadas" e um par de "sapatilhas" de veludo que ele calçava especialmente para os bailes de gala. Nessas ocasiões, vestia-se com a melhor correção, usando "smoking" ou "fraque" com calça cinza listrada ou terno completo, isto é, calça, colete e paletó de casemira ou de linho, para casamentos e outras solenidades.

 

Era também um homem bom. Uma prova: sempre que sobrava rins, fígado, maricas, tripas, carne-de-cabeça e bucho – e isso era quase todos os dias – ele nos fazia trazer para casa e distribuía aos moradores, na maioria pobres, da Rua da Sede e da Rua São Francisco, com as quais a nossa casa fazia esquina. Dava ainda presentes e mais presentes para os seus incontáveis afilhados, além de dinheiro.

 

Isso, no entanto, não impediu que nos últimos anos de sua vida, já com mais de oitenta anos, velhinho e esclerosado, mas sempre forte e firme em suas infindáveis andanças por quase todas as ruas do bairro, ele fosse apupado e apedrejado até, por alguns moradores daquelas ruas cincunvizinhas à nossa casa.

 

Fonte: Áureo Nonato, “Os bucheiros – um memorial de infância”, Imprensa Oficial do Estado do Amazonas, Manaus, sem data, p80-83.

 

... dizeres de Osório:

 

Ao ler o escrito acima de Áureo Nonato, a quem, menino, em Manaus, cheguei a vê-lo caminhando pelas ruas, mas sem nunca ter assuntado com ele, que já me parecia “velho”, cansado e sem aparência de bom humor.

 

Isso se deu lá pelos anos de 1985/6, creio.

 

Agora, em 2018, adquiri o livro dele (vejam a história da aquisição em: https://www.facebook.com/OsorioBarbosa2/videos/1674167182666358/?hc_ref=ARQ46EHIfa3Y5KCXBVgpPbtS-L_LjmJfeI_GFlOHb3Ati7W2ncGol45NAwBkHqjOLgIe me deliciei com a leitura do texto que dá nome à obra!

 

Da leitura me apaixonei por seu irmão Chico Branquinho!

 

Que mestre em saber aproveitar a vida! Quero muito ser igual a ele, ter sua sabedoria e seu despreendimento!

 

O pai deles (Antonio Branquinho) lembrou por demais o meu pai em sua bondade extrema, embora meu pai fosse também “peralta”!

 

Tenho uns escritos que contam minhas memórias de minha infância em Maraã, as quais vinha guardando para divulgar em uma oportunidade que julgasse apropriada – uma dessas que, inúmeras vezes, talvez nunca cheguem –, quando fosse atingido por raios benfazejos!

 

Como Áureo, fala em mim “mais alto o coração”, também e, sendo assim, acho que a oportunidade é agora ou agora!

 

Obrigado a Áureo, obrigado Chico Branquinho e, por todos, Antonio Branquinho, pois os dois últimos são, um retrato de Juarez Barbosa de Lima pintado por quem nunca o conheceu!

 

E, se tinta sobrou, “acabei eu mesmo” sendo rabiscado!

 

Inté,

 

 P.S.: alguém sabe me dizer o que é "curri" e "maricas"? Grato,

 

 

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